Cabelos não nascem em pernas de mentirosos, eles sabem disfarçar com cera.

Tenebrosa noite que descobri a felicidade. 
Bebi toda paixão em só um gole. 
Estrondoso som quando caiu ao chão
O que se partiu foi minha consciência. 
Descobri que era mentira, felicidade não existe. 
Tenebrosa noite que eu fiquei só. 
Eu e todos aqueles desconhecidos juntos, amontoados em um só lugar. 
Demorou 5 minutos para passar a sensação de felicidade. 
Depois o que veio não vale dizer, escrever, cantar, cantarolar, marcar. 
Assombrosa noite gostosa que descobri meu vício á vida. 
Reflita nisso, no que eu disse vazio

Naquilo que pensei sozinho
Saí pra comprar jornal e nunca mais voltei
Não valeu á pena, eu disse. 
Não valeu a pena ficar com todas aquelas pessoas mortas sem sentido. 
Voltei anos depois, voltei pra tudo aquilo que eu não tinha. 
Até minha casa havia sumido, um casal de senhores moraram lá
“Não temos mais filhos”
Descobri a felicidade depois, descobri mentir. 
Construí sorrisos vazios, até que o fim comece novamente. 

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Nós, a Vida, os que Se Escondem dentro do Nada.

Medo é algo tão relativo quanto gosto, sabor, cheiro. Medo é algo que entra nas entranhas do corpo e o paralisa.
Ali, no meio do nada, no escuro, no claro. Nas sombras da vida, o medo aparece.
Não é arrancar as vísceras e as comer, não é pensar que um homem com uma motosserra irá entrar no teu quarto e a arrancar as pernas, não é pensar que enquanto você dorme um íncubo irá te estuprar e você terá um filho demônio. É pior, é além, é real.

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1 – As palavras se formavam quase como se houvesse vida dentro dela. Mas não havia, não havia nada.
2 – Ela era sombra de si mesma, até que se perdeu naquilo que dizia ser. O correto se tornou concreto, mesmo que ela não sabia “ser”.
3 – “Na cama me deito, no tempo me consolo. Viver, viver, o que é?”.
4 – Nos corredores da vida, só quem não teme a própria covardia entra em porta fechada.

 

Uma mulher, cujo principio estava em ser correta, direita e honesta. Criada em um pilar forte ela se tornou adulta, com princípios. Ao menos era o que ela achava. Qual a definição de ser correta? As pessoas não sabem, não entendem, pensam que sim, são os que acham que entendem a verdade, que está para além disso, além da nossa compreensão, meros servos inúteis.
Ela tinha uma rotina, e a Mulher não fazia nada do que se chamava de extravagancia.
Não existe certo meio para pessoas serem escolhidas, elas não têm de ser especiais, anormais. Precisam apenas ser ali, destinadas ao acaso. Não importa o onde o por que. O quando estava sobre as asas do acaso.

A mulher estava deitada, eu sentia a sua pulsação, sentia seu ressonar, sentia o sangue correndo em suas veias, sentia o bater do seu coração, que aos meus ouvidos eram cântico suave.
Ela tinha os olhos redondos, de uma forma engraçada, mas não deixavam de serem belos. Não, ela não é dessas mulheres lindas, da pele suave, alva e macia. Ela tinha a pele parda, o cabelo muito liso e curto, os olhos grandes eram fundos de uma forma triste, os lábios eram carnudos, mas os tipos de lábios carnudos que não fazem diferença em uma mulher de olhos caídos e tristes. Ela escutou o despertador e o desligou com tédio até no piscar. Ficou olhando o teto branco, o quarto estava fechado, deixava o sol entrar pelas frestas da janela. A cama com lençol branco, uma colcha amarela com flores, ela se esticou, não tinha vontade de levantar. Não tinha vontade de sair dali. Eu senti o seu pensamento, o senti como um vento entrando em contato com o meu.
Senti-a me olhando. Mas eu percebi, não era a mim que olhava, era o quadro. Nunca entenderia aquele quadro, estava ali há tanto tempo quanto o apartamento estava erguido sobre a terra já infértil.
Ela o olhou com os olhos tristes, olhos que não se transformou em nostalgia, em alegria, em amor, dor. Apenas olhos tristes. O tipo de olhar que não denota se a alma está cheia ou vazia, o tipo de olhar que mostra o que a pessoa vê dentro de si. Como se ela olhasse as paredes de seu coração e já estivesse acostumada com o que enxergava. Vazio, mas não é o vazio da árvore que está no outono nua esperando a próxima estação e a próxima, até que o fruto germine. É o tipo de vazio que você tem quando algo é rasgado e não pode ser colado, o tipo de vazio permanente. Não se reconstitui, se regenera, se forma, se nasce. Morreu, sumiu, acabou.
Eu estava tão absorvido no nada, nos olhos vazios, na cama ainda quente que não a percebi se levantando, passou por mim como fumaça, passou por mim e não me sentiu. Normal, eu não estava ali. Não fazia parte daquilo. Eu sou a sombra, sou o leitor, sou o telespectador de um filme que está na minha cabeça.
A mulher foi até o banheiro, fez o que tinha de fazer e voltou, estava nua, no corpo magro, pálido, branco se podia ver os pelos triangular. Ela olhou para o espelho grande como se o que via fosse nada, não gostou daquele corpo.
– Se devolve – Ela sussurrou, eu juro que por um momento eu pude ver cada palavra saindo daqueles lábios e flutuando na minha frente, eu pude ver o ar se transformando e subindo para o céu como um vapor. Novamente me perdi em meus pensamentos e ela já havia se vestido. A roupa tão morta quanto ela. Um vestido longo, cinza, sem corte, sem caimento, sapatos preto, bolsa preta.
Ela olhou para a cama com pesar, os olhos tristes dizendo que aquilo era vida, que aquilo era ela e não lá fora. A janela nem fora aberta, é como se o ar que ali entrasse pudesse desfazer o calor da coberta, como se parte dela morresse. Esse foi o seu pensamento, mas não bem assim, eu disse só o que entendi. Para mim, que estou de fora, estou dentro não é algo a transformar, os resquícios às vezes embaçado pela parede invisível.
Ela fechou a porta e se foi. Eu a segui. A segui pelo corredor estreito sem fotos. A segui pela cozinha pequena, ela colocou a bolsa na mesa, como se ali fosse estranha, abriu a geladeira, vazia, sem quase nada. Pegou o que pareceu um iogurte e o abriu, parecia com nojo.
O tomou em silencio, sem degustar, depois jogou fora o copo, pegou uma bandeja com algo dentro, biscoito.
Mastigou como se tivesse comido tanto que já não aguentava. Jogou metade fora. Aguou uma planta morta. Pegou a bolsa e se foi. Continuei a seguindo. Sabe quando você vê um filme e grita para que o personagem idiota não faça aquilo? Para que a garota tonta, quando for correr do bandido não caia e ela sempre cai? Porque filme de terror e suspense sem um personagem em uma perseguição se jogar no chão não é filme de terror ou suspense.
Eu queria gritar “Viva mulher, viva”, mas eu sou sua sombra, sou o nada, sou o que narra, o que vê e não pode interferir. Ás vezes me dói, mas é tanto tempo olhando de longe que me acostumei a não sofrer. Eu também tenho sentimentos. Engraçado, não?

Ela entrou num carro pequeno, com um cheiro estranho de tecido velho, foi o guiando pelas ruas. O seu pensamento não tinha nada, conexões, ponte, preocupação. Uma mulher direita. Eu sentei ao lado dela, não sentando ao lado dela, meu corpo não é matéria, não é nada.
Ela parou num semáforo e olhou um menino pequeno, barrigudinho, magro e preto.
– Tia me dá uma moeda – Ela o olhou com os olhos tristes, o menino sorria mostrando dentes novos já amarelados e estragados.
– Não tenho.
– Mentira, eu tô vendo as moeda ali ó. – E apontou com o dedo ossudo para o consolo do carro.
– Tudo bem. Eu tenho, não quero te dar. – A voz saiu um abafo diante tanta abertura do mundo. O sinal abriu, ela foi acelerando, e antes de sair de perto dele jogou uma moeda.
Não sorriu. Quanta pobreza, quanto nojo. Esse o pensamento dela, nada de mais, geralmente pensamentos assim te levam a África, favelas, fome, governo, miséria, sorte, azar. Ela não pensou em nada, uma extensão de vazio.
Continuei a observando. O dia seria enfadonho.

Dezenove horas. Ela chegou a casa, não tirou os sapatos, ou jogou a bolsa de lado, ou esticou o corpo.
Ela foi até o quarto, e então guardou os sapatos, pendurou a bolsa, tirou a roupa.
Depois tomou um banho, voltou com o cabelo molhado. Parou de frente o quadro e o olhou. Os olhos tristes foram para além do quadro, dessa vez pararam em algum pensamento dentro dela. Ela fechou os olhos, suspirou como se o vento pudesse levar fora as lembranças.
Ela não comia muito. Uma humana sem hábitos estranhos, não comia não por vaidade, não por isso, não comia por não comer. Mas algo dentro dela se mexeu, e isso soou como fome. Ela se arrastou para dentro de uma camisola azul e foi para a cozinha. Lá pegou uma panela, colocou água e deixou ferver, despejou o macarrão instantâneo, assim que pronto jogou o tempero, colocou numa vasilha e comeu, ali mesmo, na cozinha, olhando para o nada, como se mastigasse jornal velho.
Terminou, lavou a louça. Foi para o quarto novamente, se trancou no banheiro, fez o que tinha de fazer.
Quando voltou, parte dos lábios molhados com resquícios de creme dental, ela os enxugou numa toalha vermelha pendurada num cabideiro. Depois se enfiou na cama.
Assim que fecharam os olhos ela apagou. Minha deixa. Entrei.
Dentro dela era escuro, o vazio eu já sabia apenas de olhar. Eu sou o que sente, o que vê de longe, assisto. Eu iria dormir, e dormir dentro de humanos era o melhor. Nos torna temporariamente parte dele. Eu já a conhecia há tanto tempo quanto passível, somos hospedeiros. Olhamos, vigiamos, compartilhamos de longe, e quando estamos forte suficientes nós então entramos e dormimos.
Ela ressonava, não havia sonhos, esperanças, fantasias, apenas o escuro e no escuro eu me deitei.
Ela se mexeu, se levantou. Fui levantado bruscamente, mas não para fora dela, eu ainda estava lá dentro, mas quando ela levantou me sacudiu e me fez acordar. Dos olhos tristes eu vi o lado de fora, o quarto, pelos olhos dela. Ali tudo escuro ela se levantou, foi no banheiro, acendeu a luz. Sentou-se na privada e desceu a calcinha. A urina sai de dentro dela. Ela se limpou, levantou e deu descarga. Lavou as mãos pequenas e magras, sem se olhar no espelho.
Quando ela se voltou para desligar a luz ela viu algo. Não sei, não vi. Aqui de dentro é complicado, vemos o que eles veem quando vemos. E ela não disse nada, mas o coração estava tão disparado que me apertava no canto, ele bombardeava rápido o sangue de forma que parecia maratona pelas veias. E se o corpo dela falasse estariam todos loucos, os glóbulos brancos e vermelhos, correndo agitados. Ela, por outro lado, na superfície estava impassível, desligou a luz e voltou para a cama. Eu fiquei tão apertado no coração disparado que já não conseguia sair dali.
Ela se deitou na cama, as cobertas ainda preservando o quente dela. Ela fechou os olhos, mas o coração desmentia a calma superficial.
Eu senti, juro que estava ali, naquele momento tão conectado que senti daqueles olhos tristes medo. Ela os fechou e começou a cantarolar dentro de si uma canção da qual nunca a vi cantarolar. Eu me acalmei, só então percebi que havia crescido dentro dela e compartilhado o coração palpitante.
Com a canção nos acalmamos. Eu fechei meus próprios olhos, o que chama de olhos. Ela voltou a dormir, não sabíamos a hora do momento, mas julgamos ser umas 02h00min, dado que ela dormiu as 20h00min.
O sono me esquentou e eu esqueci o momento estranho na qual a mulher passou.
Um dois, um dois, um dois. Acordei com isso na cabeça, mas me lembrei, não era a minha cabeça. O que leva a pessoa ter medo? Eu observava essa mulher tempo de mais para saber que ela não tinha medo de escuro, ou de gente, ou de bicho.
Eu estremeci, sentia frio em toda parte, me aconcheguei mais ao coração dela, mas ela novamente estava com ele disparado, correndo uma maratona imaginaria. O que há com ela?
Ela encarava ao quadro, mas não ao quadro. Ela nunca havia feito isso. Tentei espionar pelos olhos dela, mas estava tudo tão escuro que eu não podia ver. Tudo tão distante que eu não podia sentir, ali era apenas o medo.
Mas medo de que? Essa era minha pergunta. Ainda é, na verdade.
Ela começou a cantarolar alto. Como se a música que saia dos seus lábios, formasse palavras no ar, deixando o vapor subir ao céu fosse mandar embora qualquer que seja o pesadelo.
Ela tentou voltar a dormir, mas o corpo todo compartilhava daquilo que o coração bombardeava. Ela pensou alto, tão alto que eu escutei. Está me vigiando.
Eu tentei ver o que era, mas não enxergava nada. Talvez, talvez se eu saísse de dentro dela. Mas parecia que ela havia me sentido, ao menos o corpo, eu fiquei sendo segurado com tanta força que não pensei que ela, aquela mulher fosse capaz.
Um dois, um dois, um dois. Eu escutei alto, até que ela se levantou, acendeu a luz do quarto, do banheiro. Correu para o corredor acendeu a luz, da cozinha, da sala.
Nunca vi a casa tão iluminada, parecia que ali dentro havia caído um cisco de estrela do céu, meus olhos, os dela doeram com a recém-luz-viva.
Ela olhava para os lados, com os olhos grandes e profundos ainda sentindo medo. Não estavam mais tristes, não tinham mais nada dentro.
– Não sou especial. Não sou especial – e a voz dela soou tão forte, tão diferente dos sussurros. Ela me mostrou ser forte, por fora, eu estava dentro. Onde as imagens foram passando. Meu corpo se arrepiou, eu já estava tão conectado quanto possível. É perigoso se conectar com um humano, assim como com um personagem de filme, quando ele morre você sente todas as dores, talvez morra junto.

Ela olhou para certo lugar, como se alguém ali a olhasse. Correu até o quarto e abriu a janela. Outro pasmo, a janela nunca era aberta. O vento entrou no quarto como se houvesse sido reprimido por ela. Como se até então ele não ocupasse um pequeno espaço da terra, um espaço no vácuo, sem vida.
Ela ficou de frente a janela sentindo o vento bater nos cabelos muito lisos e curtos. Os olhos tristes ainda olhavam para o nada, até que se voltou para o quadro, mas não o quadro.
O que quer que esteja lá não era agradável, dos olhos da mulher vazia começou a brotar lágrimas, ela caiu no chão abraçada a si mesma. Nos balançava para frente e para trás, fui jogado para a parede de seu pulmão onde o ar havia sido reprimido.
Ela olhou aquilo que a olhava, ele a observava aonde ela ia. Já se sentiu observado? Já ficou sozinho em casa e sentiu como se alguém o visse violar algo? Já sentiu que os teus passos eram contatos em voz baixa por alguém? Era assim que a Mulher se sentia. Ela tinha os ossos encolhidos de tanto medo. Uma mulher forte, fraca, ou nada reduzida a nada. O nada diferente do nada, é o nada que não pode voltar ser preenchido.
A conexão entre nós aumentou ao ponto de eu ver o que ela via. E daqueles olhos grandes, redondos, profundos e tristes eu vi um ser. O ser era desfigurado, o ser tinha parte do rosto rasgado, o mal circulava dentro de si, a dor, a maldade. O ser parecia ter a pele em brasas, quando o vermelho do fodo fica dançando no preto carvão, o único olho do ser era vivo de tal forma que chegava a ser belo, mas do belo não era agradável.
Ela começou a tremer, foi para a cama, onde era algo como fortaleza. O ser que tinha apenas um olho, os lábios pareciam gritar eternamente em dor.
Ele começou a rir alto, a risada tinha um som oco.
Ecoou por nossas paredes do corpo, ecoou em nós.
– Está vendo Mulher? – Eu perguntei. Ela me respondeu num sim mudo. Mas não pra mim, pra ela, como se eu fosse a consciência dela.  
O ser monstro a fez ver além, eu não vi o que ela viu, o coração bateu tão rápido, mas tão rápido que fiquei preso entre uma pulsação e outra. Os olhos vazios se voltaram para o quadro, os olhos tristes olharam o quadro. Além dele. Além de nós. O ser não era nada. O ser mostrou ali pra ela no quadro tudo aquilo que não era. O ser entrou em nós. Me senti invadido, a humana era minha. Mas ele me olhou e nada disse. Sorriu com sua boca rasgada. Tocou o coração da mulher vazia até que ela já não o sentisse mais. O nosso coração. A mulher vazia pegou o quadro, o tirou da parede revelando ali uma camada grossa de poeira e tempo. Com o quadro na mão o vento nos saudou, assim que chegamos naquela janela. Ela olhou para baixo, olhou para o prédio, olhou para além. Olhou para a vida como se fosse o quadro na parede, como se o observasse de longe. A dor que sentiu nos olhos, a dor que sentiu no útero, a dor que sentiu no pulmão, estomago, lábios. Cada dor representava algo. Os lábios pela falta de beijos, os olhos pela falta do belo a se ver, o estomago pela falta de comida, o pulmão pela falta de ar puro recebido, o útero pela falta de filho germinado, a pele pela falta de afago. Tudo doeu, mas nada se doeu tanto quanto a alma. Ela se rasgou em duas, até que o ser monstro se foi. E quando se foi à mulher que não tinha nada tinha tudo, e o tudo a consumiu, e o tudo a fez viver, e viver a fez gritar. Então, com o quadro nas mãos, com o tudo no peito, e eu dentro de si ela pulou. Foi para os braços da terra seca e infértil. E ali, naquele pequeno espaço de terra, o único talvez, ela espatifou, o quadro ficou ao lado do corpo vazio sem vida, a terra seca foi molhada pelo sangue quente. E os olhos tristes abertos da mulher continuou numa eterna lembrança daquilo que ela se privou, daquilo que ela não conseguia aguentar. Um novo quadro foi pintado e reposto na parede do apartamento, como se dali nunca houvesse saído, onde tinha um ser dentro dele, um ser monstro, um ser vida, um ser que esperava pela próxima pessoa a não ter nada. E com ela, com o vazio, com o tudo eu morri. 

Da vida o dom, do dom a maldição.

Tenho esse dom, sabe? Todo dom vem  carregado de sua maldição. Preços altos são pagos. Preços cujo o tempo não repõem.
As pessoas chegam a mim em últimos casos. Cobro caro, muito caro, caro pelo o que eu pago. O suficiente para não me implorarem por aquilo que não darei.
Não sei como explicar, vou apenas dizer o que sei.
Moro num galpão, outra vida abandonado. Agora meu.
As janelas todas fechadas, o sol parece se esconder de mim, minha vida só tem frio, e não, não chove. Fui privado da chuva aos doze anos. Fui privado daquilo que se chama de vida. Onde ando não existe natureza. Meu galpão, aquilo que chamo de casa é meu, em uma tentativa inútil eu coloquei sol espalhados por todas as partes. Em uma tentativa inútil eu coloquei amor onde não há amor.
04h15min da madrugada, eu estava tentando dormir, me enrolei no meu cobertor com cheiro de terra molhada. Bateram na porta, não importa quantas vezes isso acontece, sempre me dói as veias, onde passa o sangue, sempre me gela a alma.
Eu me arrastei até a cômoda, vesti minha calça de algodão e fui andando até a porta.
Olhei pela fresta, uma mulher, pequena, bem magra.
– Quem é?
– Por… Favor… Eu… Preciso – Ela ofegava tanto que os lábios roxeados fazia um barulho seco, de um pulmão sem vida. – Eu… Preciso de você. – Então, com essas palavras ela caiu no chão.
Abri a porta e eu peguei, o corpo magro parecia uma pluma, ela não estava respirando direito. Cada respiro era uma luta interna.
A coloquei na cama, o rosto pálido, o cabelo bagunçado.
– Estou aqui. – Ela abriu os olhos tão grandes que pareciam ser sinalizadores no pequeno rosto.
– Eu trouxe, trouxe… O teu preço. – Ela tossiu alto.
– Não o quero agora. – Eu não estava conseguindo engolir. Cada ato era doloroso para nós. – O que precisa menina?
– Meu pulmão, não funciona. – Ela puxou o ar forte. Eu já sabia o que devia fazer, não estava preparado.
Fui até o lugar, peguei meu caldeirão, antiquado, preciso. Coloquei a tinta preta, feita de terra, casca de árvores, folhas, ossos de animais. Mexi, coloquei vários dos meus condimentos. O cheiro pungente já estava se alastrando.
Ela tossia alto.
Tinha que esperar uns minutos ao menos. Fiquei passando um pano molhado no rosto. Havia tempos que ninguém vinha. A dor era muito forte, o meu preço era muito dolorido, pra mim, somente pra mim.
– Você… Está salvando minha vida… Dom lindo… – Ela sorriu desajeitada. Eu dei o líquido para ela beber. Ela cuspiu, mas eu a fiz engolir. O gosto era ruim. Ela começou a ficar branca, quase transparente. Tirei a blusa suja e rasgada.
O líquido me mostraria onde havia a doença maligna no corpo, ele seria como um mapa sinalizador. Logo onde estava o pulmão seco ficou tudo preto.
Essa, essa seria a parte dolorida, a parte do meu preço. Fui até o lugar peguei os aparelhos, a seringa.
Sentei-me e comecei a tirar o sangue. O meu sangue. Tirei o suficiente. Então com meu sangue comecei a tatuar. Tatuei os bronquíolos, fui transformando sangue-tinta em pulmão. Fui dando vida à morte.
Quando terminei de tatuar o pulmão eu estava fraco. Cai sentado no chão, eu peguei a doença dela, seria por apenas uns minutos, mas além disso eu havia perdido muito sangue. Fui me arrastando até a cozinha e peguei uma grande barra de chocolate. Comecei a comer. A respiração dela já estava regular. A minha foi se tornando regular.
Ela se levantou, os seios pequenos a mostra, ela os escondeu envergonhada.
– Você me salvou. – Ela disse.
– Sim. – Eu me levantei desajeitado, odiava a fraqueza que vinha depois. Eu ainda estava sem blusa, não me importei. Ela que veja as minhas marcas por cima dos músculos.
– Eu te ajudo.
– Não. – Eu a empurrei. Peguei o material usado na tatuagem, coloquei na pia para limpar, depois joguei o resto do líquido preto na terra, teria que limpar o caldeirão. Ela ficou me olhando enquanto eu trabalhava.
– Já vai amanhecer.
– Não pra mim.
– Por quê?
– Porque a natureza me repudia. – Eu havia terminado com os objetos para tatuagem. Agora estava jogando fora o líquido preto.
– O que é isso que você me deu? É horrível.
– É um sinalizador.
– Pra que?
– Pra mostrar onde está o mal. – Ela mexia nas minhas coisas, começou a arrumar minha casa. Eu já havia terminado de arrumar as coisas usadas no processo.
– Está com fome? – Ela abriu mais os olhos, como não podiam ser abertos, eram enormes e escuros.
Ela balançou a cabeça freneticamente. E riu, rindo parecia um passarinho.
– Muita muita. – Eu dei um meio sorriso, não tinha muita companhia, o ultimo que havia vindo me ver fora há mais de sete meses.
Eu comecei a esquentar leite, eu mesmo fazia o meu pão, o coloquei no forno junto com um bolo.
– Você come e vai embora. E quero minha recompensa. – Ela enrubesceu.
– Eu tenho que te dizer algo. – A olhei, ela não tinha o que eu queria.
– Eu… Eu não tenho. Não encontrei, não tenho ninguém. – Meu coração doeu. Eu sabia que poderia a deixar ali. Sabia de muitas coisas, mas a vida não é assim. Comemos em silencio. Depois abri a porta deixando que o frio cortante entrasse.
– Vá embora. – Ela se levantou com os olhos arregalados. Eu não a olhei nos olhos, não tinha como olhar naqueles olhos. Viria outros como ela, muitos outros.
– Não é pessoal. Não mesmo. – Quando ela passou por mim eu toquei em seu peito. A tatuagem se desvaneceu. Ela chorou.
– Você não pode fazer isso.
– Já foi desfeito. Você tem cerca de cinco dias. Cinco dias de vida. Vá viver até que a doença volte. – Fechei a porta, sentei e guardei meu alimento. O frio aumentou. O dia continuou escuro, tinha tanta coisa pra fazer. E em cinco dias uma pessoa desesperada consegue o que quer. 

 

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Sangue é vida? Sangue é vida.

Antídoto controvérsio.

– Sinto sede. Meu corpo dói – Lábios secos, rachados e avermelhados.
Aqui, estou sedendo.
Estou me afogando.
Me socorre, águas não matam minha sede.
Mê de novamente aquele beijo que tu prometeu.
Me dê novamente aquilo que tu prometeu. – Estou cansada, não é sono.
– Me faça deitar novamente em teus braços.
Por favor, pare, pare de me torturar.
Estou enterrada viva no meu próprio des-ânimo.
Deixe, flua.
Os lábios avermelhados em carne viva.
O meu remédio está nos teus lábios, me beije antídoto, me salve desse mar de terra onde habito sem esperança.
Para sempre e sempre.
Está tão escuro.
Então, agora, por favor. Agora.
Essa sensação estranha, reconfortante.
Deve ser a tristeza se alastrando.
Deve ser o comodo chegando.
Agora, agora é sua. Agora a culpa já não é minha. 
O som de fundo vem chegando, tudo que quero foi consumido, perdi você. 
O mar de terra me consome, mais que você já me consumiu. 
Meus lábios dói, meus olhos ardem.  
Me enterrei viva, já não vivo nessa vida. 

O mesmo assunto, pessoa diferente.

Na minha vida morri há um tempo, não tem muito, mas já é o suficiente para sentir falta dos vivos.
Queria eu poder voltar, mas meus sorrisos são contidos, minhas gargalhadas impulsivas, a morte me levou a vida, o ânimo, a vontade.
Meus amigos que me cercam estão começando a morrer, o vírus que me assola se chama desilusão, uma vez infectado difícil reversão.
Meus passos já não ecoam mais na madeira, tudo o que escuto ou sinto é oco e vazio.
Só quero dormir, a morte me trouxe isso, o desespero e a sorte. Sorte? De continuar entre os vivos, sorte de continuar respirando, sorte de fingir esta tudo bem, ser atriz de sorrisos espontâneos, todos falsos meus caros.
E aquele que era para ser meu grande amor já há cada palavra me atinge com adaga, seu amor para mim se tornou veneno, morrer novamente eu não posso, mas tenho uma vida de dor.
O assunto chato e enfadonho, da próxima vez que eu escrever será um falso escritor. A verdade agora me repulsa, sou fraca, não tenho asas, condenada a andar, o caráter se foi com a minha compaixão.
Meu defeito é a espiritualidade, não consigo, por incrível que pareça, ser fútil e insolente, talvez o último tenha nascido comigo. Vermes que lhe comam a carne.

Tem bem que vem para o mal, tem mal que vem para bem.

Ela me dizia que era morta, que tudo que tocava morria
Chorava compulsivamente 
Um dia eu a abracei, disse que ficaria tudo bem
Mas o meu coração se arrancou, criou asas e voou, 
Parou em tuas mãos azarentas 
Eu que havia morrido, ela havia me roubado a vida
Sem que eu houvesse merecido
Tive que aceitar aquela morte 
No meu destino cruel fui entregado, aquela mulher solitária havia me amado
Eu a olhei num dia qualquer
– Das tuas mãos mortas nascem vida. 
Ela sorriu e me abraçou, foi um fim não heroico
Mas foi o suficiente para sorrir, 
Ela na verdade havia me revivido. 

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Mesmo que se passe depois de um sonho, ela vive e nasce em flor.

 

Folego – folgo – sopro.

 

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Lutar não foi uma opção de escolha. Perder também não.

 

Tudo o que ela fazia era mergulhar a cabeça na agua e ficar até que os seus pulmões começassem a latejar e a doer fortemente, como se arder não fosse o suficiente, mas dar a sensação de cortes dilacerados. Quando ela não aguentava mais levantava a cabeça e puxava o folego, ficava respirando com dificuldades por um momento até que ela pudesse voltar a mergulhar. A agua fria lhe dava um choque de realidade, mas ela não se importava, só queria que a dor retornasse e cortasse o seu pulmão. Ela era fraca, porém não desistia e se erguia novamente. Era a quarta vez que estava fazendo isso, se levantou e respirou com bufadas entrecortadas, depois se sentou na banheira passando a mão gelada no cabelo e o jogando pra trás, o peito pálido descia e subia nervosamente enquanto ela puxava o ar, como se ele restrito a ela, cada golfada de ar a enchia e completava. Ela olhou ao seu redor, como se vendo pela primeira vez, a banheira branca, as paredes, chão, janela, tudo branco, tudo límpido, até mesmo a água em que estava se tornara um transparente esbranquiçado devido aos sais de banho. Novamente ela deitou na banheira, não para lutar contra o ar, mas apenas para recuperar da adrenalina liberada em suas veias. A água escorreu pelo seu corpo alto e esguio quando ela se levantou, colocou os pés brancos no tapete macio e foi se enxugando aos poucos enquanto a água escorria pelo ralo. Apesar do corpo branco e pálido as várias marcas cicatrizes já esbranquiçadas pelo tempo. Um olhar rápido pelo espelho a fez ver que o cabelo já estava comprido, negros quanto à escuridão e lisos, estavam ensopados. Ela os esfregou cuidadosamente e os penteou com os dedos, pegou uma tesoura no armário no chão e foi cortando as tiras lisas de cabelo, eles iam caindo na pia branca até que ficou rente a cabeça, curtos e charmosos, ela não se importava muito com a aparência em si, os preferia assim, práticos. Jogou-os fora e saiu do banheiro, envolta da toalha felpuda.
As cicatrizes agora estavam em seu pulmão que doía devido ao esforço recente. Pulmão fraco era isso que ele era. Não aguentava segurar o folego, eles próprios viviam cheios de líquidos malignos. Não podia segurar o ar nem por um minuto, ele já lhe dava um golpe de realidade mostrando que a dor era dilacerante, a dor penetrava em seu ser deixando lágrimas nos olhos. Ela continuou andando pelo apartamento branco, tudo branco, a cor da morte, ela é assim, suave e misteriosa, fácil de ver, não o negro básico que todos acreditam, aquela cor é da vida, do sofrimento, então por que queríamos tanto viver? Por quê? Ela mesma se perguntava o motivo de lutar, de querer, mesmo que seu pulmão fossem fracos, doentes. Era assim, sempre iriamos querer o que não temos. Ela andou até o quarto, o único cômodo com vestígios de outra cor, era vermelho, a cor do amor, porque mesmo que ela não aceitasse o fato, ela amava a vida, e fazia todos os dias esses exercícios dolorosos pra viver. É assim que somos covardes que teme aquilo que não vê e ao mesmo tempo ama o desconhecido, e tudo que ela queria era viver. Mas nem isso pode ter, e antes que ela alcançasse uma peça de roupa qualquer ela perdeu o ar, todo ele, nenhum chegou ao seu pulmão, nenhum auxílio, nada. Nua ela caiu ao chão ficando roxa sem o ar que a sustentava, e sentindo a dor dilacerante novamente. A dor voltando. Por fim ela não lutou. A vida já não a pertencia, então ela se foi, branca e límpida assim como a morte, sem vestígios de vida nos lábios carnudos e arroxeados, nem nos cabelos curtos e molhados, apenas o corpo delgado e branco jogado no chão, como uma peça teatral drástica ela se foi, mais um personagem morto do nosso grande espetáculo, foi sem ao menos tentar puxar o teu ultimo folego.  

Sinta e entenda.

Tente entender, 
Tente sentir.
Ás vezes, por incrível que pareça
essa é a solução,
se pensar de nada adianta,
use o coração.
Ferramenta essa onde ninguém serpenteia,
Terra de mistério que só Deus conhece.
Sente isso? 
Pare de pensar. 
Por um momento, 
um momento se quer, 
escute a vida, 
ela clama baixinho, 
ela canta baixinho, 
está em tudo, em todos
Sinta, é mais que entender. 
Pare de tentar entender. 
Pare de buscar saber, 
ao menos agora. 
Viva as proporções. 
Tente sentir, 
as cores… 

Leitor ou Leitura?

Eu queria parar e ler um livro
Todas as páginas, 
Todas as vírgulas,
Então toda vez que lembro 
dessa minha paixão,
eu sorrio, porque a vida
é um livro, 
e eu o leio, 
e ele me lê
e cada momento
que se faz de vírgula.
E apenas no fim
que terá conclusão.
Enquanto isso são apenas pausas.
Eu leio os poemas, 
Eu leio sorrisos.
Lágrimas, tudo faz parte
desse grande livro.