Antes que o tempo se tornara tempo.

O homem entrou na casa da era vitoriana, talvez eras antes. O lugar era escuro, tinha um cheiro de morte, de velhos e talvez até de tempo. Abriu a porta que dava a uma saleta de jogos. “Passo-passo” era o certo, mas não tinha nenhum som dos teus passos. Por mais que o assoalho fosse velho, por mais que a madeira estivesse podre. Nos seus anos de experiência com esse tipo de trabalho aprendera a ser minucioso. Ele era contratado para achar certos artefatos que na maioria das vezes não era de grande valor, tinha que fazer pesquisas, visitar asilos, cemitérios, registros, tudo em busca do seu objeto. Dessa vez um homem o havia contratado, não virá o rosto, o homem se escondia nas sombras da noite. A voz era tão profunda e velha como essas paredes mofadas e podres, centenária.
– Você saberá o que é quando encontrar – e com essas palavras o homem de voz centenária se virou e se foi nas sombras. Maldição, trinta anos nesse ramo e não podia ao menos visitar lugares menos fedidos? O lugar estava cheirando a podre e esquecimento.
Conhecia um homem, um “amigo” cujo vendia peças valiosas e antigas em leilão, ele ganhava uma comissão até boa. Nessa casa, porém não havia peças valiosas até agora, já estava subindo as escadas e não vira nada. Precisava de um cigarro, pegou um no casaco grosso e o acendeu, foi caminhando na escuridão com os olhos experientes, o cigarro parecia um vagalume perdido na mansão abandonada. A fumaça o estava incomodando, maldito seja, não era para ela estar subindo? A fumaça do cigarro estava descendo para seus pés. O coração já não tão jovem começou a palpitar em silêncio, parecia até pecado causar qualquer barulho ao lugar velho.
O cheiro foi piorando, o podre se intensificara, ele abriu uma porta o que parecia ser um grande quarto , pelas paredes e mobília fora um quarto rico. Ele andou até um quadro coberto pelo poeira, um pano velho e o tempo, ao chegar perto da cama tropeçou em algo, quando foi se desviar no rápido reflexo da mente que é mais rápido que o próprio pensamento o vaso já havia caído. Planejando baixo ele esperou pelo barulho, o vaso não fizera barulho ao se estilhaçado em miúdos pedaços.
Novamente o coração começou a palpitar, um frio lhe subiu a nuca e as mãos vacilaram, apagou o cigarro e o jogou junto ao vaso silencioso.
O quadro, deveria ser o quadro. Quando ele tirou o pano, Deus, o que era isso? Uma jovem nua dormia dentro dele, a pele branca, os cabelos enormes, maiores que até o corpo, diria, caia numa cascata preta ao seu redor. Ela dormia profundamente, e naquela escuridão o quadro parecia brilhar como luz.
Ele sentiu algo apertar envolta de si, sentiu mãos frias e molhadas o arranhando
Ajude-nos, ela não pode o encontrar. Ajude-nos. – A quem? Eu, o velho? Perguntas silenciosas. As mãos pegajosas pareciam gritar á ele socorro. Os olhos miúdos do homem se abriram, ele agarrou ao quadro que tinha cheiro de primavera sobressaindo do odor podre e velho. O homem pequeno correu, passou pelas escadas, pelo salão de visitas, pela sala de costura, pelo salão de jogos, até que enfim chegou ao hall, abriu a porta pesada e saiu para o sol. Não percebeu que estava abraçado ao quadro e ofegante. Tirou-o de perto para apreciar a menina-mulher dormindo serenamente lá dentro.
Que espécie de loucura é essa? Uma mulher dentro de um quadro, será tamanho talento do artista que o faz parecer real? Então, diante desse pensamento a mulher que dormia nua, coberta pelo manto negro de cabelos, cercada pela natureza abriu os olhos. E dentro dos olhos havia algo que ele não soube explicar.
Nesse momento não teve tempo de pensar ou refletir sobre os olhos, a casa velha e grande começou a apodrecer e ser destruída, o homem correu para longe para ver a casa desmoronando. O seu coração estava petrificado.
Mais tarde, com o quadro ao lado o caçador de relíquias estava no mesmo lugar das sombras, o homem alto e magro estava lá, ele disse em sua voz rouca e velha
-Vejo que encontrou.
– O que é isso? – O homem coberto pela sombras pareceu refletir sobre a pergunta.
– É uma maldição. – Ele disse por fim
– Ela está viva?
– Tanto quanto eu estou – ele disse rindo numa piada íntima, o caçador não entendeu a graça.
– Traga-a aqui. – Relutante ele foi até o homem alto, ele saiu das sombras e pegou o quadro com carinho. Para a surpresa do caçador esse homem alto era tão jovem quanto um garoto de vinte anos, mas a voz…? A voz profunda, rouca e velha.
– Venha até mim Celeste – ele disse delicado com a voz centenária. O homem passou as mãos no rosto, ela abriu os olhos negros e profundos e sorriu docemente. Como era linda.
– Te esperei a vida toda, mais tempo do que o próprio tempo. – Ela levantou a mão como se fosse o acariciar, mas está não passou da tela.
Calado o caçador observava com um nó enorme na garganta, a saliva havia virado pedra.
– Obrigado homem, foi corajoso, mas além disso, a casa te aceitou por ser tão vazio quanto ela. – Vazio? Não era vazio. Mas o olhar, os lábios, as mãos o denunciou. Homem insolente, quem pensava ser? Antes que dissesse qualquer coisa em voz alta o homem de alma velha pegou uma adaga e rasgou o quadro, o grito da doce mulher ecoou nas sombras. O sangue vazou pela tela perfumada. Lágrimas caia no rosto jovem e belo do homem.
– Eu também sofro. – A voz centenária disse as últimas palavras antes que ele penetrante a mesma adaga em si. As sombras cobriu os dois amantes além do tempo, os levou em seus braços negros e frios. O caçador ficou olhando para o vazio, pegou o dinheiro deixado no chão e se virou para ir embora. Inconscientemente ele havia pegado a mesma adaga e rasgado a alma. Mas ela se fora antes de entrar na casa, antes de conhecer a linda mulher cujo grito final ficaria para sempre dentro de si, o homem cuja aparência de um jovem carregava um espírito velho. A sua alma havia sido rasgada antes que o tempo se tornara tempo.

Pepino- Grito

Descobri que andar por aí sem rumo não é de todo mal. Ontem conheci um velho, eles o chamam de Pepino, ele estava sentado num banco conversando sozinho.
“Esse deve estar pior que eu” pensei, logo sentei do seu lado e com quem não quer nada ofereci um cigarro.
-Isso mata, minha mãe fumou isso uns 50 anos e morreu depois, coitada… – Eu não senti pena, não conheci a velha, mas eu tinha que ser educada, então falei: 
– Sinto muito, câncer de pulmão é triste. – ele coçou a cabeça com a luva desgastada e esticou as pernas finas na calça desgastada.
– É, eu também, a coitada morreu atropelada.
– Heim? Mas não era de câncer no pulmão? – Ele riu com a boca murcha sem dente
– Que isso menina, é doida? Eu disse nada disso não sô. – Eu gostei de Pepino, ele era um senhor estranho.
– Onde o senhor mora?
– Ah, eu moro aqui, ali, onde dá. Ás vezes vou pra um abrigo, ás vezes vou pra casa da minha irmã, mas nunca paro no mesmo canto.
– Mas e o frio?
– Com o frio a gente acostuma, difícil mesmo é a solidão, sabe? E eu nunca estou sozinho – Eu bem sabia disso, eu era a solidão em pessoa, mas não queria falar dos meus problemas. Dei uma tragada no cigarro e joguei a fumaça fora, como eu queria que fosse comigo.
-É, eu sei. – Murmurei pra ele, mas mais pra mim. Pepino levantou do nada e deu um grito. Assustei e levantei também
 – O senhor está bem?
– Que isso menina – ele começou a rir alto – se tu visse sua cara de rato escaldado ia gritar também – ele riu alto, eu não sabia se era pra me sentir ofendida, não senti.
– Eu gritei é que faz bem pra alma, sabe, gritar alto. A primeira vez que fiz isso foi na faculdade, oitavo período, curso de letras, a dona Margarida caiu da cadeira, depois eu te ensino a gritar direito – ele começou a rir alto novamente, eu não o questionei sobre o grito, ainda estava assustada.
– O senhor fez faculdade?
– Você é curiosa, credoemcruz. Se fiz, tudinho. Eu era faxineiro lá, então eu ficava escondido nos canto escutando e anotando, um dia o reitor me chamou, perguntou se eu queria ser despedido, mas eu não podia, não tinha o que comer em casa. – Eu não sou curiosa, sim, confesso, eu sou. Eu queria saber o resto.
– E então?
– Então o que? Uai, você não tá atrasada? – Pepino encostou no banco e começou a cochilar. Eu encostei nele e o sacudi.
– O seu Pepino, acorda, tava me contando ué, da faculdade. – ele pigarrou alto e cuspiu no chão.
– Ara menina, me deixa em paz sô. – Ele me olhou com o cigarro no fim entre os lábios. – Amanha tu volta, joga isso fora, só conto se parar. – Eu não ia parar de fumar pra saber a história de um velho mendigo. Mesmo eu sendo curiosa.
– Paro não.
– Então não conto, pode ir embora. – Ele estava tremendo, o corpo velho não era mais resistente. Eu não ia parar, talvez eu fosse, mas eu sabia que amanhã voltaria com comida e agasalho.
– Aqui no mesmo lugar? – novamente ele riu os lábios murchos e a boca sem dente, a pele murcha enrugou toda até que os olhos pequenos com catarata sumiram.
– No mesmo lugar.
– Gosta de carne na sopa?
– Bastante. Joga isso fora. – Eu me levantei, aconcheguei no agasalho grosso e fui embora, nunca achei que iria gostar do velho. O cigarro havia acabado, havia mais dois no maço, mas eu não ia fumar, não até saber o resto daquela história. Antes de virar a esquina eu voltei, dei meu agasalho a ele, depois fui embora o deixando falar sozinho novamente. Até que escutei outro grito, eu estava com frio, não me importei, comecei a rir, ao menos tinha casa, ele precisava mais que eu.