Nós, a Vida, os que Se Escondem dentro do Nada.

Medo é algo tão relativo quanto gosto, sabor, cheiro. Medo é algo que entra nas entranhas do corpo e o paralisa.
Ali, no meio do nada, no escuro, no claro. Nas sombras da vida, o medo aparece.
Não é arrancar as vísceras e as comer, não é pensar que um homem com uma motosserra irá entrar no teu quarto e a arrancar as pernas, não é pensar que enquanto você dorme um íncubo irá te estuprar e você terá um filho demônio. É pior, é além, é real.

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1 – As palavras se formavam quase como se houvesse vida dentro dela. Mas não havia, não havia nada.
2 – Ela era sombra de si mesma, até que se perdeu naquilo que dizia ser. O correto se tornou concreto, mesmo que ela não sabia “ser”.
3 – “Na cama me deito, no tempo me consolo. Viver, viver, o que é?”.
4 – Nos corredores da vida, só quem não teme a própria covardia entra em porta fechada.

 

Uma mulher, cujo principio estava em ser correta, direita e honesta. Criada em um pilar forte ela se tornou adulta, com princípios. Ao menos era o que ela achava. Qual a definição de ser correta? As pessoas não sabem, não entendem, pensam que sim, são os que acham que entendem a verdade, que está para além disso, além da nossa compreensão, meros servos inúteis.
Ela tinha uma rotina, e a Mulher não fazia nada do que se chamava de extravagancia.
Não existe certo meio para pessoas serem escolhidas, elas não têm de ser especiais, anormais. Precisam apenas ser ali, destinadas ao acaso. Não importa o onde o por que. O quando estava sobre as asas do acaso.

A mulher estava deitada, eu sentia a sua pulsação, sentia seu ressonar, sentia o sangue correndo em suas veias, sentia o bater do seu coração, que aos meus ouvidos eram cântico suave.
Ela tinha os olhos redondos, de uma forma engraçada, mas não deixavam de serem belos. Não, ela não é dessas mulheres lindas, da pele suave, alva e macia. Ela tinha a pele parda, o cabelo muito liso e curto, os olhos grandes eram fundos de uma forma triste, os lábios eram carnudos, mas os tipos de lábios carnudos que não fazem diferença em uma mulher de olhos caídos e tristes. Ela escutou o despertador e o desligou com tédio até no piscar. Ficou olhando o teto branco, o quarto estava fechado, deixava o sol entrar pelas frestas da janela. A cama com lençol branco, uma colcha amarela com flores, ela se esticou, não tinha vontade de levantar. Não tinha vontade de sair dali. Eu senti o seu pensamento, o senti como um vento entrando em contato com o meu.
Senti-a me olhando. Mas eu percebi, não era a mim que olhava, era o quadro. Nunca entenderia aquele quadro, estava ali há tanto tempo quanto o apartamento estava erguido sobre a terra já infértil.
Ela o olhou com os olhos tristes, olhos que não se transformou em nostalgia, em alegria, em amor, dor. Apenas olhos tristes. O tipo de olhar que não denota se a alma está cheia ou vazia, o tipo de olhar que mostra o que a pessoa vê dentro de si. Como se ela olhasse as paredes de seu coração e já estivesse acostumada com o que enxergava. Vazio, mas não é o vazio da árvore que está no outono nua esperando a próxima estação e a próxima, até que o fruto germine. É o tipo de vazio que você tem quando algo é rasgado e não pode ser colado, o tipo de vazio permanente. Não se reconstitui, se regenera, se forma, se nasce. Morreu, sumiu, acabou.
Eu estava tão absorvido no nada, nos olhos vazios, na cama ainda quente que não a percebi se levantando, passou por mim como fumaça, passou por mim e não me sentiu. Normal, eu não estava ali. Não fazia parte daquilo. Eu sou a sombra, sou o leitor, sou o telespectador de um filme que está na minha cabeça.
A mulher foi até o banheiro, fez o que tinha de fazer e voltou, estava nua, no corpo magro, pálido, branco se podia ver os pelos triangular. Ela olhou para o espelho grande como se o que via fosse nada, não gostou daquele corpo.
– Se devolve – Ela sussurrou, eu juro que por um momento eu pude ver cada palavra saindo daqueles lábios e flutuando na minha frente, eu pude ver o ar se transformando e subindo para o céu como um vapor. Novamente me perdi em meus pensamentos e ela já havia se vestido. A roupa tão morta quanto ela. Um vestido longo, cinza, sem corte, sem caimento, sapatos preto, bolsa preta.
Ela olhou para a cama com pesar, os olhos tristes dizendo que aquilo era vida, que aquilo era ela e não lá fora. A janela nem fora aberta, é como se o ar que ali entrasse pudesse desfazer o calor da coberta, como se parte dela morresse. Esse foi o seu pensamento, mas não bem assim, eu disse só o que entendi. Para mim, que estou de fora, estou dentro não é algo a transformar, os resquícios às vezes embaçado pela parede invisível.
Ela fechou a porta e se foi. Eu a segui. A segui pelo corredor estreito sem fotos. A segui pela cozinha pequena, ela colocou a bolsa na mesa, como se ali fosse estranha, abriu a geladeira, vazia, sem quase nada. Pegou o que pareceu um iogurte e o abriu, parecia com nojo.
O tomou em silencio, sem degustar, depois jogou fora o copo, pegou uma bandeja com algo dentro, biscoito.
Mastigou como se tivesse comido tanto que já não aguentava. Jogou metade fora. Aguou uma planta morta. Pegou a bolsa e se foi. Continuei a seguindo. Sabe quando você vê um filme e grita para que o personagem idiota não faça aquilo? Para que a garota tonta, quando for correr do bandido não caia e ela sempre cai? Porque filme de terror e suspense sem um personagem em uma perseguição se jogar no chão não é filme de terror ou suspense.
Eu queria gritar “Viva mulher, viva”, mas eu sou sua sombra, sou o nada, sou o que narra, o que vê e não pode interferir. Ás vezes me dói, mas é tanto tempo olhando de longe que me acostumei a não sofrer. Eu também tenho sentimentos. Engraçado, não?

Ela entrou num carro pequeno, com um cheiro estranho de tecido velho, foi o guiando pelas ruas. O seu pensamento não tinha nada, conexões, ponte, preocupação. Uma mulher direita. Eu sentei ao lado dela, não sentando ao lado dela, meu corpo não é matéria, não é nada.
Ela parou num semáforo e olhou um menino pequeno, barrigudinho, magro e preto.
– Tia me dá uma moeda – Ela o olhou com os olhos tristes, o menino sorria mostrando dentes novos já amarelados e estragados.
– Não tenho.
– Mentira, eu tô vendo as moeda ali ó. – E apontou com o dedo ossudo para o consolo do carro.
– Tudo bem. Eu tenho, não quero te dar. – A voz saiu um abafo diante tanta abertura do mundo. O sinal abriu, ela foi acelerando, e antes de sair de perto dele jogou uma moeda.
Não sorriu. Quanta pobreza, quanto nojo. Esse o pensamento dela, nada de mais, geralmente pensamentos assim te levam a África, favelas, fome, governo, miséria, sorte, azar. Ela não pensou em nada, uma extensão de vazio.
Continuei a observando. O dia seria enfadonho.

Dezenove horas. Ela chegou a casa, não tirou os sapatos, ou jogou a bolsa de lado, ou esticou o corpo.
Ela foi até o quarto, e então guardou os sapatos, pendurou a bolsa, tirou a roupa.
Depois tomou um banho, voltou com o cabelo molhado. Parou de frente o quadro e o olhou. Os olhos tristes foram para além do quadro, dessa vez pararam em algum pensamento dentro dela. Ela fechou os olhos, suspirou como se o vento pudesse levar fora as lembranças.
Ela não comia muito. Uma humana sem hábitos estranhos, não comia não por vaidade, não por isso, não comia por não comer. Mas algo dentro dela se mexeu, e isso soou como fome. Ela se arrastou para dentro de uma camisola azul e foi para a cozinha. Lá pegou uma panela, colocou água e deixou ferver, despejou o macarrão instantâneo, assim que pronto jogou o tempero, colocou numa vasilha e comeu, ali mesmo, na cozinha, olhando para o nada, como se mastigasse jornal velho.
Terminou, lavou a louça. Foi para o quarto novamente, se trancou no banheiro, fez o que tinha de fazer.
Quando voltou, parte dos lábios molhados com resquícios de creme dental, ela os enxugou numa toalha vermelha pendurada num cabideiro. Depois se enfiou na cama.
Assim que fecharam os olhos ela apagou. Minha deixa. Entrei.
Dentro dela era escuro, o vazio eu já sabia apenas de olhar. Eu sou o que sente, o que vê de longe, assisto. Eu iria dormir, e dormir dentro de humanos era o melhor. Nos torna temporariamente parte dele. Eu já a conhecia há tanto tempo quanto passível, somos hospedeiros. Olhamos, vigiamos, compartilhamos de longe, e quando estamos forte suficientes nós então entramos e dormimos.
Ela ressonava, não havia sonhos, esperanças, fantasias, apenas o escuro e no escuro eu me deitei.
Ela se mexeu, se levantou. Fui levantado bruscamente, mas não para fora dela, eu ainda estava lá dentro, mas quando ela levantou me sacudiu e me fez acordar. Dos olhos tristes eu vi o lado de fora, o quarto, pelos olhos dela. Ali tudo escuro ela se levantou, foi no banheiro, acendeu a luz. Sentou-se na privada e desceu a calcinha. A urina sai de dentro dela. Ela se limpou, levantou e deu descarga. Lavou as mãos pequenas e magras, sem se olhar no espelho.
Quando ela se voltou para desligar a luz ela viu algo. Não sei, não vi. Aqui de dentro é complicado, vemos o que eles veem quando vemos. E ela não disse nada, mas o coração estava tão disparado que me apertava no canto, ele bombardeava rápido o sangue de forma que parecia maratona pelas veias. E se o corpo dela falasse estariam todos loucos, os glóbulos brancos e vermelhos, correndo agitados. Ela, por outro lado, na superfície estava impassível, desligou a luz e voltou para a cama. Eu fiquei tão apertado no coração disparado que já não conseguia sair dali.
Ela se deitou na cama, as cobertas ainda preservando o quente dela. Ela fechou os olhos, mas o coração desmentia a calma superficial.
Eu senti, juro que estava ali, naquele momento tão conectado que senti daqueles olhos tristes medo. Ela os fechou e começou a cantarolar dentro de si uma canção da qual nunca a vi cantarolar. Eu me acalmei, só então percebi que havia crescido dentro dela e compartilhado o coração palpitante.
Com a canção nos acalmamos. Eu fechei meus próprios olhos, o que chama de olhos. Ela voltou a dormir, não sabíamos a hora do momento, mas julgamos ser umas 02h00min, dado que ela dormiu as 20h00min.
O sono me esquentou e eu esqueci o momento estranho na qual a mulher passou.
Um dois, um dois, um dois. Acordei com isso na cabeça, mas me lembrei, não era a minha cabeça. O que leva a pessoa ter medo? Eu observava essa mulher tempo de mais para saber que ela não tinha medo de escuro, ou de gente, ou de bicho.
Eu estremeci, sentia frio em toda parte, me aconcheguei mais ao coração dela, mas ela novamente estava com ele disparado, correndo uma maratona imaginaria. O que há com ela?
Ela encarava ao quadro, mas não ao quadro. Ela nunca havia feito isso. Tentei espionar pelos olhos dela, mas estava tudo tão escuro que eu não podia ver. Tudo tão distante que eu não podia sentir, ali era apenas o medo.
Mas medo de que? Essa era minha pergunta. Ainda é, na verdade.
Ela começou a cantarolar alto. Como se a música que saia dos seus lábios, formasse palavras no ar, deixando o vapor subir ao céu fosse mandar embora qualquer que seja o pesadelo.
Ela tentou voltar a dormir, mas o corpo todo compartilhava daquilo que o coração bombardeava. Ela pensou alto, tão alto que eu escutei. Está me vigiando.
Eu tentei ver o que era, mas não enxergava nada. Talvez, talvez se eu saísse de dentro dela. Mas parecia que ela havia me sentido, ao menos o corpo, eu fiquei sendo segurado com tanta força que não pensei que ela, aquela mulher fosse capaz.
Um dois, um dois, um dois. Eu escutei alto, até que ela se levantou, acendeu a luz do quarto, do banheiro. Correu para o corredor acendeu a luz, da cozinha, da sala.
Nunca vi a casa tão iluminada, parecia que ali dentro havia caído um cisco de estrela do céu, meus olhos, os dela doeram com a recém-luz-viva.
Ela olhava para os lados, com os olhos grandes e profundos ainda sentindo medo. Não estavam mais tristes, não tinham mais nada dentro.
– Não sou especial. Não sou especial – e a voz dela soou tão forte, tão diferente dos sussurros. Ela me mostrou ser forte, por fora, eu estava dentro. Onde as imagens foram passando. Meu corpo se arrepiou, eu já estava tão conectado quanto possível. É perigoso se conectar com um humano, assim como com um personagem de filme, quando ele morre você sente todas as dores, talvez morra junto.

Ela olhou para certo lugar, como se alguém ali a olhasse. Correu até o quarto e abriu a janela. Outro pasmo, a janela nunca era aberta. O vento entrou no quarto como se houvesse sido reprimido por ela. Como se até então ele não ocupasse um pequeno espaço da terra, um espaço no vácuo, sem vida.
Ela ficou de frente a janela sentindo o vento bater nos cabelos muito lisos e curtos. Os olhos tristes ainda olhavam para o nada, até que se voltou para o quadro, mas não o quadro.
O que quer que esteja lá não era agradável, dos olhos da mulher vazia começou a brotar lágrimas, ela caiu no chão abraçada a si mesma. Nos balançava para frente e para trás, fui jogado para a parede de seu pulmão onde o ar havia sido reprimido.
Ela olhou aquilo que a olhava, ele a observava aonde ela ia. Já se sentiu observado? Já ficou sozinho em casa e sentiu como se alguém o visse violar algo? Já sentiu que os teus passos eram contatos em voz baixa por alguém? Era assim que a Mulher se sentia. Ela tinha os ossos encolhidos de tanto medo. Uma mulher forte, fraca, ou nada reduzida a nada. O nada diferente do nada, é o nada que não pode voltar ser preenchido.
A conexão entre nós aumentou ao ponto de eu ver o que ela via. E daqueles olhos grandes, redondos, profundos e tristes eu vi um ser. O ser era desfigurado, o ser tinha parte do rosto rasgado, o mal circulava dentro de si, a dor, a maldade. O ser parecia ter a pele em brasas, quando o vermelho do fodo fica dançando no preto carvão, o único olho do ser era vivo de tal forma que chegava a ser belo, mas do belo não era agradável.
Ela começou a tremer, foi para a cama, onde era algo como fortaleza. O ser que tinha apenas um olho, os lábios pareciam gritar eternamente em dor.
Ele começou a rir alto, a risada tinha um som oco.
Ecoou por nossas paredes do corpo, ecoou em nós.
– Está vendo Mulher? – Eu perguntei. Ela me respondeu num sim mudo. Mas não pra mim, pra ela, como se eu fosse a consciência dela.  
O ser monstro a fez ver além, eu não vi o que ela viu, o coração bateu tão rápido, mas tão rápido que fiquei preso entre uma pulsação e outra. Os olhos vazios se voltaram para o quadro, os olhos tristes olharam o quadro. Além dele. Além de nós. O ser não era nada. O ser mostrou ali pra ela no quadro tudo aquilo que não era. O ser entrou em nós. Me senti invadido, a humana era minha. Mas ele me olhou e nada disse. Sorriu com sua boca rasgada. Tocou o coração da mulher vazia até que ela já não o sentisse mais. O nosso coração. A mulher vazia pegou o quadro, o tirou da parede revelando ali uma camada grossa de poeira e tempo. Com o quadro na mão o vento nos saudou, assim que chegamos naquela janela. Ela olhou para baixo, olhou para o prédio, olhou para além. Olhou para a vida como se fosse o quadro na parede, como se o observasse de longe. A dor que sentiu nos olhos, a dor que sentiu no útero, a dor que sentiu no pulmão, estomago, lábios. Cada dor representava algo. Os lábios pela falta de beijos, os olhos pela falta do belo a se ver, o estomago pela falta de comida, o pulmão pela falta de ar puro recebido, o útero pela falta de filho germinado, a pele pela falta de afago. Tudo doeu, mas nada se doeu tanto quanto a alma. Ela se rasgou em duas, até que o ser monstro se foi. E quando se foi à mulher que não tinha nada tinha tudo, e o tudo a consumiu, e o tudo a fez viver, e viver a fez gritar. Então, com o quadro nas mãos, com o tudo no peito, e eu dentro de si ela pulou. Foi para os braços da terra seca e infértil. E ali, naquele pequeno espaço de terra, o único talvez, ela espatifou, o quadro ficou ao lado do corpo vazio sem vida, a terra seca foi molhada pelo sangue quente. E os olhos tristes abertos da mulher continuou numa eterna lembrança daquilo que ela se privou, daquilo que ela não conseguia aguentar. Um novo quadro foi pintado e reposto na parede do apartamento, como se dali nunca houvesse saído, onde tinha um ser dentro dele, um ser monstro, um ser vida, um ser que esperava pela próxima pessoa a não ter nada. E com ela, com o vazio, com o tudo eu morri. 

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Não se engane com as memórias.

– Você se engana – ela disse num sussurro.
– Com o que? – Ele disse com crueldade na voz, as palavras cortantes pareciam dizer “Vá-se embora mulher”.
– Comigo. – Ela o fitou, os olhos escuros estavam submersos em escuridão, pareciam ter ficado maiores devido às lágrimas que ela não se envergonhava.
Ele riu, murmurou algo como “tola, mulher maldita” ela sorriu e se levantou, deu uma volta sobre ele, depois outra.
– Nunca me esqueço, faço-o parecer, faço-o com que acredite na minha fraca memória – ela disse dando a terceira volta. – Você tem coisas que me pertence. – Completou.
– Vai embora prostituta barata. Veio aqui abrir as pernas e depois quer respeito, fui tolo, maldição! – a gargalhada ecoou pela biblioteca.
– 11 anos, eu esperei 11 anos. – O corpo frágil, magro, pequeno de cabelos louros palha a fazia parecer uma criança. Ela tremia – Para fazer isso.
Então, sem dizer nada ela enfiou a magra mão em seu peito, o homem abriu os lábios em dor, ela sorriu. Puxou o que queria e colocou na boca. Engoliu lambendo os lábios.
– Eu peguei minhas lembranças de volta. – Ela saiu da sala e deixou para trás um homem que fitava o nada, no rosto já não havia deboche, só o vazio e a sombra de uma frágil mulher.

Personagens de uma personalidade. (+18)

Parte 2

 

Ela sorriu ao ver um homem alto vindo em sua direção. Outra foto.
– Então… Você é fotografa?
– Sim – Ela disse tirando uma mecha do cabelo e o colocando atrás da orelha.
– Uau, que legal, eu amo fotografias, não tenho muito tempo de tirar fotos, mas sempre que posso eu olho na internet. Qual o seu nome? – Ella não iria dar o seu real nome, não queria dar esse prazer ao homem parado na sua frente, provavelmente ele nem gostava de fotografias, apenas a achou atraente e usou isso como tal desculpas. Ela sabia como homens pensavam, homens tão tolos ás vezes, os sábios já morreram.
– Milena.
– Milena? Uau, que nome lindo, a proposito, Heitor. – Ele pegou na mão suave de Ella e a beijou, como um “suposto” cavalheiro.
– É sim, não? Parece até que o escolhi, de tanto que gosto. – Ela riu alto, ele não entendeu muito bem, mas acompanhou a risada.
– Bem Heitor, tenho que ir, adeus. – Ela foi andando e sorrindo, era um risco que estava tentando, mas tinha uma quase certeza de seu êxito.
– Hey Milena, calma aí poxa, mal chegou e já vai? Eu vim aqui me acalmar do dia árduo de trabalho, sem filhos e sem cachorro. Aposto que estava se perguntando não? Como um homem bonito como eu não é casado? – Ele riu alto de sua própria observação – Bem, eu já fui, mas me separei, algo complicado que vou adorar te contar em um café, que tal? Um jantar? Ouvi um sim? – Ella sorriu, ou melhor “Milena”. Ela olhou no pulso e encarou o relógio, fingindo demonstrar que não poderia demorar.
– Bem, talvez. MAS, eu tenho que ir embora cedo, amanhã eu trabalho e tenho uma reunião logo cedo, isso é um saco! – Ele deu um soco no ar e sorriu, ambos foram para fora do parque.
– Meu carro está logo ali, eu te acompanho.
– Que tal, irmos no meu carro e depois nós voltarmos e pegar o teu?
– Não, não me leve a mal, mas mal te conheço, não entro em carro de estranhos. Mesmo que o estranho em questão seja bonito. – Ella entrou no carro e o seguiu, o seu coração frio não batia acelerado, seu espirito adormecido não estava perturbado e seu corpo estava tranquilo, Ella era assim, adotava novas personalidades, era assim que “vivia”, ou assim dizia gostar de viver.
Logo chegaram num local, um restaurante pequeno com uma sacada dando para uma praça cheia de árvores e um pequeno lago. Estacionaram, entraram, foram para a sacada e fizeram os pedidos.
– Então, me conta, como é ser uma fotógrafa?
– Hum, bem, digamos que é emocionante – Seria isso? Emocionante? – E eu adoro porque ás vezes eu viajo, como o cliente da reunião amanha, ele quer que eu vá para o Equador tirar fotos de uma campanha publicitária que ele está promovendo, o lugar em questão é ótimo, lindas paisagens, mas ele é meio miserável, acredita? – Ele estava sério e começaram um diálogo maçante de trabalhos. Heitor trabalhava numa firma de cosméticos femininos, era chefe de produção e contava da vez que ele teve que experimentar um batom vermelho que não saio dos seus lábios a tarde toda, tudo isso por uma aposta perdida.
– Certo, então, chega desse papo chato de serviços. Você me disse que já foi casado, é isso?
– Ah essa história é um interessante. Jéssica, conheci ela no final do ensino médio, já viu tudo né? – Ele pegou na mão dela e passou o polegar por suas veias do pulso. Ela sorriu “envergonhada”. – E Jéssica era uma puta de uma gostosa. Acabamos que nos apaixonamos, ela por mim e eu por ela, ou melhor, pelo sexo.
Era sensacional, ficamos juntos por bastante tempo, eu trabalhava e fazia faculdade, ela só estudava, íamos assim, sem pretensão de casar. Um dia, “um belo” dia ela me disse que estava grávida, nós piramos, não tinha como cuidar de um filho. Não tínhamos nem terminado a faculdade. Eu disse pra ela que não iria ter como, ela gritou e me xingou de todas formas possíveis. Eu tranquei a faculdade e arrumei um emprego integral, a barriga dela ia crescendo, o pai dela pressionando para o casamento. Enfim, nos casamos, ela perdeu o bebê, entrou em depressão, os pais a levaram pra longe, casa de repouso, algo do tipo e eu voltei pra faculdade. Nos separamos, nosso casamento não durou nem 5 meses.
e hoje em dia eu não a vejo mais, isso faz tempo, não tanto, faz uns 8 anos.
Ella olhou para ele com piedade, pegou nas suas mãos
– Oh, eu sinto tanto Heitor, você capaz que ficou arrasado, não? – Ele sorriu com um ar distante.
– Se fiquei… – A comida já havia chegado, conversaram sobre outros assuntos.
-Então, mas não conheceu nenhuma outra mulher que pudesse o fazer feliz, casamento… Coisa assim?
– Talvez eu possa ter conhecido – ele disse subindo os dedos pelo braço nu de Ella. – Vamos embora? – Ela se levantou e esticou o corpo.
– Vamos. – Heitor se dirigiu ao caixa e pagou a conta dos dois, apesar dos protestos de Ella em dividir a conta.
– Balela, vamos mulher.
– Pra onde?
– Bem, pensei que talvez você queira tomar um café, ou um vinho, nada tão tarde, amanha você trabalha e eu também. E tenho um livro de fotografias que você vai amar.
– Você promete não me amarrar, amordaçar e matar, não né? – Heitor riu alto.
– Uma ideia tentadora, não acha? – Os olhos de ambos se encontram, dela estavam cheios de segredos, num pensamento profundo, a ideia era tentadora para ela, ela o fazer assim. Os olhos dele estavam serenos, tranquilos e de alguém com pensamentos carnais.
– Tudo bem. Vamos. – Foram para os carros, um seguia o outro. Cada qual imerso em seus pensamentos, vazios, cheios, talvez a única faísca de vida que Ella tinha era o de passar a noite com um homem estranho, talvez o usar, talvez o espancar e o deixar dormindo cheio de sangue e depois ir embora. Claro, ela era uma mulher pequena, mas por isso a bolsa grande, por isso a desculpa dos “fetiches”, por isso o tranquilizante, trabalhar como enfermeira tem suas vantagens.
Ele deu sinal de luz para que ela parasse, haviam chegado, uma casa média, branca com uma enorme árvore na frente. A garagem abriu e ele entrou com o carro. Ela estacionou na porta e desceu.

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Está ali, sempre esteve, mas ás vezes o vazio é cego.