As facas envenenadas de uma dor duradoura.

– Água com limão para mim e para ela um café com creme.
– Não se lembra?
– Uh? – Ele a olhou interrogativo, havia uma ruga em seu rosto mostrando impaciência.
– Querida, volta aqui – a morena alta chamou com a longa mão a barwoman e sorriu irônica – meu ex traiçoeiro viveu comigo 19 anos e se esqueceu da minha bebida favorita. Café amor, com vodka russa, aquela que vocês guardam para os homens bonitões, de 1984. Velha e amarga. – A mulher riu alto. Era uma bonita morena de longas pernas, batom vermelho e olhos esverdeados. Parecia uma deusa acabada.
– Não me passe vergonha Teresa. Você já está bêbada.
– Bêbada? Te garanto que não tomei um gole sequer.
– Quando começou a beber café com vodka russa?
– Quando me traiu, chorei amargamente por longos cinco meses, depois fui pra Rússia, logicamente – ela parou, pegou a xícara na mão da barwoman e tomou um longo gole. – Então conheci Victor, um esloveno filho de russos, ficamos juntos dois meses.
– Não pedi um história. – O homem bonito e alinhado disse. Ela passou a mão no rosto dele e sorriu.
– Porém, meu amor, vou te contar. Ele ficou comigo por dois meses e então, pá! Eu me descobri grávida.
– Você sempre foi uma vagabunda. – Disse ele com um sorrisinho dolorido.
– E adivinha? Victor era moreno, de olhos azuis. Eu sou morena de olhos verdes. Mas minha menininha saiu loura de olhos escuros. – O homem a olho petrificado.
Minha?
– Não, minha. Fiz teste, ela é do Victor e minha, linda. Victor é um homem muito rico, nós nos casamos. Vim apenas visitar minha mãe e amanhã já volto para Rússia. – Ela tomou outro gole. O homem parecia cansado. Se levantou, jogou o dinheiro na mesa e a olhou consternado.
– Você nunca me deu um filho. – A mulher o olhou com ódio.
– Você nunca me deu amor. Egoísta, sempre com essa sua relação restrita. Eu sempre quis um bebê, mas nem isso você soube me dar e sempre me cobrando. Sempre. Ao fim me deu um par de chifres e uma apunhalada que me dói só de respirar.
Ele saiu sem esperar resposta.
– Enche meu copo querida, só vodka, nada de café. – Ela olhou pro relógio como se seu tempo tivesse parado. – Tenho toda uma vida de desgraça.

Vivemos todos uma revolução tirana.

Ao passo que minhas memórias aqui ficam.
Não vivi na vida que eu lembro.
Perdidos em ilusões e alienações.
Todos nós sofremos fome.
Ao dia em que esperei melhoras.
Vivi sem segurança.
Ao líder que confiei nossas vitórias.
Nos mostrou somente sua tirania e sua glória.
Aqui deixo meu receio.
Ao menos eu tinha onde dormir.
Crianças com mães sem leitos.
Perdidos em dias melhores porvir.
Olhem homens.
Leiam as escritas.
Mas não podemos.
Somos todos ignorantes.
Vendeu seu próprio amigo.
O que esperar eu deveria?
Não só o frio me assola.
O melhor dos melhores virou porco.
A chicotes e risadas.
Bandeiras e canções.
Somos todos uns coitados.
Todos esperando a liberdade.
Do país-mãe.