Os Sem Sombras

9.2

A noite chegou rapidamente no sábado, todos estavam saindo da instituição, iriam em uma festa de uns amigos de fora. Bernardo estava com o braço na cintura de Clara que sorria abertamente. Ela estava com um vestido solto e muito curto mostrando as pernas morenas e torneadas, calçava um all star branco com tachinhas douradas. Uma garota a olhou e ela lhe deu uma piscada e um beijo. Bernardo conversava sobre futebol e games com Danilo e outros cinco garotos, eles estavam numa turma grande de quase vinte pessoas. Atrás de todos eles ia uma garota com o cabelo tão loiro que se podiam ver várias mexas brancas nele. A pele branca e pálida dando um contraste no batom vermelho e lábios carnudos, os olhos de um preto intenso e poderoso, ela tinha uma expressão carrancuda no rosto pequeno. A garota era bem pequena, usava um vestido curto e um coturno de couro. Os cabelos longos e vibrantes voavam de encontro ao vento. No braço direito e no pescoço se via uma enorme cicatriz branca e repuxada, aquelas que ficam quando se queima com fogo. Ela olhava diretamente para Bernardo, mas ninguém percebia, todos estavam entretidos com suas próprias companhias. Ela tinha um sinto de couro na cintura despendido de lado, se podia ver que de cada lado tinha uma bainha e um cabo prata e reluzente. Ela chegou até uma menina alta e morena.
– Hey, garota. É, você. – Ela lhe deu um sorriso forçado que mais pareceu uma careta. – Me ajuda?
– Com o que? – A morena mastigava um chiclete e fazia bolas com ele.
– O nome daquele garoto, o de cachinhos com a ruivinha.
– Ah, é Bernardo e Clara. Ele é um gostoso e ela uma vadia. Dizem que vão perder a virgindade hoje. – A garota morena sorriu mostrando os dentes brancos e levemente tortos e continuou andando e rindo com outras duas garotas. A loira foi andando perto delas e observando de longe. Um frio súbito a tomou, ela esfregou os braços, mas parecia que apenas ela o sentia.

Image
– Foge enquanto pode. – Minha mente dizia, mas eu queria ficar, eu queria.

A casa onde estavam era grande e acolhedora. Tinha mais de cinco quartos espalhados, quatro banheiros e três salas. Do lado de fora uma grande piscina estava lotada de adolescente. Todos riam e dançavam ao som da música. Bebidas eram distribuídas entre eles e vários já estavam bêbedos. Bernardo bebia a vários goles um líquidos vermelho com pequenas frutas dentro.
– A Bê, você não vai me dá nem um beijo? – Clara fazia biquinho e sorria maliciosamente. Bernardo virou o conteúdo do copo de uma só vez e o jogou longe, fazendo várias pessoas em volta rirem alto.
– Então Clara, eu não estou a fim de te beijar. Você precisa me motivar a lhe dar um beijo. – Ela passou a mão no rosto dele e o mordeu levemente o canto da boca. Puxou a mão dele e o levou até um canto. Quando chegou lá ela tirou o vestido ficando apenas com as roupas intimas, um conjunto picante vermelho.
– Motivar? Mas como? – Ela sorriu novamente e chegou na parede, ele respirou fundo, chegou mais perto e ambos começaram a se beijar. Ele passava a mão por todo o corpo dela e a esfregar, os beijos foram ficando mais intenso, ela tirou a blusa que ele vestia e começou o arranhar.
– Vamos para um quarto. – Ele disse entre a respiração cortada. Ambos subiram correndo as escadas até chegar num quarto qualquer. Clara o jogou na cama e subiu em cima dele, tirou o sutiã vermelho lhe revelando os pequenos seios rosados.
– Vadia. – Ele falou num sussurro antes de abocanhar o pequeno seio. Quando ambos estavam ofegante a sensação dolorida de algo se mexendo agitou-se dentro de Bernardo.
– Droga. – Ele se encolheu na cama.
– Bernardo? Para de frescura, o que está acontecendo? – Clara dava um sorrisinho achando que tudo era parte de uma brincadeira de mau gosto. Mas Bernardo se encolheu mais e começou a gritar de dor, o grito foi abafado pela música alta do lado de fora. Clara viu que ele estava realmente com dor e passou a mão no cabelo cacheado de Bernardo. – Porra Bê, o que tá acontecendo? Você não é acostumado a beber e enfiou a cara na bebida né!
Bernardo não respondeu, em vez disso ele se levantou e agarrou Clara num beijo repentino. Ela começou a rir e o beijar, mas então ela deu um grito, havia sangue nos lábios dela.
– Calma não precisa ir com essa selvageria toda.
– Não é assim que você gosta vadia? Você e a sua mãe cadela. – Os olhos dourados de Clara se arregalaram em um susto.
– Minha mãe? Você… Ouviu falar dela? – Ele começou a rir alto
– E quem não ouviu? O teu pai era um safadão que gostava de dar uns tapinhas, não é isso? Você também é cadela como a tua mãe, adora tapinhas não é? – A névoa negra envolvia ambos, Clara começou a se afastar de Bernardo assustada. Os pensamentos dela já não estavam mais no quarto, ela foi levada até a casa grande em que morava com os pais, a porta aberta e os gritos.
– Cadela, venha aqui me chupar, não é isso que você faz quando eu saio pra sustentar esse teu rabo gordo? – A garota ruiva se escondeu chorosa atrás do grande urso do quarto, ela podia escutar os gritos da mãe sendo espancada.
– Eu sei que você gosta disso. Não gosta Clara? – A voz de Bernardo estava rouca tirando Clara das lembranças por um segundo, mas novamente elas voltaram mais forte. Os gritos, a ambulância, o pai xingando ela de cadelinha.
A névoa a envolveu completamente, entrando pelos lábios abertos, ela caiu no chão com o corpo seminu e começou a tremer, os olhos esbugalhados estavam com o mesmo aspecto de quando ela era criança, as lembranças estava fervilhando em sua mente. Quando uma leve saliva começou a sair da boca dela Bernardo começou a rir e passar a língua comprida pelos lábios risonhos malignos.
– Então você gosta de brincar antes do foda? – A porta abriu abruptamente e uma garota de cabelos loiros esbranquiçados entrou sorrindo, e estranhamente em suas mãos havia duas adagas compridas de cristais que reluziam uma luz branca e forte. Antes que Bernardo pudesse fazer qualquer coisa ela correu até ele e passou a adaga pela sombra escura entre ele e Clara. Bernardo caiu no chão com o rosto contorcido em uma dor forte, ele começou a se revirar no chão de dor até que os olhos fechassem e ele desmaiasse.
Clara já nada mais via, ela começou a dormir num sono profundo. A garota loira deu um sorriso e se sentou na beirada da cama. Isso é inesperado, um sombra envolvendo duas pessoas assim e uma delas é o receptor da sombra. Interessante. Ela deitou na cama guardando as adagas e fechou os olhos, o melhor a fazer enquanto esperava era dormir.

Anúncios

Os Sem Sombras

9.1

 

 

Image
Somos quem queremos ser.

 

Bernardo estava correndo no campo e começou a jogar a bola para os lados. O corpo doía das horas de exercício físico. Tinha 15 anos agora e queria ficar com o corpo formado. Um garoto alto e loiro o gritou
– E aí cara? Joga a bola pra cá. – Bernardo chutou a bola com força e correu, fazendo o corpo pingar de suor. Depois ele parou e tomou um pouco de água enquanto passava uma toalha no rosto.
– Como vai cara?
– Ah, de boa, e você?
– Também. Ou, estamos querendo pedir a Rosa se ela deixa nós sairmos amanha, já que é sábado e as meninas vão estar livres. Quer ir com nós? Você sabe que a Clara está super afim de você né. – Bernardo passou água pelos cabelos cacheados.
– Ah cara, não sei, tenho que treinar o piano e depois vou visitar Alice. – O garoto loiro o olhou risonho.
– Tu é amarrado nessa Alice! Como ela está?
– Mesma coisa de sempre.
– Poxa, eu sinto muito cara. Mas pensa bem, a Alice não pode te beijar, já a Clarinha… Depois me dá um toque ou passa lá no meu quarto, beleza? Até mais. – O garoto loiro saiu correndo pelo campo até atravessar o outro extremo e sumir de vista. Bernardo pensou consigo mesmo, Alice e música eram importantes, mas ele também tinha que se divertir. Já era quase um homem adulto, tinha 15 anos, e não é todo dia que tinha 15 anos, e a bunda de Clara era uma maravilha. Ele colocou a toalha sobre os ombros e foi caminhando pelo campo. Já tinha um ano que Alice ficara assim, ele descobriu que inconscientemente a fizera ficar assim, depois queria descobrir o que o fizera fazer isso, mas Meire o ajudou a superar, disse que não era ele, o trauma estava o fazendo lembrar coisas que não existiam que Alice ficou assim por própria consequência genética, como o pai que teve um surto e morreu de overdose. No fundo Bernardo sabia que não era verdade, ele via homens Sem Facecada vez com mais frequência. Chegou até o banheiro masculino se despiu e ligou o chuveiro deixando a água fria cair no corpo encalorado. O cabelo caiu pelo pescoço liso e sedoso, depois ensaboou o tórax definido se demorando lá, os pensamentos o fizeram viajar. Agora pensava em Alice mais como uma irmã, passava tanto tempo cuidando dela que não pensava mais nela como nenhuma mulher de verdade, ele queria mulheres pra pegar e fazer outras coisas. Clara, por exemplo, ele poderia pegar espremer, beijar, abraçar. O corpo começou a ficar excitado e Bernardo parou de pensar nessas coisas e voltou ao banho, ele tinha uma visita pra fazer a Alice e não podia se atrasar, os horários estavam ficando regulados. 
Ele foi andando pela instituição e olhando as pessoas que passavam por ele, algumas garotas lhe olhava com admiração, ele devolvia o olhar e dava uma piscada. Uma garota foi correndo na direção dele e bateu nele com tudo.
-Desculpa – Ela murmurou sobre o ombro e continuou correndo. Garota estranha.
Ele bateu na porta com cuidado e entrou. Já era alto e ficou maior ainda perto da pequena Diana.
– Olá. – Ela lhe olhou e não sorriu, não sorria mais pra ele desde a crise que ele tivera quando vira o homem Sem Faceperto de Alice.
– Eu vim…
– Eu sei, pode se sentar, ela está ali. – Ela o interrompeu antes que ele dissesse algo, depois saiu do quarto e encostou a porta. Ele olhou Alice com os olhos ternos
– Oi gatinha. Achou que eu não viria? Eu não vim ontem porque treinei até tarde no piano e depois meu corpo clamava por exercício então eu fui bater uma bolinha. Quando eu percebi já era tarde e fui jogar game com os meninos. Aliás, você está linda. Não é pra menos né, olha só como hoje a sua pele está fresca. Ás vezes eu me pergunto o que você faz pra não ter espinhas. – Ela continuou impassível olhando pra qualquer lugar não importante.
– Então, lembra que eu te falei do Danilo? Pois é, ele me chamou amanhã pra sair com uma turminha. E tem uma garota lá e ela está afim de mim e… o que você acha? – Ela nada disse, uma coisa que já se tornara normal entre eles, ele fala e ela nada responde. Alice se tornara uma bela moça, saiu do lado criança e foi se encaminhando pro lado mulher. Os seios já estavam arredondados, o corpo esbelto, o cabelo comprido e a pele dourada lisa. Ele olhou pra ela e deu um sorriso triste. Depois beijou o rosto dela e se foi puxando a porta. Sabia que Diana estava do lado de fora fumando, foi lá e a chamou. Ela nada disse, passou por ela com cara feia e se foi.
Bernardo deitou na cama e ligou a TV, depois colocou numa série e foi ver, o telefone tocou e ele atendeu, era Danilo.
– Cara, você precisa ir! Luana me disse que Clara está louca por você e quer até perder a virgindade, e você já sabe…
– Como assim? Sério?
– Sério! – Bernardo deu um sorriso
-Estou dentro. – Se despediu e desligou. Algo dentro dele se mexeu, como se ele estivesse com fome, mas não uma fome normal ou uma fome dele. Uma voz há muito tempo adormecida disse
-Você não possui sombra. Ela mora dentro de você, e está com fome! – Bernardo deu um sorriso maligno que não era dele. Se deitou e voltou a olhar a TV que nada o interessava, mas apenas de pensar em Clara já o deixava satisfeito de um certo modo. 

Os Sem Sombras

7.2

 

 

– Acho que você não me odeia, eu que te odeio, sempre odiei você e esse sorriso perfeitinho, você e essa voz irritante! Você me ama Alice, sabe que me ama. Até me beijou. Idiota. E eu entrei pro mesmo clube da sua mãe e do seu pai “Odeio Alice, vamos a abandonar” e é isso que fazemos, o teu pai não aguentou e se entupiu de drogas. Oh, a pequena Alice está chorando? – O sorriso de Bernardo aumentou e a névoa começou a envolver mais e mais o corpo de Alice até que pele da dela criasse gotículas de suor no corpo magro. Os olhos pequenos e escuros estavam trêmulos e com lágrimas que caiam silenciosas pela face lisa. O corpo todo tremia. A boca pequena estava aberta em palavras não ditas, e a saliva caia pelos cantos como se a garota não a pudesse controlar. Na sua frente se via uma massa preta e esfumaçada envolta do garoto. O rosto com um sorriso demoníaco e os olhos semicerrados mostrando uma alegria macabra. Ele passava a língua comprida pelos lábios risonhos enquanto olhava a garota despendida
– Te odeio Alice, você é uma imbecil. – Ela começou a lutar baixinho na sua mente. Gemia e dizia coisas incoerentes. Ele estava gostando da reação e continuou a envolvendo na névoa preta e sombria. Ela jogou o braço contra a parede com força, se machucando instantaneamente e começou a inchar de forma drástica. Então um grito foi dado. Alto e agonizante, não condizia com a expressão vaga no rosto da garota. Ela caiu no chão em um silêncio perturbador e depois fechou os olhos. Assim que ela fechou os olhos à névoa voltou para a boca e nariz do garoto, que caiu no chão em um silêncio profundo, logo ele fechou os olhos e dormiu como um anjo.
– Não, Não, não! Eu não fiz isso! Não fiz – Uma voz começou a rir sarcasticamente.
-Você não possui sombra. Sabe por quê? Ela mora dentro de você! – a voz ela se foi o deixando sozinho no sonho.

 

Imagem
Do que adianta gritar quando não se há mais o que gritar ou quem escutar?

Ele se levantou da cama com o corpo encharcado de suor.
-Você não possui sombra. Sabe por quê? Ela mora dentro de você! – A voz ria-se na mente dele e gritava ecoando pelas paredes de seu corpo. Eu tenho sombra, ele dizia. Mas não sabia mais se sim. Eu não fiz isso, não fiz. Os olhos se encheram de lágrimas e ele não sabia como agir. Queria mais que tudo ver Alice, pra se certificar que não foi ele que o fizera, não foi. Ela era tão doce e risonha, e agora era apenas aquele corpo. Ele fora abandonado por ela, ele disse palavras horríveis, ele o fizera.
– Eu vou acabar com você sem face! Juro que vou, eu sei que foi você que fez isso. Eu sei. – Antes que ele se levantasse para mais um dia opressor a voz dentro de si ecoou sorrindo novamente.
-Você não possui sombra. Sabe por quê? Ela mora dentro de você! – E antes que ele se fosse para fora do quarto abriu a janela deixando a luz solar entrar, procurou a própria sombra por toda parte, mas ele não achou e o pior é que no fundo já sabia disso.
Eu te disse, não possui sombra! Ela mora dentro de você. – Novamente a voz risonha se fora o deixando preso no próprio medo.

 

Os Sem Sombras

Imagem
– Promete?
– Prometo! – Até quando?

                                                                     4.2


– Hey Bê me prometa que nunca vai me abandonar, mesmo se eu for adotada! – A menina o olhava de lado como se não se importasse com a resposta, esse era o escudo dela, se fazer de forte e sem emoções
. Ele segurou a mão pequena
-Eu prometo, quando nós crescermos vamos até casar! Eu te amo Alice! – Ela sorriu tímida e depois deu um soco nele.
-Só os fracos falam que amam seu bobo, eu já te ensinei! – então ela deu um rápido beijo na bochecha dele e saiu correndo e gritando
– Vem me pegar bundão! – Desde essa época ele sabia que ela também o amava.

-Bernardo? Está aí? Eu sei que está sendo difícil pra você, mas você dormiu de ontem pra hoje o dia todo querido, temos que ver se algo aconteceu. – Ele se levantou abruptamente e olhou a mulher negra sentada ao lado. Então pensou em Alice novamente, pensou nela quando fora cedo falar com ele pra a encontrar mais tarde. Depois tudo era um borrão branco. Igual aos que ele via ás vezes, dizia para Meire, mas ela falava que esses borrões brancos eram tudo da mente dele, criações do trauma.
Os olhos de Alice tremulavam, ela estava com a boca aberta, mas nada dizia… Depois ela jogou o braço na parede com força e gritou. O grito não condizendo com a expressão vaga e sem emoção.
Alice caída no chão envolto de uma névoa negra e esfumaçante.
-Eu… Eu estou lembrando, ela estava falando comigo e então viu algo, uma névoa preta, uma bola negra de ar e… E depois ela caiu no chão e eu também, a bola de ar preta envolvia nós dois, só que a bola não me machucava, mas ela fez Alice jogar o braço contra a parede e se machucar. Eu… Eu não lembro mais de nada. Minha cabeça está doendo…  – Ele parou de falar e colocou as mãos na cabeça, a dor estava forte e ele começou a gemer enquanto lágrimas saia, depois ele deu um grito e olhou desesperado para os lados, até que cerrou os olhos para que não visse a luz.
-Bernardo? Meu filho? – Meire o segurou e o apertou contra si, geralmente as seções eram doloridas, mas nunca houve dores de cabeça tão fortes. Ela o deitou na cama e se levantou num passo rápido, depois voltou com um comprimido e um copo de água. Bernardo os tomou e se levantou calmamente.
-Terminamos? – Ela o olhou preocupada tentando entender as peças do quebra-cabeça que apenas Bernardo poderia desvendar, e o olhar dele não dizia nada.
– Por hoje sim, mas sinto que algo ruim aconteceu Bê, a ultima vez que você relata névoas negras fora quando a sua mãe morreu. – Olhando pra porta ele viu um homem alto e todo branco, não usava roupas nem nada, o seu corpo branco e comprido não tinha face, o rosto era liso, sem nariz boca, olhos ou nada, apenas uma face lisa, o quarto ficou mais gelado o fazendo Bernardo se arrepiar de frio. E estranhamente ele o encarava se aquilo seria chamado de “olhar”. Depois ele se virou e foi embora levando o frio pra si. Bernardo olhou pra Meire, mas ela nada tinha visto, ou se viu nada falou, até porque ela olhava preocupada era na direção de Bernardo como se os seus olhos dissessem que as memorias bloqueadas lhe escondessem algo.  

Os Sem Sombras.

4.1

 

Imagem
Quando as lembranças se vão é melhor. Antes a escuridão que o fogo queimando a pele. Lágrimas não salvam.

Novamente ele acordou, não acreditava no que havia sonhado. A cabeça e o corpo todo doía, era uma sensação ruim. Ele tinha lágrimas nos olhos, elas caíram molhando o travesseiro.
-Olá Bernardo. – Ele escutou a voz já tão conhecida e continuou deitado. Não importava, queria ficar sozinho, nunca o deixava ficar sozinho. Sempre lhe diziam dos transtornos que ele, tinha sempre os remédios. Sempre. Ele nada respondeu, então ela prosseguiu falando.
– Você está melhor? – Novamente ele nada respondeu, ficou olhando o teto e o encarando. Queria engolir as lágrimas uma coisa que não conseguiria mesmo que tentasse.
– Bernardo, você tem que falar. Tem que me dizer o que houve! Tente se lembrar, eu já te disse que suas memórias estão aí, mas com o tempo você inconscientemente aprendeu as bloquear! Vamos querido! – Meire falava com sua voz suave de sempre, eles se conheciam a tanto tempo quanto era possível. Ele tinha 14 anos agora, mas a conheceu há sete anos quando ainda era um garotinho. Ela virara sua psicóloga desde então.
– Como Alice está? – Ele disse isso quase que para si mesmo. Ela não respondeu por um tempo, pegou a mão dele e apertou gentilmente.
– Estável fisicamente. Mas não há retorno no quadro clinico mental, ela irá ficar assim pelo resto da vida, eu sinto muito querido. – Ela apertou novamente a mão dele para dar apoio, ele a puxou e se virou de lado, ficou na posição fetal e chorou mais. Não conseguia se lembrar, não queria se lembrar!
– Tente se lembrar Bernardo, pense na cor que treinamos para poder ajudar a desbloquear memorias! – Quando ele era mais novo, depois do acidente com a sua mãe ele bloqueava as memorias ruins, quando no seu aniversário não ganhava abraços da sua mãe ele esquecia aquele dia completamente no outro e não se lembrava de nada, ou quando alguém brigava com ele, quando se machucava, quando tirava nota ruim. Tudo era bloqueado, mas ele e a doutora Meire trabalhavam juntos nesse processo de “desbloquear” as memorias, até conseguiram algumas técnicas, quando isso acontecia ele pensava numa cor, e ficava tentando se lembrar, no começo ele tinha apenas fleches curtos de lembranças, mas com o tempo os fleches foram aumentando, mesmo que ainda não conseguia se lembrar completamente das memorias bloqueadas. Então ele fechou os olhos e pensou em Alice, na risada dela, no jeito engraçado quando gargalhava, na vez em que os dois fugiram do instituto pra comprar chocolate escondido, na promessa que haviam feito quando eram crianças.

Os Sem Sombras

3.2

Imagem
Nessa galáxia chamada de mente os fracos se perdem e os loucos se consomem.

– O que houve? – ele se deitou e esfregou os olhos. Depois se levantou o corpo e o esticou como se houvesse estado em um sono profundo por muito tempo. Quando ele olhou pra porta alguém estava lá e o encarava, mas de repente se fora, era apenas um borrão branco difundido aos seus olhos pelo efeito pós-sono, assim ele pensara. Calçou o chinelo de tiras e caminhou até o longo corredor da instituição em que morava até chegar a grande sala que chamavam de “sala de estar” procurou Alice por toda parte, mas não a via em parte alguma. Até que achou uma das responsáveis que trabalhava lá, uma mulher baixinha e gorda de cabelos claros. Ele abriu um grande sorriso e foi até ela.
-Opa, por quanto tempo eu dormi? Você viu Alice? Ela queria falar algo comigo mais cedo, mas eu acabei caindo no sono. – A mulher o olhava intrigada e tristonha. Depois respirou fundo como se algo a incomodasse.
-Você dormiu o dia todo, não se lembra de nada? Alice está… – Antes que ela terminasse de falar apareceu uma enfermeira segurando o braço de uma garota e a encaminhando até um sofá. A garota era alta pra idade, tinha o cabelo curto e escuro, os olhos pequenos e castanhos amendoados que quando sorria ficavam tão escuros quanto a noite, mas isso não iria acontecer novamente, ela agora era um vegetal, o braço estava envolto numa tipoia dava-se pra ver o inchaço e o grande tom arroxeado e esverdeado . Algo corrompera a sua mente e a prendeu dentro de si própria. O garoto a olhou pra ela e arregalou os grandes olhos esverdeados, depois correu até onde ela havia se sentado com a enfermeira.
-Alice? Alice, fala comigo! – Os olhos dele agora estavam cheio de lágrimas e ele chamava o nome dela baixinho, como uma súplica. De nada adiantava, ela não reagia, não olhava pra ele, apenas tinha os olhos vagos para um ponto qualquer. Ele começou a chorar e então olhou intrigado e raivoso para enfermeira.
– O que aconteceu com ela? Hoje mais cedo ela estava… O que houve? Ela disse que queria falar comigo, acabei pegando no sono, não me lembro, é uma parte em branco… Me fala alguma coisa mulher! – Ele chorava e envolvia a mão suada e grande nas mãos finas e delicadas de Alice. Ela queria falar com ele mais cedo, ela mesma dissera. Os olhos dela estavam naquele tom escuro que apenas ficavam quando ela sorria, as bochechas rosadas ela até parecia tímida, coisa difícil de imaginar já que eles se conheciam desde a infância quando ambos foram pra mesma instituição depois de ficarem no mesmo quarto hospitalar quando ambos pais morreram, a mãe dele que dizem ter cometido suicídio e o pai dela que morrera de overdose, a mãe estava perdida no mundo… O que houve? Por que ela ficou assim? Não entendia. Então ele começou a correr por toda parte perguntando as pessoas o que tinha acontecido e ninguém respondia, apenas abaixava o olhar e continuava andando. Ele começara a ficar agitado e perturbado, foi até a mulher de cabelos claros que ele havia falado antes e a indagou.
– Me fala Rosa, o que aconteceu, por que ninguém quer me falar? Ela era a minha melhor amiga, ela é! Me diga alguma coisa! – Os olhos dela ficaram aguados e o canto da boca tremeu.
-Nós achamos vocês dois desmaiados no chão, ela estava… Estava gelada, pensávamos que algo de ruim tinha acontecido, até que ela acordou e… – então ela começou a chorar. Uma coisa rara já que todos a conheciam pelo seu jeito severo de cuidar das crianças. – Ela acordou e os olhos vagos, não falava nada, ela estava morta psicologicamente, o cérebro fora torrado por uma grande carga emocional, ou algo do tipo. Eu não sei explicar, a Dra. Meire que a examinou e ela virou um vegetal de uma hora pra outra. Achamos que você poderia nos explicar o que tinha acontecido, mas você não acordou e agora está tão desesperado, coitado! – ele começou a gritar alto e correu até Alice, a sacudiu enquanto chorava e gritava as palavras.
– Acorda! ACORDA! Acorda! Alice me escuta Alice! Eu… Preciso de você, não vai embora… Por que me abandonou? E a nossa promessa? Você falhou comigo! – Ele recomeçou a chorar e a falar baixinho, Alice não reagia. Os enfermeiros chegaram e pela segunda vez na vida o seguraram e o medicou com tranquilizantes, até que ele desmaiou calado com lágrimas no rosto mostrando a sua dor.

Os Sem Sombras

Imagem
Já pensou que o seu monstro está dentro de quem você ama? Nunca confie.

                                                                         3.1

A pele da menina tinha gotículas de suor no corpo magro. Os olhos pequenos e escuros estavam trêmulos. O corpo todo tremia. A boca pequena estava aberta em palavras não ditas, e a saliva caia pelos cantos como se a garota não a pudesse controlar. Na sua frente se via uma massa preta e esfumaçada envolta do garoto de doze anos. O rosto com um sorriso demoníaco e os olhos semicerrados mostrando uma alegria macabra. Ele passava a língua comprida pelos lábios risonhos enquanto olhava a garota despendida. Ela começou a lutar baixinho na sua mente. Gemia e dizia não. Ele estava gostando da reação e continuou a envolvendo na névoa preta e sombria. Ela jogou o braço contra a parede com força, ele machucou instantaneamente e começou a inchar de forma drástica. Então um grito foi dado. Alto e agonizante, não condizia com a expressão vaga no rosto da garota. Ela caiu no chão em um silêncio perturbador e depois fechou os olhos. Assim que ela fechou os olhos a névoa voltou para a boca e nariz do garoto, que caiu no chão em um silêncio profundo, logo ele fechou os olhos e dormiu como um anjo.

Quando o garoto acordou estava deitado no seu quarto, os pôsteres ornavam as paredes brancas e lisas, havia uma enorme janela de madeira branca onde a paisagem era um salgueiro grande e velho.

Os Sem Sombras.

1.2

Não se sabe quanto tempo ele ficou lá parado olhando o corpo ensanguentado e a expressão de horror nos olhos da mulher. Ele apenas chorava e balançava o corpo envolto de si mesmo. Cheio de sangue quando os paramédicos chegaram acharam que ele também estava ferido. Ele nada falava, estava num silencio absoluto com as lagrimas já secas pela dor. Nosso cérebro é perfeito, um sistemas quase nulo de falhas. Acontecem coisas nas nossas vidas das quais ficam guardadas dentro de nós e apenas nos lembramos num determinado tempo. Série de números, telefones, nome de pessoas, estados, tudo isso armazenado na nossa memória. O garoto encarou os olhos abertos e vidrados, clamando baixinho para que houvesse apenas uma piscada que seja que ela lhe olhasse por um momento. Mas não houve isso, não do jeito que ele queria, e quando ele acordou apenas se lembrava de um homem branco sem face e de uma enorme boca, o restante da memória estava armazenado e bloqueado no seu cérebro para quem sabe um dia vir a se revelar em lembranças tão sórdidas. A área foi cercada por policiais e peritos da área. Um psicólogo foi resignado para cuidar do garoto de cabelos encaracolados. As pessoas o chamaram de “anjinho” pelos cabelos escuros e de cachos grandes, pelos olhos grandes e esverdeados e pela pele clara e sardenta com as bochechas levemente rosadas. Ele ficou olhando aquilo tudo sem ver, não queria enxergar a mãe numa maca envolta num saco preto, não queria ver os médicos o espetando e fazendo doer. Só queria que tudo ficasse bem.
-Bernardo? Esse é o teu nome meu bem? Eu sou a Tia Meire – ele olhou com os grandes olhos para a mulher negra e gorda na sua frente, ela cheirava a doce. Ele não queria uma estranha, mas ela tinha um sorriso tão bonito que ele balançou a cabeça concordando.  Ela se sentou ao lado dele e passou a mão nos cabelos cacheados.
– Me conta o que houve com a sua mamãe. – ele a olhou novamente e virou para a parede branca. O hospital em que o levaram era frio.
– O bicho papão a machucou e a matou, eu vi. Ele era uma pelota negra e de ar. – A vozinha saiu quase como um sussurro, ele estava com medo e olhava para todos os lados. A mulher o encarou.
– E esse bicho papão, era um homem? – Ele a olhou novamente irritado, já havia dito como ele era.
– Não, eu já disse que ele era uma pelota negra de ar. De ar! – Ela sorriu gentilmente novamente e pegou na mãozinha fria e pequena fazendo ter um grande contraste entre os dois. Ele queria a abraçar, ela parecia tão carinhosa. Mas ele não queria mostrar que estava com medo, sua mãe dizia que ele era um mocinho, e mocinhos não choram e não abraçam estranhas, mesmo que elas cheiram bem!
Depois ela fez mais algumas perguntas e o deixou no quarto com a porta meio fechada, ele não queria fica no escuro e nem sozinho, por isso colocaram ele no mesmo quarto de uma garotinha de cabelos escuros e magricela. Ela estava dormindo profundamente então ele resolveu fazer o mesmo, o dia foi ruim, e ele não queria acreditar na mãe morta, por isso deram remédio pra ele e então o sono veio.

Imagem
Ás vezes aprendemos cedo de mais que a morte nos rodeia, e o que podemos fazer é simplesmente a seguir, ou é você ou ela. E nesse jogo, antes ela que você.

 

Os Sem sombras.

Imagem
Não habitam somente no escuro, habitam dentro de nós.


1.1

Dez anos atrás

O garotinho de cabelos escuros e de grandes cachos estava debaixo da cama chorando sem fazer qualquer tipo de ruído. Os grandes olhos esverdeados estavam arregalados cheios de lágrimas fazendo que o rosto sardento parecesse mais rosado que o normal. Ele não queria sequer respirar. Tinha tanto medo que não sabia o que fazer. Se levantasse o homem mal o machucaria muito, foi isso que sua mãe disse. Pra ficar quietinho até que ela viesse. Mas ela não veio.
Quando ele pensou nisso ela entrou no quarto desesperada e fechou a porta, o vestido rosa e longo estava colado ao corpo tremulo. Ela não olhava para os lados, apenas segurava a porta com o corpo. Havia várias marcas de sangue no rosto. Ela começou a gritar desesperadamente, o corpo agitava, mas não havia nada perto dela. Não. Olha, havia sim. Uma sombra negra, em forma de bola e esvoaçante estava envolta do corpo frágil de sua mãe. Ela gritava e esperneava, mas nada adiantava. Ela parou de se mexer então do nada voltou a se mexer, seu rosto tinha coisas que o garotinho ainda não havia visto, terror, medo, pavor, revolta, desespero. Os olhos estava esbugalhados no rosto comprido de sua mãe. A boca estava aberta soltando tanta saliva que se juntava no canto da boca formando uma gosma branca. Ela começou a espernear e a bater o corpo contra a parede. O coração do menino parecia saltar pela boca. Ela jogou o braço com tanta força que o osso saiu deixando o sangue correr livremente. Ela fez isso com todo o corpo. Gritava e não parava mais. Ele queria sair de lá e ajuda-la mais o que ele poderia fazer? O bicho mau o mataria. A mãe então começou a se morder e a tirar os pedaços da pele pálida. Por que está fazendo isso mamãe? O garoto se perguntava, mas não obtinha resposta. A massa negra foi aumentando o tamanho enquanto a mãe gritava em pânico e se jogava em todo lugar que pudesse se ferir. Até que ela se desesperou de tal forma que começou a jogar a cabeça contra a parede com tanta força que foi rachando e voando sangue para todos os lados. Ela jogou até que caiu no chão com os olhos esbugalhados e a boca aberta em um grito silenciado pela morte. A massa negra fora embora, então o garotinho pode chorar alto e correr para sua mãe morta numa esperança de criança inocente.

Os sem sombras.

Imagem
Até monstros são bebês quando nascem.

Projeto, não terminado, não tendo período para ser terminado ou conclusão para o terminar. Algo que aconteceu, talvez tenha passado, talvez não. Afinal, todos nós temos sombras. Irei postar por partes.

Prefácio

 

 

Dizem que quando crescemos esse tipo de coisa não interfere nas nossas vidas, o modo como vemos as coisas. Que podemos ser adultos normais, mas quem diz isso não sofreu esse tipo de experiência, não sofreu esse tipo de terror, apenas quem lida com isso todo dia sabe o quanto é difícil, e também é melhor pra você não entender. Mesmo que eles estejam por todas as partes te sugando sem que você saiba, quando isso acontecer é melhor que você seja um bom musico ou saiba como usar a luz na sua vida, de um modo literal, claro.