Dia produtivo.

Deixei que a tarde.
Vagando num tempo.
Me desse sossego.
Assistindo o filme.
E no final do dia.
Diria.
“Ai, que preguiça”

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Não deixe que a preguiça seja maior que a vontade.

Tem pessoas que gostam de assistir novela, tem pessoas que gostam de filmes. Tem os que vão ao teatro. E tem Marcelo. Ele assistia Leticia, atriz da vida no décimo andar. Ele morava ao apartamento do prédio á frente, décimo segundo. Sabia da vida dela o suficiente. Acordava ás Seis horas, voltava ás Treze horas, depois voltava ás Dezoito horas novamente, então fica em casa e geralmente não saia mais.
Era alta, magra, tinha os cabelos muito curtos, a pele morenada, olhos profundos e entre o mel e o verde, uma mulher muito bonita, mas não ligava tanto para a beleza.
Hoje, sexta-feira, ela se levantou, abriu a janela e esticou o corpo para a vista de fora ornada de carros, prédios, pessoas, casas e comércio. Marcelo trabalhava em casa, mexia com computadores, era um pouco caseiro, até muito, talvez.
A mulher, cujo nome havia descoberto em certa ocasião que passava perto dela e escutou uma senhora a chamando e sorrindo. Pura sorte, diz ele.
Leticia saiu do quarto, e Marcelo aproveitou a oportunidade de pegar café, ele havia parado com o cigarro, sua bica ficava seca de vontade de dar um trago, paciência.
Leticia voltou, hoje ela estava pensativa. O amor platônico ainda hoje existia, desses que o coração se aperta ao ver a quem se ama. É concreto? Só o amante o pode saber, só ele quem sofre grande dor.
Ela fumou um cigarro, por um momento Marcelo achou poder sentir o cheiro, o sabor. Por um momento apenas. Três anos a conhecia de longe, amor a primeira vista, mas Marcelo era covarde, fraco, se escondia atrás de uma janela, uma desculpa esfarrapada. Leticia ás vezes o olhava, de longe ela sabia que era admirada, não se importava, se coração estava vazio.
Marcelo a olhou uma última vez antes que se fosse, o barulho do trânsito estava alto, as pessoas falando, tudo se juntou numa massa de som subindo até o andar dele. Assim que Leticia desceu as escadas o sinal fechou, por um momento quase inexistente tudo se silenciou, Marcelo tomou um pouco de café, olhou um carro de longe. Três longos anos amando daquela forma, como um telespetador com sua musa ao longe ficava a observando.
“Coragem homem, ela não irá cair de paraquedas na sua janela”, mas palavras vazias não movem montanhas, ou ao menos homens covardes.
O carro virou uma esquina e quase atropelou Leticia, ela caiu no chão e se arranhou, o coração de Marcelo parou, será que veria aquela a quem amou de longe morrer? Será que seria covarde ao ponto de não se mover? Marcelo deixou o café de lado, se levantou e se foi, correu escada abaixo, sumiu na esquina que dava para a onde Leticia havia caído.
Talvez, por um momento o medo de a perder foi maior que seus medos, talvez ele foi até ela, talvez. Existem tantos talvez que as pessoas se esquecem de viver e ver se serão concretos. Talvez seja apenas medo, mas medo não é desculpa para não viver. Até crianças crescem e perdem o medo de escuro. Claro, nem todas.