Confissão de um morto que sussurra nas mentes dos loucos.

Você corou? 
Quando eu a beijei a força. 
Você chorou? 
Quando eu bati no teu rosto. 
Você pecou? 
Quando eu entrei em ti. 
Você me amou? 
Quando eu fugi. 
Você me procurou. 
Junto com um filho na barriga. 

 

Eu disse que iria rasgar o teu útero. 
Eu disse que iria te cortar. 
Você sorriu. 
Sorriu quando eu comecei gritar. 
Me chamou de coisa ruim, o nome que não citamos. 
Me agrediu com tuas palavras podres. 
Você não chorou? 
Quando eu te chutei com meu terror. 
Você não correu?
Não teve medo? 
Eu não o faria se o tivesse. 
Por que não me temeu? 
Por que morreu? 
Agora terei que criar esse filho, que nem é meu. 
Você se foi? 
Se cobriu no manto eterno da terra escura. 
Sorrindo, sorrindo com teu sorriso maligno. 
Acabou com tudo que era meu. 
Ele não chorou quando eu a mostrei.
Morta por mim.
Morta por mim. 
Morta por mim. 
Ele morreu.
Morreu por ti, jogado podre no banheiro. 
E eu, eu ainda estou aqui. 
Você corou? 
Quando eu nunca a amei. 

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– Não sou louca. Não sou louca. Não sou louca.
Sou doente de alma. Sou doente de louca.
Será que nos faz diferente ser quem somos quando vocês mentem?
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Doutores espelhos, não os escute para conselhos.

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Dentro de mim reflete.
Dentro de mim reflete nos meus olhos.
Dentro de mim grita.
Dentro de mim grita pra fora.
Mas fora, realmente fora estou calada.
Estou com a cabeça erguida,
enquanto aqui dentro se abaixa e chora.
Dentro de mim brilha,
Dentro de mim brilha virtudes.
Aqui fora se apaga,
Aqui fora se apaga minhas mentiras.
Não tenho fronteiras quanta beleza.
Não tenho, não tenho.
Dentro de mim transborda,
Dentro de mim transborda riqueza.

 – Você já tentou mudar o corpo? Academia?
– Ah, mas isso iria realmente mudar aqui? – Ela coloca a mão no peito.
– Claro, iria, te deixaria mais confiante.
– Eu tenho confiança.
– Então por que está aqui?
– Por que todo mundo precisa de alguém pra conversar.
– Todo mundo?
– Eu.
– Tentou mudar o corte do cabelo?
– O que isso mudaria?
– Te deixaria mais bonita.
– Para quem?
– Para as pessoas, pessoas gostam de ver beleza.
– Já sou bonita.
– Hum.
– Aqui e aqui. – Ela aponta o coração e a cabeça.
– Pode ser mais.
– O que estou fazendo aqui?
– Pegando uma opinião.
– Mas você está apenas piorando.
– Estou dizendo a verdade, olha pra você. É feia, gorda…
– Não para umas pessoas.
– Sua mãe?
– Cale-se.
– Ninguém vai se interessar pelo seu interior se não gostar do seu exterior.
– Não quero ninguém.
– Quer. – Ela chora.
– Não preciso. – O espelho a olha, com as mesmas lágrimas, com o mesmo corpo, com o mesmo rosto. Mas ainda sim, ainda sim parece sorrir, debochar-se dela.
Ainda que as duas chorem, ele está lá, lhe dizendo palavras tão cruéis. Cortantes quanto laminas samurais.
Todos precisam. – Ela se virou, olhou a privada e vomitou. Quanto tempo será que o conteúdo de dentro demora a também se entornar para fora dela?  

Uma mulher inocente num mundo incoerente.

“Há escuridão em toda parte, em mim há algo maior, uma escuridão que escondo até mesmo do espelho, onde meu reflexo denota minha natureza. Ah, se não me vejo, se me perco em meus sonhos. Em meus cabelos há teias de aranha, cujas pernas peludas são feitas de impurezas. Mas e a luz? A luz também sou eu, a luz está em meu olhar mentiroso, enganador, alimento um animal irracional que me faz ser santa-pureza. Rainha cujo cetro é virado apenas para cima, onde meus lábios profanam liberdade, paz, vida e perfeição. Mas o maior terror de todos esconde entre meus seios. A dor, quero que todos sumam. Oh, porquê isso comigo? Por que não poderia ser bondosa? Fingir me sufoca, tentar parecer que sou boa me enoja. Enoja! Eu quero mais que tudo se esvaíra por entre minhas entranhas. Morram humanos, morram demônios, morram seres, morram monstros. O mundo é de meus filhos, meus filhos que nasceram de mim, meus filhos imperfeitos. Terei o que querei, o mundo será meu, através do meu véu mentiroso, mostrando luz onde não há luz. Serei rainha eterna.”

 

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Me diz, o que você vê?

As mulheres carmesim.

– Fique quietinha. Is-s-so – ele passou o batom vermelho nos lábios da mulher, ela tremia e chorava. – Olha como está linda! Minha m-m-mãe sentiria orgulho de mim. Haha!
 A mulher amarrada vestia um conjunto vermelho carmesim, o cabelo havia sido penteado e preso.
– Me solta, por favor, eu prometo fazer um bolo, como sua mãe fazia!
– N-n-não! M-m-minha m-mãe fazia um bolo úni-c-co!
– Mas eu também, olha só – Ela o olhava e sorria, mostrando os dentes sujos de batom. – Eu farei do sabor que quiser. E também farei um suco, ou leite. Ou até café. – A voz desesperada.
Ele passou a mão suada no rosto maquiado dela.
– N-não! E-eu já disse que n-n-não. – Ela começou a tremer, as amarras a estava cortando os punhos e saindo sangue.
– Eu preciso ir ao banheiro – Ele a olhou com um olhar doentio e pegou uma espécie de “Pinico”. Depois a entregou.
– P-pronto.
– Papel? – Ele jogou um rolo de papel higiênico pra ela. – Mas como vou me limpar? Precisa me soltar.
– E-e-eu te limpo. – Ele riu mostrando os dentes estufados. O quarto fedia a mofo, uma cama grande e rosa, na parede havia vários retratos de uma mulher jovem e bonita, o rosto mostrava uma cicatriz que a deixava grotesca os lábios numa linha fina denotava amargura. A janela era pequena e no alto, a luz que entrava do exterior era pouca, fazendo o quarto ficar meio escuro, tinha cheiro de gordura velha, cigarros e algo mais, como coisas em decomposição. Numa espécie de cômoda havia várias fotos de mulheres amordaçadas. Uma, duas, três… Nove mulheres, todas vestindo um conjunto vermelho carmesim e maquiadas de uma forma grotesca. Em uma havia uma enorme ferida no rosto, como se imitasse as fotos da parede, mas o rosto estava tão pálido que parecia que a qualquer momento ela fosse entrar em óbito.  As outras choravam, uma parecia já ter se acostumado com o destino eminente.
– V-v-você me a-a-ama?
– Eu te amo meu bem, claro que te amo! – Ela chorava mais, mas apesar das lágrimas um sorriso pairava nos lábios. Assustador.
O homem se levantou, olhou para ela com os olhos caídos, os dentes estufados para fora dos lábios finos, a cicatriz profunda no queixo, nos braços, e pescoço.
Ele sorriu pra ela.
– M-mas você n-n-não é minha mãe. Só m-m-minha m-m-mãe me amav-v-va! – Ele a beijou, depois passou novamente a mão suada no cabelo da mulher e pegou uma máquina, tirou uma foto.
Ela olhava para todos os lugares, para a parede com a mulher amarga, outrora bonita. Para a cômoda com as mulheres como ela.
Olhou para as pernas feridas, para o homem na sua frente que mais parecia um garotinho retardado.
Olhou para dentro de si, com a dor no coração por ter tido uma vida amarga, o filho que nunca mais veria, não porque morreria ali, mas por ter o jogado fora, por tê-lo deixado para trás quando saiu do hospital. Pela mãe morta, a quem ela magoou muito, a abandonou na sua doença e velhice. Para o pai ausente que morreu quando ainda era menina. Olhou para ela mesma quando magoou o único homem a quem ela amou. Olhou para tanta coisa, mas não deu pra olhar nada. O homem já jogava um líquido forte nela, já sorria para ela com os dentes estufados. Depois ele jogou um fosforo aceso, ela gritou alto. O ultimo grito de amargura antes dos outros gritos de dor.
Queimava, doía, ela olhou para si e não viu o que queria ver.
– V-v-você não é minha mãe! – Ele gritou enquanto chorava. A mulher não chorava, o fogo havia consumido suas lágrimas.
O homem a olhou, não via ali uma mulher, via sua mãe. A mesma mãe que o machucou. A mesma que foi má com ele. “ainda dói”. Agora a mulher não parecia a mesma de antes. Parecia sua mãe, sua mãe que estava queimando no fogo do inferno.

Nós, a Vida, os que Se Escondem dentro do Nada.

Medo é algo tão relativo quanto gosto, sabor, cheiro. Medo é algo que entra nas entranhas do corpo e o paralisa.
Ali, no meio do nada, no escuro, no claro. Nas sombras da vida, o medo aparece.
Não é arrancar as vísceras e as comer, não é pensar que um homem com uma motosserra irá entrar no teu quarto e a arrancar as pernas, não é pensar que enquanto você dorme um íncubo irá te estuprar e você terá um filho demônio. É pior, é além, é real.

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1 – As palavras se formavam quase como se houvesse vida dentro dela. Mas não havia, não havia nada.
2 – Ela era sombra de si mesma, até que se perdeu naquilo que dizia ser. O correto se tornou concreto, mesmo que ela não sabia “ser”.
3 – “Na cama me deito, no tempo me consolo. Viver, viver, o que é?”.
4 – Nos corredores da vida, só quem não teme a própria covardia entra em porta fechada.

 

Uma mulher, cujo principio estava em ser correta, direita e honesta. Criada em um pilar forte ela se tornou adulta, com princípios. Ao menos era o que ela achava. Qual a definição de ser correta? As pessoas não sabem, não entendem, pensam que sim, são os que acham que entendem a verdade, que está para além disso, além da nossa compreensão, meros servos inúteis.
Ela tinha uma rotina, e a Mulher não fazia nada do que se chamava de extravagancia.
Não existe certo meio para pessoas serem escolhidas, elas não têm de ser especiais, anormais. Precisam apenas ser ali, destinadas ao acaso. Não importa o onde o por que. O quando estava sobre as asas do acaso.

A mulher estava deitada, eu sentia a sua pulsação, sentia seu ressonar, sentia o sangue correndo em suas veias, sentia o bater do seu coração, que aos meus ouvidos eram cântico suave.
Ela tinha os olhos redondos, de uma forma engraçada, mas não deixavam de serem belos. Não, ela não é dessas mulheres lindas, da pele suave, alva e macia. Ela tinha a pele parda, o cabelo muito liso e curto, os olhos grandes eram fundos de uma forma triste, os lábios eram carnudos, mas os tipos de lábios carnudos que não fazem diferença em uma mulher de olhos caídos e tristes. Ela escutou o despertador e o desligou com tédio até no piscar. Ficou olhando o teto branco, o quarto estava fechado, deixava o sol entrar pelas frestas da janela. A cama com lençol branco, uma colcha amarela com flores, ela se esticou, não tinha vontade de levantar. Não tinha vontade de sair dali. Eu senti o seu pensamento, o senti como um vento entrando em contato com o meu.
Senti-a me olhando. Mas eu percebi, não era a mim que olhava, era o quadro. Nunca entenderia aquele quadro, estava ali há tanto tempo quanto o apartamento estava erguido sobre a terra já infértil.
Ela o olhou com os olhos tristes, olhos que não se transformou em nostalgia, em alegria, em amor, dor. Apenas olhos tristes. O tipo de olhar que não denota se a alma está cheia ou vazia, o tipo de olhar que mostra o que a pessoa vê dentro de si. Como se ela olhasse as paredes de seu coração e já estivesse acostumada com o que enxergava. Vazio, mas não é o vazio da árvore que está no outono nua esperando a próxima estação e a próxima, até que o fruto germine. É o tipo de vazio que você tem quando algo é rasgado e não pode ser colado, o tipo de vazio permanente. Não se reconstitui, se regenera, se forma, se nasce. Morreu, sumiu, acabou.
Eu estava tão absorvido no nada, nos olhos vazios, na cama ainda quente que não a percebi se levantando, passou por mim como fumaça, passou por mim e não me sentiu. Normal, eu não estava ali. Não fazia parte daquilo. Eu sou a sombra, sou o leitor, sou o telespectador de um filme que está na minha cabeça.
A mulher foi até o banheiro, fez o que tinha de fazer e voltou, estava nua, no corpo magro, pálido, branco se podia ver os pelos triangular. Ela olhou para o espelho grande como se o que via fosse nada, não gostou daquele corpo.
– Se devolve – Ela sussurrou, eu juro que por um momento eu pude ver cada palavra saindo daqueles lábios e flutuando na minha frente, eu pude ver o ar se transformando e subindo para o céu como um vapor. Novamente me perdi em meus pensamentos e ela já havia se vestido. A roupa tão morta quanto ela. Um vestido longo, cinza, sem corte, sem caimento, sapatos preto, bolsa preta.
Ela olhou para a cama com pesar, os olhos tristes dizendo que aquilo era vida, que aquilo era ela e não lá fora. A janela nem fora aberta, é como se o ar que ali entrasse pudesse desfazer o calor da coberta, como se parte dela morresse. Esse foi o seu pensamento, mas não bem assim, eu disse só o que entendi. Para mim, que estou de fora, estou dentro não é algo a transformar, os resquícios às vezes embaçado pela parede invisível.
Ela fechou a porta e se foi. Eu a segui. A segui pelo corredor estreito sem fotos. A segui pela cozinha pequena, ela colocou a bolsa na mesa, como se ali fosse estranha, abriu a geladeira, vazia, sem quase nada. Pegou o que pareceu um iogurte e o abriu, parecia com nojo.
O tomou em silencio, sem degustar, depois jogou fora o copo, pegou uma bandeja com algo dentro, biscoito.
Mastigou como se tivesse comido tanto que já não aguentava. Jogou metade fora. Aguou uma planta morta. Pegou a bolsa e se foi. Continuei a seguindo. Sabe quando você vê um filme e grita para que o personagem idiota não faça aquilo? Para que a garota tonta, quando for correr do bandido não caia e ela sempre cai? Porque filme de terror e suspense sem um personagem em uma perseguição se jogar no chão não é filme de terror ou suspense.
Eu queria gritar “Viva mulher, viva”, mas eu sou sua sombra, sou o nada, sou o que narra, o que vê e não pode interferir. Ás vezes me dói, mas é tanto tempo olhando de longe que me acostumei a não sofrer. Eu também tenho sentimentos. Engraçado, não?

Ela entrou num carro pequeno, com um cheiro estranho de tecido velho, foi o guiando pelas ruas. O seu pensamento não tinha nada, conexões, ponte, preocupação. Uma mulher direita. Eu sentei ao lado dela, não sentando ao lado dela, meu corpo não é matéria, não é nada.
Ela parou num semáforo e olhou um menino pequeno, barrigudinho, magro e preto.
– Tia me dá uma moeda – Ela o olhou com os olhos tristes, o menino sorria mostrando dentes novos já amarelados e estragados.
– Não tenho.
– Mentira, eu tô vendo as moeda ali ó. – E apontou com o dedo ossudo para o consolo do carro.
– Tudo bem. Eu tenho, não quero te dar. – A voz saiu um abafo diante tanta abertura do mundo. O sinal abriu, ela foi acelerando, e antes de sair de perto dele jogou uma moeda.
Não sorriu. Quanta pobreza, quanto nojo. Esse o pensamento dela, nada de mais, geralmente pensamentos assim te levam a África, favelas, fome, governo, miséria, sorte, azar. Ela não pensou em nada, uma extensão de vazio.
Continuei a observando. O dia seria enfadonho.

Dezenove horas. Ela chegou a casa, não tirou os sapatos, ou jogou a bolsa de lado, ou esticou o corpo.
Ela foi até o quarto, e então guardou os sapatos, pendurou a bolsa, tirou a roupa.
Depois tomou um banho, voltou com o cabelo molhado. Parou de frente o quadro e o olhou. Os olhos tristes foram para além do quadro, dessa vez pararam em algum pensamento dentro dela. Ela fechou os olhos, suspirou como se o vento pudesse levar fora as lembranças.
Ela não comia muito. Uma humana sem hábitos estranhos, não comia não por vaidade, não por isso, não comia por não comer. Mas algo dentro dela se mexeu, e isso soou como fome. Ela se arrastou para dentro de uma camisola azul e foi para a cozinha. Lá pegou uma panela, colocou água e deixou ferver, despejou o macarrão instantâneo, assim que pronto jogou o tempero, colocou numa vasilha e comeu, ali mesmo, na cozinha, olhando para o nada, como se mastigasse jornal velho.
Terminou, lavou a louça. Foi para o quarto novamente, se trancou no banheiro, fez o que tinha de fazer.
Quando voltou, parte dos lábios molhados com resquícios de creme dental, ela os enxugou numa toalha vermelha pendurada num cabideiro. Depois se enfiou na cama.
Assim que fecharam os olhos ela apagou. Minha deixa. Entrei.
Dentro dela era escuro, o vazio eu já sabia apenas de olhar. Eu sou o que sente, o que vê de longe, assisto. Eu iria dormir, e dormir dentro de humanos era o melhor. Nos torna temporariamente parte dele. Eu já a conhecia há tanto tempo quanto passível, somos hospedeiros. Olhamos, vigiamos, compartilhamos de longe, e quando estamos forte suficientes nós então entramos e dormimos.
Ela ressonava, não havia sonhos, esperanças, fantasias, apenas o escuro e no escuro eu me deitei.
Ela se mexeu, se levantou. Fui levantado bruscamente, mas não para fora dela, eu ainda estava lá dentro, mas quando ela levantou me sacudiu e me fez acordar. Dos olhos tristes eu vi o lado de fora, o quarto, pelos olhos dela. Ali tudo escuro ela se levantou, foi no banheiro, acendeu a luz. Sentou-se na privada e desceu a calcinha. A urina sai de dentro dela. Ela se limpou, levantou e deu descarga. Lavou as mãos pequenas e magras, sem se olhar no espelho.
Quando ela se voltou para desligar a luz ela viu algo. Não sei, não vi. Aqui de dentro é complicado, vemos o que eles veem quando vemos. E ela não disse nada, mas o coração estava tão disparado que me apertava no canto, ele bombardeava rápido o sangue de forma que parecia maratona pelas veias. E se o corpo dela falasse estariam todos loucos, os glóbulos brancos e vermelhos, correndo agitados. Ela, por outro lado, na superfície estava impassível, desligou a luz e voltou para a cama. Eu fiquei tão apertado no coração disparado que já não conseguia sair dali.
Ela se deitou na cama, as cobertas ainda preservando o quente dela. Ela fechou os olhos, mas o coração desmentia a calma superficial.
Eu senti, juro que estava ali, naquele momento tão conectado que senti daqueles olhos tristes medo. Ela os fechou e começou a cantarolar dentro de si uma canção da qual nunca a vi cantarolar. Eu me acalmei, só então percebi que havia crescido dentro dela e compartilhado o coração palpitante.
Com a canção nos acalmamos. Eu fechei meus próprios olhos, o que chama de olhos. Ela voltou a dormir, não sabíamos a hora do momento, mas julgamos ser umas 02h00min, dado que ela dormiu as 20h00min.
O sono me esquentou e eu esqueci o momento estranho na qual a mulher passou.
Um dois, um dois, um dois. Acordei com isso na cabeça, mas me lembrei, não era a minha cabeça. O que leva a pessoa ter medo? Eu observava essa mulher tempo de mais para saber que ela não tinha medo de escuro, ou de gente, ou de bicho.
Eu estremeci, sentia frio em toda parte, me aconcheguei mais ao coração dela, mas ela novamente estava com ele disparado, correndo uma maratona imaginaria. O que há com ela?
Ela encarava ao quadro, mas não ao quadro. Ela nunca havia feito isso. Tentei espionar pelos olhos dela, mas estava tudo tão escuro que eu não podia ver. Tudo tão distante que eu não podia sentir, ali era apenas o medo.
Mas medo de que? Essa era minha pergunta. Ainda é, na verdade.
Ela começou a cantarolar alto. Como se a música que saia dos seus lábios, formasse palavras no ar, deixando o vapor subir ao céu fosse mandar embora qualquer que seja o pesadelo.
Ela tentou voltar a dormir, mas o corpo todo compartilhava daquilo que o coração bombardeava. Ela pensou alto, tão alto que eu escutei. Está me vigiando.
Eu tentei ver o que era, mas não enxergava nada. Talvez, talvez se eu saísse de dentro dela. Mas parecia que ela havia me sentido, ao menos o corpo, eu fiquei sendo segurado com tanta força que não pensei que ela, aquela mulher fosse capaz.
Um dois, um dois, um dois. Eu escutei alto, até que ela se levantou, acendeu a luz do quarto, do banheiro. Correu para o corredor acendeu a luz, da cozinha, da sala.
Nunca vi a casa tão iluminada, parecia que ali dentro havia caído um cisco de estrela do céu, meus olhos, os dela doeram com a recém-luz-viva.
Ela olhava para os lados, com os olhos grandes e profundos ainda sentindo medo. Não estavam mais tristes, não tinham mais nada dentro.
– Não sou especial. Não sou especial – e a voz dela soou tão forte, tão diferente dos sussurros. Ela me mostrou ser forte, por fora, eu estava dentro. Onde as imagens foram passando. Meu corpo se arrepiou, eu já estava tão conectado quanto possível. É perigoso se conectar com um humano, assim como com um personagem de filme, quando ele morre você sente todas as dores, talvez morra junto.

Ela olhou para certo lugar, como se alguém ali a olhasse. Correu até o quarto e abriu a janela. Outro pasmo, a janela nunca era aberta. O vento entrou no quarto como se houvesse sido reprimido por ela. Como se até então ele não ocupasse um pequeno espaço da terra, um espaço no vácuo, sem vida.
Ela ficou de frente a janela sentindo o vento bater nos cabelos muito lisos e curtos. Os olhos tristes ainda olhavam para o nada, até que se voltou para o quadro, mas não o quadro.
O que quer que esteja lá não era agradável, dos olhos da mulher vazia começou a brotar lágrimas, ela caiu no chão abraçada a si mesma. Nos balançava para frente e para trás, fui jogado para a parede de seu pulmão onde o ar havia sido reprimido.
Ela olhou aquilo que a olhava, ele a observava aonde ela ia. Já se sentiu observado? Já ficou sozinho em casa e sentiu como se alguém o visse violar algo? Já sentiu que os teus passos eram contatos em voz baixa por alguém? Era assim que a Mulher se sentia. Ela tinha os ossos encolhidos de tanto medo. Uma mulher forte, fraca, ou nada reduzida a nada. O nada diferente do nada, é o nada que não pode voltar ser preenchido.
A conexão entre nós aumentou ao ponto de eu ver o que ela via. E daqueles olhos grandes, redondos, profundos e tristes eu vi um ser. O ser era desfigurado, o ser tinha parte do rosto rasgado, o mal circulava dentro de si, a dor, a maldade. O ser parecia ter a pele em brasas, quando o vermelho do fodo fica dançando no preto carvão, o único olho do ser era vivo de tal forma que chegava a ser belo, mas do belo não era agradável.
Ela começou a tremer, foi para a cama, onde era algo como fortaleza. O ser que tinha apenas um olho, os lábios pareciam gritar eternamente em dor.
Ele começou a rir alto, a risada tinha um som oco.
Ecoou por nossas paredes do corpo, ecoou em nós.
– Está vendo Mulher? – Eu perguntei. Ela me respondeu num sim mudo. Mas não pra mim, pra ela, como se eu fosse a consciência dela.  
O ser monstro a fez ver além, eu não vi o que ela viu, o coração bateu tão rápido, mas tão rápido que fiquei preso entre uma pulsação e outra. Os olhos vazios se voltaram para o quadro, os olhos tristes olharam o quadro. Além dele. Além de nós. O ser não era nada. O ser mostrou ali pra ela no quadro tudo aquilo que não era. O ser entrou em nós. Me senti invadido, a humana era minha. Mas ele me olhou e nada disse. Sorriu com sua boca rasgada. Tocou o coração da mulher vazia até que ela já não o sentisse mais. O nosso coração. A mulher vazia pegou o quadro, o tirou da parede revelando ali uma camada grossa de poeira e tempo. Com o quadro na mão o vento nos saudou, assim que chegamos naquela janela. Ela olhou para baixo, olhou para o prédio, olhou para além. Olhou para a vida como se fosse o quadro na parede, como se o observasse de longe. A dor que sentiu nos olhos, a dor que sentiu no útero, a dor que sentiu no pulmão, estomago, lábios. Cada dor representava algo. Os lábios pela falta de beijos, os olhos pela falta do belo a se ver, o estomago pela falta de comida, o pulmão pela falta de ar puro recebido, o útero pela falta de filho germinado, a pele pela falta de afago. Tudo doeu, mas nada se doeu tanto quanto a alma. Ela se rasgou em duas, até que o ser monstro se foi. E quando se foi à mulher que não tinha nada tinha tudo, e o tudo a consumiu, e o tudo a fez viver, e viver a fez gritar. Então, com o quadro nas mãos, com o tudo no peito, e eu dentro de si ela pulou. Foi para os braços da terra seca e infértil. E ali, naquele pequeno espaço de terra, o único talvez, ela espatifou, o quadro ficou ao lado do corpo vazio sem vida, a terra seca foi molhada pelo sangue quente. E os olhos tristes abertos da mulher continuou numa eterna lembrança daquilo que ela se privou, daquilo que ela não conseguia aguentar. Um novo quadro foi pintado e reposto na parede do apartamento, como se dali nunca houvesse saído, onde tinha um ser dentro dele, um ser monstro, um ser vida, um ser que esperava pela próxima pessoa a não ter nada. E com ela, com o vazio, com o tudo eu morri. 

Os clones do homem que não sabia amar.

Naqueles braços foi que ela deu o ultimo suspiro. Onde ela olhou para ele e sorriu. Nunca iria existir mulher mais doce como ela. Daqueles braços ela foi arrancada, pela natureza. Enterrada e esquecida. Não por ele. Ele jamais a esqueceria. Ele jamais se renderia ao fim.
Cientista renomado, havia ajudado a descobrir várias curas para várias doenças, estudou toda a física existente, tentou alcançar além do que podia um homem só alcançar, ele provou que era mentira. Até aquele dia ele fora alguém importante, mas agora ele seria apenas ele o homem sem esposa. O homem sem inspiração.
O homem.

Ah, tanta dor em um só homem precisa ser extravasada, como ele a faria? Enfiou-se em um quarto escuro, com uma luminária, bebidas, cigarro. O fim da vida. O único objetivo da vida seria estudar, ele começou a pesquisar, e pesquisando ele foi vivendo. Comia quando dava, bebia quando dava, dormia quando dava, ia ao banheiro quando realmente necessitava. Virou aquilo que chamamos de traça. Ele virou pura traça.
Nas paredes nuas ele revestiu de fotos, cartas, perfumes, flores. Como se toda a essência da mulher que um dia ele amou coubesse ali.
O homem se desgastou a tal ponto de chamar a todas de Catrina, mas Catrina já não existia. No começo as mulheres compreendia o engano, mas com o tempo foi ficando grosseiro.
– Ela já se foi Homem, lide com isso. – E os olhares acusadores eram tanto quanto possível.
E isso foi apenas mais um ponto para que ele se escondesse totalmente do mundo. A bebida apenas o mantinha acordado, o cigarro o mantinha vivo. Assim como sua mulher morta. Então, um dia, ele teve a vil ideia. UM CLONE. Gritou para todos como se fosse Arquimedes gritando Eureka.
Trabalhou dias afins. Tentou tudo quanto é experiência, até que então ele conseguiu gerar. Viu uma mulher adulta crescer diante dos teus olhos num útero sintético. Cinco dias demorou a que ela alcançasse a adolescência. Ele ficou tentado a tirar dali à menina e a criar como filha. Mas o amor era tão grande pela mulher amada que resolveu esperar. Então, dez dias, esse tempo certo para que nascesse a mulher. Ele a desligou do útero. A tirou de lá para que vivessem normais os anos seguintes ao seu lado. Assim que ela saiu ele a abraçou. Mas a mulher o olhou espantada.
– Quem é o senhor?
– Oras meu amor, sou eu, seu esposo.
– Não tenho esposo, nunca me casei. – Ele a olhou assustado, pegou fotos e mais fotos e a mostrou.
– Sou sim, olha.
– Desculpe senhor, não me lembro de ti. Essa mulher não sou eu. Na verdade, não me lembro de nada, nem de quem sou. – Então o homem novamente entristeceu. A mulher, a sua mesma mulher não o reconhecia. Vendo a tristeza dele ela tentou o consolar. Tentou ser aquela a quem ele amava. Mas em vão. Catrina amava rosa, Cataria o detestava – nome escolhido por ela mesma, Catrina era tão estranho quanto nome de égua, disse a nova Catarina – Catrina adorava ler romances, Catarina detestava romance, preferia uma boa ação com aventura. Catrina adorava ar livre, Catrina odiava ar livre e todos aqueles insetos. Catrina amava bolo de coco, Catarina preferia de chocolate. Ambas eram tão diferentes quanto o dia e a noite. Apenas compartilhavam da mesma aparência.
Um dia o homem já enfadado daquela mulher, já triste e desolado resolveu a esquecer.
 Pois já Catarina o amava, já havia apreciado sua companhia. Mas o homem já não aguentava uma mulher de temperamento tão diferente do seu verdadeiro amor, não queria mais saber dela e com sua nova descoberta criou outra de sua mulher. Dessa vez uma criança, a quem chamou Carina, e então, toda sua atenção foi para ela, fazendo que Catarina ficasse triste, triste até desolar.
Sem amor essa mulher não era nada. Foi jogada em um mundo por circunstancias distintas e de interesse próprio, com o coração partido aprendeu amar alguém que nunca a amaria, apenas uma sombra. Amava a aparencia, amava quase o nome, mas o ser o que ela realmente era ele não amaou. O que uma mulher poderia fazer, olhar de longe um homem egoísta que só pensa em si?  Um dia, sem dizer ela pegou a criança Carina que já a tinha como filha, foram embora sem dar adeus, o homem que se virasse, o homem que arrumasse outro clone para amar, mas antes de partir Catarina destruiu o útero sintético e queimou todo DNA da falecida mulher, que de coração partido só quem sofre sente e ele não levaria ao mundo mais nenhuma delas.  

 

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Quando vai aprender que tenho o mesmo nariz, os mesmos olhos, a mesma boca. Mas todo dia acordo uma mulher diferente?

Não se engane com as memórias.

– Você se engana – ela disse num sussurro.
– Com o que? – Ele disse com crueldade na voz, as palavras cortantes pareciam dizer “Vá-se embora mulher”.
– Comigo. – Ela o fitou, os olhos escuros estavam submersos em escuridão, pareciam ter ficado maiores devido às lágrimas que ela não se envergonhava.
Ele riu, murmurou algo como “tola, mulher maldita” ela sorriu e se levantou, deu uma volta sobre ele, depois outra.
– Nunca me esqueço, faço-o parecer, faço-o com que acredite na minha fraca memória – ela disse dando a terceira volta. – Você tem coisas que me pertence. – Completou.
– Vai embora prostituta barata. Veio aqui abrir as pernas e depois quer respeito, fui tolo, maldição! – a gargalhada ecoou pela biblioteca.
– 11 anos, eu esperei 11 anos. – O corpo frágil, magro, pequeno de cabelos louros palha a fazia parecer uma criança. Ela tremia – Para fazer isso.
Então, sem dizer nada ela enfiou a magra mão em seu peito, o homem abriu os lábios em dor, ela sorriu. Puxou o que queria e colocou na boca. Engoliu lambendo os lábios.
– Eu peguei minhas lembranças de volta. – Ela saiu da sala e deixou para trás um homem que fitava o nada, no rosto já não havia deboche, só o vazio e a sombra de uma frágil mulher.

Não tente.

Escrevo porque sou vazia ou sou vazia porque escrevo?
Escrevo porque sou vazia ou sou vazia porque escrevo?
Escrevo porque sou vazia ou sou vazia porque escrevo?
Apenas eu sou vazia ou…?

Coisas que você faz sem perceber.

– Dias frios são propícios para passeios. – Quem disse isso? Eu.
Tenho um cachorro, ele se chama Augusto III, é o terceiro cachorro que tenho com esse nome. O primeiro morreu atropelado e o outro morreu de envenenamento, então roubei esse dela (a mulher cujo matou o II e logo mataria esse) para que ele não fosse morto.
Me agasalhei num cachecol de linho marrom que minha mãe havia me dado no aniversário passado. Sentei-me num banco de praça e fiquei olhando o movimento, um dia frio, então não haviam muitos na rua.
Estava pensando numa coisa qualquer quando Agusto III latiu e abanou o rabo. Uma mulher com um vestido preto ( sou homem, não sei muito detalhes femininos em relação á roupas), meias pretas e longas, botas pretas de algo que parecia ser camurça, pele branca, olhos escuros, cabelos castanhos escuros e um sorriso vermelho. Ela passou por mim e não me olhou, depois voltou-se para Augusto III é o acariciou.
– Olá meu bem, qual seu nome?
– Ele não fala – eu disse pra ela, droga.
– Jura? – Ela disse com sarcasmo e me olhando, ainda afagando meu labrador preto.
– Uhum.
– Gênio! – Ela riu.
– Augusto III.
– E o nome dele?
– Já disse, Augusto III.
– Deus, coitadinho. – Ela riu alto e o afagou mais uma vez, maldito, havia se entregado a linda megera.
– Leonardo.
– O segundo nome dele?
– Não, o meu nome. – Ela olhou para mim e riu novamente.
– Estela.
– O seu nome?
– Não, o da minha cachorra aqui, não a vê? – Ela riu alto, havia me magoado, me julgava tolo? – Desculpe. – Ela completou.
– Tudo bem. – Ela se sentou ao meu lado e começou a dizer vários episódios de sua infância com cãezinhos.
A mulher se levantou, deixou o número do celular e se foi, já nos imaginei casados, com três filhos e dois cachorros, talvez mais.
Pena que isso havia se passado só em minha cabeça. Dessa mulher eu vi apenas o corpo e senti o perfume, ela já havia ido embora antes de começar o meu diálogo imaginário. Levantei-me com Augusto III é fui embora, de repente o dia havia ficado enfadonho, mas resolvi seguir o mesmo caminho que ela, só pra garantir.

Quando se torna adulto?

– Quem é você pra achar uma coisa menina?
– Já tenho 15 anos!
– E isso lá é idade adulta?
– O suficiente, já sei beijar.
– E trabalhar, cuidar de casa? Pagar conta? Resolver problema sozinha?
– Sim.
– Certeza?
– N-não, mas aprendo!
– Então, quando aprender vai ser adulta.