Feliz aniversário.

Na festa de princesa as crianças corriam. Gritavam e brincavam. No centro estava Marilia, ela ria desdentada. A mãe, uma mulher trabalhadora, estava sorrindo para amigos e parente. Vanessa era cabeleireira, mas naquele dia era apenas mãe. O pai de Marilia havia sumido no mundo, ela a criava sozinha.
– Cuidado gente – ela gritava para as crianças brincalhonas.
Artur o namorado de Vanessa chegou, sentou-se num canto e ficou observando. Ela foi até ele e lhe deu um beijo.
– Venha pra cá.
– Estou bem aqui. – Ele tinha olhos apenas para a pequena menina vestida de princesa. No fundo tocava músicas infantis. Todos comemorando o aniversário de cinco anos da pequena menina. Passou algum tempo. Ela foi até Artur, de quem já gostava e o puxou. Mas ele continuou sentado. Ela ficou triste, mas nada disse.
Novamente passou mais tempo, as pessoas vinham o chamar, mas o homem de camisa polo, calça brim bege, sapato engraxado e cabelo partido estava quieto no canto.
Vanessa gritou alto.
– Está na hora do parabéns, venham pra cá – todos foram sorridentes, menos Artur, continuou sentado.
Antes que começasse, quando ficou escuro ele se levantou, pegou a arma e atirou em Vanessa, Marilia e por fim em si próprio. Os tiros disparados com luz de vela, a mesma do bolo despedaçado. No lugar do Parabéns entoaram gritos de terror. No mesmo dia que houve o início de Marilia houve o fim. Os motivos ninguém sabe, as pessoas não precisam ter motivos pra serem tristes e sozinhas. Talvez Artur queria apenas a família unida. Talvez ele precisasse de amor. Ninguém precisa ter motivos pra sofrer, nem Artur, nem Marilia e nem Vanessa.

Anúncios

Odores indesejáveis.

– Está sentindo?
– O que?
– Esse cheiro de podre.
– Limpe a casa.
– Limpei três vezes já. – Ela se agarrou junto a ele. Um corpo esquelético apareceu ao lado da cama.
– Não foi o suficiente querida – o corpo esquelético disse sorrindo sorriu torto. Só ela o via, ele passou a mão no rosto do marido da mulher e sorriu novamente mostrando os dentes brancos e pequenos. O homem ao lado da mulher desfaleceu, ela o sacudiu, gritou, mas ele não acordou. O esquelético já havia ido embora, assim como o cheiro de podre.
A mulher se levantou, pegou o telefone e ligou para a ambulância, horas mais tarde já sabiam da morte, ela não chorou, parecia robótica. Ela olhou para o lado e sentiu o cheiro de podre novamente, dessa vez ao lado de um menino.

Maldição na sua vida.

Me envolvi num crime sem precedentes.
O que me abateu foi no escuro, me parte ao meio como um saco de carne.
Fui abatida num galpão sem janelas, o que me corrói é que não me lembro se foi noite o dia a hora certa.
Tenho ligações em várias partes, glóbulos brancos me estão em falta.
Lobo, lodo, logo veja nos meus olhos a respostas de suas dúvidas.
Estão pedrados, mortos, cegos e descoloridos.
Ainda lhe resta dúvidas?
Me envolvi num jogo sem apostas, perdi aquilo que não vendia.
Gostaria de um pedido.
Achou o que procurava no meu peito aberto e vazio?
Sou uma múmia sem princípios, sinta-se amaldiçoado.

O mesmo assunto, pessoa diferente.

Na minha vida morri há um tempo, não tem muito, mas já é o suficiente para sentir falta dos vivos.
Queria eu poder voltar, mas meus sorrisos são contidos, minhas gargalhadas impulsivas, a morte me levou a vida, o ânimo, a vontade.
Meus amigos que me cercam estão começando a morrer, o vírus que me assola se chama desilusão, uma vez infectado difícil reversão.
Meus passos já não ecoam mais na madeira, tudo o que escuto ou sinto é oco e vazio.
Só quero dormir, a morte me trouxe isso, o desespero e a sorte. Sorte? De continuar entre os vivos, sorte de continuar respirando, sorte de fingir esta tudo bem, ser atriz de sorrisos espontâneos, todos falsos meus caros.
E aquele que era para ser meu grande amor já há cada palavra me atinge com adaga, seu amor para mim se tornou veneno, morrer novamente eu não posso, mas tenho uma vida de dor.
O assunto chato e enfadonho, da próxima vez que eu escrever será um falso escritor. A verdade agora me repulsa, sou fraca, não tenho asas, condenada a andar, o caráter se foi com a minha compaixão.
Meu defeito é a espiritualidade, não consigo, por incrível que pareça, ser fútil e insolente, talvez o último tenha nascido comigo. Vermes que lhe comam a carne.

O tempo, O fim, O condenado e a Morte. – Não necessariamente nessa ordem

– Ó doce fim, tão amargo quanto tu és.
E as lembranças que me rodeiam são mel ou fel?
Ó doce fim que me embala em teus braços murchos
tão desgastados pelo tempo
Me mostram como um reflexo tão profundo aquilo que já não posso ser.
Ó doce fim, o que faço para aquilo em vida não podes perdoar?
Se fui tão tolo foi porque era jovem e não soube amar
ó doce fim imploro-te que me proporcione uma dor veloz, porque maior dor não é a de lembrar que um dia fui jovem.
Ó, já não sei se tu és doce, mas que me leve nos braços tão murchos consumidos pelo tempo e aceitas meu perdão. – E então o fim o olhou e disse:
– Tu já perdeste a vida e brincaste com o tempo, agora já mais nada posso fazer a não ser leva-lo comigo para a morte eterna.

Conhaque e cigarros, por favor!

 

Image
Para quem já está morto um gole e um trago não é nada.

Eu sei o que se passa na sua cabeça sem que você saiba o que se passa na minha. Essa é a minha terapia, adivinhar o teus pensamentos, os teus gestos.
Este é o meu ultimo cigarro, será o ultimo antes que eu me acabe. Dizem que me matará, acabará com meus pulmões. Pergunto-me, eles vão queimar? Essa fumaça gostosa, isso sim é bom, o cheiro denso, forte, bom acompanhado com um café, ou um conhaque? Sirva-me os dois, bem quente e forte, uma gota de café para o conhaque! Cura gripe, meu pai dizia. A mim, cura as feridas! As tossidas vieram com o tempo, mas nada que é bom de mais tem consequência, então não me importo. Agora estou olhando as tuas mãos, entrelaçadas fortemente uma na outra, você está nervoso meu bem? Venha aqui, deixe-me te dar um beijo seco com gosto de café-conhaque-cigarro, seria uma droga beijada. A sua respiração acelerada, quer sair daqui? Pois que saia, não quero a sua ajuda, a tua companhia. Arrependeu-se por me dar isso? Oras meu bem, quando se vive muito como eu o melhor nos últimos dias são uma boa dose de pura adrenalina, e nada melhor isso, o que te ajudou a morrer, é o que você diria. Pois errou! O que me matou não foram essas boas porcarias, foi a vida, foi ela que me matou, foi os homens, as mulheres e essas feridas que mesmo agora não se fecham. Cada biscoito com a sua sorte, o meu é puro azar, azar de viver. Viver foi minha má sorte, nascer. Eu sei o que está se passando na sua mente, sei o teu medo, pois saiba que ficarás sozinho! Sozinho vendo sombras em teu caminho, vendo o teu reflexo em cada gesto, você é um inútil, se priva do bom e do ruim. Me de mais um gole de conhaque e um trago de cigarro seu inútil, sirva para alguma coisa. Ah, o ultimo gole é sempre o melhor…