Anjos sem nomes mortos de fome na miséria de doentes insanos.

As penas caíram, cada passo era mais um perto da morte. 
As cordas bambas me amarravam o corpo todo. 
Me solte, me solte. 
As penas voaram, mas não eram pássaros. 
Eu me soltei em uma mão, cortei meus pulsos. 
As penas grudaram no que era minha poça.
Meu sangue está em suas mãos. 
Sangue inocente, vai, me liberte. 
Me usou, me mostrou para milhões de gente. 
A corda está solta, a joguei no chão. 
Tento esconder meu corpo nu com vergonha, humilhação. 
Os telespectadores se satisfazem com meu pudor. 
Cade o decoro? 

Cadê?
Morreu hoje mais uma criança inocente. 
Pensa você que olha minhas penas voando que o vento leva longe. 
Pensa que alguém terá ação. 
Pensa nisso até que mais penas voem, cheias de sangue vermelho. 
Sangue das veias de minhas mãos.
Me solte, pulei em cordas bambas, as câmeras ligadas. 
Fui morta em rede privada, num mar imenso de imundices. 
Fui morta. 
Estou morta. 
Meus pulsos abertos. 
Penas voando em todas direções. 

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Alimentando inimigos.

Existem monstros em cada um de nós, mas há quem os excita e há quem os deixa adormecer. Você excita o teu ou canta pra ele dormir?

O que você pensa quando vê uma garotinha de olhos grandes e profundos, de um azul tão intenso que te faz ter dores de cabeça a pós olhar muito tempo? Que tem cabelos tão negros e tão lisos quanto uma noite frienta? O que te faz pensar em ver uma garotinha tão pequena quanto uma criança de cinco anos? Que os lábios são pequenos, cheios e rosados? E o que te faz pensar se vir essa garotinha da pele tão branca quanto à lua cheia numa noite escura, andando sozinha numa rua deserta, suja e perigosa?
-Ah, pobre garotinha, venha até os meus braços maternais, deixe que te enchas de consolo e carinho e te trato como minha pequena filha.
Seria isso? Isso que você pensaria? Onde está tua perspectiva? Onde dorme o teu monstro? Dentro ou fora de você? Você é o monstro ou o monstro é você?
A garotinha parou, ela te olha, oh, os olhos grandes, profundos, azuis intenso. Não te dão um sorriso, apenas um olhar tão frio quanto essa noite gelada e cheia de neve.
– Por onde você andou garotinha? Onde estão os teus pais? – O que te faz pensar que essa garotinha está perdida? Pobre homem, o teu monstro acordou?
Vou te contar a história da garotinha perdida, ela é tão pequena, tão…

Essa noite fria que se encontra no presente, cheia de monstros escondidos, cheia de serpentes.  A pobre garotinha se encontra perdida, andando sem direção, sem saber aonde ir. Você vai ajuda-la?
Os passos pequenos e leves afundam na neve, deixando um rastro pequeno para trás, o sorriso que devia sempre pairar no rosto pequeno não está lá, mas quem disse que ela sorria? O sorriso é importante nos lábios ou na alma? Quem te garante que quando alguém sorri nos lábios sorri na alma? Pode ser ao contrário, você pode está sendo enganado pelos monstros ao teu redor, ou o quão tolo você é?
A garotinha tem uma cantiga nos lábios rosados, cantiga de ninar que não mostra alegria nos olhos profundos, seriam eles apenas um espelho d’água que te puxa e suga pra dentro da sua solidão?
Todos sabem que as noites escuras protegem os monstros nos teus braços frios e noturnos. E então garotinha, por que você não dorme em casa, quentinha?
Ah, a garotinha nada diz, ela continua andando, você deveria confiar em mim, deveria acreditar no que eu digo.
A garotinha não quer respostas, afinal ela não fez perguntas. Os passos pequenos continuam seguindo na noite nevada, ela não se importa, os braços pequenos e frios estão apenas envoltos num vestido maltrapilho marrom imundo.
Aonde vai garotinha? Ela não me escuta.
Não teme, não sorri. Existe um monstro para cada noite escura, existe um monstro para cada pessoa.
Então a garotinha para, ela sente a respiração pesada e quente no teu pescoço, ela sente as escamas frias lhe envolvendo. Ah, bem que dizem os antigos “Quem procura acha.”
A garotinha encara o monstro deformado, aquela serpente humana de rosto rasgado, ela o encara e nada diz, o teu rosto não demonstra medo e os teus olhos não saem lágrimas. O monstro chega mais perto da garotinha, deixa que o hálito podre lhe envolva as narinas, e ela, oh pobre garotinha, passa a pequenina mão no rosto deformado.
Até onde vai a coragem de um homem? O teu monstro é maior?
A garotinha passa a outra mão pelo cabelo seboso do homem serpente, e chega mais perto, querendo dar um beijo silencioso. Quão louca tu és pequena mulher? Ah, a garotinha continua chegando perto, mas ai dela pobre homem, ela é inocente, não sabem que monstros são mal? O homem serpente lhe dá um bote da morte, lhe rasga o rosto pequenino, lhe tira pedaços e sangue.
Corre pobre menina, fuja enquanto tu podes!
Mas novamente ela não me escuta, afinal, sou apenas um telespectador dos sonhos. Vejo apenas de longe. Ah, pobre de mim, pobre dela!
A garotinha com o rosto ensanguentado dá um sorriso para o monstro, um sorriso?
Com a voz tão frágil e doce ela diz
– Monstros não machucam monstros, só se for pra vencer bobinho.
O homem serpente subitamente é engolido, os olhos da garotinha se abrem de tal forma que o azul tão límpido o suga. Com o rosto despedaçado ela volta pelo mesmo caminho cantarolando a mesma canção de ninar de uma forma que você dormira apenas para parar de escutar, e o rosto já não sangrando e reconstituído ela não sorri e continua cantando.
Quem é o monstro, você o é, ou ele é você?

De loucos todos temos um pouco.

– Anastácia – A menina disse séria mostrando os dedos em “Seis anos”, o homem olhou para a menina com pavor, quantos germes ela devia ter, pensou. Ela sorria mostrando que não tinha um dente. Ela olhou pra ele com os grandes olhos castanhos e o rosto cheio de sardas. Ele começou a se sentir mal. Contar, precisava contar. Olhou para os ladrilhos do chão e começou a contar primeiro os cinzas, 1,2, 3, 3, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12… Quando começou a contar os brancos a menina o tocou, puxou a sua manga da blusa.
– Não me encosta – ele disse alto – não me encosta – foi abaixando o tom – não me encosta – ele cochichou. A menina franziu o cenho.
– Você é doido?
– Não!
– É sim – ela disse franzino o nariz pequeno.
– Não sou menina suja!
– Não sou suja!
– É sim! – A menina lhe mostrou a língua, depois sorriu com alguma ideia má lhe formando na cabeça com cabelo liso chanel.
Passou a língua na mão e esfregou no braço do homem.
Ele gritou, pegou um pacote de lenços umedecidos com agentes antibacterianos.
– Eca, eca
– Haha! – A menina se ria e apontava para ele – você é doido igual o primo Antonio! – Ela disse como uma mulher crescida.
– Não sou, eu me chamo Benário! Não sou doido. – Ele fez uma expressão de criança machucada. Um homem de blusa azul e calça linho bege o chamou.
– Benário? – Ele se levantou, olhou para os lados, pegou a bolsa de couro, andou olhando para a direita e esquerda, evitou as cores cinzas e pisou apenas nas brancas.
Entrou na sala, mas sem se encostar no homem, então, só então a porta se fechou.
A menina suspirou frustrada, não tinha mais com quem conversar.
Havia esquecido de dizer para ele que também era doida.

Quando se torna adulto?

– Quem é você pra achar uma coisa menina?
– Já tenho 15 anos!
– E isso lá é idade adulta?
– O suficiente, já sei beijar.
– E trabalhar, cuidar de casa? Pagar conta? Resolver problema sozinha?
– Sim.
– Certeza?
– N-não, mas aprendo!
– Então, quando aprender vai ser adulta.

Ser menina não é idade, é arte.

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Mulher é tudo quanto um homem quer.

 

Se meu pobre coração já fosse jovem como um dia fora
Eu me entregaria para ti em uma cama dossel.

Mas nem tudo que queremos se torna realidade
Minha idade não volta mais, você já não vive mais.

Ah, se meu pobre coração não tivesse sido tão feliz,
Esses últimos dias que passei sozinha não teria sido tão ruim,
Como faz esses pobres homens que tem como âncora a solidão?

Estou aqui pra ti, por ti, esperando o meu ultimo suspiro,
Se eu soubesse que o tempo passaria tão devagar nos últimos dias.

Quem sou eu não seria pergunta certa nesse momento,
Já se passou há tempos esse questionamento. Essa dúvida.

Eu escuto Chico Buarque, ele é da época que eu te conheci.
Já não mocinha, já não criança, mulher que dança em baile,
Rodopia com horas 00:00.

Olha só quem veio me visitar, minha companhia.
Parece que hoje virei novamente menina.