Verídico, questão de opinião.

São 5:49, eu estou deitado na minha cama, ardendo em febre, respirar dói minha garganta de uma forma agonizante. Estou ensopado de suor, meu corpo faz um movimento leve de sobe e desce com a respiração fraca. Estou olhando o teto, já que não consigo dormir. Nos meus pés dorme meu gato, no chão dorme minha cachorra. Eu me sinto bem acompanhado. Levanto da cama devagar, meu corpo protesta, mas tenho que tomar remédio. Vou até a cozinha acompanhado de Gus e de Dona, eles me seguem sonolentos. Tomo meu remédio e faço um chá de mel. Enquanto estou sentado tomando a goles pequenos eu escuto um barulho de fora. Aos meus pés estão Gus e Dona.
Meu coração bate forte, acabo de tomar o chá e volto para o quarto. Olhando para o teto eu vejo algo se mexendo de soslaio. Minha visão periférica capta algo, mas quando olho não há nada. Continuo suando, meu corpo lateja sobre o calor e dor.
Algo novamente se mexe ao lado, minha visão periférica capta outra vez.
Olho com receio, mas não há nada.
Tento dormir, mas a dor é maior que o sono. Já são 6:34 e eu ainda acordado.
O que se mexeu antes torna a mexer agora. Quando olho meu coração para.
São os olhos, são os lábios, talvez as garras.
Paro de respirar numa tentativa inútil de sumir.
Ela, a coisa, pula em cima de mim.
Tudo se apagou.

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Não há suficiência.

Frio.
Frio.
Frio.
Meus braços estão frios.
Frio.
Minha alma treme.
Frio.
Frio.

De caça a garota passou a caçadora, cansada de ficar se escondendo ela correu, buscou fogo, buscou água, buscou alimento, espantou o frio.
A garota era forte, era amarga, era doce, solitária.

Quem é o estranho, quem é aquele que treme?
Cansada de sofrer ela buscou proteção em si mesma.
Cansada, cansada, cansada.
A pele se arrepia com o vento gelado, a alma se balança no primeiro movimento.

Vaso quebrado, vaso estilhaçado, frio, fome, cansaço, solidão.
A garota era forte, a garota sobreviveu, mas no primeiro vacilo ela morreu, morreu com os sentimentos represados, morreu na própria mente, morreu na solidão, morreu como gente.

Frio.
Frio.
Frio.
Os braços já não tremem.
Frio.
Frio.
Frio.
A alma voa vazia, voa sem rumo, a alma encontrou sua própria epifania. 

Paciência não faz paciente.

Despede-se solitária,
Faz de mim linda jarra quebrada.
No teu fim eu já começo,
Desde mim eu me regresso.

Dance ontem nos confins,
A terra se despede.
Os olhos são armas,
Facadas ou flores.

Tenho aqui guardado,
No bolso um doce.
O vento levou embora,
Aquilo que há muito tempo buscou.

No fim eu já começo,
Lástima seria se fossem lágrimas.
Então já sem esperança ela me confirma,
Começou com lágrimas. 

Personagens de uma personalidade. (+18)

Parte 2

 

Ela sorriu ao ver um homem alto vindo em sua direção. Outra foto.
– Então… Você é fotografa?
– Sim – Ela disse tirando uma mecha do cabelo e o colocando atrás da orelha.
– Uau, que legal, eu amo fotografias, não tenho muito tempo de tirar fotos, mas sempre que posso eu olho na internet. Qual o seu nome? – Ella não iria dar o seu real nome, não queria dar esse prazer ao homem parado na sua frente, provavelmente ele nem gostava de fotografias, apenas a achou atraente e usou isso como tal desculpas. Ela sabia como homens pensavam, homens tão tolos ás vezes, os sábios já morreram.
– Milena.
– Milena? Uau, que nome lindo, a proposito, Heitor. – Ele pegou na mão suave de Ella e a beijou, como um “suposto” cavalheiro.
– É sim, não? Parece até que o escolhi, de tanto que gosto. – Ela riu alto, ele não entendeu muito bem, mas acompanhou a risada.
– Bem Heitor, tenho que ir, adeus. – Ela foi andando e sorrindo, era um risco que estava tentando, mas tinha uma quase certeza de seu êxito.
– Hey Milena, calma aí poxa, mal chegou e já vai? Eu vim aqui me acalmar do dia árduo de trabalho, sem filhos e sem cachorro. Aposto que estava se perguntando não? Como um homem bonito como eu não é casado? – Ele riu alto de sua própria observação – Bem, eu já fui, mas me separei, algo complicado que vou adorar te contar em um café, que tal? Um jantar? Ouvi um sim? – Ella sorriu, ou melhor “Milena”. Ela olhou no pulso e encarou o relógio, fingindo demonstrar que não poderia demorar.
– Bem, talvez. MAS, eu tenho que ir embora cedo, amanhã eu trabalho e tenho uma reunião logo cedo, isso é um saco! – Ele deu um soco no ar e sorriu, ambos foram para fora do parque.
– Meu carro está logo ali, eu te acompanho.
– Que tal, irmos no meu carro e depois nós voltarmos e pegar o teu?
– Não, não me leve a mal, mas mal te conheço, não entro em carro de estranhos. Mesmo que o estranho em questão seja bonito. – Ella entrou no carro e o seguiu, o seu coração frio não batia acelerado, seu espirito adormecido não estava perturbado e seu corpo estava tranquilo, Ella era assim, adotava novas personalidades, era assim que “vivia”, ou assim dizia gostar de viver.
Logo chegaram num local, um restaurante pequeno com uma sacada dando para uma praça cheia de árvores e um pequeno lago. Estacionaram, entraram, foram para a sacada e fizeram os pedidos.
– Então, me conta, como é ser uma fotógrafa?
– Hum, bem, digamos que é emocionante – Seria isso? Emocionante? – E eu adoro porque ás vezes eu viajo, como o cliente da reunião amanha, ele quer que eu vá para o Equador tirar fotos de uma campanha publicitária que ele está promovendo, o lugar em questão é ótimo, lindas paisagens, mas ele é meio miserável, acredita? – Ele estava sério e começaram um diálogo maçante de trabalhos. Heitor trabalhava numa firma de cosméticos femininos, era chefe de produção e contava da vez que ele teve que experimentar um batom vermelho que não saio dos seus lábios a tarde toda, tudo isso por uma aposta perdida.
– Certo, então, chega desse papo chato de serviços. Você me disse que já foi casado, é isso?
– Ah essa história é um interessante. Jéssica, conheci ela no final do ensino médio, já viu tudo né? – Ele pegou na mão dela e passou o polegar por suas veias do pulso. Ela sorriu “envergonhada”. – E Jéssica era uma puta de uma gostosa. Acabamos que nos apaixonamos, ela por mim e eu por ela, ou melhor, pelo sexo.
Era sensacional, ficamos juntos por bastante tempo, eu trabalhava e fazia faculdade, ela só estudava, íamos assim, sem pretensão de casar. Um dia, “um belo” dia ela me disse que estava grávida, nós piramos, não tinha como cuidar de um filho. Não tínhamos nem terminado a faculdade. Eu disse pra ela que não iria ter como, ela gritou e me xingou de todas formas possíveis. Eu tranquei a faculdade e arrumei um emprego integral, a barriga dela ia crescendo, o pai dela pressionando para o casamento. Enfim, nos casamos, ela perdeu o bebê, entrou em depressão, os pais a levaram pra longe, casa de repouso, algo do tipo e eu voltei pra faculdade. Nos separamos, nosso casamento não durou nem 5 meses.
e hoje em dia eu não a vejo mais, isso faz tempo, não tanto, faz uns 8 anos.
Ella olhou para ele com piedade, pegou nas suas mãos
– Oh, eu sinto tanto Heitor, você capaz que ficou arrasado, não? – Ele sorriu com um ar distante.
– Se fiquei… – A comida já havia chegado, conversaram sobre outros assuntos.
-Então, mas não conheceu nenhuma outra mulher que pudesse o fazer feliz, casamento… Coisa assim?
– Talvez eu possa ter conhecido – ele disse subindo os dedos pelo braço nu de Ella. – Vamos embora? – Ela se levantou e esticou o corpo.
– Vamos. – Heitor se dirigiu ao caixa e pagou a conta dos dois, apesar dos protestos de Ella em dividir a conta.
– Balela, vamos mulher.
– Pra onde?
– Bem, pensei que talvez você queira tomar um café, ou um vinho, nada tão tarde, amanha você trabalha e eu também. E tenho um livro de fotografias que você vai amar.
– Você promete não me amarrar, amordaçar e matar, não né? – Heitor riu alto.
– Uma ideia tentadora, não acha? – Os olhos de ambos se encontram, dela estavam cheios de segredos, num pensamento profundo, a ideia era tentadora para ela, ela o fazer assim. Os olhos dele estavam serenos, tranquilos e de alguém com pensamentos carnais.
– Tudo bem. Vamos. – Foram para os carros, um seguia o outro. Cada qual imerso em seus pensamentos, vazios, cheios, talvez a única faísca de vida que Ella tinha era o de passar a noite com um homem estranho, talvez o usar, talvez o espancar e o deixar dormindo cheio de sangue e depois ir embora. Claro, ela era uma mulher pequena, mas por isso a bolsa grande, por isso a desculpa dos “fetiches”, por isso o tranquilizante, trabalhar como enfermeira tem suas vantagens.
Ele deu sinal de luz para que ela parasse, haviam chegado, uma casa média, branca com uma enorme árvore na frente. A garagem abriu e ele entrou com o carro. Ela estacionou na porta e desceu.

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Está ali, sempre esteve, mas ás vezes o vazio é cego.