Da vida o dom, do dom a maldição.

Tenho esse dom, sabe? Todo dom vem  carregado de sua maldição. Preços altos são pagos. Preços cujo o tempo não repõem.
As pessoas chegam a mim em últimos casos. Cobro caro, muito caro, caro pelo o que eu pago. O suficiente para não me implorarem por aquilo que não darei.
Não sei como explicar, vou apenas dizer o que sei.
Moro num galpão, outra vida abandonado. Agora meu.
As janelas todas fechadas, o sol parece se esconder de mim, minha vida só tem frio, e não, não chove. Fui privado da chuva aos doze anos. Fui privado daquilo que se chama de vida. Onde ando não existe natureza. Meu galpão, aquilo que chamo de casa é meu, em uma tentativa inútil eu coloquei sol espalhados por todas as partes. Em uma tentativa inútil eu coloquei amor onde não há amor.
04h15min da madrugada, eu estava tentando dormir, me enrolei no meu cobertor com cheiro de terra molhada. Bateram na porta, não importa quantas vezes isso acontece, sempre me dói as veias, onde passa o sangue, sempre me gela a alma.
Eu me arrastei até a cômoda, vesti minha calça de algodão e fui andando até a porta.
Olhei pela fresta, uma mulher, pequena, bem magra.
– Quem é?
– Por… Favor… Eu… Preciso – Ela ofegava tanto que os lábios roxeados fazia um barulho seco, de um pulmão sem vida. – Eu… Preciso de você. – Então, com essas palavras ela caiu no chão.
Abri a porta e eu peguei, o corpo magro parecia uma pluma, ela não estava respirando direito. Cada respiro era uma luta interna.
A coloquei na cama, o rosto pálido, o cabelo bagunçado.
– Estou aqui. – Ela abriu os olhos tão grandes que pareciam ser sinalizadores no pequeno rosto.
– Eu trouxe, trouxe… O teu preço. – Ela tossiu alto.
– Não o quero agora. – Eu não estava conseguindo engolir. Cada ato era doloroso para nós. – O que precisa menina?
– Meu pulmão, não funciona. – Ela puxou o ar forte. Eu já sabia o que devia fazer, não estava preparado.
Fui até o lugar, peguei meu caldeirão, antiquado, preciso. Coloquei a tinta preta, feita de terra, casca de árvores, folhas, ossos de animais. Mexi, coloquei vários dos meus condimentos. O cheiro pungente já estava se alastrando.
Ela tossia alto.
Tinha que esperar uns minutos ao menos. Fiquei passando um pano molhado no rosto. Havia tempos que ninguém vinha. A dor era muito forte, o meu preço era muito dolorido, pra mim, somente pra mim.
– Você… Está salvando minha vida… Dom lindo… – Ela sorriu desajeitada. Eu dei o líquido para ela beber. Ela cuspiu, mas eu a fiz engolir. O gosto era ruim. Ela começou a ficar branca, quase transparente. Tirei a blusa suja e rasgada.
O líquido me mostraria onde havia a doença maligna no corpo, ele seria como um mapa sinalizador. Logo onde estava o pulmão seco ficou tudo preto.
Essa, essa seria a parte dolorida, a parte do meu preço. Fui até o lugar peguei os aparelhos, a seringa.
Sentei-me e comecei a tirar o sangue. O meu sangue. Tirei o suficiente. Então com meu sangue comecei a tatuar. Tatuei os bronquíolos, fui transformando sangue-tinta em pulmão. Fui dando vida à morte.
Quando terminei de tatuar o pulmão eu estava fraco. Cai sentado no chão, eu peguei a doença dela, seria por apenas uns minutos, mas além disso eu havia perdido muito sangue. Fui me arrastando até a cozinha e peguei uma grande barra de chocolate. Comecei a comer. A respiração dela já estava regular. A minha foi se tornando regular.
Ela se levantou, os seios pequenos a mostra, ela os escondeu envergonhada.
– Você me salvou. – Ela disse.
– Sim. – Eu me levantei desajeitado, odiava a fraqueza que vinha depois. Eu ainda estava sem blusa, não me importei. Ela que veja as minhas marcas por cima dos músculos.
– Eu te ajudo.
– Não. – Eu a empurrei. Peguei o material usado na tatuagem, coloquei na pia para limpar, depois joguei o resto do líquido preto na terra, teria que limpar o caldeirão. Ela ficou me olhando enquanto eu trabalhava.
– Já vai amanhecer.
– Não pra mim.
– Por quê?
– Porque a natureza me repudia. – Eu havia terminado com os objetos para tatuagem. Agora estava jogando fora o líquido preto.
– O que é isso que você me deu? É horrível.
– É um sinalizador.
– Pra que?
– Pra mostrar onde está o mal. – Ela mexia nas minhas coisas, começou a arrumar minha casa. Eu já havia terminado de arrumar as coisas usadas no processo.
– Está com fome? – Ela abriu mais os olhos, como não podiam ser abertos, eram enormes e escuros.
Ela balançou a cabeça freneticamente. E riu, rindo parecia um passarinho.
– Muita muita. – Eu dei um meio sorriso, não tinha muita companhia, o ultimo que havia vindo me ver fora há mais de sete meses.
Eu comecei a esquentar leite, eu mesmo fazia o meu pão, o coloquei no forno junto com um bolo.
– Você come e vai embora. E quero minha recompensa. – Ela enrubesceu.
– Eu tenho que te dizer algo. – A olhei, ela não tinha o que eu queria.
– Eu… Eu não tenho. Não encontrei, não tenho ninguém. – Meu coração doeu. Eu sabia que poderia a deixar ali. Sabia de muitas coisas, mas a vida não é assim. Comemos em silencio. Depois abri a porta deixando que o frio cortante entrasse.
– Vá embora. – Ela se levantou com os olhos arregalados. Eu não a olhei nos olhos, não tinha como olhar naqueles olhos. Viria outros como ela, muitos outros.
– Não é pessoal. Não mesmo. – Quando ela passou por mim eu toquei em seu peito. A tatuagem se desvaneceu. Ela chorou.
– Você não pode fazer isso.
– Já foi desfeito. Você tem cerca de cinco dias. Cinco dias de vida. Vá viver até que a doença volte. – Fechei a porta, sentei e guardei meu alimento. O frio aumentou. O dia continuou escuro, tinha tanta coisa pra fazer. E em cinco dias uma pessoa desesperada consegue o que quer. 

 

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Sangue é vida? Sangue é vida.
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Não se engane com as memórias.

– Você se engana – ela disse num sussurro.
– Com o que? – Ele disse com crueldade na voz, as palavras cortantes pareciam dizer “Vá-se embora mulher”.
– Comigo. – Ela o fitou, os olhos escuros estavam submersos em escuridão, pareciam ter ficado maiores devido às lágrimas que ela não se envergonhava.
Ele riu, murmurou algo como “tola, mulher maldita” ela sorriu e se levantou, deu uma volta sobre ele, depois outra.
– Nunca me esqueço, faço-o parecer, faço-o com que acredite na minha fraca memória – ela disse dando a terceira volta. – Você tem coisas que me pertence. – Completou.
– Vai embora prostituta barata. Veio aqui abrir as pernas e depois quer respeito, fui tolo, maldição! – a gargalhada ecoou pela biblioteca.
– 11 anos, eu esperei 11 anos. – O corpo frágil, magro, pequeno de cabelos louros palha a fazia parecer uma criança. Ela tremia – Para fazer isso.
Então, sem dizer nada ela enfiou a magra mão em seu peito, o homem abriu os lábios em dor, ela sorriu. Puxou o que queria e colocou na boca. Engoliu lambendo os lábios.
– Eu peguei minhas lembranças de volta. – Ela saiu da sala e deixou para trás um homem que fitava o nada, no rosto já não havia deboche, só o vazio e a sombra de uma frágil mulher.

Maldição na sua vida.

Me envolvi num crime sem precedentes.
O que me abateu foi no escuro, me parte ao meio como um saco de carne.
Fui abatida num galpão sem janelas, o que me corrói é que não me lembro se foi noite o dia a hora certa.
Tenho ligações em várias partes, glóbulos brancos me estão em falta.
Lobo, lodo, logo veja nos meus olhos a respostas de suas dúvidas.
Estão pedrados, mortos, cegos e descoloridos.
Ainda lhe resta dúvidas?
Me envolvi num jogo sem apostas, perdi aquilo que não vendia.
Gostaria de um pedido.
Achou o que procurava no meu peito aberto e vazio?
Sou uma múmia sem princípios, sinta-se amaldiçoado.