Uma junção de tudo e nada. Em uma história de amor.

A história completa. 

 

Ana. Esse é um nome muito simples para dizer que era dela. Quem diz que nossos nomes são nossos? Eu me chamo A, você também se chama A. Então, meu bem, nossos nomes não são nossos. São de quem? 

Eis que essa não é a história. Essa não é a estória. Esse não deve ser o começo do começo. Esse deve ser o principio do meio. Por quê? Porque se começa, não do começo. Pra se começar do começo deveríamos ir até quando o mundo foi criado. E o Verbo estava ao lado de Deus. Mas o principio desse meio é o principio da estória. Da dela. 
Qual a receita para se transformar a vida de uma inocente numa megera, numa maldição? O que o amor é? Você poderia dizer que é quando os pais amam os filhos mesmo antes de saber que os irá os ter. Quando a mão acaricia o ventre sabendo que lá dentro existe vida. 
É quando o homem ama uma mulher mesmo conhecendo cada um dos seus defeitos. É quando perdoa. Oras, são tantos e tantos e tantas formas de amor que não teria como as citar em uma só página. Em um só dia. Seria como ir à praia e achar que o mar é apenas aquilo, que o oceano é apenas o encontrar das águas suaves na areia pálida.

Esse é o amor, no qual nasce belo, antes de nascer. Se transforma em algo, um ser. Um ser pessoa, um ser humano. Um ser mulher. 
Nasceu da união, de um homem, de uma mulher. Cujos ambos não eram bonito de aparência, cujo ambos tinham o coração belo. Cuja menina foi criada para ser servida. Cujos sonhos se tornaram maior que o próprio corpo. Cujos pais a amavam mais que a vida. 
Ela cresceu, e pegou aquilo que não os pais não tinham. Pegou a beleza que trazia no corpo, a suavidade do andar, do falar, do olhar, do sentir e tocar. Pegou dos corações o amor, os transformou em bondade, em caridade. Mas erro seria o nosso, caros homens, se nós achássemos que ela era tudo aquilo. Errado, pois como? Fácil. Em todos nós existe o mal, em cada um existem as sombras. 
Cada corpo, cada mente, cada alma. Onde nós iremos descobrir? Como iremos descobrir? Quando descobrirem me diz, essa é a mesma questão que vem desse o começo dos tempos. O bem, o mal. O certo, o errado. O sim, o não.

Mas onde está a história-estória de Ana? Onde está a parte em que conta sobre ela? 
Do crescimento à juventude não há nada a dizer. Ela cresceu bela, inteligente e pura. Ansiava conhecer. O amor era seu verdadeiro objetivo. Queria mais que tudo o encontrar. E quando nós ficamos obcecados por algo nós nos cegamos. Enfiamos a névoa da falta de consciência nos olhos e pulamos qualquer obstáculo para alcançar. 
Ela não poupava esforços. O fazia sem temer. Se temia não dizia. 
Um dia, na sua inocência ela conheceu um homem. Um homem cujo passado ele passou em branco. Cuja existência era vivida a cada dia. Um homem cujos princípios não tinham. Um homem que procurava felicidade no prazer, e em tantas buscas se perdeu na própria tristeza. Um homem que nunca havia se apaixonado, e cuja paixão se um dia veio ter a matou. Sem remorsos. 
Ana, Ana, Ana. Ana Libela. Era o nome dela. 
Ele a conheceu uma menina no corpo de mulher. Para um inimigo ter melhor resultado no campo de batalha é apenas conhecer a fraqueza do outro. E ela, meus caros, a contou sem saber. 
Juras de amor eterno foram feitas. Juras daquilo que não se pode pagar. 
– Tu juras me amar eternamente? 
– Eu juro só se tu me beijar. – E esse, sem saber, esse sem conhecer foi o pacto. O pacto feito não tem volta. O homem que não tinha princípios já não queria saber mais da mulher inocente. Os desejos carnais que ele tinha gritavam para serem sucumbidos. E a menina-mulher dizia
– Só depois do casamento. – E por que um homem que não ama de verdade deveria esperar? Pois bem, ele não o fez. Ele partiu sem dizer adeus. Oh, não, eis que me esqueço do detalhe importante. O salafrario deixou um bilhete, bem mal escrito, mas nele dizia. 
– Fui embora por não poder esperar. Descobri que não a amo. – Ela chorou dias, horrores, mares e rios. Chorou até secar. A menina que um dia fora bonita se transformou num trapo de pele e ossos. Os olhos escuros manchados pelo vermelho. O cabelo escurou secou como palha. Ela já não comia, já não dormia. 
Então, eis que BUM. Ali naquele coração bom o mal se alastrou pelas profundezas de um corpo puro. 
Se levantou daquele leito que já estava com mau cheiro – pela falta de banho – ela resolveu o amaldiçoar. Resolver ir à busca das profundezas do mal. Ir à busca daquilo que julgava ser o certo. Ela continuava cega, mas o coração partido, as trevas se alastrando e progredindo. 
Ela andou até onde se dizia viver uma velha feiticeira. Que ela descobriu na verdade ser uma mulher jovem e bela. Com um sorriso convidativo ela entrou. 
– É amor não correspondido? 
– É. 
– Feitiço para amá-la? 
– Não. – A mulher feiticeira sorriu. 
– O que então jovem menina. Eu tenho um preço. Sabe. Um preço que talvez não esteja disposta a pagar. 
– Eu pago o que quiser. Quero que ele sofra. Quero que padeça, quero que sinta o que senti. Quero que quando pensar em mim lágrimas de sangue lhe molha o rosto. Quero que seus descendentes sejam aleijados, cegos, doentes e retardados. – A feiticeira riu. Os seus olhos havia tanta maldade quanto havia no corpo de Ana. Até mais. 
– Certo menina, eu irei fazer. Mas é um feitiço muito forte. Vai exigir uma coisa tua. 
– O que quiser, eu já disse. – Então a feiticeira pegou um tufo de cabelo de Ana, sangue do ventre. Saliva. Depois a fez beber diversas poções. Se deitar numa cama do lado de fora da cabana. 
O bem e o mal se encontram, enfim. 

A feiticeira fechou a porta e começou a entoar um canto já muito esquecido. Um canto que dava dores ao corpo, pesadelos aos sonhos. Doenças as crianças. 
E enquanto ela cantava a menina-mulher Ana ia murchando. O corpo ia se transformando em velho. Ela sentiu uma dor tão forte no peito que parecia ter sido quebrado, estraçalhado, como uma pequena porcelana. 
Ela gritou num profundo desgosto. E tudo que estava em sua mente era aquele amor perdido. Era o homem que roubou os seus sonhos. 
Ela amava a sua juventude, sua beleza e pureza. Amava mais que a si. E tudo aquilo foi se indo. Com a mão no peito ela tentou se levantar. Começaram a nascerem rosas tão frescas e vermelhas envolta de si que ela achou que não poderia mais respirar. Mas se enganou, ainda restava folego. Para ver aquele que amava rir de sua feiura, para aquela que julgou a ajudar pegar sua beleza e juventude. Para ela se ver de tola. 
Aprisionada em seu próprio amor ela prometeu antes que fosse submersa em rosas vivas – Riam dela, debocharam de sua juventude apodrecida – Gritavam as rosas. 
Ela ficou num eterno grito de dor. Jurou vingança, sussurrou. Jurou voltar, ser bela, ser nova, ser tudo aquilo que ele não poderia amar. Mas então, então já morta, então já sozinha o mundo continuou a girar. Uma feiticeira bela e nova. Um homem cujo talvez os filhos fossem como ela disse, talvez não. Um homem que nunca mais se lembraria dela continuou a viver. E o mal dentro dela se foi. O bem dentro dela se foi. Ela continuou ali, naquele canteiro de rosas perdido, continuou enterrada meio viva. Podia apenas ver de longe e lamentar. Talvez não. A morte, bondosa morte, talvez a tenha levado. A mulher pura, jovem havia se tornado sombra de si mesma. O ruim, o podre, o fétido. O horror. Do peito que havia amor sobrou apenas vermes para a consumir. O preço foi pago para resultados, talvez, inválidos. Ela esperava então, o ultimo dia. 
O amor não é simplesmente o ato de amar, está além. Está naquilo que você quer sacrificar. Ou talvez, no que você pode. 

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Promete, promete, mas quando for cumprir não se esqueça do que prometeu. No fim vai ter que ser sim.

 

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Retrata-mente.

Estou me sentindo Dorian Gray em seus últimos momentos. Meu rosto não denota minha alma tão terrível. Eu lhe digo mentiras incontáveis, você amou a pessoa errada, meu coração é tão cruel quanto a vida, não consigo o controlar.