As mulheres carmesim.

– Fique quietinha. Is-s-so – ele passou o batom vermelho nos lábios da mulher, ela tremia e chorava. – Olha como está linda! Minha m-m-mãe sentiria orgulho de mim. Haha!
 A mulher amarrada vestia um conjunto vermelho carmesim, o cabelo havia sido penteado e preso.
– Me solta, por favor, eu prometo fazer um bolo, como sua mãe fazia!
– N-n-não! M-m-minha m-mãe fazia um bolo úni-c-co!
– Mas eu também, olha só – Ela o olhava e sorria, mostrando os dentes sujos de batom. – Eu farei do sabor que quiser. E também farei um suco, ou leite. Ou até café. – A voz desesperada.
Ele passou a mão suada no rosto maquiado dela.
– N-não! E-eu já disse que n-n-não. – Ela começou a tremer, as amarras a estava cortando os punhos e saindo sangue.
– Eu preciso ir ao banheiro – Ele a olhou com um olhar doentio e pegou uma espécie de “Pinico”. Depois a entregou.
– P-pronto.
– Papel? – Ele jogou um rolo de papel higiênico pra ela. – Mas como vou me limpar? Precisa me soltar.
– E-e-eu te limpo. – Ele riu mostrando os dentes estufados. O quarto fedia a mofo, uma cama grande e rosa, na parede havia vários retratos de uma mulher jovem e bonita, o rosto mostrava uma cicatriz que a deixava grotesca os lábios numa linha fina denotava amargura. A janela era pequena e no alto, a luz que entrava do exterior era pouca, fazendo o quarto ficar meio escuro, tinha cheiro de gordura velha, cigarros e algo mais, como coisas em decomposição. Numa espécie de cômoda havia várias fotos de mulheres amordaçadas. Uma, duas, três… Nove mulheres, todas vestindo um conjunto vermelho carmesim e maquiadas de uma forma grotesca. Em uma havia uma enorme ferida no rosto, como se imitasse as fotos da parede, mas o rosto estava tão pálido que parecia que a qualquer momento ela fosse entrar em óbito.  As outras choravam, uma parecia já ter se acostumado com o destino eminente.
– V-v-você me a-a-ama?
– Eu te amo meu bem, claro que te amo! – Ela chorava mais, mas apesar das lágrimas um sorriso pairava nos lábios. Assustador.
O homem se levantou, olhou para ela com os olhos caídos, os dentes estufados para fora dos lábios finos, a cicatriz profunda no queixo, nos braços, e pescoço.
Ele sorriu pra ela.
– M-mas você n-n-não é minha mãe. Só m-m-minha m-m-mãe me amav-v-va! – Ele a beijou, depois passou novamente a mão suada no cabelo da mulher e pegou uma máquina, tirou uma foto.
Ela olhava para todos os lugares, para a parede com a mulher amarga, outrora bonita. Para a cômoda com as mulheres como ela.
Olhou para as pernas feridas, para o homem na sua frente que mais parecia um garotinho retardado.
Olhou para dentro de si, com a dor no coração por ter tido uma vida amarga, o filho que nunca mais veria, não porque morreria ali, mas por ter o jogado fora, por tê-lo deixado para trás quando saiu do hospital. Pela mãe morta, a quem ela magoou muito, a abandonou na sua doença e velhice. Para o pai ausente que morreu quando ainda era menina. Olhou para ela mesma quando magoou o único homem a quem ela amou. Olhou para tanta coisa, mas não deu pra olhar nada. O homem já jogava um líquido forte nela, já sorria para ela com os dentes estufados. Depois ele jogou um fosforo aceso, ela gritou alto. O ultimo grito de amargura antes dos outros gritos de dor.
Queimava, doía, ela olhou para si e não viu o que queria ver.
– V-v-você não é minha mãe! – Ele gritou enquanto chorava. A mulher não chorava, o fogo havia consumido suas lágrimas.
O homem a olhou, não via ali uma mulher, via sua mãe. A mesma mãe que o machucou. A mesma que foi má com ele. “ainda dói”. Agora a mulher não parecia a mesma de antes. Parecia sua mãe, sua mãe que estava queimando no fogo do inferno.

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Meu pai, teu pai.

É tanta mulher guerreira que dizem. 
Esquecem-se do homem guerreiro. 
O homem guerreiro acorda cedo, já acordado ainda cansado. 
Esquece dos problemas quando vai a padaria buscar o pão. 
O homem guerreiro de mãos pesadas, faz carinhos nas crianças. 
O homem que sorri para a esposa escondendo a preocupação. 
Contas, água, luz, gás. 
O homem que passa humilhação. 
Cuida da família, educa os filhos e sorri para o patrão. 
O homem que tem as pernas cansadas, o peito cheio e a cabeça bagunçada. 
É tanta palavras bonitas que se esquece do homem, coitado. 
O homem que trabalha o dia inteiro, chega em casa e é como um herói. 
Matou a barata. 
O homem que beija a mulher como a mais linda da terra, brinca com os filhos, os melhores. 
O homem que assiste ao jornal.
– Quanta indignação. 
O homem que grita, que chora, que sorri. 
O homem que junto transforma outros homens, transforma outras mulheres.
Filhos da nação. 

Dia comum.

Arrastou da cama de cara amassada. Foi até o banheiro e se esvaziou. Lavou o rosto sonolento, escavou os dentes. Foi até a cozinha, colocou água no fogo pra fazer o café. Tomou um copo de água. Deixou coar e foi na padaria.
– Bom dia – disse com a voz enferrujada. Pegou o pão e um pedaço de bolo e voltou pra casa. Tomou o café, leu o jornal. Depois que esticou o corpo aproveitou pra tomar uma banho rápido, o tempo já acabando.
Todo dia a mesma coisa, a manhã era sagrada. Todo dia acordava mais cedo apenas para se sentir mais vivo. Se arrumou e foi trabalhar. Sentado atrás da mesa com um telefone ao lado sempre tocando ele se sentia menos humano. O dia seria longo, aproveitou pra tentar sorrir. Aproveitou pra tentar viver.

Crimes perfeitos sem réis.

Ele bateu o copo na mesa, queria o estilhaçar entre os dedos, mas o pensamento da sensação da dor foi maior. Desistiu. Colocou a mão no rosto e começou a chorar, chorava como criança. O gosto da bebida era ruim, não queria beber, mas beber o fazia dormir. Ele deu mais um gole e esse foi o tiro disparado para o grito solitário de um homem desolado. Ele jogou o copo na parede, queria apenas dormir. O por que da tristeza? Nem ele sabia, era maior que ele, já não queria viver, dormir virou o legado de sua vida.
Ele se levantou, fechou toda o quarto e fechou os olhos, deu outro trago e suspirou, não havia nada pra fazer só chorar e chorar já não adiantava, ele resolveu ligar para a emergência.
– Tentativa de suicídio – ele diz com a voz embargada, passou o endereço e deixou o telefone caído. A única testemunha de um crime perfeito do mundo contra um bom homem foi a atendente da emergência. No quarto já não havia choro.

Coisas que você faz sem perceber.

– Dias frios são propícios para passeios. – Quem disse isso? Eu.
Tenho um cachorro, ele se chama Augusto III, é o terceiro cachorro que tenho com esse nome. O primeiro morreu atropelado e o outro morreu de envenenamento, então roubei esse dela (a mulher cujo matou o II e logo mataria esse) para que ele não fosse morto.
Me agasalhei num cachecol de linho marrom que minha mãe havia me dado no aniversário passado. Sentei-me num banco de praça e fiquei olhando o movimento, um dia frio, então não haviam muitos na rua.
Estava pensando numa coisa qualquer quando Agusto III latiu e abanou o rabo. Uma mulher com um vestido preto ( sou homem, não sei muito detalhes femininos em relação á roupas), meias pretas e longas, botas pretas de algo que parecia ser camurça, pele branca, olhos escuros, cabelos castanhos escuros e um sorriso vermelho. Ela passou por mim e não me olhou, depois voltou-se para Augusto III é o acariciou.
– Olá meu bem, qual seu nome?
– Ele não fala – eu disse pra ela, droga.
– Jura? – Ela disse com sarcasmo e me olhando, ainda afagando meu labrador preto.
– Uhum.
– Gênio! – Ela riu.
– Augusto III.
– E o nome dele?
– Já disse, Augusto III.
– Deus, coitadinho. – Ela riu alto e o afagou mais uma vez, maldito, havia se entregado a linda megera.
– Leonardo.
– O segundo nome dele?
– Não, o meu nome. – Ela olhou para mim e riu novamente.
– Estela.
– O seu nome?
– Não, o da minha cachorra aqui, não a vê? – Ela riu alto, havia me magoado, me julgava tolo? – Desculpe. – Ela completou.
– Tudo bem. – Ela se sentou ao meu lado e começou a dizer vários episódios de sua infância com cãezinhos.
A mulher se levantou, deixou o número do celular e se foi, já nos imaginei casados, com três filhos e dois cachorros, talvez mais.
Pena que isso havia se passado só em minha cabeça. Dessa mulher eu vi apenas o corpo e senti o perfume, ela já havia ido embora antes de começar o meu diálogo imaginário. Levantei-me com Augusto III é fui embora, de repente o dia havia ficado enfadonho, mas resolvi seguir o mesmo caminho que ela, só pra garantir.

De loucos todos temos um pouco.

– Anastácia – A menina disse séria mostrando os dedos em “Seis anos”, o homem olhou para a menina com pavor, quantos germes ela devia ter, pensou. Ela sorria mostrando que não tinha um dente. Ela olhou pra ele com os grandes olhos castanhos e o rosto cheio de sardas. Ele começou a se sentir mal. Contar, precisava contar. Olhou para os ladrilhos do chão e começou a contar primeiro os cinzas, 1,2, 3, 3, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12… Quando começou a contar os brancos a menina o tocou, puxou a sua manga da blusa.
– Não me encosta – ele disse alto – não me encosta – foi abaixando o tom – não me encosta – ele cochichou. A menina franziu o cenho.
– Você é doido?
– Não!
– É sim – ela disse franzino o nariz pequeno.
– Não sou menina suja!
– Não sou suja!
– É sim! – A menina lhe mostrou a língua, depois sorriu com alguma ideia má lhe formando na cabeça com cabelo liso chanel.
Passou a língua na mão e esfregou no braço do homem.
Ele gritou, pegou um pacote de lenços umedecidos com agentes antibacterianos.
– Eca, eca
– Haha! – A menina se ria e apontava para ele – você é doido igual o primo Antonio! – Ela disse como uma mulher crescida.
– Não sou, eu me chamo Benário! Não sou doido. – Ele fez uma expressão de criança machucada. Um homem de blusa azul e calça linho bege o chamou.
– Benário? – Ele se levantou, olhou para os lados, pegou a bolsa de couro, andou olhando para a direita e esquerda, evitou as cores cinzas e pisou apenas nas brancas.
Entrou na sala, mas sem se encostar no homem, então, só então a porta se fechou.
A menina suspirou frustrada, não tinha mais com quem conversar.
Havia esquecido de dizer para ele que também era doida.

O amor é velho como ontem.

Venha Sofia, brindar-me com teus beijos.
Não o sabes que todos meus escritos são para ti?
Minha amante secreta, cuja dança faz só nos meus sonhos.
Sofia, Sofia, não sabe que hoje é segunda-feira?
Pobre de mim que sou homem.
Sofro de amor platônico.
Tu estás presente em minha cabeça.
Mas não em minha cama.
Sofia, minha amiga, ilude-me até nos sonhos.
Aí de mim homem apaixonado, já não posso mais a ter pra mim, já se faz um ano que minha Sofia se casou com outro.
Ainda parece que foi ontem.
O amor já me amarga no paladar como meu conhaque velho na estante.

Âncora do homem no mar.

Chega dessa irreal ilusão. Sombras, sombras. Ora homem, quem é você para se colar num buraco e se prender?
Use tua força, saia de si mesmo,
levanta-te.

Chega dessa mulher que tem os lábios rosados que me diz oferecer sobre eles o mel mais doce. Ora homem, qual sabor do mel, só conheço os dos lábios dessa mulher!

Infelicidade, felicidade desconhecida descobri sobre a terra molhada.
Cheguei a semente, meu caro, ela germinou, ela cresceu e se formou.

Levante-se já dessa cadeira feita de madeira escurecida. Quantas história ela já viu? Quantas estórias já escutou?
Honra-te, faz teu nome crédito ao sexo, homem.

Quantos ursos matou a grito, aja, homem, voz tão profunda.
Fingiu isso tudo? Qual teu sustento?

Estou perdido no mar há dias. Lembranças? Lábios me dizendo que nunca provarei sabor de mel tão puro quanto os deles.

Venha até mim homem. Faça alguma coisa, pegue o remo, temos histórias a contar, tu lábios a conhecer e eu a relembrar.

A noite está fria? Finja que escuta o cantar suave e quente de sereias. Quem sabe em olhares tão famintos tu reconheça tua mulher que na verdade é teu amor perdido em terra seca.

Bebo dessa água salgada como quando bebo das minhas lágrimas num choro.
Vamos homem, anima-te, somos sobreviventes dum náufrago perdido.

Sereias não existem meu caro, deixe que nossos monstros fique no mar.
Hoje depois de salvo, tenho lábios de mel a relembrar.
E tu, talvez, tenha algum rosto de sereia a rever.
Vamos homem, somos sobreviventes de nós mesmo.

Quem diz conhecer sombras nunca esteve entre ele.
Sabio homem o que disse
“Mar calmo não fã bom marinheiro”.
Quantos náufragos se faz um homem sem medo?
Hoje não quero descobri, em meio a tanto sal tive saudades do doce mel.

Homens crescidos também escapam de medos pequenos.

-Oh meu Deus, estou morrendo. – Eu digo sussurrando enquanto respiro fundo. Só ficar nervoso me da ânsia de vômito, vontade de comer sem parar e coceira no pé.
Uma mulher alta está no meu lado, ela tem um olhar sombrio e distante, me olha profundamente
– O senhor não está bem. – Eu concordei com ela, no momento não é adequado dizer que não, eu não estou morrendo, apenas ansioso, a coceira aumentou, eu começo a esfregar o pé no tênis disfarçadamente, mas a mulher me olha novamente com os olhos sombrios arregalados
– O senhor está… Dançando? Oh, já sei, quer ir no banheiro? – Eu fico mais nervoso ainda, respiro fundo numa tentativa desesperada de acalmar, ela só pode ter sido posta aqui para conspirar contra meu estado atual.
– Não, meu pé está coçando – eu digo baixo para as pessoas na sala não ouvir.
– O que?
-Me pé está coçando. – Sussurro novamente
– Ah, seu pé está coçando? – Ela diz mais alto  e todos nós olham. Não sei se poderia ficar pior. A moça é chamada para ir até o mal que nos cerca, antes de se levantar olha pra mim com doçura e sorri.
– Vai dar certo, boa sorte. – Ela diz como se fosse um anjo do apoio moral sendo enviado para me aliviar do medo.  Ela entra na sala e se vai, fico sozinho com o pé coçando mais. Só de imaginar o monstro que está por vir.
Uma mulher toda de branco abre outra porta e me olhando sorrindo, eu sei que na verdade ela quer meu sangue, coração e vida, por baixo desses olhos doces existe terror, sádica!.
-O senhor é o Alberto? Vamos? – Meu coração dispara, me levanto, quando tenho um deslumbre do que me aguarda eu saio correndo. Amanhã eu volto, prometo pra mim mesmo. Já faço isso tem uma semana. No caminho a coceira diminuiu.

Árvore que não soube falar adeus.

Lá em casa tinha uma árvore, tão grande que eu sempre achei que ela tinha vida, ás vezes me imaginava falando com ela e ela me contando histórias já vividas. 
Um dia eu cresci, queria por piscina lá em casa, derrubei a árvore e nunca mais a vi. 
Lá em casa tinha uma árvore tão grande, mas não resistiu ao meu material, morreu por um simples motivo carnal. 
Meus filhos nunca falaram com árvores, e eu nunca mais falei.

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Meu quintal fica logo ali.