Não há suficiência.

Frio.
Frio.
Frio.
Meus braços estão frios.
Frio.
Minha alma treme.
Frio.
Frio.

De caça a garota passou a caçadora, cansada de ficar se escondendo ela correu, buscou fogo, buscou água, buscou alimento, espantou o frio.
A garota era forte, era amarga, era doce, solitária.

Quem é o estranho, quem é aquele que treme?
Cansada de sofrer ela buscou proteção em si mesma.
Cansada, cansada, cansada.
A pele se arrepia com o vento gelado, a alma se balança no primeiro movimento.

Vaso quebrado, vaso estilhaçado, frio, fome, cansaço, solidão.
A garota era forte, a garota sobreviveu, mas no primeiro vacilo ela morreu, morreu com os sentimentos represados, morreu na própria mente, morreu na solidão, morreu como gente.

Frio.
Frio.
Frio.
Os braços já não tremem.
Frio.
Frio.
Frio.
A alma voa vazia, voa sem rumo, a alma encontrou sua própria epifania. 

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Pepino- Grito

Descobri que andar por aí sem rumo não é de todo mal. Ontem conheci um velho, eles o chamam de Pepino, ele estava sentado num banco conversando sozinho.
“Esse deve estar pior que eu” pensei, logo sentei do seu lado e com quem não quer nada ofereci um cigarro.
-Isso mata, minha mãe fumou isso uns 50 anos e morreu depois, coitada… – Eu não senti pena, não conheci a velha, mas eu tinha que ser educada, então falei: 
– Sinto muito, câncer de pulmão é triste. – ele coçou a cabeça com a luva desgastada e esticou as pernas finas na calça desgastada.
– É, eu também, a coitada morreu atropelada.
– Heim? Mas não era de câncer no pulmão? – Ele riu com a boca murcha sem dente
– Que isso menina, é doida? Eu disse nada disso não sô. – Eu gostei de Pepino, ele era um senhor estranho.
– Onde o senhor mora?
– Ah, eu moro aqui, ali, onde dá. Ás vezes vou pra um abrigo, ás vezes vou pra casa da minha irmã, mas nunca paro no mesmo canto.
– Mas e o frio?
– Com o frio a gente acostuma, difícil mesmo é a solidão, sabe? E eu nunca estou sozinho – Eu bem sabia disso, eu era a solidão em pessoa, mas não queria falar dos meus problemas. Dei uma tragada no cigarro e joguei a fumaça fora, como eu queria que fosse comigo.
-É, eu sei. – Murmurei pra ele, mas mais pra mim. Pepino levantou do nada e deu um grito. Assustei e levantei também
 – O senhor está bem?
– Que isso menina – ele começou a rir alto – se tu visse sua cara de rato escaldado ia gritar também – ele riu alto, eu não sabia se era pra me sentir ofendida, não senti.
– Eu gritei é que faz bem pra alma, sabe, gritar alto. A primeira vez que fiz isso foi na faculdade, oitavo período, curso de letras, a dona Margarida caiu da cadeira, depois eu te ensino a gritar direito – ele começou a rir alto novamente, eu não o questionei sobre o grito, ainda estava assustada.
– O senhor fez faculdade?
– Você é curiosa, credoemcruz. Se fiz, tudinho. Eu era faxineiro lá, então eu ficava escondido nos canto escutando e anotando, um dia o reitor me chamou, perguntou se eu queria ser despedido, mas eu não podia, não tinha o que comer em casa. – Eu não sou curiosa, sim, confesso, eu sou. Eu queria saber o resto.
– E então?
– Então o que? Uai, você não tá atrasada? – Pepino encostou no banco e começou a cochilar. Eu encostei nele e o sacudi.
– O seu Pepino, acorda, tava me contando ué, da faculdade. – ele pigarrou alto e cuspiu no chão.
– Ara menina, me deixa em paz sô. – Ele me olhou com o cigarro no fim entre os lábios. – Amanha tu volta, joga isso fora, só conto se parar. – Eu não ia parar de fumar pra saber a história de um velho mendigo. Mesmo eu sendo curiosa.
– Paro não.
– Então não conto, pode ir embora. – Ele estava tremendo, o corpo velho não era mais resistente. Eu não ia parar, talvez eu fosse, mas eu sabia que amanhã voltaria com comida e agasalho.
– Aqui no mesmo lugar? – novamente ele riu os lábios murchos e a boca sem dente, a pele murcha enrugou toda até que os olhos pequenos com catarata sumiram.
– No mesmo lugar.
– Gosta de carne na sopa?
– Bastante. Joga isso fora. – Eu me levantei, aconcheguei no agasalho grosso e fui embora, nunca achei que iria gostar do velho. O cigarro havia acabado, havia mais dois no maço, mas eu não ia fumar, não até saber o resto daquela história. Antes de virar a esquina eu voltei, dei meu agasalho a ele, depois fui embora o deixando falar sozinho novamente. Até que escutei outro grito, eu estava com frio, não me importei, comecei a rir, ao menos tinha casa, ele precisava mais que eu.