Confissão de um morto que sussurra nas mentes dos loucos.

Você corou? 
Quando eu a beijei a força. 
Você chorou? 
Quando eu bati no teu rosto. 
Você pecou? 
Quando eu entrei em ti. 
Você me amou? 
Quando eu fugi. 
Você me procurou. 
Junto com um filho na barriga. 

 

Eu disse que iria rasgar o teu útero. 
Eu disse que iria te cortar. 
Você sorriu. 
Sorriu quando eu comecei gritar. 
Me chamou de coisa ruim, o nome que não citamos. 
Me agrediu com tuas palavras podres. 
Você não chorou? 
Quando eu te chutei com meu terror. 
Você não correu?
Não teve medo? 
Eu não o faria se o tivesse. 
Por que não me temeu? 
Por que morreu? 
Agora terei que criar esse filho, que nem é meu. 
Você se foi? 
Se cobriu no manto eterno da terra escura. 
Sorrindo, sorrindo com teu sorriso maligno. 
Acabou com tudo que era meu. 
Ele não chorou quando eu a mostrei.
Morta por mim.
Morta por mim. 
Morta por mim. 
Ele morreu.
Morreu por ti, jogado podre no banheiro. 
E eu, eu ainda estou aqui. 
Você corou? 
Quando eu nunca a amei. 

Imagem
– Não sou louca. Não sou louca. Não sou louca.
Sou doente de alma. Sou doente de louca.
Será que nos faz diferente ser quem somos quando vocês mentem?
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Chega num estágio que já não aguenta.

– Mas essa comida ruim de novo? Deus me livre. 
– Ué, achou ruim? Faça você mesmo, quando as pessoas querem as coisas bem feitas elas que tem que fazer ou ao menos pagar bem! 
– Agora tu vem com esse papinho lerolero né! Vou comer fora, coma aí sozinha essa gororoba que tu fez. 
– Se tu sair dessa porta não precisa nem voltar mais, eu sei que é desculpa pra se encontrar com outra, no começo amava minha comida! 
– Para de gritar, não sabe o quanto está sendo ridícula. 
– Não precisa voltar mais, nunca mais.
– Não vou e não é porque “tenho” outra, é porque você já é outra. – E nunca voltou. 

Feliz aniversário.

Na festa de princesa as crianças corriam. Gritavam e brincavam. No centro estava Marilia, ela ria desdentada. A mãe, uma mulher trabalhadora, estava sorrindo para amigos e parente. Vanessa era cabeleireira, mas naquele dia era apenas mãe. O pai de Marilia havia sumido no mundo, ela a criava sozinha.
– Cuidado gente – ela gritava para as crianças brincalhonas.
Artur o namorado de Vanessa chegou, sentou-se num canto e ficou observando. Ela foi até ele e lhe deu um beijo.
– Venha pra cá.
– Estou bem aqui. – Ele tinha olhos apenas para a pequena menina vestida de princesa. No fundo tocava músicas infantis. Todos comemorando o aniversário de cinco anos da pequena menina. Passou algum tempo. Ela foi até Artur, de quem já gostava e o puxou. Mas ele continuou sentado. Ela ficou triste, mas nada disse.
Novamente passou mais tempo, as pessoas vinham o chamar, mas o homem de camisa polo, calça brim bege, sapato engraxado e cabelo partido estava quieto no canto.
Vanessa gritou alto.
– Está na hora do parabéns, venham pra cá – todos foram sorridentes, menos Artur, continuou sentado.
Antes que começasse, quando ficou escuro ele se levantou, pegou a arma e atirou em Vanessa, Marilia e por fim em si próprio. Os tiros disparados com luz de vela, a mesma do bolo despedaçado. No lugar do Parabéns entoaram gritos de terror. No mesmo dia que houve o início de Marilia houve o fim. Os motivos ninguém sabe, as pessoas não precisam ter motivos pra serem tristes e sozinhas. Talvez Artur queria apenas a família unida. Talvez ele precisasse de amor. Ninguém precisa ter motivos pra sofrer, nem Artur, nem Marilia e nem Vanessa.

Talvez faça sentido.

– Estou novamente com aquela sensação.
– Qual? – Amanda estava regando umas flores rosadas, um pano amarrando os cabelos louros esbranquiçados..
– Ah, lembra que te disse aquela vez, aquela, estranha, não sei explicar.
– Você não está ajudando nenhum um pouco querido. Não me recordo dessa sensação. – Ela limpou o rosto com um pano, tomando cuidado para que as luvas sujas não tocassem o rosto suave. 50 anos juntos, ah, isso é tão bom.
– Querido, se sente, estou terminando aqui, logo eu te busco uma água, talvez um chá gelado, que tal? Aquele que você gosta. – Ela veio até mim e beijou gentilmente minha testa, o perfume floral veio até meu encontro.
– Certo, certo. – A sensação ficou mais forte, não sei o que era, doía muito, não devia ser assim, cai para o lado.
– Querido? Alguém ajude! Socorro! – Ela tinha olhos tão bonitos.
– Seus olhos são lindos. – Tudo escuro. 

Mentiras que te contam

Celeste mendiga pedia pão aos surdos
Estes famintos jogavam dardos com cegos
Mendigo Adolfo brincava de rico
No fim Celeste com fome morreu sozinha, gripe forte, coitada
O surdo Genésio acabou também cego
O cego Alfredo que cego não era
testemunhou a morte de Celeste
No fim ele foi testemunha, Genésio realmente era rico.