No céu com cabelos.

– Ra-fa-e-la – a menina disse o nome estalando a língua. Pequena, cheia de sardas, um cabelo ralo e desbotado e olhos pequenos atrás do óculos grande.
– Ma-ri-a – a outra disse pausando e puxando o ar – ambas da mesma idade, a diferença entre as duas talvez estivesse na altura, cor da pele, está era mais morena. Tinha um sorriso com janelas.
– O que faz aqui? – a primeira disse a outra.
– Não sei. Meus pais cochicha e me olham cheios de lágrimas.
– Os meus me disseram que estou indo pro céu.
– Então é pra lá que devo ir.
– Não, acho que não, só eu que vou. – Disse a de poucos cabelos desbotados cheia de convicção.
– Eu também. – Ela sorriu mostrando a língua e logo começou a tossir alto. Foi perdendo o ar, veio uma mulher de branco e a ajudou falando palavras carinhosas. A menina com o olhos com óculos olhou para a outra com janela nos dentes. A enfermeira havia ido, a menina foi puxando o ar com dificuldade. Sorriu entre os dentes de janela.
– É normal isso, no céu não vou precisar de ar. – A outra olhou para os braços finos, vários canudinhos estavam ligados às veias.
– É, no céu não vamos ter que usar isso. – Ela olhou a menina que não tinha mais cabelo, a careca lisa. Passou a mão em sua própria cabeça, os seus cabelos desbotados já estavam caindo. Era normal, sua mãe dizia. Ainda bem que no céu os anjos ganhavam lindos cabelos.

Anúncios

O suficiente

Image
O Pé de Pedro ou o Pedro do Pé?

A Fome que assola a Terra
e faz a semente fértil perecer.
O vento seco que fustiga a criança
com a barriga cheia de doença.
Que transforma sorriso em lágrimas
e desenha ossos na pele magra.
A Fome que transforma esperanças
que faz sonhos se destilar com a Terra.
A Seca que faz o céu ficar mais azul
e a Terra mais vermelha.
As únicas cores para os filhos perdidos.
As mães que choram desoladas,
que buscam água na cabeça,
que enfrentam a morte certeira.
O mundo que é dois em um,
de um lado abundancia
e do outro pouquidão.
Caminhos trilhados pelos pés descalços
que se fazem da alegria apenas um bocado.
O sono que transforma a Fome em satisfação
E vem trazendo sonhos, dos sonhos os sonhos.
A semente germina na Terra Seca,
flagelada pelo vento impiedoso,
a semente que resiste a resistência,
e cresce se satisfazendo,
a semente que cheia de espinhos
por dentro há o fruto divino.
A semente que é gente.
A semente que germina,
A semente que vive a Terra Seca,
transforma lágrimas em sorrisos.
Cada nota é só uma nota sem canto,
todas notas juntas virão um cântico.
A semente que juntas formam gente.
A semente que resiste a gente,
a Fome, a Seca, a Terra Infértil.
A semente que cresce gente.