Me devolva para onde eu era no principio.

Não era pra dar tudo errado. 
Mal comecei a vida e nada me felicita. 
Não diziam que ia ser assim. 
Não pedi pra viver, não pedi pra vir. 
Onde posso me consolar? 
Sou estúpida ao ponto de queimar. 
Não queria viver, não pedi. 

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Primeira lembrança.

Tenho comigo, até quando? Sempre vejo quando alguém pergunta “Qual sua primeira lembrança?” e eu não sei o que dizer se fosse comigo. Me lembro de quando eu perdi o dente da frente e fiquei sem ele por quase cinco anos (arte de criança na qual eu cai quando fugia de uma mãe nervosa com uma filha sapeca), me lembro de quando estava no navio indo para Manaus e sorria sem dente para meus tios, visitei o capitão e pilotei um pouquinho a enorme roda de madeira. Me lembro de quando estava na Bolívia com meus pais e vestia uma combinação de short com top verde florescente e rosa chiclete. Me lembro de quando fomos a um museu de animais e tinha uma enorme cobra com um jacaré dentro de si, fiquei com medo, mas meu pai me segurou no colo e explicou como aquilo aconteceu. Me lembro do carinho que tinha com meu pai e tinha liberdade minha de o ter. Me lembro de quando eu voltava da escola, deitava na rede e escutava as músicas internacionais que passavam no radio da minha avó que ficava ligado vinte quatro horas por dia, em todos os dias, apenas se calou em sua morte. Me lembro de quando eu havia ganhado um bolo de brinquedo e que acendia a vela plástica, um dia o soprei, mas não se apagou. Me lembro de quando entrei num rio em uma cidade qualquer do Norte do país e chorei de medo de tantos peixes pequenos. Me lembro de quando sentei na praia para comer com meus pais e fiquei sentindo o lugar lindo a minha volta. Me lembro de enganar meu irmão na hora da soneca da tarde, o fazia dormir e ficava acordada. Me lembro de quando eu cheguei da escola e tinha enormes cães filhotes me esperando, fiquei tão feliz por eles que nem almocei. Lembro de quando minha mãe me enganou, amarrou meu dente á porta e a puxou, na hora assustei, mas corri para mostrar a todos minha nova janela à todos. Me lembro de ficar sentada horas lendo na biblioteca da escola e me sentir em outro mundo, nessa época eu tinha uns 6 anos. Me lembro de quando eu cantava com os meninos na van e riámos alegres, eu com uns 4 anos. Me lembro de quando fui na fazenda da minha tia e comi tanta jabuticaba do pé quanto era possível. Me lembro de pensar que tinha super poderes e só eu poder falar comigo mesma sem que ninguém escutasse. Me lembro de como eu achava que meu espírito podia sair do corpo, ir até o banheiro e fazer xixi sem que eu precisasse levantar, me lembro de ficar toda molhada na cama. Me lembro de perder uma cachorrinha e chorar por sua morte dias. Me lembro de ter queimado a perna num motor de fusca na estrada quando meu pai foi pedir ajuda á um homem na porteira da fazenda, me lembro das bolhas terem ficado grandes e minha mãe lavar com água e sabão, lembro que doeu. Me lembro de quando pegava arroz da lata e dava para os passarinhos, minha avó brigava, então comecei a pegar escondido. Me lembro de pegar e cuidar de vários filhotes de passarinho que caia do ninho, raros sobreviviam.
Me lembro de sentar com uma amiga de escola e comer nossos lanches caladas. Me lembro do meu primeiro dia de aula numa escola que odiei, chorei o tempo todo e a professora riu, me lembro de chorar mais e pedir minha mãe pra me tirar de lá. Me lembro do meu primeiro amor de infância. Me lembro de quando eu perguntei pra minha mãe quando eu iria fazer três anos e ela disse o mês, então eu disse que seria muito tempo, mesmo não sabendo ao certo qual mês era qual. Me lembro de quando meu segundo irmão nasceu e eu chorei, não queria ele. Me lembro de quando íamos para Campinas e visitava meu tio avô Pedro, e ele era engraçado com grandes orelhas e um óculos fundo de garrafa. Me lembro da vizinha dele que era mais velha que eu uns 5 anos, mas era menor que eu, tinha uma doença que não a deixava crescer e ficava com as pernas tortas, ela disse, na época ela com uns 8 anos. Me lembro de quando eu voltei da escola um dia (entrei com quatro anos) e havia aprendido fazer chifre com os dedos, minha mãe falou que aquilo chamava o capeta e eu chorei de medo. Me lembro de quando ela me dizia que o homem do saco iria me pegar se eu não dormisse e todo homem que passava suspeito eu fazia uma careta que pensava eu, me transformaria em uma velha e os enganaria. Me lembro de quando eu estava na primeira série, uma formiga morreu e as outras a levou para o “enterro” e eu chorei pela formiga morta. Me lembro de quando me sentia feia e gorda, mesmo sendo uma menina bonita e normal. Me lembro de tanta coisa, mas não me lembro da minha primeira lembrança. Espero que não me façam essa pergunta um dia.

Manual da vida.

Sai para beber hoje até que eu não pudesse andar.
Dancei a noite toda sozinha até que meus pés não aguentaram.
Beijei várias bocas no caminho, até que meus lábios doíam.
Ri alto com várias pessoas até que minha voz sumiu.
Criei teorias malucas até que virei evolucionista.
Comi até que não consegui engolir e meu estômago gemeu.
No fim das contas fui pra casa, ganhei remorso na minha consciência, meu corpo doeu uma semana, meu coração não retornou, o vazio me preencheu como águas de um rio.
Não voltei mais naquele lugar, não falei mais com aquelas pessoas, não bebi mais aquelas bebidas, não dancei mais aquelas músicas, não beijei novamente, até o amor da minha vida voltar.
Voltou, o rio do meu coração esvaziou e a terra germinou.

Aquilo que eu disse não além do que pensei.

– Eu te amo a ponto de não querer que você saiba disso. 
Sei que hoje minhas palavras não façam sentido, não se entristeça, eu não o quero, nem um, nem outro. Eu poderia começar com um “Because” mas seria tão tolo quanto um simples “Porque”, nada que a muda mude. Sou tola a ponto de não dizer nada. Bem, eu quero apenas que tudo se acabe de uma boa forma, que louca eu seria se não aceitasse minhas excentricidades como elas são?. – Em vez de dizer isso tudo eu apenas sorrio antes as palavras cortantes dele e o olhar suplico. Eu apenas sorrio e digo, não isso, digo outra coisa.
-Tudo bem, sei que não daria certo mesmo. – Claro que eu dissesse o “Seja feliz” seria hipocrisia, não quero que ele seja feliz, não se não for comigo. Mas isso é um desejo tão sombrio e guardado que nem ouso sonhar. Novamente digo algo como”
– Me liga qualquer dia, quem sabe nós saímos para tomar um açaí. – Fecho os olhos depois que ele parte, sou uma covarde, mas sei que você também é. 

 

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Complicado seria se as portas que eu abro desse para outro país.