Meu sobrenome é pecado.

Estou há dias jogada. 
Me transformei numa ordinária.
Meu bordel está cheio de almas. 
Mais uma esposa abandonada. 
Outro marido perdido em meus lábios. 
Meus seios molhados de suor e gozo.
Imagina se sou feliz, imagina se quero isso. 
Minhas curvas desgastadas.
Meus caminhos mal andados.
Fui jogada pela vida. 
Moça bem vivida.
Não me use meu bem. 
Não me deixe jogada. 
Ensinei a muitos amores, a muitas dores.
Ensinei ser feliz. 
Dei amor.
Dei de mim.
Hoje não sou mais nada.
A definição de abandonada foi cravada em minha alma. 
Sou sorriso. 
Desperdicei meu cigarro.
Acabou minha festa. 
Dormi no domingo. 
Afinal, quem eu sou?
Me toque meu bem. 
Goze.
Não me deixe. 
Vá.
Fui amaldiçoada pelas palavras. 
O que foi dito não volta eras há trás. 
Meu sobre nome é pecado, mas meu bem, me chama de amor. 
Minha vida de labuta.
Sorri para trás.
O que dei não está escrito. 
Me chame de amor.
Borrei meu batom vermelho num oral com a vida. 

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As facas envenenadas de uma dor duradoura.

– Água com limão para mim e para ela um café com creme.
– Não se lembra?
– Uh? – Ele a olhou interrogativo, havia uma ruga em seu rosto mostrando impaciência.
– Querida, volta aqui – a morena alta chamou com a longa mão a barwoman e sorriu irônica – meu ex traiçoeiro viveu comigo 19 anos e se esqueceu da minha bebida favorita. Café amor, com vodka russa, aquela que vocês guardam para os homens bonitões, de 1984. Velha e amarga. – A mulher riu alto. Era uma bonita morena de longas pernas, batom vermelho e olhos esverdeados. Parecia uma deusa acabada.
– Não me passe vergonha Teresa. Você já está bêbada.
– Bêbada? Te garanto que não tomei um gole sequer.
– Quando começou a beber café com vodka russa?
– Quando me traiu, chorei amargamente por longos cinco meses, depois fui pra Rússia, logicamente – ela parou, pegou a xícara na mão da barwoman e tomou um longo gole. – Então conheci Victor, um esloveno filho de russos, ficamos juntos dois meses.
– Não pedi um história. – O homem bonito e alinhado disse. Ela passou a mão no rosto dele e sorriu.
– Porém, meu amor, vou te contar. Ele ficou comigo por dois meses e então, pá! Eu me descobri grávida.
– Você sempre foi uma vagabunda. – Disse ele com um sorrisinho dolorido.
– E adivinha? Victor era moreno, de olhos azuis. Eu sou morena de olhos verdes. Mas minha menininha saiu loura de olhos escuros. – O homem a olho petrificado.
Minha?
– Não, minha. Fiz teste, ela é do Victor e minha, linda. Victor é um homem muito rico, nós nos casamos. Vim apenas visitar minha mãe e amanhã já volto para Rússia. – Ela tomou outro gole. O homem parecia cansado. Se levantou, jogou o dinheiro na mesa e a olhou consternado.
– Você nunca me deu um filho. – A mulher o olhou com ódio.
– Você nunca me deu amor. Egoísta, sempre com essa sua relação restrita. Eu sempre quis um bebê, mas nem isso você soube me dar e sempre me cobrando. Sempre. Ao fim me deu um par de chifres e uma apunhalada que me dói só de respirar.
Ele saiu sem esperar resposta.
– Enche meu copo querida, só vodka, nada de café. – Ela olhou pro relógio como se seu tempo tivesse parado. – Tenho toda uma vida de desgraça.

Intrínseco na íntegra. Os corpos que não falam.

O suor corria no rosto de forma que as pequenas gotas fizessem cócegas na pele morena. Ela abriu os olhos e seus longos cílios afastaram com o suave arfar o grãos de terra que o vento trouxe do leste. A boca rosada se mexeu, balbuciou algumas palavras e se fecharam novamente. A compreensão estava longe.
De costas se via a longa linha de seu corpo, as curvas de sua cintura, toda geometria simétrica de forma reunida e delicada. Ela se moveu. Os longos cabelos lisos se mexeram abrindo em um leque de pura maciez deixando o aroma de pêra no ar.
– Catarina. – Disse. Quem disse? Is nossos pobres olhos que sofrem de miopia, astigmatismo, hipermetropia e tantas outras doenças não nos deixa ver o que nem os olhos sãos não veem.
– Te esperei. – Não havia necessidade de falar o que o corpo já dizia. Ela sorriu e os seus generosos lábios se curvaram de uma forma que os deixava arredondados e ressaltava o buraquinho no queixo.
– Catarina – Ela não escutava. O corpo arfou, de um lado se via a noite e do outro o dia já se fora. 
Agora ela não estava sozinha.
– Mon amor. – Brasil parisienses de forma que ela não dormiu na noite quente. Quem dorme nessas noites quando se tem amor pra dar e ganhar?

Uma forma de amar que não cabe em palavras pra expressar.

Me peguei olhando no espelho. Da cama eu te via deitado. Espreguiçou e sorriu. Não foi pra mim, eu sei. Me deu uma vontade de te puxar pra perto, abraçar bem gostoso e sentir teu cheiro distinto, mesmo sendo o cheiro de sempre, café preto.
Noventa por cento de mim é você, e nas outras dez eu me perco. Parece até que você é meu Yang. 
Olha como estou gorda, devia dá um jeito de entrar na academia. 
– Bom dia – Você sorri, meio sorriso, meio amargo, meio doce, meio dormindo e meio acordado. 
– Já é tarde. 
– Quem disse?
– O relógio, o sol, o dia. 
– Mas eu quero que você tenha um bom dia, independente das horas. 
– Hum. – Ele riu alto, sempre queria está no comando. Eu, por mais que minta, omita e finjo não gostar eu gosto. Eu amo. 
– Um abraço num pobre homem que ama essa mulher gostosa! – Ele me abraça, mas não desses abraços frouxos, meio de lado, meio parado. Um abraço forte, desses que aperta o pulmão, cutuca o fígado e parece sentir o coração. 
– Sabe porque eu gosto de você? Não, por que eu gosto muito muito muito muuito de você? 
– Hum? 
– Eu não sei! Não faço a mínima ideia, mas quando eu te vejo sorrir, é um soco no estômago, que parece acordar lagartas em metamorfose e voar até, aqui embaixo, você sabe.. – Ele ri alto me soltando. 
– Ah, cala a boca! – Eu sorrio, sorrio porque o amo. 
– Você está cada dia mais gostosa. 
– Estou gorda. 
– Está gostosa, pra mim é assim que tem que ser, você. 
– Vou vomitar, você anda um chato! – Antes de entrar no banheiro ele corre até mim e me joga na cama. Será possível alguém explodir? Será possível um amor maior? Me libertei, desabafei tudo o que senti e o que sinto. 
– Eu te amo. 
– O que? 
– Não vou dizer duas vezes. Meus atos expressam mais que palavras. – Ele se levanta novamente e antes de finalmente entrar no banheiro ele vira pra trás – Anota isso, mas antes passa minha roupa. E estou com fome. Café com creme e anda logo. 
Nem tudo é perfeito, mas o perfeito é ser do jeito que é. 
Me olho novamente no espelho, estou gorda. O ar cheira a café.

 

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Não é que eu ame café, mas eu amo o cheiro, a lembrança, a segurança e a forma como você o bebe.

Afogar, nadar. Estando em certos braços é como estar nos braços do mar.

– Me Excite – Ela dizia. Mas seus lábios nada faziam.
Como posso eu a beijar, se ela estava lá, tão longe na água como sereia?
Os olhos semicerrados pela luz pareciam pequenos botão de rosas douradas.
Não me olhe. Ela clamava, mas suas palavras não denotavam vergonha.
Me abraça, os braços se esfregavam.
Mas ela estava tão longe de mim, estou tão frio aqui.
O corpo sensual com curvas exóticas.
Beijos, meu bem, beijos matam.
Minha mente sabia que eu tinha de resistir, mas meu corpo estava cada vez mais perto da margem.
-Você é sereia? – Eu perguntei.
Mas ela riu, levantou as pernas bem torneadas
– Eu pareço sereia amor? – As pernas me gritaram. Me apertem, elas diziam.
Eu já estava me afundando quando entrei.
– Não sei nadar.
– Eu te salvo. – Eu entrei e ela me beijou, ela me beijou e me segurou.
Ah, mas ela não sabia, não sabia que eu já havia me afogado.

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Por que tanta roupa meu bem? Fique como ao mundo todos vem.

Fotografia de: Anna Marinho.
Link Facebook Anna F Marinho Photography

Os clones do homem que não sabia amar.

Naqueles braços foi que ela deu o ultimo suspiro. Onde ela olhou para ele e sorriu. Nunca iria existir mulher mais doce como ela. Daqueles braços ela foi arrancada, pela natureza. Enterrada e esquecida. Não por ele. Ele jamais a esqueceria. Ele jamais se renderia ao fim.
Cientista renomado, havia ajudado a descobrir várias curas para várias doenças, estudou toda a física existente, tentou alcançar além do que podia um homem só alcançar, ele provou que era mentira. Até aquele dia ele fora alguém importante, mas agora ele seria apenas ele o homem sem esposa. O homem sem inspiração.
O homem.

Ah, tanta dor em um só homem precisa ser extravasada, como ele a faria? Enfiou-se em um quarto escuro, com uma luminária, bebidas, cigarro. O fim da vida. O único objetivo da vida seria estudar, ele começou a pesquisar, e pesquisando ele foi vivendo. Comia quando dava, bebia quando dava, dormia quando dava, ia ao banheiro quando realmente necessitava. Virou aquilo que chamamos de traça. Ele virou pura traça.
Nas paredes nuas ele revestiu de fotos, cartas, perfumes, flores. Como se toda a essência da mulher que um dia ele amou coubesse ali.
O homem se desgastou a tal ponto de chamar a todas de Catrina, mas Catrina já não existia. No começo as mulheres compreendia o engano, mas com o tempo foi ficando grosseiro.
– Ela já se foi Homem, lide com isso. – E os olhares acusadores eram tanto quanto possível.
E isso foi apenas mais um ponto para que ele se escondesse totalmente do mundo. A bebida apenas o mantinha acordado, o cigarro o mantinha vivo. Assim como sua mulher morta. Então, um dia, ele teve a vil ideia. UM CLONE. Gritou para todos como se fosse Arquimedes gritando Eureka.
Trabalhou dias afins. Tentou tudo quanto é experiência, até que então ele conseguiu gerar. Viu uma mulher adulta crescer diante dos teus olhos num útero sintético. Cinco dias demorou a que ela alcançasse a adolescência. Ele ficou tentado a tirar dali à menina e a criar como filha. Mas o amor era tão grande pela mulher amada que resolveu esperar. Então, dez dias, esse tempo certo para que nascesse a mulher. Ele a desligou do útero. A tirou de lá para que vivessem normais os anos seguintes ao seu lado. Assim que ela saiu ele a abraçou. Mas a mulher o olhou espantada.
– Quem é o senhor?
– Oras meu amor, sou eu, seu esposo.
– Não tenho esposo, nunca me casei. – Ele a olhou assustado, pegou fotos e mais fotos e a mostrou.
– Sou sim, olha.
– Desculpe senhor, não me lembro de ti. Essa mulher não sou eu. Na verdade, não me lembro de nada, nem de quem sou. – Então o homem novamente entristeceu. A mulher, a sua mesma mulher não o reconhecia. Vendo a tristeza dele ela tentou o consolar. Tentou ser aquela a quem ele amava. Mas em vão. Catrina amava rosa, Cataria o detestava – nome escolhido por ela mesma, Catrina era tão estranho quanto nome de égua, disse a nova Catarina – Catrina adorava ler romances, Catarina detestava romance, preferia uma boa ação com aventura. Catrina adorava ar livre, Catrina odiava ar livre e todos aqueles insetos. Catrina amava bolo de coco, Catarina preferia de chocolate. Ambas eram tão diferentes quanto o dia e a noite. Apenas compartilhavam da mesma aparência.
Um dia o homem já enfadado daquela mulher, já triste e desolado resolveu a esquecer.
 Pois já Catarina o amava, já havia apreciado sua companhia. Mas o homem já não aguentava uma mulher de temperamento tão diferente do seu verdadeiro amor, não queria mais saber dela e com sua nova descoberta criou outra de sua mulher. Dessa vez uma criança, a quem chamou Carina, e então, toda sua atenção foi para ela, fazendo que Catarina ficasse triste, triste até desolar.
Sem amor essa mulher não era nada. Foi jogada em um mundo por circunstancias distintas e de interesse próprio, com o coração partido aprendeu amar alguém que nunca a amaria, apenas uma sombra. Amava a aparencia, amava quase o nome, mas o ser o que ela realmente era ele não amaou. O que uma mulher poderia fazer, olhar de longe um homem egoísta que só pensa em si?  Um dia, sem dizer ela pegou a criança Carina que já a tinha como filha, foram embora sem dar adeus, o homem que se virasse, o homem que arrumasse outro clone para amar, mas antes de partir Catarina destruiu o útero sintético e queimou todo DNA da falecida mulher, que de coração partido só quem sofre sente e ele não levaria ao mundo mais nenhuma delas.  

 

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Quando vai aprender que tenho o mesmo nariz, os mesmos olhos, a mesma boca. Mas todo dia acordo uma mulher diferente?

Uma junção de tudo e nada. Em uma história de amor.

A história completa. 

 

Ana. Esse é um nome muito simples para dizer que era dela. Quem diz que nossos nomes são nossos? Eu me chamo A, você também se chama A. Então, meu bem, nossos nomes não são nossos. São de quem? 

Eis que essa não é a história. Essa não é a estória. Esse não deve ser o começo do começo. Esse deve ser o principio do meio. Por quê? Porque se começa, não do começo. Pra se começar do começo deveríamos ir até quando o mundo foi criado. E o Verbo estava ao lado de Deus. Mas o principio desse meio é o principio da estória. Da dela. 
Qual a receita para se transformar a vida de uma inocente numa megera, numa maldição? O que o amor é? Você poderia dizer que é quando os pais amam os filhos mesmo antes de saber que os irá os ter. Quando a mão acaricia o ventre sabendo que lá dentro existe vida. 
É quando o homem ama uma mulher mesmo conhecendo cada um dos seus defeitos. É quando perdoa. Oras, são tantos e tantos e tantas formas de amor que não teria como as citar em uma só página. Em um só dia. Seria como ir à praia e achar que o mar é apenas aquilo, que o oceano é apenas o encontrar das águas suaves na areia pálida.

Esse é o amor, no qual nasce belo, antes de nascer. Se transforma em algo, um ser. Um ser pessoa, um ser humano. Um ser mulher. 
Nasceu da união, de um homem, de uma mulher. Cujos ambos não eram bonito de aparência, cujo ambos tinham o coração belo. Cuja menina foi criada para ser servida. Cujos sonhos se tornaram maior que o próprio corpo. Cujos pais a amavam mais que a vida. 
Ela cresceu, e pegou aquilo que não os pais não tinham. Pegou a beleza que trazia no corpo, a suavidade do andar, do falar, do olhar, do sentir e tocar. Pegou dos corações o amor, os transformou em bondade, em caridade. Mas erro seria o nosso, caros homens, se nós achássemos que ela era tudo aquilo. Errado, pois como? Fácil. Em todos nós existe o mal, em cada um existem as sombras. 
Cada corpo, cada mente, cada alma. Onde nós iremos descobrir? Como iremos descobrir? Quando descobrirem me diz, essa é a mesma questão que vem desse o começo dos tempos. O bem, o mal. O certo, o errado. O sim, o não.

Mas onde está a história-estória de Ana? Onde está a parte em que conta sobre ela? 
Do crescimento à juventude não há nada a dizer. Ela cresceu bela, inteligente e pura. Ansiava conhecer. O amor era seu verdadeiro objetivo. Queria mais que tudo o encontrar. E quando nós ficamos obcecados por algo nós nos cegamos. Enfiamos a névoa da falta de consciência nos olhos e pulamos qualquer obstáculo para alcançar. 
Ela não poupava esforços. O fazia sem temer. Se temia não dizia. 
Um dia, na sua inocência ela conheceu um homem. Um homem cujo passado ele passou em branco. Cuja existência era vivida a cada dia. Um homem cujos princípios não tinham. Um homem que procurava felicidade no prazer, e em tantas buscas se perdeu na própria tristeza. Um homem que nunca havia se apaixonado, e cuja paixão se um dia veio ter a matou. Sem remorsos. 
Ana, Ana, Ana. Ana Libela. Era o nome dela. 
Ele a conheceu uma menina no corpo de mulher. Para um inimigo ter melhor resultado no campo de batalha é apenas conhecer a fraqueza do outro. E ela, meus caros, a contou sem saber. 
Juras de amor eterno foram feitas. Juras daquilo que não se pode pagar. 
– Tu juras me amar eternamente? 
– Eu juro só se tu me beijar. – E esse, sem saber, esse sem conhecer foi o pacto. O pacto feito não tem volta. O homem que não tinha princípios já não queria saber mais da mulher inocente. Os desejos carnais que ele tinha gritavam para serem sucumbidos. E a menina-mulher dizia
– Só depois do casamento. – E por que um homem que não ama de verdade deveria esperar? Pois bem, ele não o fez. Ele partiu sem dizer adeus. Oh, não, eis que me esqueço do detalhe importante. O salafrario deixou um bilhete, bem mal escrito, mas nele dizia. 
– Fui embora por não poder esperar. Descobri que não a amo. – Ela chorou dias, horrores, mares e rios. Chorou até secar. A menina que um dia fora bonita se transformou num trapo de pele e ossos. Os olhos escuros manchados pelo vermelho. O cabelo escurou secou como palha. Ela já não comia, já não dormia. 
Então, eis que BUM. Ali naquele coração bom o mal se alastrou pelas profundezas de um corpo puro. 
Se levantou daquele leito que já estava com mau cheiro – pela falta de banho – ela resolveu o amaldiçoar. Resolver ir à busca das profundezas do mal. Ir à busca daquilo que julgava ser o certo. Ela continuava cega, mas o coração partido, as trevas se alastrando e progredindo. 
Ela andou até onde se dizia viver uma velha feiticeira. Que ela descobriu na verdade ser uma mulher jovem e bela. Com um sorriso convidativo ela entrou. 
– É amor não correspondido? 
– É. 
– Feitiço para amá-la? 
– Não. – A mulher feiticeira sorriu. 
– O que então jovem menina. Eu tenho um preço. Sabe. Um preço que talvez não esteja disposta a pagar. 
– Eu pago o que quiser. Quero que ele sofra. Quero que padeça, quero que sinta o que senti. Quero que quando pensar em mim lágrimas de sangue lhe molha o rosto. Quero que seus descendentes sejam aleijados, cegos, doentes e retardados. – A feiticeira riu. Os seus olhos havia tanta maldade quanto havia no corpo de Ana. Até mais. 
– Certo menina, eu irei fazer. Mas é um feitiço muito forte. Vai exigir uma coisa tua. 
– O que quiser, eu já disse. – Então a feiticeira pegou um tufo de cabelo de Ana, sangue do ventre. Saliva. Depois a fez beber diversas poções. Se deitar numa cama do lado de fora da cabana. 
O bem e o mal se encontram, enfim. 

A feiticeira fechou a porta e começou a entoar um canto já muito esquecido. Um canto que dava dores ao corpo, pesadelos aos sonhos. Doenças as crianças. 
E enquanto ela cantava a menina-mulher Ana ia murchando. O corpo ia se transformando em velho. Ela sentiu uma dor tão forte no peito que parecia ter sido quebrado, estraçalhado, como uma pequena porcelana. 
Ela gritou num profundo desgosto. E tudo que estava em sua mente era aquele amor perdido. Era o homem que roubou os seus sonhos. 
Ela amava a sua juventude, sua beleza e pureza. Amava mais que a si. E tudo aquilo foi se indo. Com a mão no peito ela tentou se levantar. Começaram a nascerem rosas tão frescas e vermelhas envolta de si que ela achou que não poderia mais respirar. Mas se enganou, ainda restava folego. Para ver aquele que amava rir de sua feiura, para aquela que julgou a ajudar pegar sua beleza e juventude. Para ela se ver de tola. 
Aprisionada em seu próprio amor ela prometeu antes que fosse submersa em rosas vivas – Riam dela, debocharam de sua juventude apodrecida – Gritavam as rosas. 
Ela ficou num eterno grito de dor. Jurou vingança, sussurrou. Jurou voltar, ser bela, ser nova, ser tudo aquilo que ele não poderia amar. Mas então, então já morta, então já sozinha o mundo continuou a girar. Uma feiticeira bela e nova. Um homem cujo talvez os filhos fossem como ela disse, talvez não. Um homem que nunca mais se lembraria dela continuou a viver. E o mal dentro dela se foi. O bem dentro dela se foi. Ela continuou ali, naquele canteiro de rosas perdido, continuou enterrada meio viva. Podia apenas ver de longe e lamentar. Talvez não. A morte, bondosa morte, talvez a tenha levado. A mulher pura, jovem havia se tornado sombra de si mesma. O ruim, o podre, o fétido. O horror. Do peito que havia amor sobrou apenas vermes para a consumir. O preço foi pago para resultados, talvez, inválidos. Ela esperava então, o ultimo dia. 
O amor não é simplesmente o ato de amar, está além. Está naquilo que você quer sacrificar. Ou talvez, no que você pode. 

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Promete, promete, mas quando for cumprir não se esqueça do que prometeu. No fim vai ter que ser sim.