A peça quebrada que me compõe está em toda parte.

Esse animal que me domina voltou.

Eu deitei e entre meus pensamentos jorraram ideias inúteis, lembranças de livros passados. Vidas de outros dentro de mim.

A ansiedade me engoliu com sua boca grande e cheia de dentes, me sufocou com seus tentáculos grossos e pegajosos.

Como extinguir esse monstro que me mata todos os dias aos poucos?

O monstro me apertou com esses dentes enormes e me rasgou até que meus estilhaços se tornaram tudo aquilo que me compõe.

É sempre as mesmas palavras, sabe o por quê? Porque o sentimento é sempre o mesmo.

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Meu monstro de estima.

O monstro que vive em meu estômago, tem garras enormes e afiadas.

Ele sorri e me rasga enquanto eu grito e choro.

Às vezes ele domina meu corpo e me mostra os horrores que me rodeiam.

Às vezes ele toma minha alma e me faz olhar para o nada até que o vazio me consome.

O monstro que vive em meu estômago é enorme, ele ruge e ronrona.

Tudo dói.

Eu paro e olho e tudo o que eu vejo é o desespero que me toma.

Eu olho com os olhos mortos e fico com os lábios esticados para baixo numa carranca de amargura.

Quando eu tento dominar minha boa e gritar e rir e chorar eu só tento sorrir.

Meus lábios repuxados para baixo se rasgam para cima e tudo o que era carranca se transforma em sorriso.

Um sorriso de monstro, porque se está dentro de mim então faz parte de quem sou.

Será que eu sou o monstro e esse corpo é só minha vítima?

O sorriso que eu tinha era assustador até pra mim.

Meus olhos se voltaram para dentro e o que viu não foi bonito.

Pensei em me jogar num mar de piche e me afogar com toda a morte.

Pensei em rasgar minha pele e ver o sangue jorrar para fora, estou cheia de venenos e tudo dói.

Meu corpo veio mal feito, com uma alma partida ao meio.

Pra onde olho eu choro, parece até que fui constituída apenas de tristeza.

Às vezes quando esqueço de quem sou e me prendo em memórias passadas eu respiro e me lembro que há um futuro longe de tudo e todos que compõe meu ser, mas me lembro que não sou nada disso.

Sou menos que nada.

Às vezes penso em me jogar no chão e dormi até que o sono eterno me leve, mas o chão é duro, eu durmo tarde e depois acordo.

Nada vem e nem eu vou.

Às vezes eu me sufoco, mas tudo o que quero agora parece ser impossível.

Onde está a parte da minha alma que sorri? Me deixe com ela e leve a parte que só chora.

Um animal dentro de mim querendo sair pra fora.

Um animal sentir da jaula.

Arranha, chora, grita.

Um animal dentro da jaula.

Sofre, apavora, vomita.

Uma alma dentro de um corpo.

Nasceu abalada.

Corre, bate, volta.

Não há saída se não a morte.

Uma alma dentro de um corpo.

Está dentro ou fora?

O animal dentro do corpo,

Arranha as entranhas, rasga a barriga.

Pare, respire.

Respire, inspire.

É só ansiedade, esse animal já vai embora.

Já foi?

Foi?

Ainda arranha, ainda vomita, ainda chora.

O meu amor é maior que nós.

Seus longos cabelos me cobriam como uma cortina negra e sedosa. Ele me olhou por sobrolho e sorriu. Meu corpo estremeceu por onde seus dedos passavam, como sentir trilhas de eletricidade se expandido em mim.

– Coloque uma música, amor.

– Não consigo – Saiu como um choramingo reprimido.

– Claro que consegue.

– Não com você por cima.

Ele riu, eu chorei. Meu coração se rasgava toda vez que eu o via, toda vez que o cheirava. Meu coração se rasgava apenas por amá-lo.

O longo cabelo liso e preto se enroscou pelo seu corpo, ele se virou e piscou para mim.

– Não posso ficar por muito tempo, tenho que trabalhar.

Mais uma fisgada em meu coração e eu poderia morrer agora mesmo.

– Entendo.

Soar chateada não me faria forte. Me levantei também.

– Não precisa colocar a música, tenho que ir.

– A casa é sua.

– Sim, fique a vontade.

Me vesti, não deixei tempo para que ele respondesse.

Sai correndo, sem que ele percebesse. Meu coração disparou, meu corpo gritava querendo voltar, meu coração chorava querendo voltar.

Meu cérebro também queria voltar.

Eu corri.

Me sentei numa escada de um edifício qualquer, fumei um cigarro enquanto chorava, tentei levantar e ir trabalhar. Mas meu corpo estava travado. Meu corpo chorava, amar dói o corpo e a alma.

– Elisa? Não vou trabalhar hoje. Você resolve essas pendências pra mim? Só hoje? É, pois é. Não, tudo bem. Qualquer coisa eu te ligo! Abraços, você é uma amigona!

Me levantei, sacudi a poeira, estiquei o corpo. Iria voltar pra casa.

Abri a porta, estava uma bagunça.

Sentei na cama, dormi.

Acordei com as costas doendo.

– Você demorou acordar.

– PQP!

– Ei, fale como uma pessoa normal.

– O que está fazendo aqui?

– Sabe, me dei conta que eu gosto de você já faz tempo.

– Certo.

– Eu tenho medo de me machucar.

– Todos temos. – Meu coração estava parando.

– Olha, eu gosto de você.

– É, você disse.

– Você vai ficar só dizendo isso?

Meu rosto estava quente, molhado.

– Não chore periquita.

Eu comecei a rir e chorar, meu coração estava se inchando.

– Periquita?

– Posso morar aqui?

– O que?

– Você sabe, morar juntos, dividir despesas…

– Mas você tem seu apartamento…

– Mas só tenho você e você é tudo o que eu preciso.

– Posso ficar?

– Sempre.

Meu coração se juntou e cresceu tanto que explodiu. Os corpos nus, minha cortina. Meu coração, meu amor.

As gavinhas que envolvem meu coração.

Tem horas que me dói tanto o peito que minha vontade é de o esfaquear para que essa dor passe.

Torcer meu coração até que toda dor suma.

Arrancar o meu sangue para fora, assim ele correrá livremente.

Pular de um penhasco alto até que meus pensamentos me escapem.

Beber veneno fresco para vomitar meu desespero.

Cheirar gás de cozinha e encher minha cabeça com algo que não seja tristeza e solidão.

A minha dor é tanta que se uma bala atravessar meu cérebro eu poderia viver na escuridão eterna em sofrimento e pesar.

Deixarei uma corda em meu pescoço para que tire todo ar de meus pulmões.

Irei afogar no mar e não mais afogarei em minhas mágoas.

Como posso estar viva se tudo o que sinto é morte?

Estou viva na minha vida e existo para a morte.

Esse rancor, por favor.

Eu era tão tolerável, tão calma, meu coração aberto perdoava tudo, por mil anos.

Agora eu criei um rancor do tamanho do King Kong, ele criou raízes em meu coração e cada parte de si acumula partículas de “Imperdoável”.

Faz muitos anos, mas eu já não consigo esquecer, perdoar e deixar passar.

Sinto raiva até dos filmes que vejo com pessoas ruins que são perdoadas e tudo segue em frente.

Esse monstro está aqui enraizado em meu coração e o aperta, é tão profundo, tão profundo que já perdi o controle.

Só posso lembrar e não perdoar.

O rancor se tornou um vírus dentro de mim.

Me sufoca, me enoja, e fica aqui.

Carta para um amor que já morreu.

Fazia um tempo que eu não te via. A última vez estava com o cabelo curto cheio de mechas rosas e azuis, tinha perdido a pulseira da sorte e chorava muito antes de me mandar embora, mas não chorava por mim, chorava por ter perdido a pulseira da sorte. Acho que você nunca chorou por mim, ou chorou?

Agora que te vi, nem faz tanto tempo assim, quando paro para pensar. Você ainda tem umas mechas azuis, as rosas se foram, mas o cabelo antes curto agora está longo e na barriga há uma outra vida. Nunca imaginei que ali cresceria outro ser sem ser o nosso, mas me enganei né? Você continuou a sua vida e eu a minha, mas quase sempre pensando em você. Que belo perdedor eu sou.

Continua andando de forma estabanada, mas parece mais em paz. Sorri atoa para o vento e ainda para para observar o nada. Algumas manias nunca se vão, você com seus devaneios e eu com meus cigarros e palavrões.

Mas minha mania melhorou, agora tenho dinheiro pra comprar uns melhores e aprendi umas palavras bacanas.

Enfim, só escrevi mesmo pra dizer que você envelheceu de forma suave e bela, continua linda.

Só espero que não continue a mesma, afinal, como o tempo melhoramos ou pioramos.

Lembra que eu sempre dizia que a gente ia ter filhos? Ainda sonho em ter filhos, desta vez vou olhar melhor para o futuro, devemos deixar o passado descansar em paz e seguir em frente.

Você seguiu e eu também.

Mas me responde uma pergunta, você ainda chora?

O que eu quero saber mesmo é, você já chorou por mim? Não precisa responder, não alimente meu egoísmo narcisista, se eu já perguntei lá em cima e você não respondeu ainda é porque eu não preciso saber.

Tem coisas que ninguém precisa saber, não é mesmo? Mas há coisas que acabamos descobrimos por mais dolorosas que sejam e ainda me arrependo por isso, por ter tido algo para se esconder de você, por trair sua confiança e aproveitar do seu amor. Me desculpe por isso, por tudo isso.

Adeus mulher, espero que seja muito mais feliz do que já foi comigo, espero que essa vida que você carrega venha cheia de luz.

Daquele que um dia te amou e não deu valor.

Você se lembra, não é? A raposa negra da floresta…