Os Sem Sombras

9.2

A noite chegou rapidamente no sábado, todos estavam saindo da instituição, iriam em uma festa de uns amigos de fora. Bernardo estava com o braço na cintura de Clara que sorria abertamente. Ela estava com um vestido solto e muito curto mostrando as pernas morenas e torneadas, calçava um all star branco com tachinhas douradas. Uma garota a olhou e ela lhe deu uma piscada e um beijo. Bernardo conversava sobre futebol e games com Danilo e outros cinco garotos, eles estavam numa turma grande de quase vinte pessoas. Atrás de todos eles ia uma garota com o cabelo tão loiro que se podiam ver várias mexas brancas nele. A pele branca e pálida dando um contraste no batom vermelho e lábios carnudos, os olhos de um preto intenso e poderoso, ela tinha uma expressão carrancuda no rosto pequeno. A garota era bem pequena, usava um vestido curto e um coturno de couro. Os cabelos longos e vibrantes voavam de encontro ao vento. No braço direito e no pescoço se via uma enorme cicatriz branca e repuxada, aquelas que ficam quando se queima com fogo. Ela olhava diretamente para Bernardo, mas ninguém percebia, todos estavam entretidos com suas próprias companhias. Ela tinha um sinto de couro na cintura despendido de lado, se podia ver que de cada lado tinha uma bainha e um cabo prata e reluzente. Ela chegou até uma menina alta e morena.
– Hey, garota. É, você. – Ela lhe deu um sorriso forçado que mais pareceu uma careta. – Me ajuda?
– Com o que? – A morena mastigava um chiclete e fazia bolas com ele.
– O nome daquele garoto, o de cachinhos com a ruivinha.
– Ah, é Bernardo e Clara. Ele é um gostoso e ela uma vadia. Dizem que vão perder a virgindade hoje. – A garota morena sorriu mostrando os dentes brancos e levemente tortos e continuou andando e rindo com outras duas garotas. A loira foi andando perto delas e observando de longe. Um frio súbito a tomou, ela esfregou os braços, mas parecia que apenas ela o sentia.

Image
– Foge enquanto pode. – Minha mente dizia, mas eu queria ficar, eu queria.

A casa onde estavam era grande e acolhedora. Tinha mais de cinco quartos espalhados, quatro banheiros e três salas. Do lado de fora uma grande piscina estava lotada de adolescente. Todos riam e dançavam ao som da música. Bebidas eram distribuídas entre eles e vários já estavam bêbedos. Bernardo bebia a vários goles um líquidos vermelho com pequenas frutas dentro.
– A Bê, você não vai me dá nem um beijo? – Clara fazia biquinho e sorria maliciosamente. Bernardo virou o conteúdo do copo de uma só vez e o jogou longe, fazendo várias pessoas em volta rirem alto.
– Então Clara, eu não estou a fim de te beijar. Você precisa me motivar a lhe dar um beijo. – Ela passou a mão no rosto dele e o mordeu levemente o canto da boca. Puxou a mão dele e o levou até um canto. Quando chegou lá ela tirou o vestido ficando apenas com as roupas intimas, um conjunto picante vermelho.
– Motivar? Mas como? – Ela sorriu novamente e chegou na parede, ele respirou fundo, chegou mais perto e ambos começaram a se beijar. Ele passava a mão por todo o corpo dela e a esfregar, os beijos foram ficando mais intenso, ela tirou a blusa que ele vestia e começou o arranhar.
– Vamos para um quarto. – Ele disse entre a respiração cortada. Ambos subiram correndo as escadas até chegar num quarto qualquer. Clara o jogou na cama e subiu em cima dele, tirou o sutiã vermelho lhe revelando os pequenos seios rosados.
– Vadia. – Ele falou num sussurro antes de abocanhar o pequeno seio. Quando ambos estavam ofegante a sensação dolorida de algo se mexendo agitou-se dentro de Bernardo.
– Droga. – Ele se encolheu na cama.
– Bernardo? Para de frescura, o que está acontecendo? – Clara dava um sorrisinho achando que tudo era parte de uma brincadeira de mau gosto. Mas Bernardo se encolheu mais e começou a gritar de dor, o grito foi abafado pela música alta do lado de fora. Clara viu que ele estava realmente com dor e passou a mão no cabelo cacheado de Bernardo. – Porra Bê, o que tá acontecendo? Você não é acostumado a beber e enfiou a cara na bebida né!
Bernardo não respondeu, em vez disso ele se levantou e agarrou Clara num beijo repentino. Ela começou a rir e o beijar, mas então ela deu um grito, havia sangue nos lábios dela.
– Calma não precisa ir com essa selvageria toda.
– Não é assim que você gosta vadia? Você e a sua mãe cadela. – Os olhos dourados de Clara se arregalaram em um susto.
– Minha mãe? Você… Ouviu falar dela? – Ele começou a rir alto
– E quem não ouviu? O teu pai era um safadão que gostava de dar uns tapinhas, não é isso? Você também é cadela como a tua mãe, adora tapinhas não é? – A névoa negra envolvia ambos, Clara começou a se afastar de Bernardo assustada. Os pensamentos dela já não estavam mais no quarto, ela foi levada até a casa grande em que morava com os pais, a porta aberta e os gritos.
– Cadela, venha aqui me chupar, não é isso que você faz quando eu saio pra sustentar esse teu rabo gordo? – A garota ruiva se escondeu chorosa atrás do grande urso do quarto, ela podia escutar os gritos da mãe sendo espancada.
– Eu sei que você gosta disso. Não gosta Clara? – A voz de Bernardo estava rouca tirando Clara das lembranças por um segundo, mas novamente elas voltaram mais forte. Os gritos, a ambulância, o pai xingando ela de cadelinha.
A névoa a envolveu completamente, entrando pelos lábios abertos, ela caiu no chão com o corpo seminu e começou a tremer, os olhos esbugalhados estavam com o mesmo aspecto de quando ela era criança, as lembranças estava fervilhando em sua mente. Quando uma leve saliva começou a sair da boca dela Bernardo começou a rir e passar a língua comprida pelos lábios risonhos malignos.
– Então você gosta de brincar antes do foda? – A porta abriu abruptamente e uma garota de cabelos loiros esbranquiçados entrou sorrindo, e estranhamente em suas mãos havia duas adagas compridas de cristais que reluziam uma luz branca e forte. Antes que Bernardo pudesse fazer qualquer coisa ela correu até ele e passou a adaga pela sombra escura entre ele e Clara. Bernardo caiu no chão com o rosto contorcido em uma dor forte, ele começou a se revirar no chão de dor até que os olhos fechassem e ele desmaiasse.
Clara já nada mais via, ela começou a dormir num sono profundo. A garota loira deu um sorriso e se sentou na beirada da cama. Isso é inesperado, um sombra envolvendo duas pessoas assim e uma delas é o receptor da sombra. Interessante. Ela deitou na cama guardando as adagas e fechou os olhos, o melhor a fazer enquanto esperava era dormir.

Anúncios

Os Sem sombras

Algumas palavras ferem mais que adagas, algumas até matam.
Algumas palavras ferem mais que adagas, algumas fazem desejar a morte, algumas até matam.

 7.1

-Você não possui sombra. Sabe por quê? Ela mora dentro de você!
– Mentira! Eu possuo sombra sim.
– Você acha? – A voz profunda que dizia isso deu uma gargalhada sarcástica. – Então veja se você possui. Olha o que você fez. Não quer ser um mau garoto? Você já é! – A  voz sumiu e ele foi transportado para um quarto, o quarto de Alice. As paredes amarelas com papeis de parede floridos, ela lhe deu um sorriso terno e quente, mas ele não lhe sorriu de volta, ela começou a falar
– Eu… Eu tenho que te dizer algo. – A voz dela estava tremula e cortante, ela parecia nervosa, mexendo nas mãos e balançando o corpo numa quase dança suave.
– Diga.
– Eu meio gosto de você. – Ele começou a rir e não parava mais.
– Desculpa Al, mas isso é engraçado, você falando assim é hilário. – Ela fechou a expressão e os pequenos olhos se encheram de lágrimas, lágrimas que não iria cair porque ela era do tipo de garota forte que não demonstrava emoção.
– Idiota, vai se danar. Saia do meu quarto! – Ela o olhou com raiva, decepção, dor… Ele parou de rir e a encarou.
– Ora vamos Al, para de ser boa, eu também gosto de você. Por isso vou te dar um presente! – Ele chegou perto dela e tirou o cabelo que estava caindo perto dos lábios pequenos. Ele chegou mais perto até que seus lábios carnudos encontrassem os dela pequenos e suaves. Eles eram frescos e doce, ela gentilmente o beijou de volta e ele a envolveu com os longos braços.
– Te amo minha Al – Ele sussurrou e então sentiu frio. Algo dentro dele se mexeu o fazendo cair no chão sentindo uma dor forte. Algo se mexeu novamente.
– Bê? Bê o que foi? Me fala Bê! – Alice o sacudia levemente. Então ele levantou os olhos e estavam negros, os lábios se curvaram em um sorriso maldoso.
– Tolinha, acha mesmo que eu gosto de você? Acha que eu te amo? Como você é burra garota. Acha que vou gostar de uma moleca? Acha? Olha o teu cabelo, vive bagunçado, até a Íris é mais bonita que você, aquela gorda espinhenta. E poxa, você está com mau hálito e ainda me beijou. Ridícula! – O sorriso dele aumentou quando ele viu as lágrimas nos olhos pequenos, o lábio inferior dela começou a tremular. Ela se afastou dele e chegou pra trás. Queria fugir, mas as palavras eram tão severas e doloridas, ela nunca esperaria que ele pudesse dizer tal coisa, que ele pudesse lhe magoar com as palavras. Ele era sempre tão gentil.
– Para de falar assim Bê, você está sendo estúpido. – Ela tentou se mostrar forte, mas o sorriso maldoso dele continuava.
– Estupido é alguém querer te beijar por vontade própria. Deve ser por isso que você nunca teve nenhum amigo, pelo seu hálito fedido. Deve ser por isso que sua mãe te abandonou quem iria querer ter uma filha como você? Tosca! – Os olhos de Alice transbordaram em água, uma coisa que ela nunca fazia na frente das pessoas.
– Eu nunca pensei que você diria isso, eu realmente te amava mais agora eu te odeio! ODEIO VOCÊ! – Ela se virou pra sair mais algo a impediu, uma névoa escura envolveu o corpo magro e a puxou de volta.

Antagônicos | Antagônicos vivos.

Os Sem Sonbras

5

 

 

Os dedos longos e finos dedilhavam pelo piano com graça. Ele tocava Reverie – Claude Debussy com um olhar para Alice de tristeza. Os olhos tristes intercalavam entre Alice e o piano. Um cacho caiu perto do olho e com uma mão ele o tirou e voltou a tocar.
-Muito bem, muito bem Bernardo! Você está melhorando e mais! Admirável releitura da peça de Claude! Estou adorando! Vamos querido, toque mais umas duas peças para mim e pode ir para a próxima aula! – A mulher alta e muito magra tinha um coque despenteado no alto da cabeça, os dedos longos e fino dançavam de um lado para oo outro admirando o aluno exemplar. A professora de música Ana sempre esteve com Bernardo, desde que ele viera para a instituição e fora recomendado alguma aula de arte, logo ela viu que ele tinha talento e logo o recrutou para si. Ele continuou tocando as outras músicas que estavam nas partituras e olhou novamente para Alice errando o tempo.
– Comece novamente. – ele a olhou com uma expressão de súplica
– Mas professora Ana…
– Novamente! Por isso não gosto de elogiar, é assim, se elogia e logo se erra! Hoje estou inspirada em Claude, toque para mim Clair de Lune! – O olhar dele vagou por ela por um instante e começou a tocar com paixão a música de Claude, ela era deliciosa e os dedos dele eram ágeis, pegava rápido cada nota, cada tempo e pauta. Ele se endireitou no banco e respirou tocando com furor, ele também amava Claude, era seu músico favorito. Ana nada dizia, mas o rosto mostrava a satisfação eminente!
O tempo passou rápido e logo a aula acabou. Alice estava parada e olhava para um ponto qualquer, o rosto bonito sem expressão, parecia tão distante, como se ela estivesse em outro lugar e o corpo apenas ali. Isso o motivava a tocar mais, sua paixão era a música. E se passara quase dois meses desde que o ocorrido acontecera, ele se empenhara ao máximo tocar e melhorar sua agilidade, ás vezes tocava a tarde toda pra Alice. Quando ela ainda estava em sã consciência ela implorava para que ele tocasse, e ele o fazia. Era linda a satisfação que se instalava no rosto pequeno e dourado. Não queria ir para a aula de português, seria chata e monótona, preferia ficar ao lado de Alice, ela era tudo o que ele pensava, nela e na música. Ás vezes quando ele ia dormir chorava para si, tentando imaginar que nada tinha acontecido, que tudo estava bem, mas não adiantava, no outro dia ele acordava e a via sentada da mesma forma em um lugar qualquer com a mesma expressão vaga. Quando ficavam sozinhos ele sussurrava pra ela
-Volta pra mim, a minha vida perdeu a cor sem o teu sorriso. – E ela não se mexia, não fazia nada, apenas olhava para o nada e não o escutava. Isso o deixava nervoso e ele se levantava e saia de perto indo tocar, mas logo se arrependia e voltava para perto dela pedindo desculpas e segurando as mãos suaves entre a sua e as beijando levemente.
-Ás vezes você me tira do sério, mas sabe que nunca vou te abandonar, você sempre será meu amor, minha amada. – Mesmo tendo apenas 14 anos ele não os demonstrava, parecia ser um homem adulto, não tinha amigos e se refugiava em Alice e a música. As suas sessões com Dra. Meire aumentaram, ela queria aumentar a dosagem de medicamentos noturna, mas viu melhora nele, Alice o ajudava a se recuperar, ele dizia para si mesmo que por ela iria ficar bom, não iria ser um mau garoto!
– Por hoje basta! – Ana se levantou de sua cadeira e deu uma palmadinha tirando Bernardo de seus devaneios. Ele piscou um pouco sonolento e deu um sorriso meigo para professora. Depois se levantou e pegou no braço de Alice com cuidado.
– Vamos querida, temos uma aula agora. Depois toco mais para você. – Ele a levou gentilmente pelo corredor e foi conversando calmamente com ela. Mesmo ela sendo alta ele era mais alto que ela, era um garoto esguio e comprido, mas não tão magro, tinha um corpo desenvolvido pelas longas atividades físicas que o era designado a praticar diariamente. O cabelo escuro era encaracolado formava cachos grandes e grossos, a pele branca e pálida fazendo os grandes olhos esverdeados ter um contraste contra as pequenas sardas que se formava no centro do rosto. Um sorriso meigo sempre pairava nos lábios rosados e carnudos, pequenos e graciosos. Ele sempre tinha uma palavra doce e brincalhona para as pessoas do instituto. Mesmo sendo praticamente órfão era um bom garoto, visitava a cada dois meses o pai vegetal e era cuidado na instituição até que tivesse idade o suficiente para cuidar de si próprio e do dinheiro da família que estava guardado na conta bancária e pelo advogado familiar. Ele formava um belo casal com Alice que tinha a altura dos ombros de Bernardo, o cabelo curto nos ombros, e escuros formando cachos irregulares e soltos. Os olhos pequenos e amendoados tinha uma bela cor escura, a pele dourada entre um branco e um pardo. O corpo magro começava a revelar as belas formas de uma mulher adulta. Quando ela sorria mostrava um sinal de covinha na bochecha esquerda, coisa que não aconteceria novamente, agora apenas pairava uma expressão distante no rosto, nenhum som saia dos lábios redondos e pequenos. As mãos pequenas já não escreviam com a paixão de antes, já não se movia por vontade própria. E ela não sorria quando escutava as músicas de Bernardo e nem dava as respostas ferinas as pessoas. Já não troçava de ninguém, agora era apenas um corpo ao lado de um garoto tristonho. Ela apenas andava onde a levavam, apenas sentava a onde a sentavam, apenas mexia quando a mexiam.
Bernardo parou numa porta e bateu levemente.
– Olá? Trouxe Alice da aula de música. Estou indo pra outra aula e a trouxe. – A mesma enfermeira de antes estava sentada tricotando um cachecol azul cobalto e sorriu ao ver Bernardo e Alice.
– Olá crianças. Obrigada Bê, eu cuidarei dela agora. Eu sei que ela adora as suas músicas, são lindas! – Ela sorriu e pegou gentilmente o braço de Alice. Depois a sentou numa poltrona e deixou que o som da natureza invadisse o quarto iluminado pelo sol e fresco pelo tempo ventoso. Bernardo beijou levemente as mãos da garota e saiu encostando a porta. Depois suspirou e andou até o longo corredor. Uma aula chata o esperava, e ele nada mais queria do que participar dela. Quando ele passou pela janela ensolarada o corpo não produziu sombra alguma, mas ninguém percebeu, as pessoas não se importavam com  os detalhes, por mais que eles sejam cruciais!   

Imagem
Toque rápido, a morte não espera ensaios.

 

Os Sem Sombras

Imagem
– Promete?
– Prometo! – Até quando?

                                                                     4.2


– Hey Bê me prometa que nunca vai me abandonar, mesmo se eu for adotada! – A menina o olhava de lado como se não se importasse com a resposta, esse era o escudo dela, se fazer de forte e sem emoções
. Ele segurou a mão pequena
-Eu prometo, quando nós crescermos vamos até casar! Eu te amo Alice! – Ela sorriu tímida e depois deu um soco nele.
-Só os fracos falam que amam seu bobo, eu já te ensinei! – então ela deu um rápido beijo na bochecha dele e saiu correndo e gritando
– Vem me pegar bundão! – Desde essa época ele sabia que ela também o amava.

-Bernardo? Está aí? Eu sei que está sendo difícil pra você, mas você dormiu de ontem pra hoje o dia todo querido, temos que ver se algo aconteceu. – Ele se levantou abruptamente e olhou a mulher negra sentada ao lado. Então pensou em Alice novamente, pensou nela quando fora cedo falar com ele pra a encontrar mais tarde. Depois tudo era um borrão branco. Igual aos que ele via ás vezes, dizia para Meire, mas ela falava que esses borrões brancos eram tudo da mente dele, criações do trauma.
Os olhos de Alice tremulavam, ela estava com a boca aberta, mas nada dizia… Depois ela jogou o braço na parede com força e gritou. O grito não condizendo com a expressão vaga e sem emoção.
Alice caída no chão envolto de uma névoa negra e esfumaçante.
-Eu… Eu estou lembrando, ela estava falando comigo e então viu algo, uma névoa preta, uma bola negra de ar e… E depois ela caiu no chão e eu também, a bola de ar preta envolvia nós dois, só que a bola não me machucava, mas ela fez Alice jogar o braço contra a parede e se machucar. Eu… Eu não lembro mais de nada. Minha cabeça está doendo…  – Ele parou de falar e colocou as mãos na cabeça, a dor estava forte e ele começou a gemer enquanto lágrimas saia, depois ele deu um grito e olhou desesperado para os lados, até que cerrou os olhos para que não visse a luz.
-Bernardo? Meu filho? – Meire o segurou e o apertou contra si, geralmente as seções eram doloridas, mas nunca houve dores de cabeça tão fortes. Ela o deitou na cama e se levantou num passo rápido, depois voltou com um comprimido e um copo de água. Bernardo os tomou e se levantou calmamente.
-Terminamos? – Ela o olhou preocupada tentando entender as peças do quebra-cabeça que apenas Bernardo poderia desvendar, e o olhar dele não dizia nada.
– Por hoje sim, mas sinto que algo ruim aconteceu Bê, a ultima vez que você relata névoas negras fora quando a sua mãe morreu. – Olhando pra porta ele viu um homem alto e todo branco, não usava roupas nem nada, o seu corpo branco e comprido não tinha face, o rosto era liso, sem nariz boca, olhos ou nada, apenas uma face lisa, o quarto ficou mais gelado o fazendo Bernardo se arrepiar de frio. E estranhamente ele o encarava se aquilo seria chamado de “olhar”. Depois ele se virou e foi embora levando o frio pra si. Bernardo olhou pra Meire, mas ela nada tinha visto, ou se viu nada falou, até porque ela olhava preocupada era na direção de Bernardo como se os seus olhos dissessem que as memorias bloqueadas lhe escondessem algo.  

Os Sem Sombras

3.2

Imagem
Nessa galáxia chamada de mente os fracos se perdem e os loucos se consomem.

– O que houve? – ele se deitou e esfregou os olhos. Depois se levantou o corpo e o esticou como se houvesse estado em um sono profundo por muito tempo. Quando ele olhou pra porta alguém estava lá e o encarava, mas de repente se fora, era apenas um borrão branco difundido aos seus olhos pelo efeito pós-sono, assim ele pensara. Calçou o chinelo de tiras e caminhou até o longo corredor da instituição em que morava até chegar a grande sala que chamavam de “sala de estar” procurou Alice por toda parte, mas não a via em parte alguma. Até que achou uma das responsáveis que trabalhava lá, uma mulher baixinha e gorda de cabelos claros. Ele abriu um grande sorriso e foi até ela.
-Opa, por quanto tempo eu dormi? Você viu Alice? Ela queria falar algo comigo mais cedo, mas eu acabei caindo no sono. – A mulher o olhava intrigada e tristonha. Depois respirou fundo como se algo a incomodasse.
-Você dormiu o dia todo, não se lembra de nada? Alice está… – Antes que ela terminasse de falar apareceu uma enfermeira segurando o braço de uma garota e a encaminhando até um sofá. A garota era alta pra idade, tinha o cabelo curto e escuro, os olhos pequenos e castanhos amendoados que quando sorria ficavam tão escuros quanto a noite, mas isso não iria acontecer novamente, ela agora era um vegetal, o braço estava envolto numa tipoia dava-se pra ver o inchaço e o grande tom arroxeado e esverdeado . Algo corrompera a sua mente e a prendeu dentro de si própria. O garoto a olhou pra ela e arregalou os grandes olhos esverdeados, depois correu até onde ela havia se sentado com a enfermeira.
-Alice? Alice, fala comigo! – Os olhos dele agora estavam cheio de lágrimas e ele chamava o nome dela baixinho, como uma súplica. De nada adiantava, ela não reagia, não olhava pra ele, apenas tinha os olhos vagos para um ponto qualquer. Ele começou a chorar e então olhou intrigado e raivoso para enfermeira.
– O que aconteceu com ela? Hoje mais cedo ela estava… O que houve? Ela disse que queria falar comigo, acabei pegando no sono, não me lembro, é uma parte em branco… Me fala alguma coisa mulher! – Ele chorava e envolvia a mão suada e grande nas mãos finas e delicadas de Alice. Ela queria falar com ele mais cedo, ela mesma dissera. Os olhos dela estavam naquele tom escuro que apenas ficavam quando ela sorria, as bochechas rosadas ela até parecia tímida, coisa difícil de imaginar já que eles se conheciam desde a infância quando ambos foram pra mesma instituição depois de ficarem no mesmo quarto hospitalar quando ambos pais morreram, a mãe dele que dizem ter cometido suicídio e o pai dela que morrera de overdose, a mãe estava perdida no mundo… O que houve? Por que ela ficou assim? Não entendia. Então ele começou a correr por toda parte perguntando as pessoas o que tinha acontecido e ninguém respondia, apenas abaixava o olhar e continuava andando. Ele começara a ficar agitado e perturbado, foi até a mulher de cabelos claros que ele havia falado antes e a indagou.
– Me fala Rosa, o que aconteceu, por que ninguém quer me falar? Ela era a minha melhor amiga, ela é! Me diga alguma coisa! – Os olhos dela ficaram aguados e o canto da boca tremeu.
-Nós achamos vocês dois desmaiados no chão, ela estava… Estava gelada, pensávamos que algo de ruim tinha acontecido, até que ela acordou e… – então ela começou a chorar. Uma coisa rara já que todos a conheciam pelo seu jeito severo de cuidar das crianças. – Ela acordou e os olhos vagos, não falava nada, ela estava morta psicologicamente, o cérebro fora torrado por uma grande carga emocional, ou algo do tipo. Eu não sei explicar, a Dra. Meire que a examinou e ela virou um vegetal de uma hora pra outra. Achamos que você poderia nos explicar o que tinha acontecido, mas você não acordou e agora está tão desesperado, coitado! – ele começou a gritar alto e correu até Alice, a sacudiu enquanto chorava e gritava as palavras.
– Acorda! ACORDA! Acorda! Alice me escuta Alice! Eu… Preciso de você, não vai embora… Por que me abandonou? E a nossa promessa? Você falhou comigo! – Ele recomeçou a chorar e a falar baixinho, Alice não reagia. Os enfermeiros chegaram e pela segunda vez na vida o seguraram e o medicou com tranquilizantes, até que ele desmaiou calado com lágrimas no rosto mostrando a sua dor.

Os Sem Sombras

Imagem
Já pensou que o seu monstro está dentro de quem você ama? Nunca confie.

                                                                         3.1

A pele da menina tinha gotículas de suor no corpo magro. Os olhos pequenos e escuros estavam trêmulos. O corpo todo tremia. A boca pequena estava aberta em palavras não ditas, e a saliva caia pelos cantos como se a garota não a pudesse controlar. Na sua frente se via uma massa preta e esfumaçada envolta do garoto de doze anos. O rosto com um sorriso demoníaco e os olhos semicerrados mostrando uma alegria macabra. Ele passava a língua comprida pelos lábios risonhos enquanto olhava a garota despendida. Ela começou a lutar baixinho na sua mente. Gemia e dizia não. Ele estava gostando da reação e continuou a envolvendo na névoa preta e sombria. Ela jogou o braço contra a parede com força, ele machucou instantaneamente e começou a inchar de forma drástica. Então um grito foi dado. Alto e agonizante, não condizia com a expressão vaga no rosto da garota. Ela caiu no chão em um silêncio perturbador e depois fechou os olhos. Assim que ela fechou os olhos a névoa voltou para a boca e nariz do garoto, que caiu no chão em um silêncio profundo, logo ele fechou os olhos e dormiu como um anjo.

Quando o garoto acordou estava deitado no seu quarto, os pôsteres ornavam as paredes brancas e lisas, havia uma enorme janela de madeira branca onde a paisagem era um salgueiro grande e velho.

Os Sem Sombras.

Imagem
Tem horas que nos pegamos sozinhos com nossos próprios monstros.

                                                                     2.

Quando ele abriu os olhos a garota o estava encarando bem de perto, ela o olhava como se ele fosse um bicho diferente.
-Você estava babando. – Ele a olhou e limpou o lado da boca.
– Não, eu não estava.
-Sim, estava.
-Não.
-Sim.
-Tudo bem, então eu não estava. – Ela começou a rir e se sentou do lado dele.
– Como você chama?
-Bernardo, e você?
– Alice. Por que está aqui? Quantos anos têm? – Ela fazia muitas perguntas, vestia uma blusa florida alaranjada e uma bermuda jeans desbotada.
– O bicho papão matou a minha mãe. Sete anos e 9 meses. E você? – ela fez uma expressão triste e depois sorriu.
– Bicho papão não existe! Ah eu sinto tonturas e desmaiou ás vezes. Sou mais velha que você, eu tenho sete anos e dez meses.
-Existe! Eu vi, ele era preto, uma bolota de ar, e ele machucou a minha mãe… Problema seu ser mais velha.  – Os olhos dele encheram de lagrimas, não queria se lembrar, mas era inevitável. Continuaram conversando e discutindo até que a enfermeira chegou com uma bandeja e deu o remédio dos dois. Conversando com ela não parecia que ele havia visto a sua mãe morrendo, ele ainda não havia percebido que ela havia morrido, estava em uma espécie de negação. A garotinha deu adeus pra ele foi embora com uma mulher alta, ele ficou sozinho, não queria ficar sozinho, mas não tinha ninguém, apenas pessoas adultas com seus problemas chatos.
-Oi Bernardo, anjinho. Lembra-se de mim? Sou a tia Meire. – Ela o levou para uma sala cheia de brinquedos e ficaram conversando varias horas. Ela perguntou sobre o pai dele, mas ele não sabia o que dizer, o pai era internado numa clinica, pois era vegetal. Ele não entendia isso. O dia passou rápido e ele fora encaminhado para uma espécie de orfanato. Viveria lá até ver o que aconteceria, não tinha nenhum parente “vivo”, apenas o pai, e ficaria tendo consultas com Meire de tempos em tempos. Ele começou a chorar e apenas chorava, não importava mais se era um mocinho, ele queria a sua mãe, queria ela. Cadê ela? Onde você foi mamãe? Não adiantava, não tinha como responder, ele estava sozinho no mundo cheio de estranhos. Não iria mais para a mesma escola, não seria como antes. Mas eu fui um menino bonzinho, só não gosto de verduras. Por que o bicho papão levou a minha mãe? Ele ficou abandonado, as pessoas achavam que ele era doido. Ele não queria ir, por isso gritou com toda a força, esperneou e chutou todos.
-Não quero ir! QUERO A MINHA MÃE! – ele gritava e mordia as pessoas a sua volta, não queria ir. Não conseguia parar de chorar, por que tinha tanto sangue quando sua mãe se fora? Tudo ficou escuro e ele desmaiou. Ele só queria a mãe, seria pedir de mais?

Os Sem Sombras.

1.2

Não se sabe quanto tempo ele ficou lá parado olhando o corpo ensanguentado e a expressão de horror nos olhos da mulher. Ele apenas chorava e balançava o corpo envolto de si mesmo. Cheio de sangue quando os paramédicos chegaram acharam que ele também estava ferido. Ele nada falava, estava num silencio absoluto com as lagrimas já secas pela dor. Nosso cérebro é perfeito, um sistemas quase nulo de falhas. Acontecem coisas nas nossas vidas das quais ficam guardadas dentro de nós e apenas nos lembramos num determinado tempo. Série de números, telefones, nome de pessoas, estados, tudo isso armazenado na nossa memória. O garoto encarou os olhos abertos e vidrados, clamando baixinho para que houvesse apenas uma piscada que seja que ela lhe olhasse por um momento. Mas não houve isso, não do jeito que ele queria, e quando ele acordou apenas se lembrava de um homem branco sem face e de uma enorme boca, o restante da memória estava armazenado e bloqueado no seu cérebro para quem sabe um dia vir a se revelar em lembranças tão sórdidas. A área foi cercada por policiais e peritos da área. Um psicólogo foi resignado para cuidar do garoto de cabelos encaracolados. As pessoas o chamaram de “anjinho” pelos cabelos escuros e de cachos grandes, pelos olhos grandes e esverdeados e pela pele clara e sardenta com as bochechas levemente rosadas. Ele ficou olhando aquilo tudo sem ver, não queria enxergar a mãe numa maca envolta num saco preto, não queria ver os médicos o espetando e fazendo doer. Só queria que tudo ficasse bem.
-Bernardo? Esse é o teu nome meu bem? Eu sou a Tia Meire – ele olhou com os grandes olhos para a mulher negra e gorda na sua frente, ela cheirava a doce. Ele não queria uma estranha, mas ela tinha um sorriso tão bonito que ele balançou a cabeça concordando.  Ela se sentou ao lado dele e passou a mão nos cabelos cacheados.
– Me conta o que houve com a sua mamãe. – ele a olhou novamente e virou para a parede branca. O hospital em que o levaram era frio.
– O bicho papão a machucou e a matou, eu vi. Ele era uma pelota negra e de ar. – A vozinha saiu quase como um sussurro, ele estava com medo e olhava para todos os lados. A mulher o encarou.
– E esse bicho papão, era um homem? – Ele a olhou novamente irritado, já havia dito como ele era.
– Não, eu já disse que ele era uma pelota negra de ar. De ar! – Ela sorriu gentilmente novamente e pegou na mãozinha fria e pequena fazendo ter um grande contraste entre os dois. Ele queria a abraçar, ela parecia tão carinhosa. Mas ele não queria mostrar que estava com medo, sua mãe dizia que ele era um mocinho, e mocinhos não choram e não abraçam estranhas, mesmo que elas cheiram bem!
Depois ela fez mais algumas perguntas e o deixou no quarto com a porta meio fechada, ele não queria fica no escuro e nem sozinho, por isso colocaram ele no mesmo quarto de uma garotinha de cabelos escuros e magricela. Ela estava dormindo profundamente então ele resolveu fazer o mesmo, o dia foi ruim, e ele não queria acreditar na mãe morta, por isso deram remédio pra ele e então o sono veio.

Imagem
Ás vezes aprendemos cedo de mais que a morte nos rodeia, e o que podemos fazer é simplesmente a seguir, ou é você ou ela. E nesse jogo, antes ela que você.

 

Os Sem sombras.

Imagem
Não habitam somente no escuro, habitam dentro de nós.


1.1

Dez anos atrás

O garotinho de cabelos escuros e de grandes cachos estava debaixo da cama chorando sem fazer qualquer tipo de ruído. Os grandes olhos esverdeados estavam arregalados cheios de lágrimas fazendo que o rosto sardento parecesse mais rosado que o normal. Ele não queria sequer respirar. Tinha tanto medo que não sabia o que fazer. Se levantasse o homem mal o machucaria muito, foi isso que sua mãe disse. Pra ficar quietinho até que ela viesse. Mas ela não veio.
Quando ele pensou nisso ela entrou no quarto desesperada e fechou a porta, o vestido rosa e longo estava colado ao corpo tremulo. Ela não olhava para os lados, apenas segurava a porta com o corpo. Havia várias marcas de sangue no rosto. Ela começou a gritar desesperadamente, o corpo agitava, mas não havia nada perto dela. Não. Olha, havia sim. Uma sombra negra, em forma de bola e esvoaçante estava envolta do corpo frágil de sua mãe. Ela gritava e esperneava, mas nada adiantava. Ela parou de se mexer então do nada voltou a se mexer, seu rosto tinha coisas que o garotinho ainda não havia visto, terror, medo, pavor, revolta, desespero. Os olhos estava esbugalhados no rosto comprido de sua mãe. A boca estava aberta soltando tanta saliva que se juntava no canto da boca formando uma gosma branca. Ela começou a espernear e a bater o corpo contra a parede. O coração do menino parecia saltar pela boca. Ela jogou o braço com tanta força que o osso saiu deixando o sangue correr livremente. Ela fez isso com todo o corpo. Gritava e não parava mais. Ele queria sair de lá e ajuda-la mais o que ele poderia fazer? O bicho mau o mataria. A mãe então começou a se morder e a tirar os pedaços da pele pálida. Por que está fazendo isso mamãe? O garoto se perguntava, mas não obtinha resposta. A massa negra foi aumentando o tamanho enquanto a mãe gritava em pânico e se jogava em todo lugar que pudesse se ferir. Até que ela se desesperou de tal forma que começou a jogar a cabeça contra a parede com tanta força que foi rachando e voando sangue para todos os lados. Ela jogou até que caiu no chão com os olhos esbugalhados e a boca aberta em um grito silenciado pela morte. A massa negra fora embora, então o garotinho pode chorar alto e correr para sua mãe morta numa esperança de criança inocente.

Os sem sombras.

Imagem
Até monstros são bebês quando nascem.

Projeto, não terminado, não tendo período para ser terminado ou conclusão para o terminar. Algo que aconteceu, talvez tenha passado, talvez não. Afinal, todos nós temos sombras. Irei postar por partes.

Prefácio

 

 

Dizem que quando crescemos esse tipo de coisa não interfere nas nossas vidas, o modo como vemos as coisas. Que podemos ser adultos normais, mas quem diz isso não sofreu esse tipo de experiência, não sofreu esse tipo de terror, apenas quem lida com isso todo dia sabe o quanto é difícil, e também é melhor pra você não entender. Mesmo que eles estejam por todas as partes te sugando sem que você saiba, quando isso acontecer é melhor que você seja um bom musico ou saiba como usar a luz na sua vida, de um modo literal, claro.