Casa vazia em dia de chuva.

Vagando por entre minhas memórias, me deparei com buracos. O tempo entre as lembranças ora vazios, ora confusos. Me apego ao que passei, mas não consigo vislumbrar o que passará, e por um momento, por aquele momento, entre esse momento e o que se passou, eu me sinto morta.

Ao olhar no espelho, ao estar no banheiro, sentada à mesa da cozinha comendo um bolo, deitada na cama olhando o teto, fechando os olhos e tentando… lembrar.

Andar pela casa me deixou tonta, a solidão entre as paredes e o medo de estar só me apavora, aceitar o que recebo, o pouco que recebo. Aceitar o inaceitável, mas o medo, o medo faz isso. Transtorna.

Ontem mesmo, eu liguei chorando e chorando contei ” não sou nada, não tenho valor” e do outro lado escutei palavras de conforto ditas com amor e aceitas por uma incrédula e por isso eu chorei muito mais. Agora eu entendo bem “jogar pérolas aos porcos”.

Saber que se passou não torna mais real, torna ilusório o sentimento de negação. Veja bem, poderia eu estar falando do curso superior, do trabalho, da morte. O sentimento é quase o mesmo, o que muda é a razão.

Chega um momento em que se torna assim, um fantasma em vida, uma lembrança perdida e um poço de solidão. Como faz para ser adulto? Onde se torna adulto? Eu tento me lembrar, mas choro entre risadas.

E meu segredo não é segredo, é medo.

Um sopro e um suspiro.

A forma como nos apegamos aos bens materiais para ter um sentido de permanência nos mostra o quanto somos temporários.

A memória se torna algo passageiro e inconstante e tudo aquilo que acreditamos nos faz sentir insignificante diante da mortalidade, tornando o motivo do qual querer se agarrar ao que é tangível.

Hoje, olhando as coisas de meu pai, achei um CD da Elis Regina dentro do toca CD, o qual ele escutava, na música ela dizia que somos como nossos pais. Eu chorei, porque se eu for ao menos um pouco como ele, serei feliz.

Esses dias eu ri, com a minha revolta adolescente contra o pai. Mal eu sabia, que na terapia entenderia tudo aquilo que eu não o entendia.

Ninguém dá ao outro aquilo que não tem, se tornou meu mantra.

Enfim, devemos nos apegar quando em vida, porque quando se vão se tornarão eternos, em um mundo onde não vivemos.

Flutuando em ondas.

Estou a deriva.

Meu barco afundou.

O sol me desidrata.

A água me fere.

Ora vejo terra, ora vejo o mar.

O vento chicoteia.

As tempestades me levam.

A beleza da imensidão do mar se perde em minha dor.

Não consigo vislumbrar o sentido de tanta água intragável.

Não hoje, não agora.

O sal do mar, o sal das lágrimas.

Estou a deriva.

Conversa fora.

Eu sinto, ao pensar sobre a vida, que vivemos em uma roleta russa, hoje você está vivo e amanhã pode não estar.

Se essa é a forma como vivemos, por que as pessoas guardam rancor? Por que as pessoas brigam? Por que as pessoas são egoístas? Talvez seja esse o sentido da vida, dar significado as emoções, o sentido de viver é sentir. Às vezes sentimentos ruins, às vezes bons.

Lembrar do meu pai me faz rir e chorar. Eu choro por ter tido tão pouco tempo e rio porque os momentos foram intensos.

Amar é sentir e sentir é por vezes, sofrer.

Estava eu, falando com meus familiares e recordando o que meu pai dizia, quando eu falava sobre não querer filhos “Você é amarga, quer morrer sozinha” e isso me fez analisar que esse, talvez seria o medo dele de que eu pudesse ficar desamparada, quem sabe?!

Mas agora, penso eu, o meu pai, foi o melhor pai, porque ninguém te dá aquilo que não tem, e o que ele pode dar, ele deu.

E é assim que amamos, nós damos o que temos e recebemos o que nos dão.

Como diz minha tia, “vida é um conto ligeiro”.

A dor mais dolorosa de todas as dores

Perdi meu pai às 11hrs do dia 23 de outubro de 2020, pelo COVID-19.

Não conhecia desespero maior, dor maior, solidão maior, medo maior.

Agora eu sinto que o que me aparava se foi e tenho que me sustentar com apenas minha força de vontade.

Mas não tenho força de vontade.

Aos que estão em casa, se cuidem. Aos que não podem estar (como o meu pai não pode, se cuidem muito mais.

Aos que perderam familiares, eu entendo.

Aos que nunca perderam, tente compreender.

Não importa como, mas perder um pai tão jovem é anormal.

Melhor pai, não há, te amo, meu querido pai!

Aliança dourada.

Alguma coisa me diz, lá no fundo.

Um sussurro, uma certeza.

Nada mais que um medo.

A permanência do quebrado.

O desjunte dos juntados.

A verdade embaçada.

O fracasso vivenciado.

Entre todas essas certezas, continua a permanência, o coração dilacerado, a tentativa do que já está acabado.

E por isso, eu olho todos os dias para os cacos. A imagem que me tornei.

E diante de mim, eu continuo escutando, os sussurros sem fim.

Acabou, mas as mãos continuam dadas.

Último fôlego.

Meus pés na areia marcam um rastro por onde piso. O sol é só uma luz à distância de quem o procura. A água fria deixa um choque por onde toca e os arrepios sobem no meu corpo, todos os pelos eriçados. O vento vem numa calmaria mal murmurada, dizendo baixinho notícias do Norte. Ou seria do Sul? Eu me perco nas direções da Rosa dos Ventos. Assim como estou há muito perdido.

As ondas me embalam para frente para trás, quase um embalo do colo da mãe ao amamentar.

Mergulho e deixo que o mar me leve, espero ser capaz de chegar ao fundo.

Não sei nadar. Essa, provavelmente deveria ser a primeira coisa a ser dita. Entretanto a agitação do mar deixa o coração palpitando, isso faz que a emoção seja esmagadora. Até onde posso ir sem me afogar? Se eu me afogar alguém virá ao meu socorro?

Por um breve momento, a água salgada entra no meu nariz e arde minhas vias respiratórias, eu tusso, mas não é o suficiente. Estou me afogando. Meu coração frenético tenta sair do peito, meus braços batem e tentam alcançar a superfície. Estou muito longe para alguém me ver. Me deixei levar pelas ondas e o mar me abraçou. Nesse momento minhas lágrimas se misturam com a água salgada e eu sinto que sou um só, tudo está escurecendo na minha cabeça ou será que já anoiteceu?

Alguém grita ao longe ou um pássaro remanescente. Eu me afundo. Olho para cima e veja os raios entrando na água. Tudo está calmo. Me afoguei ou estou apenas delirando?

Aqui, no fundo, é calmo e pacífico. É possível ver os corais, os peixes e as algas.
Eu sorrio, diante essa beleza. No fim, me afogar foi satisfatório. E quando tudo escureceu e meu pulmão arde eu sei que não é tarde demais. O mar leva, o mar traz.

Paredes vazias.

Parte do céu, trilhado em tuas costas. E parte do tempo, nas batidas do teu peito.

E agora, teu suspiro o meu vento. Teus segredos meu mistério. E eu perdida. Em todo o meio. O entre dos teus seios.

A idade perdida, do corpo uma, da mente outra. E o momento, sempre o mesmo.

Quando acordo, já se foi. Um sussurro, o cheiro. O calor nos lençóis.

E a solidão, Ah. A solidão.

Os cílios grossos escondendo o olhar. Que olhar é esse? O que você está dizendo? Me diga em você alta e coloque legenda.

Eu te ouço, mas não te entendo. Essa tua língua, fica presa entre os dentes. E me lembra daqueles momentos, solta entre os lábios, suspiros entre afagos. E eu aqui. Louca, sem saber ler entrelinhas.

Tua mente, sempre atenta. Constelações em tua sombra. Dessa estória, só me resta…

O que eu digo, é a teu respeito.

Sozinha me enfrento, com você, eu receio.

Não sei dizer não ao desejo, mas se digo, é verossímil. Faz com que entenda, um adeus.

Corro, procuro abrigo. Já escureceu.

O cheiro de café que permeia no ar, te enjoa, você, com um sorriso diz “prefiro chá”.

Entretanto, agora, a hora já é hora, entre o escuro da noite e o brilho da lua eu minto:

Não há lar, como o nosso lar.

Entre a carcaça de ossos

Olhei para a escuridão dos teus olhos e por um momento suspirei. Do céu escuro e sem estrelas, fui sugada d’alma
Perdi a minha essência e o que me fazia cheia
Para completar o que faltava, me perdi
Com o céu vazio e os dias cheios
Com o vento seco e o sol cruel
Conversa com os pássaros que cantam como as batidas do teu coração
Os versos, o tempo, o sopro
Se foi.
O chão cheio de cacos que um dia foram palavras
As bocas cheias de dentes que já não mordem mais
Por um momento pisquei, voltei a mim. A quem sempre fui e teus olhos escuros já não brilhavam mais
Opacos, cegos.
Insuficiente para meu suspiro.
A minha alma, voltou a ser minha.

Diz que sou linda, enquanto não sou.

Espelhos de vidro me encaram e garfalham com escárnio.

Por todos os lados que olho o mesmo sorriso me segue.

São meus, sou eu.

Feita de vidro e frágil.

Trincou. Todos quebraram.

Agora só falta ir embora. Sorrisos tristes me devoram. Espelhos feitos de reflexos.

Do outro lado, o horizonte.

Veja bem, a transparência têm seus benefícios.

Não me encaro mais, agora uma vista linda.

Uma paisagem, um mar de possibilidades.