Desolação.

Há um buraco em minhas memórias, suga as minhas lembranças, muda os meus pensamentos.

Tento me lembrar, estremeço.

Tento aceitar e choro.

Um dos meus pilares caiu por terra, o outro está rachando.

O meu medo me sufoca, apavora e eu choro.

Não há resiliência em mim para suportar tamanha dor.

Não há fôlego em mim, para suportar em silêncio.

Quero gritar, mas não há voz.

Quero aguentar, mas não há paz.

Quero conseguir, mas não quero precisar.

Estou apavorada, você vê?

Estou sozinha, você sente?

Estou atribulada, percebe?

Estou desesperada, em silêncio.

Há tanto para se fazer por quem não quer que faça, por isso, eu choro.

Eu peço a quem quer que me escute do além, imploro, não há resiliência em mim, não me deixe só.

Quando eu era criança, diziam “Bom mesmo é ser criança ” e eu pensava “bobagem”, hoje, tão nova e velha quanto sou, queria mesmo ser criança, embalada nos braços dos pais.

Eu choro, sozinha, me sufoco.

Finada.

Seus pés tocaram no chão, suas mãos percorreram as paredes, suas narinas inspiraram o cheiro, contudo ela não viu nada no horizonte, sorriu.

Um caminho sem direção, o qual ela seguia feliz, sem saber dos perigos que a cercava ou sem ter a certeza de saber o que encontrará no fim.

O chão gelado deixou uma sensação nos pés que a lembrou de correr quando criança e escutar a mãe gritar
— Menina! O chinelo! – e ela riu.

O vento forte não a deixou ser abalada, dentro de si uma resiliencia inalterada, um sentimento de certeza, “O fim está próximo!”, mas não estava.

O que parecia ser a chegada, nada mais era que a curva, e atrás da curva, o morro.

Correu, em meios trôpegos, de forma descuidada não viu a pedra e caiu. O joelho ralou, o sangue escorreu, mas ignorou a dor, buscava somente a certeza que atrás da curva, atrás do morro, o fim.

Suas pernas ardiam, seus pés sangravam, sua ferida latejava, contudo ela correu. Diferente dos outros momentos, esse em especial a deixou em deleite, com as mãos nas paredes, sentiu a firmeza de estar ali, naquele momento, correndo em busca de uma certeza que na frente havia um fim.

Atrás da curva, atrás do morro, havia um lago. Nadou.

Atrás da curva, do morro, do lago, havia uma floresta. Desbravou.

Atrás da curva, do morro, do lago, da floresta, havia uma cidade. Percorreu.

Atrás de tudo, já cansada e machucada, percebeu, não há um fim, há um caminho e do caminho seu próprio fim.

Findou.

Casa vazia em dia de chuva.

Vagando por entre minhas memórias, me deparei com buracos. O tempo entre as lembranças ora vazios, ora confusos. Me apego ao que passei, mas não consigo vislumbrar o que passará, e por um momento, por aquele momento, entre esse momento e o que se passou, eu me sinto morta.

Ao olhar no espelho, ao estar no banheiro, sentada à mesa da cozinha comendo um bolo, deitada na cama olhando o teto, fechando os olhos e tentando… lembrar.

Andar pela casa me deixou tonta, a solidão entre as paredes e o medo de estar só me apavora, aceitar o que recebo, o pouco que recebo. Aceitar o inaceitável, mas o medo, o medo faz isso. Transtorna.

Ontem mesmo, eu liguei chorando e chorando contei ” não sou nada, não tenho valor” e do outro lado escutei palavras de conforto ditas com amor e aceitas por uma incrédula e por isso eu chorei muito mais. Agora eu entendo bem “jogar pérolas aos porcos”.

Saber que se passou não torna mais real, torna ilusório o sentimento de negação. Veja bem, poderia eu estar falando do curso superior, do trabalho, da morte. O sentimento é quase o mesmo, o que muda é a razão.

Chega um momento em que se torna assim, um fantasma em vida, uma lembrança perdida e um poço de solidão. Como faz para ser adulto? Onde se torna adulto? Eu tento me lembrar, mas choro entre risadas.

E meu segredo não é segredo, é medo.

Um sopro e um suspiro.

A forma como nos apegamos aos bens materiais para ter um sentido de permanência nos mostra o quanto somos temporários.

A memória se torna algo passageiro e inconstante e tudo aquilo que acreditamos nos faz sentir insignificante diante da mortalidade, tornando o motivo do qual querer se agarrar ao que é tangível.

Hoje, olhando as coisas de meu pai, achei um CD da Elis Regina dentro do toca CD, o qual ele escutava, na música ela dizia que somos como nossos pais. Eu chorei, porque se eu for ao menos um pouco como ele, serei feliz.

Esses dias eu ri, com a minha revolta adolescente contra o pai. Mal eu sabia, que na terapia entenderia tudo aquilo que eu não o entendia.

Ninguém dá ao outro aquilo que não tem, se tornou meu mantra.

Enfim, devemos nos apegar quando em vida, porque quando se vão se tornarão eternos, em um mundo onde não vivemos.

Flutuando em ondas.

Estou a deriva.

Meu barco afundou.

O sol me desidrata.

A água me fere.

Ora vejo terra, ora vejo o mar.

O vento chicoteia.

As tempestades me levam.

A beleza da imensidão do mar se perde em minha dor.

Não consigo vislumbrar o sentido de tanta água intragável.

Não hoje, não agora.

O sal do mar, o sal das lágrimas.

Estou a deriva.

Conversa fora.

Eu sinto, ao pensar sobre a vida, que vivemos em uma roleta russa, hoje você está vivo e amanhã pode não estar.

Se essa é a forma como vivemos, por que as pessoas guardam rancor? Por que as pessoas brigam? Por que as pessoas são egoístas? Talvez seja esse o sentido da vida, dar significado as emoções, o sentido de viver é sentir. Às vezes sentimentos ruins, às vezes bons.

Lembrar do meu pai me faz rir e chorar. Eu choro por ter tido tão pouco tempo e rio porque os momentos foram intensos.

Amar é sentir e sentir é por vezes, sofrer.

Estava eu, falando com meus familiares e recordando o que meu pai dizia, quando eu falava sobre não querer filhos “Você é amarga, quer morrer sozinha” e isso me fez analisar que esse, talvez seria o medo dele de que eu pudesse ficar desamparada, quem sabe?!

Mas agora, penso eu, o meu pai, foi o melhor pai, porque ninguém te dá aquilo que não tem, e o que ele pode dar, ele deu.

E é assim que amamos, nós damos o que temos e recebemos o que nos dão.

Como diz minha tia, “vida é um conto ligeiro”.

A dor mais dolorosa de todas as dores

Perdi meu pai às 11hrs do dia 23 de outubro de 2020, pelo COVID-19.

Não conhecia desespero maior, dor maior, solidão maior, medo maior.

Agora eu sinto que o que me aparava se foi e tenho que me sustentar com apenas minha força de vontade.

Mas não tenho força de vontade.

Aos que estão em casa, se cuidem. Aos que não podem estar (como o meu pai não pode, se cuidem muito mais.

Aos que perderam familiares, eu entendo.

Aos que nunca perderam, tente compreender.

Não importa como, mas perder um pai tão jovem é anormal.

Melhor pai, não há, te amo, meu querido pai!

Aliança dourada.

Alguma coisa me diz, lá no fundo.

Um sussurro, uma certeza.

Nada mais que um medo.

A permanência do quebrado.

O desjunte dos juntados.

A verdade embaçada.

O fracasso vivenciado.

Entre todas essas certezas, continua a permanência, o coração dilacerado, a tentativa do que já está acabado.

E por isso, eu olho todos os dias para os cacos. A imagem que me tornei.

E diante de mim, eu continuo escutando, os sussurros sem fim.

Acabou, mas as mãos continuam dadas.

Último fôlego.

Meus pés na areia marcam um rastro por onde piso. O sol é só uma luz à distância de quem o procura. A água fria deixa um choque por onde toca e os arrepios sobem no meu corpo, todos os pelos eriçados. O vento vem numa calmaria mal murmurada, dizendo baixinho notícias do Norte. Ou seria do Sul? Eu me perco nas direções da Rosa dos Ventos. Assim como estou há muito perdido.

As ondas me embalam para frente para trás, quase um embalo do colo da mãe ao amamentar.

Mergulho e deixo que o mar me leve, espero ser capaz de chegar ao fundo.

Não sei nadar. Essa, provavelmente deveria ser a primeira coisa a ser dita. Entretanto a agitação do mar deixa o coração palpitando, isso faz que a emoção seja esmagadora. Até onde posso ir sem me afogar? Se eu me afogar alguém virá ao meu socorro?

Por um breve momento, a água salgada entra no meu nariz e arde minhas vias respiratórias, eu tusso, mas não é o suficiente. Estou me afogando. Meu coração frenético tenta sair do peito, meus braços batem e tentam alcançar a superfície. Estou muito longe para alguém me ver. Me deixei levar pelas ondas e o mar me abraçou. Nesse momento minhas lágrimas se misturam com a água salgada e eu sinto que sou um só, tudo está escurecendo na minha cabeça ou será que já anoiteceu?

Alguém grita ao longe ou um pássaro remanescente. Eu me afundo. Olho para cima e veja os raios entrando na água. Tudo está calmo. Me afoguei ou estou apenas delirando?

Aqui, no fundo, é calmo e pacífico. É possível ver os corais, os peixes e as algas.
Eu sorrio, diante essa beleza. No fim, me afogar foi satisfatório. E quando tudo escureceu e meu pulmão arde eu sei que não é tarde demais. O mar leva, o mar traz.

Paredes vazias.

Parte do céu, trilhado em tuas costas. E parte do tempo, nas batidas do teu peito.

E agora, teu suspiro o meu vento. Teus segredos meu mistério. E eu perdida. Em todo o meio. O entre dos teus seios.

A idade perdida, do corpo uma, da mente outra. E o momento, sempre o mesmo.

Quando acordo, já se foi. Um sussurro, o cheiro. O calor nos lençóis.

E a solidão, Ah. A solidão.

Os cílios grossos escondendo o olhar. Que olhar é esse? O que você está dizendo? Me diga em você alta e coloque legenda.

Eu te ouço, mas não te entendo. Essa tua língua, fica presa entre os dentes. E me lembra daqueles momentos, solta entre os lábios, suspiros entre afagos. E eu aqui. Louca, sem saber ler entrelinhas.

Tua mente, sempre atenta. Constelações em tua sombra. Dessa estória, só me resta…

O que eu digo, é a teu respeito.

Sozinha me enfrento, com você, eu receio.

Não sei dizer não ao desejo, mas se digo, é verossímil. Faz com que entenda, um adeus.

Corro, procuro abrigo. Já escureceu.

O cheiro de café que permeia no ar, te enjoa, você, com um sorriso diz “prefiro chá”.

Entretanto, agora, a hora já é hora, entre o escuro da noite e o brilho da lua eu minto:

Não há lar, como o nosso lar.