Aliança dourada.

Alguma coisa me diz, lá no fundo.

Um sussurro, uma certeza.

Nada mais que um medo.

A permanência do quebrado.

O desjunte dos juntados.

A verdade embaçada.

O fracasso vivenciado.

Entre todas essas certezas, continua a permanência, o coração dilacerado, a tentativa do que já está acabado.

E por isso, eu olho todos os dias para os cacos. A imagem que me tornei.

E diante de mim, eu continuo escutando, os sussurros sem fim.

Acabou, mas as mãos continuam dadas.

Último fôlego.

Meus pés na areia marcam um rastro por onde piso. O sol é só uma luz à distância de quem o procura. A água fria deixa um choque por onde toca e os arrepios sobem no meu corpo, todos os pelos eriçados. O vento vem numa calmaria mal murmurada, dizendo baixinho notícias do Norte. Ou seria do Sul? Eu me perco nas direções da Rosa dos Ventos. Assim como estou há muito perdido.

As ondas me embalam para frente para trás, quase um embalo do colo da mãe ao amamentar.

Mergulho e deixo que o mar me leve, espero ser capaz de chegar ao fundo.

Não sei nadar. Essa, provavelmente deveria ser a primeira coisa a ser dita. Entretanto a agitação do mar deixa o coração palpitando, isso faz que a emoção seja esmagadora. Até onde posso ir sem me afogar? Se eu me afogar alguém virá ao meu socorro?

Por um breve momento, a água salgada entra no meu nariz e arde minhas vias respiratórias, eu tusso, mas não é o suficiente. Estou me afogando. Meu coração frenético tenta sair do peito, meus braços batem e tentam alcançar a superfície. Estou muito longe para alguém me ver. Me deixei levar pelas ondas e o mar me abraçou. Nesse momento minhas lágrimas se misturam com a água salgada e eu sinto que sou um só, tudo está escurecendo na minha cabeça ou será que já anoiteceu?

Alguém grita ao longe ou um pássaro remanescente. Eu me afundo. Olho para cima e veja os raios entrando na água. Tudo está calmo. Me afoguei ou estou apenas delirando?

Aqui, no fundo, é calmo e pacífico. É possível ver os corais, os peixes e as algas.
Eu sorrio, diante essa beleza. No fim, me afogar foi satisfatório. E quando tudo escureceu e meu pulmão arde eu sei que não é tarde demais. O mar leva, o mar traz.

Paredes vazias.

Parte do céu, trilhado em tuas costas. E parte do tempo, nas batidas do teu peito.

E agora, teu suspiro o meu vento. Teus segredos meu mistério. E eu perdida. Em todo o meio. O entre dos teus seios.

A idade perdida, do corpo uma, da mente outra. E o momento, sempre o mesmo.

Quando acordo, já se foi. Um sussurro, o cheiro. O calor nos lençóis.

E a solidão, Ah. A solidão.

Os cílios grossos escondendo o olhar. Que olhar é esse? O que você está dizendo? Me diga em você alta e coloque legenda.

Eu te ouço, mas não te entendo. Essa tua língua, fica presa entre os dentes. E me lembra daqueles momentos, solta entre os lábios, suspiros entre afagos. E eu aqui. Louca, sem saber ler entrelinhas.

Tua mente, sempre atenta. Constelações em tua sombra. Dessa estória, só me resta…

O que eu digo, é a teu respeito.

Sozinha me enfrento, com você, eu receio.

Não sei dizer não ao desejo, mas se digo, é verossímil. Faz com que entenda, um adeus.

Corro, procuro abrigo. Já escureceu.

O cheiro de café que permeia no ar, te enjoa, você, com um sorriso diz “prefiro chá”.

Entretanto, agora, a hora já é hora, entre o escuro da noite e o brilho da lua eu minto:

Não há lar, como o nosso lar.

Entre a carcaça de ossos

Olhei para a escuridão dos teus olhos e por um momento suspirei. Do céu escuro e sem estrelas, fui sugada d’alma
Perdi a minha essência e o que me fazia cheia
Para completar o que faltava, me perdi
Com o céu vazio e os dias cheios
Com o vento seco e o sol cruel
Conversa com os pássaros que cantam como as batidas do teu coração
Os versos, o tempo, o sopro
Se foi.
O chão cheio de cacos que um dia foram palavras
As bocas cheias de dentes que já não mordem mais
Por um momento pisquei, voltei a mim. A quem sempre fui e teus olhos escuros já não brilhavam mais
Opacos, cegos.
Insuficiente para meu suspiro.
A minha alma, voltou a ser minha.

Diz que sou linda, enquanto não sou.

Espelhos de vidro me encaram e garfalham com escárnio.

Por todos os lados que olho o mesmo sorriso me segue.

São meus, sou eu.

Feita de vidro e frágil.

Trincou. Todos quebraram.

Agora só falta ir embora. Sorrisos tristes me devoram. Espelhos feitos de reflexos.

Do outro lado, o horizonte.

Veja bem, a transparência têm seus benefícios.

Não me encaro mais, agora uma vista linda.

Uma paisagem, um mar de possibilidades.

Hoje voltou a doer

Estou no centro da multidão. E todos ao meu redor.

O sangue escorre de meus olhos e molha minhas roupas.

Eu choro e grito palavras de dor.

Socorro.

Ninguém me olha.

Enquanto todos estão sorrindo, estou aqui morrendo.

Alguém segura minha mão.

Eu olho e procuro.

“Me ajuda” – sussurro.

Mas ele, de costas pra mim, não me olha.

Solte minha mão.

Não solta.

O sangue se transformou em pedra e me solidificou na dor.

Enquanto todos ao meu redor vivem, eu morro em vida.

Sozinha e perdida.

Petrificada.

E ninguém me olha.

O espelho me conta meus segredos.

O teu silêncio chamou ao meu: gritamos. Fazia sentido gritar naquele momento de desamparo e desespero. Um momento fugaz para tudo o que estava acontecendo.
– Eu sinto muito… eu realmente sinto. – As palavras tão carregadas pareciam vazias ditas para o muro.
O muro estaca riscado, descascado e tinha esses desenhos que nunca conseguia entender o que significa.
Olhei novamente para ti, e você chorava.
Lágrimas gordas e salgadas que molhavam a terra e matava a vida que brotou verde e floresceu.

Quanto desespero!

Que dor.

Que tristeza.

-Não.

-Não?

-Não é tristeza, é arrependimento.

O tempo já passou.

O teu silêncio, sussurrou ao meu. Ele disse baixinho:

– O tempo passou.

Ontem eu estava na praia pensando que semana passada eu estaria lá, e essa semana eu estaria cá. Hoje eu penso, que era outro dia, eu ainda era criança.

Os braços dançam contigo.

Eternamente sexualizada em teus braços e posto meus lábios em constante grito de dor.

Para teus olhos insonssos, minhas pernas nuas, meu corpo impróprio para o consumo diário.

Vergonha!

Grite para todos os teus desejos e deixe meus braços vazios e frios.

Incrédulos!

Olhem para eles e digam a verdade: Vós quero! Vós beijo e contigo deito.

As paredes de tua construção dogmática cai destruída pelos gemido que sai de teus lábios secos e feridos.

Um suspiro para cada mentira e agora me falta o ar.

Uma moeda para teus desejos e estou afortunada.

A riqueza que se opõe aos meus princípios.

Grite a dor da alma que não se cala,

Dos olhos insólitos que não são apreciados.

Do calor que produzo no corpo e das palavras que formo.

Seduz, mas seduz com tuas palavras.

Ame, mas ame com liberdade.

Aos outros um corpo solto, à nós, uma carne opressora.

Grite, com gritos doces.

Meu corpo dança, a dança dos loucos.

E agora, estou feliz,

O grito de acordar os mortos, me calou.

Paz!

Minhas fotografias

Juntei minhas fotos, de todos os dias em que vivi.

Montei por ordem cronológica, uma a uma, cada qual no seu tempo.

Quantos fui eu? Quantos sou eu? Quantos serei?

De acordo com todas essas fotos, muitas vidas eu vivi.

Em uma só vida.

Em um só tempo.

E ainda hoje me pergunto:

Quem sou eu?

Um impostor de quem deveria ser.

Há tanto tempo vivendo, perdi o que eu queria viver.

Moribundo

O corpo dele doía por todo lado. Não havia um membro sequer que não estivesse dolorido, o suor escorria pelas costas e a boca seca gemia

– Clamo, ó Morte, me leve!

Mas a Morte não vinha.

Derrotado em sua própria dor, fechou os olhos e chorou.

– Toma esse remédio, senhor. – A moça sussurrou enquanto colocava o copo em seus lábios e segurava delicadamente até ele beber.

– É amargo.

– O amargo cura a dor.

E ele sorriu, porque toda sua vida dolorida, foi amargo e nunca se curou.