Entre o agora e o depois.

Há dias piores que os outros, hoje, por exemplo, eu sonhei com você, sonhei com o antes e o agora se sobrepondo, um sonho de tal lucidez que me fez crer na veracidade incontestável daquele momento, por mais que parte de mim se perdeu durante o decurso do tempo em que o sonho se passava, o antes e o agora era tão real e ao mesmo tempo tão inacreditável que eu não quis acordar, porque eu sabia que aquilo não era real.

Engraçado, que a falta aparece em momentos mais fugazes, eu trabalhando e querendo mostrar algo, eu com dúvidas e querendo discutir, eu com conquistas e querendo brilhar. Nesses momentos, eu penso com convicção, que a falta que faz é imensa, é gigantesca, é indescritível, porque não há palavras no mundo em que eu possa demonstrar ao outro a falta que um pai faz. A não ser, claro, que você, caro leitor, também sinta falta de alguém, então a sua dor, a minha dor, a nossa dor, é mútua, mesmo que de formas e tamanhos diferentes. Afinal, isso não torna tudo mais empático? O sentimento compartilhado?

Quando sinto tanta falta, ao ponto de me perder e preferir esquecer, eu esqueço, mas me vejo no espelho e te vejo, eu dou risada e te escuto, eu converso e te ouço em minhas palavras, trejeitos e voz. Então, eu sorrio. Aquele sentimento de saber que não está mais aqui de forma física, mas permanece nas lembranças, deixa um calor no peito, deixa um sabor na boca, deixa saudade.

O tempo é meramente um pano de fundo nesse momento, porque não consigo discernir entre o agora e o depois quando penso no passado, eu só sinto, e onde podemos medir o sentimento?

Á vocês que perderam, paz, aos que não perderam, não desejo que percam.

Abraços.

Por minhas mãos, o êxtase.

Deixei a torneira do chuveiro aberta, enquanto tirava a meia-calça, os dedos, os pés, uma perna e depois a outra. Deixo a taça no parapeito da janela, estiquei o corpo. Será que coloco música? Clássica? Jazz? Blues? “ok google, música para relaxar”. Escolho a playlist, fecho a torneira, e entro. Aah, o calor, a água, o corpo. Saio da banheira, me seco, o corpo vibra, o tecido arranhando a pele, a brisa entumescendo os seios, o tapete entre os dedos. Passos para o quarto, entre as paredes nuas.


Deitada na cama, com o ventilador do teto rodando, me estico. Será que há bombas lá fora? O caos reina? A desordem permanece? Mais um gole no meu vinho, tinto ou rosé? Pego o celular e pesquiso, na aba anônima “porn for woman“, coloco um qualquer, assisto.

Entre as pernas, a barriga e os seios, fecho os olhos e me esqueço, tanto faz o que quer que esteja passando, na hora do ápice, nada importa. Entre assistir e fechar os olhos, retorcer e se esticar, eu chego. Um suspiro, o corpo cheio de endorfina.

Engraçado, que agora que passou eu me pego pensando, em 10 anos nunca havia gozado sozinha, sempre precisando de outra companhia, mas agora eu aprendi. Por que demorou tanto? O que me prendia? O que te prende? O que nos impede?

Aah, o ápice. Onde está meu vinho? Um gole.

O mundo ainda está em órbita? A Terra ainda gira em torno do sol? Nosso presidente é o mesmo? Ainda estamos em pandemia? Por um momento me esqueço, música de fundo, taça de vinho na mão, lânguida e cansada. A paz, aqui reina.

Em tempos de terapia.

Sob um sol quente, andei desnuda, com os pés ao chão, e a alma crua.

De longe vi um homem, gritei por ajuda,

“Ei!”, Se ele me ouviu, não ligou. Continuei andando, me arrastando, a passos lentos, sedenta.

De longe vi um homem, gritei por socorro,

“Ei, me ajuda!” , Desnuda, desidratada, os lábios sangrando, as pernas tremendo, e a pele castigada pelo sol, gemia baixinho, “me ajuda, estou sofrendo”, com descrença ele me olhou, com escárnio ele sorriu, virou o nariz para o sul, e disse, numa voz ríspida ” Isso é emocional”.

O sol continuou alto, em todo seu esplendor, não me impediu de caminhar, agora com o corpo cansado, os pés com bolhas, fui andando, sem rumo, buscando ajuda.

Lá longe, bem no horizonte eu vi um homem, nas mãos um cálice na mão e um cigarro, é um homem no meu caminho solitário.

Gritei por ajuda, “ei, me ajuda, tudo dói”, no longo caminho que percorri, perdi as mãos, mas as pernas me sustentava até onde ele se encontrava.

As palavras saindo entre as baforadas de cigarros, ele mal me olhou, “isso é psicológico, procure ajuda”

Cá aqui estou, desesperada, desnuda, desnutrida, machucada, sem as mãos, pedindo socorro, mas sigo mesmo assim, um passo depois do outro, ao longo do caminho.

Lá longe, vejo um grupo, todos sorrindo e gesticulando, eu gritei,

“Ei! Me ajuda!”, Das pernas ficaram só as coxas, me arrastei. Alguém disse algo ao outro, que riu e gargalhou, ninguém me ouviu. Sob o sol, aqui estou, me arrastando pelo caminho.

Já longe, desesperada, sem expectativa de chegar ao destino, veio um vento afiado e me estripou.

Aqui estou eu, desesperada, desmembrada, estripada, o sangue lavando a terra, o sol queimando a pele, os carniçais me rondando, vejo lá longe, um homem. Reuni todas minhas forças e gritei, “Meu corpo já não me sustenta mais, te imploro, me ajuda!”, Ele me olhou nos olhos, passou as mãos em meus cabelos, sorriu com complacência e me disse, bem baixinho “Coitadinha, precisa de terapia. Tome este cartão, um bom psicólogo, amigo meu”. Entre as minhas tripas, ele deixou um cartão pequenininho e branquinho e foi-se embora.

Sob o sol, o vento e os carniçais eu sucumbi.

“Só posso estar louca.”, E com a alma desnuda, eu parti.

Desolação.

Há um buraco em minhas memórias, suga as minhas lembranças, muda os meus pensamentos.

Tento me lembrar, estremeço.

Tento aceitar e choro.

Um dos meus pilares caiu por terra, o outro está rachando.

O meu medo me sufoca, apavora e eu choro.

Não há resiliência em mim para suportar tamanha dor.

Não há fôlego em mim, para suportar em silêncio.

Quero gritar, mas não há voz.

Quero aguentar, mas não há paz.

Quero conseguir, mas não quero precisar.

Estou apavorada, você vê?

Estou sozinha, você sente?

Estou atribulada, percebe?

Estou desesperada, em silêncio.

Há tanto para se fazer por quem não quer que faça, por isso, eu choro.

Eu peço a quem quer que me escute do além, imploro, não há resiliência em mim, não me deixe só.

Quando eu era criança, diziam “Bom mesmo é ser criança ” e eu pensava “bobagem”, hoje, tão nova e velha quanto sou, queria mesmo ser criança, embalada nos braços dos pais.

Eu choro, sozinha, me sufoco.

Finada.

Seus pés tocaram no chão, suas mãos percorreram as paredes, suas narinas inspiraram o cheiro, contudo ela não viu nada no horizonte, sorriu.

Um caminho sem direção, o qual ela seguia feliz, sem saber dos perigos que a cercava ou sem ter a certeza de saber o que encontrará no fim.

O chão gelado deixou uma sensação nos pés que a lembrou de correr quando criança e escutar a mãe gritar
— Menina! O chinelo! – e ela riu.

O vento forte não a deixou ser abalada, dentro de si uma resiliencia inalterada, um sentimento de certeza, “O fim está próximo!”, mas não estava.

O que parecia ser a chegada, nada mais era que a curva, e atrás da curva, o morro.

Correu, em meios trôpegos, de forma descuidada não viu a pedra e caiu. O joelho ralou, o sangue escorreu, mas ignorou a dor, buscava somente a certeza que atrás da curva, atrás do morro, o fim.

Suas pernas ardiam, seus pés sangravam, sua ferida latejava, contudo ela correu. Diferente dos outros momentos, esse em especial a deixou em deleite, com as mãos nas paredes, sentiu a firmeza de estar ali, naquele momento, correndo em busca de uma certeza que na frente havia um fim.

Atrás da curva, atrás do morro, havia um lago. Nadou.

Atrás da curva, do morro, do lago, havia uma floresta. Desbravou.

Atrás da curva, do morro, do lago, da floresta, havia uma cidade. Percorreu.

Atrás de tudo, já cansada e machucada, percebeu, não há um fim, há um caminho e do caminho seu próprio fim.

Findou.

Casa vazia em dia de chuva.

Vagando por entre minhas memórias, me deparei com buracos. O tempo entre as lembranças ora vazios, ora confusos. Me apego ao que passei, mas não consigo vislumbrar o que passará, e por um momento, por aquele momento, entre esse momento e o que se passou, eu me sinto morta.

Ao olhar no espelho, ao estar no banheiro, sentada à mesa da cozinha comendo um bolo, deitada na cama olhando o teto, fechando os olhos e tentando… lembrar.

Andar pela casa me deixou tonta, a solidão entre as paredes e o medo de estar só me apavora, aceitar o que recebo, o pouco que recebo. Aceitar o inaceitável, mas o medo, o medo faz isso. Transtorna.

Ontem mesmo, eu liguei chorando e chorando contei ” não sou nada, não tenho valor” e do outro lado escutei palavras de conforto ditas com amor e aceitas por uma incrédula e por isso eu chorei muito mais. Agora eu entendo bem “jogar pérolas aos porcos”.

Saber que se passou não torna mais real, torna ilusório o sentimento de negação. Veja bem, poderia eu estar falando do curso superior, do trabalho, da morte. O sentimento é quase o mesmo, o que muda é a razão.

Chega um momento em que se torna assim, um fantasma em vida, uma lembrança perdida e um poço de solidão. Como faz para ser adulto? Onde se torna adulto? Eu tento me lembrar, mas choro entre risadas.

E meu segredo não é segredo, é medo.

Um sopro e um suspiro.

A forma como nos apegamos aos bens materiais para ter um sentido de permanência nos mostra o quanto somos temporários.

A memória se torna algo passageiro e inconstante e tudo aquilo que acreditamos nos faz sentir insignificante diante da mortalidade, tornando o motivo do qual querer se agarrar ao que é tangível.

Hoje, olhando as coisas de meu pai, achei um CD da Elis Regina dentro do toca CD, o qual ele escutava, na música ela dizia que somos como nossos pais. Eu chorei, porque se eu for ao menos um pouco como ele, serei feliz.

Esses dias eu ri, com a minha revolta adolescente contra o pai. Mal eu sabia, que na terapia entenderia tudo aquilo que eu não o entendia.

Ninguém dá ao outro aquilo que não tem, se tornou meu mantra.

Enfim, devemos nos apegar quando em vida, porque quando se vão se tornarão eternos, em um mundo onde não vivemos.

Flutuando em ondas.

Estou a deriva.

Meu barco afundou.

O sol me desidrata.

A água me fere.

Ora vejo terra, ora vejo o mar.

O vento chicoteia.

As tempestades me levam.

A beleza da imensidão do mar se perde em minha dor.

Não consigo vislumbrar o sentido de tanta água intragável.

Não hoje, não agora.

O sal do mar, o sal das lágrimas.

Estou a deriva.

Conversa fora.

Eu sinto, ao pensar sobre a vida, que vivemos em uma roleta russa, hoje você está vivo e amanhã pode não estar.

Se essa é a forma como vivemos, por que as pessoas guardam rancor? Por que as pessoas brigam? Por que as pessoas são egoístas? Talvez seja esse o sentido da vida, dar significado as emoções, o sentido de viver é sentir. Às vezes sentimentos ruins, às vezes bons.

Lembrar do meu pai me faz rir e chorar. Eu choro por ter tido tão pouco tempo e rio porque os momentos foram intensos.

Amar é sentir e sentir é por vezes, sofrer.

Estava eu, falando com meus familiares e recordando o que meu pai dizia, quando eu falava sobre não querer filhos “Você é amarga, quer morrer sozinha” e isso me fez analisar que esse, talvez seria o medo dele de que eu pudesse ficar desamparada, quem sabe?!

Mas agora, penso eu, o meu pai, foi o melhor pai, porque ninguém te dá aquilo que não tem, e o que ele pode dar, ele deu.

E é assim que amamos, nós damos o que temos e recebemos o que nos dão.

Como diz minha tia, “vida é um conto ligeiro”.

A dor mais dolorosa de todas as dores

Perdi meu pai às 11hrs do dia 23 de outubro de 2020, pelo COVID-19.

Não conhecia desespero maior, dor maior, solidão maior, medo maior.

Agora eu sinto que o que me aparava se foi e tenho que me sustentar com apenas minha força de vontade.

Mas não tenho força de vontade.

Aos que estão em casa, se cuidem. Aos que não podem estar (como o meu pai não pode, se cuidem muito mais.

Aos que perderam familiares, eu entendo.

Aos que nunca perderam, tente compreender.

Não importa como, mas perder um pai tão jovem é anormal.

Melhor pai, não há, te amo, meu querido pai!