Espinhos de Rosa.

— (…) Você está sofrendo de Delírios, o que é muito comum… com essa medicação e a terapia você conseguirá (…) em 15 dias já poderemos (…) Terça-feira é o dia da meditação(…) ainda vê as mesmas (…) – Eu não poderia dizer com 100% de certeza o que ela estava dizendo, mas eu poderia dizer com 67,50% que ela era fumante. Bem, os lábios vermelhos estavam bem ressecados e os dentes, por mais que bem cuidados, estavam amarelados, uma consequência proveniente do cigarro e do café. O acessório sempre acompanha o principal. Ok. Confesso que eu sabia que ela fumante, porque vi o masso de cigarro Derby Vermelho dentro de sua bolsa, o que eu não! Não, com certeza não, a estava espionando. Vírgulas são úteis, não?

— Do que é que você está rindo? – Ela largou o papel que estava em suas mãos e colocou a mão no cabelo atrás da orelha, o que não dizia muita coisa, já que o corte de cabelo dela é o que minha vó chamava de corte “joãozinho”.

— Janaina.

— O… O que?

— Você me perguntou do que eu estava rindo, da minha conversa com a Janaína.

— Janaina, quem?

— Isso é tipo, muito rude! Ela está bem aqui do nosso lado. – É claro que não há nenhuma Janaina do nosso lado, porém sim, há uma pessoa do nosso lado, o que eu tento com todo esforço não demonstrar, o que só faria nossa conversa prolongar e eu não, definitivamente não queria ir lá.

— Rosa, você sabe que não há Janaina ou alguém aqui conosco. Você está tomando a medicação que eu receitei? – Ela apertou os olhos escuros, causando vários riscos ao redor das pálpebras.

— Sim, Bia, todo santo dia, manhã e noite, com água e biscoito. – Mentira.

— Bem, pode ser que demore um pouco para seu cérebro assimilar as novas drogas que estão estimulando substâncias no (…) e por isso quero que você venha (…) ele é um ótimo profissional e muito atencioso (…) já conversei com seu marido (…)

Marido. Continuei a olhando e não para a pessoa ao nosso lado.

— Preciso ir, estou liberada?

Ela suspirou e cruzou as pernas. O que era um feito e tanto, dado o vestido justo que acentuava todas suas curvas. Eu mal consigo dobrar as minhas usando calça.

— Rosa, você prestou atenção ao que eu disse? Porque é realmente muito importante que você siga as etapas para o tratamento surgir efeito.

— Medicação, terapia e meditação. Volto terça-feira e me encontrarei com o novo terapeuta que com certeza é uma representação divina na Terra. Você já conversou com meu marido, e digo conversou, porque bem, não há uma forma mais gentil de dizer isso, certo?

Ok, eu finjo bem e sim, estou fula da vida. Delírios minha bunda.

— Bem, sim, mas… – Ela iria falar o que havia acontecido no meu último… surto.

— Ok, te vejo na próxima! Bye bye, doc! – Saí de lá mais rápido que um peido reprimido.

A pessoa me seguiu como se fosse uma sombra. Eu estremeci, mas jurei que não iria olhar. Olhar é dizer que consigo vê-la e anunciar que posso vê-la causa muitos danos. Além dos que já estou sofrendo? Não, obrigada.

— Ei, querida! Pronta? – O homem alto com corpo de pai, vinha em minha direção com olhos escuros e receosos.

— Super, vamos? – Veja bem, meu marido é um cara bacana, mas bacana não é o suficiente quando se quer algo mais. Um casamento às vezes é só isso, um contrato civil em que as partes se obrigam a prestar contas financeiramente, porque não há lei alguma que obriga um amar o outro e por mais que nós nos amemos, não é aquele amor que queremos. E ele provavelmente não quis uma, perturbada. Contudo, tive sorte, os bacanas estão em falta.

— A doutora Bianca me disse que mudou sua medicação e falou da terapia. Parece bom, né?

— Hum… – Murmurei.

— Eu estava pensando em… – Ele passou os dedos grosso no cabelo curto e bagunçado.

— Não querendo te interromper, mas já interrompendo, será que podíamos voltar naquela ponte, porque eu tenho certeza que deixei meus brincos lá da última vez.

— Rosa… – Ele arrastou meu nome como se doesse falar. Com os braços cobertos seria difícil imaginar que por baixo daquele casaco grosso havia machucados profundos. Meu peito apertou.

— Desculpa, eu… Bom, não estou bem, né? Delírios, ela disse.

— Querida, eu sei que é difícil admitir que se tem uma doença, principalmente uma doença que ninguém vê, mas você precisa aceitar.

Meu sangue esquentou e eu podia sentir que meu estomago estava a ponto de ebulição.

— Você sabe? Sabe? Sabe? – Eu grite. Respirei fundo. – Me desculpe por gritar.

Ele apertou as mãos no volante até que as juntas dos dedos ficassem brancas.

 — Eu a vejo. – Sussurrei. – Eu a escuto.

Meus olhos ardiam e minha garganta doía como se eu estivesse engolindo um caroço.

— Rosa, dói em mim, muito. Odeio que você esteja assim e não vou dizer que não é real, porque se para você é real então para mim também será. Só que… você precisa se recuperar dessa.

— Eu estou tentando! Eu não a olho ou falo com ela. Mas é tão difícil.

— E a medicação? – Ele estacionou o carro dentro de nossa garagem e se virou para mim.

— Se eu tomar eu irei matá-la. – Gemi.

— Querida – Ele se engasgou. – Você não irá matar algo que não está carnalmente vivo.  

— Eu vou – sussurrei. – eu posso, quase fiz isso com você.

— Foi um acidente e já discutimos isso.

Me dói tanto.

— Eu a amo. – Eu soluçava tanto que não podia controlar.

— Eu sei. – Ele me abraçou apertado. Com o rosto em seu ombro eu a olhei, sentada no banco de trás do carro ela me observava, com os olhinhos vazios e tristes.

— Dói? – Sussurrei.

— Dói. – Ele disse.

— Dói – Ela disse e balançou a cabecinha.

Chorei.

— Aqui, abre a boca. – Ele colocou um comprimido na minha língua e me deu uma garrafa de água.

Depois de um gole, fechei os olhos. Eu não poderia olhar, não poderia.

— Te amo.

— Também te amo. – Ele disse.

— Também te amo. – Ela disse.  Depois de não sei quanto tempo, abri os olhos, não havia ninguém lá.

— Delírios. – Eu sussurrei em minha sonolência. – Mas juro, dentro do meu ventre, eu podia senti-la.

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