Interna.

Às vezes eu penso em morrer por dentro e renascer diferente, com outra personalidade, outro jeito, esperanças e sonhos, porque os meus estão aqui, mas estão aqui há tanto tempo enraizados que já perdi as esperanças.

Mas às vezes eu sei que sou quem eu sou, e aceito, uma pena que dura pouco.

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Corpo e aceitação.

Olhando os stories no Instagram me deparei com um que me entristeceu em uma escala imensurável, afinal era sobre o corpo de uma mulher que estava dizendo o quanto sempre esteve descontente com ele por ser assim, assado.

O corpo dela parece com o meu e apesar dos pesares eu tento ao máximo o aceitar, mas a forma como ela falou, como ela se expressou me impactou de uma forma que não sei por em palavras, porque pensei “É assim que as pessoas pensam quando olham meu corpo? Já que o corpo dela parece com o meu e ela própria pensa isso sobre ele.” E o pensamento não parou por aí, porque se formos olhar bem o padrão das pessoas no sentido geral é muito alto, eles querem entrar numa geometria a qual não se encaixa com a nossa. Se eu sou circular como entrarei numa forma triangular? Nesse sentido nascem as frustrações, as tristezas, o rancor, a dor. Porque nós vivemos uma vida tentando ser o que não podemos mudar. Não basta emagrecer, engordar, porque cada corpo tem sua própria estrutura, seu próprio formato de ossos, músculos, cor, textura. Certas coisas não se mudam. Entretanto o problema não é externo, é mais interno do pensamentos, ele vem de uma memória genética muito anterior a nossa, de uma época em que ter a cintura fina era uma regra tão imposta que se não usar espartilho a mulher era má vista pela sociedade. Esse problema interno está longe de acabar, mas aos poucos está melhorando.

Hoje eu consigo ver que quem tem que aceitar o meu corpo sou eu, quem tem que o amar, sou eu. Porém o problema é tão intrínseco que se torna um processo doloroso de aceitação, por mais que eu seja esclarecida, por mais que eu entenda a situação, porque não basta eu querer, a minha memória genética está muito presente, assim como meu passado e certas frases que escutei quando crianças, por exemplo “menina gordas não dançam balé”.

Esses traumas estão enraizados e trabalhar neles é um processo gratificante, porque no final eu sei que ao me livrsr deles eu estarei libertando meu amor próprio.

Mas e as outras garotas? As bulémicas, as anoréxicas, as depressivas, as suicidas? Não é só a indústria televisiva que as tornam assim, mas pessoas ao nosso redor, essa frase acima que usei de exemplo eu não escutei na TV, eu escutei da minha mãe, será que não devemos mudar nossas falas? Esse é um processo em conjunto, muito ainda se tem que aprender.

No final não é aceitar, é amar. Aceitar soa como tolerar, não devemos tolerar, devemos amar.

Felicidade contemporânea.

Felicidade é uma projeção num plano espectral. A partir do momento em que nós decidimos o que queremos e qual caminho percorrer nós projetamos a felicidade num plano inexistente e abstrato, sempre buscando, sempre querendo, sempre sofrendo no presente com a justificativa de uma felicidade no futuro.

Mas esse sentimento abstrato é algo que criamos de forma inalcançável, como um deus o qual buscamos respostas, esperanças e apoio para justificar nossos atos, a esperança pode ser concreta, mas o sentimento abstrato nos faz sempre querer mais, esperar mais, assim ela nunca chega e sempre presente a infelicidade.

Quando somos crianças e aprendemos a entender o “NÃO” em nossas vidas dizemos “Quando eu crescer não vai ser assim”, não vai, será pior, porque será real e aqueles sonhos são inalcançáveis, mas não a felicidade quando tangível, quando se auto aceita, se ama.

Porém não é tão fácil, viemos de uma geração frustrada, que consegue tudo facilmente ou rapidamente, diferente dos nossos pais e seus pais e seus pais, a frustração se torna depressão e a depressão mata, sempre em busca de um culpado, o seu sofrimento é sua pena, a sua culpa e o seu remorso é o seu carcereiro e com o tempo a felicidade se torna distante, porque não há o amor próprio, a auto aceitação, “eu me amo por quem sou” e fica apenas o “eu irei me amar por quem me tornarei”, veja bem, inalcançável, intangível, distante daquilo que deve ser, o hoje.

Felicidade é analisar as circunstâncias atuais e tentar melhorar o presente, descobrir o melhor dentro do agora e trabalhar com o que tem, mas sempre se tornou marketing, porque o sentimento do “eu sofro agora porque herdarei o paraíso” te faz sofrer e não busca melhorar, porque o passo mais doloroso é a aceitação, é buscar ajuda e dizer que realmente precisa ser ajudado, mas é doloroso, é vergonhoso e isso torna sofrido, moroso e lento, porque a felicidade se encontra longe, num plano distante deixado para o amanhã.

Ser feliz é aceitar o hoje, mas aceitar é sempre um passo deixado para o amanhã.

Medo de ir, medo de voltar.

O sopro do ar frio mexia com o cabelo negro fazendo que as ondas se emaranhancem uma na outra, a pasta em uma mão e na outra puxava o casaco para perto de si.

– Lúcio, aqui, querido! – A bela mulher vinha em sua direção com um sorriso que iluminava todo seu sorriso.

Ele sentiu um aperto no peito e sorriu para a morena enquanto caminhava em sua direção para fugir do frio.

– Como você está, querida?

– Oh, você sabe, todo o trabalho duro, as horas sem dormir, ter que cuidar da casa nas horas vagas e as horas extras.

– Meu Deus, Rute, falando assim me sinto até por ter vindo te encontrar no seu dia de descanso.

– Não seja bobo, você sabe o quanto eu gosto de exagerar. Bem, é aqui, chegamos, entre.

Os longos cachos pesados cheiravam a coco com baunilha e quando ela passou por ele sentiu um leve aroma cítrico. O cheiro não era o mesmo, com os anos ele mudou, como era mesmo quando jovem? Fazia tanto tempo.

– Lúcio? Não está me escutando, parece até que viajou para longe.

Ele sorriu para ela e passou a mão no cabelo para tentar colocar os fios no lugar.

– Às vezes certos cheiros são nostálgicos.

– Isso sim, outro dia eu estava em uma praça e senti um cheiro que me lembrou dos meus tempos de escola, ficou uma sensação no peito, um aperto no fim na boca.

– Ah, já senti isso antes, é como se houvesse perdido algo.

– Exatamente!

– Bom dia, posso ajudar? – Uma moça jovem veio com um cardápio e entregou a ambos.

– Bom dia, querida, vou querer uma vitamina de morango, mas sem açúcar, por favor, vocês tem stevia?

– Sim, com stévia, e para o senhor?

– Vou querer um café grande, leite e esses bolinhos aqui, hum, bolinhos de chocolate, são bons?

– São os melhores, senhor! – Ela sorriu e recolheu os cardápios.

– Bem, onde estávamos?

– Em sentimentos nostálgicos.

Ela sorriu, passou a mão no cabelo e continuou a falar sobre amenidades e coisas do seu dia a dia.

Ele olhou para ela e sentiu uma dor no coração, de repente tantos “e se…” Vieram em sua mente que o arrependimento deixou um gosto ruim na boca do estômago.

– Então, Lúcio, conta-me o que quero saber. Está casado? Ah, faz tanto tempo em que éramos jovens e aventureiros, lembra-se da época que acampamos na primavera e ficamos molhados o tempo todo?

– Por insistência sua, devo te lembrar!

– Foi mesmo, mas naquela época eu tinha uma paixonite por você e não via a hora de você perceber.

– O que? – Ele passou a mão pelo cabelo num gesto que já se tornava repetitivo, a moça veio com seus pedidos e deixou na frente deles.

Rute corou suavemente sobre a pele achocolatada.

– Ora, vai me dizer que não se lembra?

– Eu, bem, eu não sabia, nunca soube!

– Mas como não? – Ela pegou um de seus bolinhos e tomou a vitamina.

– Ah, essa vitamina está horrível, açúcar que é bom, mas o médico proibiu.

– Por quê? Você sempre foi tão saudável.

Ela sorriu timidamente e colocou as mãos na barriga.

– Bem, não é por mim, é pelo bebê.

O coração de Lúcio tornou a se partir.

– Você está grávida?

– Não sabia? Você nunca fica atento a nada, fico imaginando como pode ser advogado, deve perder todos os prazos. – Ela sorriu e pegou outro de seus bolinhos.

– Mas por que você nunca chamou minha atenção, já que gostava de mim?

– Bem, eu era boba e acreditava que os homens deviam tomar a iniciativa, já que você nunca tomou eu pensei que não gostava de mim.

– Mas eu gosto! Digo, gostava. – Ele tomou um gole de seu café.

– Você não devia comer esses bolinhos, devem ter açúcar.

– Ah, mas quando é assado não importa, né? A química faz todo o trabalho.

Ele sorriu, não achava que era bem assim, ela sempre fazia isso, quando era proibida de algo achava outro caminho que melhor lhe agradava.

– Pois bem, eu devia ser a advogada e não professora.

– Você é professora universitária, acho que está melhor que eu.

– Não seja bobo, Lúcio!

– Quantos meses?

– Anos, você não sabe? Assim que me formei em publicidade eu me especializei para dar aulas, fiz aquele mestrado que eu te disse uma vez no churrasco do Pedro.

– Sim, me lembro, você estava tão empolgada. – Ela balançou a cabeça enquanto comia mais um de seus bolinhos, ele sorriu.

– Mas eu não perguntei do trabalho, perguntei da gravidez.

– Ah, claro, verdade, como sou boba. Estou de três meses. E você, filhos?

– Não, nenhum.

– Casado? – Ele sorriu.

– Quase, mas não deu certo, sabe como dizem, ela era boa demais para mim.

– Bom, nem eu, na verdade o pai do bebê e eu nem namoramos, sabe como dizem, uma noite é o suficiente.

– Sim, mas às vezes nem muitos anos o são.

– Ei, Lúcio, vamos nos manter em contato, sempre estamos apenas nos falando por redes sociais, é tão formal.

– É sim.

Ela tomou a vitamina e ele pediu mais café, não havia mais bolinhos, ela comeu todos.

Ele se levantou para ir ao banheiro e quando voltou não a encontrou em lugar nenhum. Seu telefone tocou.

– Ei, Lúcio, eu tive de ir, não fique chateado comigo, ok?

– Está tudo bem?

– Sim, sim. Lembra que estávamos falando de nostalgia? Deu apenas um gosto ruim na minha boca e um aperto no estômago, bom, nos mantemos em contato.

– Sábado eu tenho ingressos para aquele espetáculo que está tendo na cidade, quer ir comigo?

A linha ficou muda um instante.

– Não posso… Tenho que ir, abraços! Desculpe sair assim, sem avisar.

– Tudo bem, se cuida, abraços!

A linha ficou muda. Ele se lembrou, com um gosto ruim na boca, há muitos anos atrás, no acampamento, ele disse que gostava dela, ela riu e disse que também gostava dele, que não poderia ter um amigo melhor.

Rute sempre foi boa em propaganda, mas como publicitária ela deve saber, propaganda enganosa é crime.