Pari uma flor que de tantos espinhos me matou.

– AAAAAH – Gritou ela. Jogou os braços para cima, rolou no chão, bateu a cabeça na parede e vomitou. Era escuridão.

O homem correu e foi olhar o que estava acontecendo.

– Ave Maria cheia de graça… – Nem o sinal da cruz o protegeu daquilo. – É demônio – disse ele.

– Tira isso de mim. Tira. Tira. Tira. – A menina rolava no próprio vômito, depois fez tanta força que se defecou toda.

– Tira isso de mim. Tira. – ela gemia.

Os vizinhos vieram ver o que estava acontecendo, chamaram um rabino que morava na esquina, o padre que morava na paróquia, o pastor que morava na rua de trás, veio até mesmo o pai de santo compadecido da menina.

– É demônio.

– É espírito.

– É doença.

– É o coisa ruim.

– É desespero! – Disse a velhinha escondida atrás da morta. Todos a olharam, mais uma vez se protegeram com seus próprios sinais pra mandar o mau embora.

Essa velha era a Louca, todo mundo a conhecia por ser maluca e falar sozinha.

– Tira de mim. – A menina gemeu.

A menina vomitou mais uma vez. O quarto estava com um odor acre permanente que impregnou nas roupas, nas peles, nos cabelos e nas almas.

– Pai Nosso que estais no céu… – Todo mundo começou a orar e quem não sabia chegou pertinho de quem rezava.

Mas nada adiantava, não porque Deus não queria ajudar, mas porque ali já não se podia fazer nada.

A menina, que era mulher escondida, se jogou no chão, paralisou. Abriu e fechou os olhos nove vezes.

– Me ajuda.

Morreu engolida pelo próprio desespero que rasgou sua alma e comeu seu coração.

Não era espírito, nem demônio. Era tristeza.

Uma solidão tão grande que a engoliu de dentro para fora.

– Morreu.

– Que sua alma descanse em paz.

– (…)

– (…)

A Velha sorriu.

– Eu disse que era desespero. Ainda não morri porque não foi meu tempo.

Mas meu tempo está chegando, escutem só. Logo mais será eu.

Ela riu, gargalhou e se foi.

– Mas a menina, que era mulher escondida, também era a velha.

E todas elas sou eu.

Estou morrendo no meu próprio desespero.

Estou rolando no meu vômito.

Estou deitada nas minhas fezes.

Estou perdida dentro do meu âmago.

– Escutou?

Esta chegando o meu próprio fim.

Esta chegando o meu próprio desespero.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

6 comentários sobre “Pari uma flor que de tantos espinhos me matou.

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