Um gato detetive e um homem-mula (com o devido respeito às mulas)

– Ei! Ou? Psiu?! Você aí!!

– Meu Deus! Que susto! É você Deus?

– Que Deus o que rapaz! Sou eu, aqui embaixo.

– Meu Deus, é você Tinhoso? Eu sabia que não devia ter roubado aquele chocolate do Seu Zé. Por favor Tinhoso, não me leva, vou melhorar, eu juro, eu…

– Puta que o pariu, como pode um ser burro assim… Cala a boca o maldito! Olha para baixo seu filho d’uma mãe!

– Ah, é só um gato falante, menos mal né, hehe

– Olha o respeito garoto, eu estou vivendo nessa vidinha de merda chamada Terra antes mesmo de sua avó pensar em ter pelos na perseguida!

– Como fala assim da minha vó seu gato vira-lata inútil, comedor de lixo sujo!

– Já acabou com as palavras novas? Sou um gato detetive, preciso de informações!

O homem não parava de rir, sabia que não devia ter tomado aquele antitérmico que sua mãe havia lhe dado, mas o que não fazia por sua mãe né? Um gato detetive, nunca viu um gato falando na vida e logo aparece um e ainda detetive, mas já que sonhar não paga imposto…

– Pode perguntar senhor Gatuso.

– Meu nome não é Gatuso não o mané! Vamos lá então, o senhor mora por essas redondezas?

– Você é o detetive, não devia saber? Hahaha

– Minha mãe que me pariu no ninho… Responde minha pergunta!

– Sim, eu moro aqui já faz 33 anos.

– Por que não estou surpreso né?

– O que disse?

– Nada, só miei.

– Ué, você mia? Achei que só falasse.

– E como acha que eu falo com os gatos? Em russo?

– Os outros gatos não falam português?

– Mas você é bem estúpido mesmo né? Estou perdendo é meu tempo aqui contigo.

– Não tenho culpa se você é desinformado…

– Conhece uma mulher chamada Regina?

– A Regina, mulher do Bertoldo?

– Hum, então ela é mulher do Bertoldo…

– O que disse?

– Só miado.

– Hum, acha que eu sou capaz de ter nascido com o dom de falar gatonês? Eu jurei que você disse “então ela é a mulher do Bertoldo”

– Hahaha, você só pode está brincando.

– Por quê? Sou mesmo capaz de falar gatonês?

– Você esta falando sério? Putz, está sim… Meu Deus, ainda bem que nasci gato, se eu nascesse um desses pelados aí eu pulava na frente de um carro…

– O que disse?

– Você disse ter 33? Parece ter 110 com menos 100.

– Então eu teria 10?

– POR QUE ESTÁ SORRINDO IDIOTA? SUA MÃE DEVE SE ARREPENDER POR TER SENTIDO DORES DO PARTO!

– Você gritando é tão fofinho.

Nesse momento o Sr. Gato se irritou, pulou na cara do homem e o arranhou, pegou suas anotações e foi embora.

– O que fiz de errado? Isso não era um sonho? Por que dói tanto?

– ALBERTO? LARGA DE SER IDIOTA MENINO, CADÊ MEU CIGARRO?

– Calma mãe, tô indo, tava conversando com um gato detetive!!!

– O QUE VOCÊ DISSE??? VEM AQUI ALBERTO, SAI DA RUA!!!

– CALMA MÃE, TÔ INDO!!!

– Tst, Tst, Tst… A Regina trai o marido e essa mulher pariu uma mula, depois dizem que os gatos não entendem nada e são irracionais, pensa só nisso…

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A tua inocência engole minha ignorância. Tenho fome de conhecimento e preguiça de ação.

Às vezes eu tenho dó de você. De como você vê o mundo. Os seus olhos semiaberto, os seus lábios, sempre mudos.

Essa visão, obscurecida pela falta de conhecimento, pela falta de filosofia, pela falta de amor e ódio com a vida.

Tudo tão preto no branco, tudo cinza.

Você não vê a filosofia da da vida? Essa vida suja e bela, esses olhares famintos, todos nós correndo soltos, escondendo os corpos atrás das roupas para manter os segredos bem guardados, mas você não sabe, ainda não te disseram, não há segredos, não há meio termo, não há nada a não ser nós.

O mundo é uma boca, cheia de dentes, ora morde, ora beija.

O que é a vida? O que nós somos?

Você não vê e não escuta, você não fala e não cheira, você é pequeno, é limitado.

Que dó tenho de você.

De costas para o sol, vivendo das sombras na caverna de Platão.

Sabe por que se pergunta o motivo por eu ser assim?

Nasci dentro das letras, mergulhada nas entrelinhas, esse motivo de tanta tristeza vai me fazer morrer antes que todos.

Esse motivo me faz mergulhar em tanta solidão.

Eu vejo o mundo por inteiro, eu vejo a beleza e a podridão.

Mas os seus olhos ainda estão fechados, obsecurecidos pelo cuspe de teus pais, teus avós, teus tios, teus irmãos.

Você é menina, você é homem, você é jovem e você é velho.

Você está por toda parte e toda parte está em nós.

Você com os olhos semifechados e eu com minha boca aberta.

O mundo é preto, é branco, é cor, é luz é escuridão.

Pari uma flor que de tantos espinhos me matou.

– AAAAAH – Gritou ela. Jogou os braços para cima, rolou no chão, bateu a cabeça na parede e vomitou. Era escuridão.

O homem correu e foi olhar o que estava acontecendo.

– Ave Maria cheia de graça… – Nem o sinal da cruz o protegeu daquilo. – É demônio – disse ele.

– Tira isso de mim. Tira. Tira. Tira. – A menina rolava no próprio vômito, depois fez tanta força que se defecou toda.

– Tira isso de mim. Tira. – ela gemia.

Os vizinhos vieram ver o que estava acontecendo, chamaram um rabino que morava na esquina, o padre que morava na paróquia, o pastor que morava na rua de trás, veio até mesmo o pai de santo compadecido da menina.

– É demônio.

– É espírito.

– É doença.

– É o coisa ruim.

– É desespero! – Disse a velhinha escondida atrás da morta. Todos a olharam, mais uma vez se protegeram com seus próprios sinais pra mandar o mau embora.

Essa velha era a Louca, todo mundo a conhecia por ser maluca e falar sozinha.

– Tira de mim. – A menina gemeu.

A menina vomitou mais uma vez. O quarto estava com um odor acre permanente que impregnou nas roupas, nas peles, nos cabelos e nas almas.

– Pai Nosso que estais no céu… – Todo mundo começou a orar e quem não sabia chegou pertinho de quem rezava.

Mas nada adiantava, não porque Deus não queria ajudar, mas porque ali já não se podia fazer nada.

A menina, que era mulher escondida, se jogou no chão, paralisou. Abriu e fechou os olhos nove vezes.

– Me ajuda.

Morreu engolida pelo próprio desespero que rasgou sua alma e comeu seu coração.

Não era espírito, nem demônio. Era tristeza.

Uma solidão tão grande que a engoliu de dentro para fora.

– Morreu.

– Que sua alma descanse em paz.

– (…)

– (…)

A Velha sorriu.

– Eu disse que era desespero. Ainda não morri porque não foi meu tempo.

Mas meu tempo está chegando, escutem só. Logo mais será eu.

Ela riu, gargalhou e se foi.

– Mas a menina, que era mulher escondida, também era a velha.

E todas elas sou eu.

Estou morrendo no meu próprio desespero.

Estou rolando no meu vômito.

Estou deitada nas minhas fezes.

Estou perdida dentro do meu âmago.

– Escutou?

Esta chegando o meu próprio fim.

Esta chegando o meu próprio desespero.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

Os pensamentos por trás dos pensamentos.

Existem momentos nos quais eu paro e fico tão quieta que sou capaz de escutar os pensamentos por trás dos meus pensamentos.

Aqueles pensamentos tão escuros e terríveis que me faz querer não pensar.

Nesses momentos horríveis eu fico parada sem conseguir me mexer, só respirar.

É desesperador, é perturbador, é tão real e sombrio que eu mergulho dentro de mim tentando escapar.

Escapar sem respirar.

Você sabe a resposta para isso, certo?

Por que tão terríveis?

Por que tão sombrios?

Os pensamentos que se escondem por trás dos pensamentos são malignos, são tão cruéis que sempre sussurram querendo sair.

FICA.

Ou deixo sair? Se sairem eles se vão ou eles dominar-me-ão?

Tem horas que fico tão parada que consigo ouvir o sussurro do vento.

O vento que corre dentro de mim e me paralisa.

O vento que sopra obscenidades e crueldades.

Tem horas que só meu coração bate, mas tem horas que tudo some e eu penso “Já estou morta vivendo uma mentira”.

O que faço? Deixo sair ou os prendo?