Esclarecer é o que?

Os passos largos em direção a vida são dados de forma descontínua e tudo obstante. O coração que sempre foi um órgão do corpo humano se torna a peça chave de toda nossa vida. É coração ou cérebro? É o mesmo. A capacidade do nosso cérebro de delegar dores aos outros órgãos mesmo sem ter nada físico é ultrajante ante a essa forma de ser.

Tudo isso é pra dizer que o coração dói, dói mais embaixo no estômago, dói mais embaixo no intestino e tudo isso se torna muito e sai. Por todo lado.

Me instiga essa ideia de sobrevivência, por quê sobreviver se eu posso apenas existir? Porque o mundo assim quis, nessa onda de gente suada, solitária, triste, raivosa e doente eu sou só mais um.

Um ser autônomo, mesmo assim ligado aos outros e a todos. Por exemplo, essa blusa que eu uso, provavelmente tem mais mãos por trás da criação, fabricação e exportação dela do que mãos que já me acariciaram. Injusto? Como tudo nessa vida.

E eu aqui tendo que sobreviver nesse mar de merda que é a vida sendo que eu quero mesmo é morrer. Que seja de forma interna, que seja de forma metafórica, que seja. A morte é uma só, se a alma desfalece o corpo o acompanha e apodrece. Não é assim a vida?

As máquinas estão aí pra soprar o existencialismo dentro de nós mesmo que seja de forma mecânica, mas ali dentro é só uma casca, o cérebro já não suporta tanta pressão, desfalece a alma e o resto o acompanha. Teu celular é novo?

E agora? Já posso suspirar e deixar vazar toda a tristeza que está dentro de mim? Não me toque!

Meus olhos são cínicos e minha boca já é torta de tanta careta que fiz.

Estou desfalecendo já faz anos e hoje se completa exatamente 22, o mesmo tempo em que nasci.

Ironia? Não, realidade.

Meu Cérebro mandou ordens como um tirano para toda parte ” Faça isso, faça aquilo” e se ele não está satisfeito quem sofre são os outros. O Estômago se embrulha e se agita tanto que posso dar uma gastrite severa ou até mesmo vômito. A Pele se torna frágil e a qualquer momento ela pode dar um surto e querer sair da carne “Coça, coça, coça”. O Intestino se recontorce tanto que as cólicas se tornam insuportáveis e ele cria uma diarréia. Não vamos citar os outros, eles merecem sigilo, apesar de que nada neste mundo é segredo, nem este meu pensamento.

Não se torna a Morte um episódio atrativo? Episódio sim, porque tudo nessa vida é momentâneo. Já dizia Antoine Lavoisier ” Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Após sua morte por guilhotina eu me pergunto, afinal, ele se transformou em que?

Enfim, a vontade que eu estava sentindo antes disso tudo passou, e digo com firmeza, não foi a de morrer.

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A peça quebrada que me compõe está em toda parte.

Esse animal que me domina voltou.

Eu deitei e entre meus pensamentos jorraram ideias inúteis, lembranças de livros passados. Vidas de outros dentro de mim.

A ansiedade me engoliu com sua boca grande e cheia de dentes, me sufocou com seus tentáculos grossos e pegajosos.

Como extinguir esse monstro que me mata todos os dias aos poucos?

O monstro me apertou com esses dentes enormes e me rasgou até que meus estilhaços se tornaram tudo aquilo que me compõe.

É sempre as mesmas palavras, sabe o por quê? Porque o sentimento é sempre o mesmo.

Meu monstro de estima.

O monstro que vive em meu estômago, tem garras enormes e afiadas.

Ele sorri e me rasga enquanto eu grito e choro.

Às vezes ele domina meu corpo e me mostra os horrores que me rodeiam.

Às vezes ele toma minha alma e me faz olhar para o nada até que o vazio me consome.

O monstro que vive em meu estômago é enorme, ele ruge e ronrona.

Tudo dói.

Eu paro e olho e tudo o que eu vejo é o desespero que me toma.

Eu olho com os olhos mortos e fico com os lábios esticados para baixo numa carranca de amargura.

Quando eu tento dominar minha boa e gritar e rir e chorar eu só tento sorrir.

Meus lábios repuxados para baixo se rasgam para cima e tudo o que era carranca se transforma em sorriso.

Um sorriso de monstro, porque se está dentro de mim então faz parte de quem sou.

Será que eu sou o monstro e esse corpo é só minha vítima?

O sorriso que eu tinha era assustador até pra mim.

Meus olhos se voltaram para dentro e o que viu não foi bonito.

Pensei em me jogar num mar de piche e me afogar com toda a morte.

Pensei em rasgar minha pele e ver o sangue jorrar para fora, estou cheia de venenos e tudo dói.

Meu corpo veio mal feito, com uma alma partida ao meio.

Pra onde olho eu choro, parece até que fui constituída apenas de tristeza.

Às vezes quando esqueço de quem sou e me prendo em memórias passadas eu respiro e me lembro que há um futuro longe de tudo e todos que compõe meu ser, mas me lembro que não sou nada disso.

Sou menos que nada.

Às vezes penso em me jogar no chão e dormi até que o sono eterno me leve, mas o chão é duro, eu durmo tarde e depois acordo.

Nada vem e nem eu vou.

Às vezes eu me sufoco, mas tudo o que quero agora parece ser impossível.

Onde está a parte da minha alma que sorri? Me deixe com ela e leve a parte que só chora.

Um animal dentro de mim querendo sair pra fora.

Um animal sentir da jaula.

Arranha, chora, grita.

Um animal dentro da jaula.

Sofre, apavora, vomita.

Uma alma dentro de um corpo.

Nasceu abalada.

Corre, bate, volta.

Não há saída se não a morte.

Uma alma dentro de um corpo.

Está dentro ou fora?

O animal dentro do corpo,

Arranha as entranhas, rasga a barriga.

Pare, respire.

Respire, inspire.

É só ansiedade, esse animal já vai embora.

Já foi?

Foi?

Ainda arranha, ainda vomita, ainda chora.

O meu amor é maior que nós.

Seus longos cabelos me cobriam como uma cortina negra e sedosa. Ele me olhou por sobrolho e sorriu. Meu corpo estremeceu por onde seus dedos passavam, como sentir trilhas de eletricidade se expandido em mim.

– Coloque uma música, amor.

– Não consigo – Saiu como um choramingo reprimido.

– Claro que consegue.

– Não com você por cima.

Ele riu, eu chorei. Meu coração se rasgava toda vez que eu o via, toda vez que o cheirava. Meu coração se rasgava apenas por amá-lo.

O longo cabelo liso e preto se enroscou pelo seu corpo, ele se virou e piscou para mim.

– Não posso ficar por muito tempo, tenho que trabalhar.

Mais uma fisgada em meu coração e eu poderia morrer agora mesmo.

– Entendo.

Soar chateada não me faria forte. Me levantei também.

– Não precisa colocar a música, tenho que ir.

– A casa é sua.

– Sim, fique a vontade.

Me vesti, não deixei tempo para que ele respondesse.

Sai correndo, sem que ele percebesse. Meu coração disparou, meu corpo gritava querendo voltar, meu coração chorava querendo voltar.

Meu cérebro também queria voltar.

Eu corri.

Me sentei numa escada de um edifício qualquer, fumei um cigarro enquanto chorava, tentei levantar e ir trabalhar. Mas meu corpo estava travado. Meu corpo chorava, amar dói o corpo e a alma.

– Elisa? Não vou trabalhar hoje. Você resolve essas pendências pra mim? Só hoje? É, pois é. Não, tudo bem. Qualquer coisa eu te ligo! Abraços, você é uma amigona!

Me levantei, sacudi a poeira, estiquei o corpo. Iria voltar pra casa.

Abri a porta, estava uma bagunça.

Sentei na cama, dormi.

Acordei com as costas doendo.

– Você demorou acordar.

– PQP!

– Ei, fale como uma pessoa normal.

– O que está fazendo aqui?

– Sabe, me dei conta que eu gosto de você já faz tempo.

– Certo.

– Eu tenho medo de me machucar.

– Todos temos. – Meu coração estava parando.

– Olha, eu gosto de você.

– É, você disse.

– Você vai ficar só dizendo isso?

Meu rosto estava quente, molhado.

– Não chore periquita.

Eu comecei a rir e chorar, meu coração estava se inchando.

– Periquita?

– Posso morar aqui?

– O que?

– Você sabe, morar juntos, dividir despesas…

– Mas você tem seu apartamento…

– Mas só tenho você e você é tudo o que eu preciso.

– Posso ficar?

– Sempre.

Meu coração se juntou e cresceu tanto que explodiu. Os corpos nus, minha cortina. Meu coração, meu amor.