Dentro de nós há dois mundos. ( Parte I )

Os dentes podres sorriam deixando mostrar a gengiva enegrecida. A mulher era pequena e magra de um jeito doentio. Estava escurecendo e por isso não se viam as sombras que tomam conta de todos nós quando o sol se vai e o grande Astro Rei não nos olha com teus olhos inquisitores. Uma dessas sombras se ocupou de obscurecer os olhos da mulher e a fez olhar exatamente ou eu me encontrava sentada balançando os pés em evidente impaciência. Já não era tempo, penso eu, quando ela vem em minha direção arregaçando os dentes num rosnado cheio de escárnio. 

– Ei garota, tu fede podre. 

A olhei debaixo dos cílios e continuei a balançar o pé e a ler o livro. 

– Ei sei o que tu tá fazendo quenga, esse teu coração enegrecido cheira podre. 

– Olha só mulher, vê se tu se enchera, o que eu vejo de podre aqui são esses teus dentes fedorentos. 

– Tu vê os dentes dela, garota, não vê que eu estou aqui? 

– Quem é tu? 

– Tu sabes, sonha comigo a noite, montada no meu colo feito égua faminta. 

– Cala a boca, sua vadia drogada louca. 

Meu corpo se arrepiou todo, diante de todas aquelas palavras eu senti o vento frio lambendo minha pele como a língua de um gato grande. Sentia tua garras arranhando minha virilha e fazendo todo meu corpo tremer. 

– Some daqui sua louca, drogada alucinada. Saia antes que eu termine com esses teus dentes pretos nojentos! – Eu gritei pra ela, até que todas pessoas a nossa volta nos olharam. 

– Louca! Louca! Louca! – Eu tremia e chorava, o ácido que eu usei mais cedo perdeu o efeito há muito tempo. 

– Tudo bem gatinha? Escutei teus gritos de lá da sala com os caras. – Os olhos escuros dele me fascinaram, me fizeram sentir uma onda de tranquilidade invadir meu âmago. 

– Uma louca, veio me pedir droga, estava doidona. – Fui olhar a mulher, ela já havia sumido, mas as palavras que ela disse me arranhavam como gavinhas molhadas e frias. 

Os olhos dele escureceram, ele olhou para os lados e foi andando procurando qualquer mulher que batesse com minha descrição, mas eu sabia, ele não a encontraria. 

– Quando isso acontecer, você me conta Jordi. Não fique sozinha aqui, vamos embora. 

– E os caras? 

– Já terminei, anda, vamos! – Ele me puxou pelo braço antes que eu dissesse algo mais, suas ações me calaram, sua companhia me conforta. 

– Deu certo? 

– Sempre dá meu bem. – Ele sorriu de lado deixando transparecer a sombra de uma risco no queixo. Meu coração se apertou, Era assim que eu me sentia. Como se todo momento ele fosse me abandonar. 

Ele me olhou por um momento, procurou qualquer coisa em meu rosto e depois suspirou. 

– Você me preocupa, gatinha. 

– Por que? Sou bem grandinho. 

– Tamanho não é documento, essa vida não é pra você. 

– Eu faço minhas escolhas, é minha escolha é você, não essa vida. 

Ele resnundou e continuou dirigindo. Eu sabia, que agora a conversa tinha acabado. 

Eu havia o conhecido há três meses, era uma festa agitada, eu queria sumir, mas a única forma que eu conhecia era a morte, então, eu resolvi, eu beberia, me drogaria, morreria. 

Mas o destino me lançou ele, alto, usando uma calça jeans rasgada, desbotada, mas que devia ter custado uma fortuna por ter o aspecto envelhecida, uma blusa larga, preta de uma banda que eu não conhecia, o cabelo todo bagunçado, preto, rebelde, os olhos escuros, travessos, profundos. E ele sorriu. 

– A gatinha não bebeu demais pra ficar aqui? Algum cara pode aproveitar esse corpo doce. 

– Às vezes você queira aproveitar, o meu corpo doce. 

– Eu amaria aproveitar, meu bem, mas eu quero que você lembre, e não vomite depois da foda. 

Eu ri, bebi mais, vomitei e cai. Depois disso eu acordei numa cama enorme, num quarto branco, fresco, com uma luz suave entrando pelas frestas. 

– Merda! Onde estou? – A cabeça doía, o estômago revirava, os olhos se apertaram com a presença de mais luz. 

– Então a gatinha acordou. 

– Quem é você? 

– Posso ser seu príncipe, seu amante, seu amigo, sua foda de um dia. O que você quiser. 

– Quero salvação. 

– De todos os males que eu sofro, ser padre não é um deles, querida. 

Olhei para longe, absorvi o ambiente, procurei os detalhes e saber onde estava. 

– Então, você não pode me ajudar. 

– Ontem você me ofereceu o seu doce corpo. – Ele sorriu, meu coração se apertou. Os meus olhos lacrimejaram. Ele era lindo, da forma que ele era, lindo pra mim, antes de morrer. 

– Tenho um compromisso, tenho que ir. 

– Não posso te deixar ir. 

– Ou você está me sequestrando, ou está me prendendo. E pelo que vejo, você não é um policial. 

– Mas eu adoraria te prender, minha querida. 

Eu sorri, ele tinha um calor que preenchia o frio eterno dentro de mim. 

– Talvez um café? Antes do casamento, claro. 

Ele jogou a cabeça e gargalhou. 

– Não esse tipo de algemas. 

Me levantei, surpreendi por estar vestindo apenas uma camisa comprida. 

– Esse não era o meu traje noturno. 

– Teu traje noturno está cheio de vômito, e vômito é incompatível com minha cama, meu bem. 

Foi assim que eu sobrevivi por mais um tempo. Apenas mais um tempo antes de o perder. Ele abriu os portões e nós entramos, aqui eu estava em casa, mas dentro de mim ainda havia sombras espalhadas por todo meu corpo. 

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