Diálogo entre dois. 

– Senhor B.? Gostaria de falar comigo? – A testa franzindo acumulava vários vincos enfatizando a já avançada idade do homem que cheirava a café e livros velhos. 

– Hum? Ah, senhorita Dora, sente-se, por favor! 

Olhou para aquele homem em sua frente, “quantos anos estudando e quanta inteligência seria necessária para chegar no nível dele?” 

Bem, há quanto tempo venho lhe orientando? 

– Hum… Três anos?! 

– Exatamente Dora! E por que eu estou te orientando? 

– Para minha tese do doutorado. 

– Sim, mas por qual motivo? 

– Porque quero ser uma cientista. 

– Sim querida, exatamente! Mas você já é cientista, eu apenas estou te mostrando o caminho! 

– Desculpe, mas eu não estou entendendo o que o senhor quer dizer…

– Bom, escute só isso “Após observar os olhos, os lábios, o nariz, a pele, viu que nada daquilo importava, porque além de todos os aspectos biológicos havia algo mais que envolvia a mente dele, um instinto que percorria seus genes através do tempo, imperceptível ao seu corpo físico, mas estava ali, sempre presente no seu inconsciente (…)” Veja querida, você está fazendo um estudo sobre personalidades transitórias do homem moderno, mas aqui, em todo esse artigo que eu li há mais que isso, você colocou poesia nas palavras, foi mais que a cientista falando. Entende meu ponto? 

– Eu… Desculpe, não entendi! O que fiz de errado? 

– Bom, nada, você não fez nada de errado, entretanto também no fez nada certo! Quero te dar uma tarefa, é uma tarefa simples! Quero que você leia esse artigo novamente e separe para mim o que você fez de científico com artístico. 

Ele continuou falando e falando, ela o olhava e respirava com dificuldade, como é tão difícil separar aquilo que não se separa? Ela tinha muito o que pensar, muito o que trabalhar, por enquanto iria escutar e tentar. Ela não estava estudando aos outros, mas a si mesma, a arte veio em forma de fuga, entre ela e eles. Aqueles seres que ela não entende, apesar de ela ser como eles. 

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Dos livros bons que li esses últimos três dias que se passaram e tornou o fim como um estúpido fim. 

A outra eu, aquela que não é tão legal. 

Desde aos três anos e meio quando eu aprendi a ler eu leio vorazmente, antes disso eram as histórias me contadas ao ventre, antes de dormir, menina, até hoje eu as conto pra mim mesma ao fechar os olhos e querer sonhar. Essa semana uma enorme agonia me rodeou e então eu resolve ler. O dia todo, a noite toda, dormi um pouco, não comi, li mais e li. O livro, na verdade uma série de 4 livros terminou, mas terminou de um jeito tão tosco que a agonia só piorou. Terminou daquele jeito que te faz ter que sonhar o melhor final para a estória. Minha imaginação não é limitada, mas tudo o que eu consigo pensar no final é como ele foi ruim e como eu o imagino pior ainda dado meu estado atual de espírito. Nesse  caso não deveria vir  escrito na capa e sinopse: Atenção: não leia se  você estiver  atormentada!!! Nã é por isso que existem escritores? Para escrever as coisas para que não precisemos ficar pensando nas nossas próprias? Pensar sobre tudo e todos? Só me resta agora a pensar: que final ruim. Talvez um dia quando eu esteja esperançosa de coisas boas e felizes eu torne a ler, mas é quase nula essa questão, já que minha boa memória tem aversão a ler coisas que já sei o enredo. 

A minha velha amargurada grita pra quem quiser ler. 

O sol que entra pelas frestas da minha janela e são engolidos pela escuridão que fica de dentro. 

Abriu uma cratera dentro de meu quarto e engoliu tudo o que se encontrava acima dela. 

Entre as paredes finas e os móveis rachados é só via o que restou de nós. 

Álbuns empoeirados que contam histórias macabras, fantasias e ficções científica nunca vistas: Um dia essa família foi feliz. 

A cratera cresce e ganha parâmetros tridimensionais, atinge meu âmago e se torna uma só. 

A de dentro e a de fora, quem eu sou é ela agora. 

Chove, chove pequenas gotas azuis e cobre todo o buraco de bolas, quantas bolas eu tomo pra preencher o que há? 

O cachorro, Pedro, já se foi, só nós resta chorar. 

As paredes escutam? Escutaram o que eu disse? Escutaram meu murmúrios? Escutaram minhas risadas? Escutaram meus choros? Escutaram meus gemidos? E agora? O que escuta agora? Me diz paredes eternas que estão sempre a me rodear. 

Deixa eu dormir buraco estúpido que mora em mim, deixa eu ficar atolada em bolas azuis. 

Deixa eu dormir cratera que move o teto do céu. 

Deixa eu ficar só mais um pouquinho a sonhar. 

Nem isso eu tenho mais, nem sonhar eu sonho mais, nem dormir eu durmo mais. 

Só me resta as vozes e elas só falam, falam, falam e nada faz sentido e nada me faz não sentir, e nada realmente fica só eu e elas. 

Somos uma, porque agora elas também vivem dentro de mim, dentro da cratera.