Conto: O outro lado da realidade onde habita os invisíveis. 

Os sapatos batiam no chão e voltava com um eco seco nas paredes. O corredor era extenso, as janelas estavam fechadas, a claridade ali entrava pelas frestas da casa. Os olhos há quase fechando, o corpo tonto, a cabeça pesada, as pernas duras, os pensamentos nublados. 

Ao fim abriu a porta, entrou no cômodo vazio, ali a claridade era quase uma raridade. No chão, bem no centro do quarto uma mulher dormia. Seu corpo, templo sagrado estava nu, mostrava cada parte de pele que a pouca luz ali permitia. Íntimo, é a palavra que mais se encaixa. O homem virou a cabeça para o lado, em sinal de respeito a jovem, mas não era necessário, era assim que ela queria e pronto. Que fosse embora do mundo como chegou. No escuro, nua, sozinha. Ele respirou fundo, a cabeça ainda estava pesada. Se agachou ao lado dela e olhou para o rosto. Um rosto comum, olhos redondos, boca carnuda, nariz pequeno, mas gordinho. O rosto como todos os outros que tem formato de coração quadrado. 

Ela estava morta, seus cabelos estavam jogados para o lado deixando as mechas rebeldes soltas, se ela estivesse ao ar livre ele podia sentir o vento batendo no rosto e levantando o cabelo dela para o céu. 

Suspirou. Estava velho, cansado. Era ele que devia estar ali deitado, não nu, porque não foi assim que seus falecidos país lhe ensinou. Ele era adeptos aos bons costumes. 

Uma mulher alta entrou no quarto. Franziu o cenho. O cheiro que estava lá era muito doce, a moça antes de morrer tomou um banho de perfume é assim, cheirando a flores que se vestiu para a morte. 

Ela chegou perto do homem e olhou a moça, achou os cabelos bonitos, diferente dos seus que eram lisos e ralos. Como ela era bonita, os lábios faziam um perfeito arco carnudo. Os olhos pequenos pareciam jabuticabas maduras. O nariz pequenino. O que havia de errado com essa moça? 

Estava escuro demais, ela foi até uma janela e deixou o vento entrar, o vento veio, saudou o cômodo, mas o perfume ficou. Ela olhou para o cômodo e vou apenas a moça nua. Chamou pelo rádio o seu parceiro. Um jovem com uma carreira promissora, diferente dela, já queria se aposentar. Apostava com qualquer um que já vira mais cadáver que coveiro. Essa vida era triste. Procurou pistas para saber como a moça havia morrido, mas ela estava sozinha no quarto sem mobílias, era apenas ela e o cheiro forte de flores. 

Seu parceiro chegou, olhou para a moça e ficou vermelho. Ela sorriu para ele, achou graça da timidez repentina. 

Pediu para a perícia fazer um teste toxicológico. Aparentemente ela não tinha marcas pelo corpo, nem feridas, apenas o cheiro de flores e sua beleza jovial. 

Se levantou e foi para fora, todo esse cheiro de flores e cadáver estava dando dor de cabeça. Fumou um cigarro. Suspirou. Melhor. 

O garoto não queria ficar sozinho no quarto, se sentiu estranho com uma moça nua na sua frente sem que ela tivesse tirado as roupas para ele ou pedido que ele o fizesse. E ela era tão jovem, uma garota com um futuro pela frente que agora iria ser comida pelos vermes e pela terra. 

A mulher gritou ele. Ele foi atrás dela e deixou o quarto assim como estava, assim como ele viu. Apenas um quarto e uma  moça. 

O homem velho, olhava para aquelas pessoas que entravam e saíam. Ninguém viu ele, não era para ser visto. Ali, claramente se viu que era um crime sobrenatural. O cheiro de flores, a garota sem marca. Sim, certamente daria muita papelada. Ele suspirou. Se levantou e foi embora. Estava cansado daquela vida, muito solitário, muito velho, muita morte e pouco resultado. Mais tarde voltaria, quando o corpo fosse levado e o espírito voltasse procurando o próprio corpo. Então ele descobriria o que aconteceu. Já era hora de se aposentar. Já era hora de tirar férias. Mas ainda faltava muitos anos pela frente, nesse ramo paranormal nem a morte tirava férias. Passou pela policial mulher e sentiu o mesmo cheiro de flores. Suspirou, seria um longo ano e muito papel. 

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Faça alguma coisa ao invés de reclamar? 

Alguém precisa mudar o mundo. Alguém precisa mostrar as pessoas que não devemos exigir do outro aquilo que nós mesmos não praticamos.

Às vezes tenho vontade de subir no palanque e gritar para que todos escutem e se unam em prol da humanidade. 

Às vezes tenho vontade de ir á lua. 

Às vezes tenho vontade de falar outros idiomas e ir a outros lugares e descobrir outras coisas. 

Mas às vezes, às vezes quase sempre eu só fico na cama, viro para o lado e me sinto isso que sou. Nada. 

Como mudar o mundo se não consigo mudar nem o meu próprio eu? 

Conversei assim comigo pra pressão não ficar tão grande e me fazer explodir. Estou segurando minha outra mão pra tentar dormir. 

-Oi. 

– Oi??? Aconteceu alguma coisa? 

– Hum, nada.

– São, deixa eu ver… São 3:12 da manhã. 

– Desculpa, é que eu. Bem, eu estou aqui sentada na sala e está passando um filme ruim e bem.. 

– Você precisa de mim? 

– Preciso. 

– O que aconteceu? Alguém te chateou? 

– Não! Não é isso, eu… Eu tô sozinha, e aqui dentro está tão triste. Eu estou tão triste. 

– Você não está sozinha. Eu estou aqui. Sempre estou. 

– Não, você não entendeu. Eu estou tão sozinha, sempre tão sozinha, aqui dentro tá confuso, dói, é como se eu estivesse… Estivesse no espaço e olhasse tudo envolta e só eu estivesse ali, contemplando o nada. E esse nada faz uma pressão em mim tão grande. Tão grande que acho que vou explodir… 

– Ei, me escuta, eu vou pegar sua mão e vou apertar ela, está sentindo? 

– Não né.. 

– Você entendeu, eu estou aí dentro, aí no espaço, estou apertando sua mão. Mas você não está me vendo porque eu sou só uma presença. Ok? 

– Ok. 

– Dorme agora, eu vou ficar com o celular ligado até você dormir, não vou soltar sua mão. Ok? 

– Ok… N.. não solta..  

– Pode chorar querida, ou não. Tanto faz, desde que você se sinta bem. Eu estou aqui. 

– Ok… 

– Você vai ficar bem e mesmo se não ficar, eu estou aqui. Ok? 

-… 

– Bons sonhos querida, eu vou sempre estar aqui…