Só, sozinho, solitário. 

Enquanto a água do chuveiro cai, ficou de fora escutando o barulho. Olhando para os azulejos brancos com desenhos pretos e delicados. 

O que aconteceria se ela batasse a cabeça na parede? Morre? Dói? Sangra? 

Entrou debaixo da água e delicadamente ficou passando o sabonete nos braços. 

As paredes são brancas, os azulejos delicados. O mundo é grande. 

Tão pequena. Ela é tão pequena. Tão pequena, sofre tanto. 

Às vezes, ela conta uma história para si mesma que já está morta e olha de longe numa eterna rebobina. 

Desligou o chuveiro. A cabeça dói. Mas não bateu ela na parede. Se foi. 

Tão pequena. 

Tão… 

Estamos fadados a ser só? 

Estamos fadados a ser… ? 

Só. 

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Que seu aniversário seja belo. Paz! 

Hoje foi o seu aniversário. Fiquei triste em saber que não tinha muita coisa pra dizer. Apesar de tudo eu ainda amo, mas a dor que está aqui é muito profunda para deixar qualquer palavra solta sair. Ainda não estou pronta para  perdoar. Entre mentir e não falar eu fico com o silêncio, está muito  recente toda essa dor dentro da gente. Será, que com os anos essa mágoa vai embora? Será que o perdão vem naturalmente E se não for? O que faço? Eu vivo e choro? Ou vivo e ignoro? Devo dizer aqui, em poucas palavras, que apesar de tudo te desejo tudo de mais bonito no mundo. 

Enquanto eles não me buscam eu me vou. 

Ele a abraçou. Enquanto os braços dela cercavam suas costas ele sentia o perfume e tudo o que queria era chorar. Chorar porque a amava, mas a queria longe de si. Enquanto aqueles lábios doce o beijava  cada segundo se torna uma torturada. O que é o amor? O que é o contato? Eu não sei, mas dói. Dói ser como sou. 

– Você está bem? 

– Hum? Sim! 

– Não parece bem. 

– Às vezes, só às vezes eu fico distante, como se eu não pertencesse aqui. 

– Claro que pertence – Ela sorriu e passou a mão no cabelo dele. 

– Eu sei, mas é só um sentimento. 

– Fica tranquilo, deve ser a droga que usamos. 

– Não! Eu não tô chapado! 

– Mas eu estou – Ela riu e se jogou no sofá. 

Ele fechou os olhos e suspirou. Era por isso que queria ficar chapado. Pra escapar do sentimento. Mas o ruim disso é que nunca ficava chapado. Juntou as coisas e se foi. O amor é bom, mas a sensação dói. 

A cor dos teus olhos atinge meu âmago. 

Teu corpo irradia uma graça natural tal como se tu tivesse nascido como um bailarino. 

O gingado que faz ao andar, o corpo esguio. O sorriso peralta. 

Teu jeito é feito para amar. 

Pink Floyd canta ao fundo num show particularmente nosso. 

Você concentrado nas suas peças de carro e eu em teu rosto digno de inspiração para Michelangelo. 

Lábios, lábios, mais que carne, mais que cor. Tua língua quente, tua boca voraz. Esse teu cheiro que emana dos teus poros. 

Melhor parar. Parar agora, antes que você vá. Eu vou. 

Conto: O outro lado da realidade onde habita os invisíveis. 

Os sapatos batiam no chão e voltava com um eco seco nas paredes. O corredor era extenso, as janelas estavam fechadas, a claridade ali entrava pelas frestas da casa. Os olhos há quase fechando, o corpo tonto, a cabeça pesada, as pernas duras, os pensamentos nublados. 

Ao fim abriu a porta, entrou no cômodo vazio, ali a claridade era quase uma raridade. No chão, bem no centro do quarto uma mulher dormia. Seu corpo, templo sagrado estava nu, mostrava cada parte de pele que a pouca luz ali permitia. Íntimo, é a palavra que mais se encaixa. O homem virou a cabeça para o lado, em sinal de respeito a jovem, mas não era necessário, era assim que ela queria e pronto. Que fosse embora do mundo como chegou. No escuro, nua, sozinha. Ele respirou fundo, a cabeça ainda estava pesada. Se agachou ao lado dela e olhou para o rosto. Um rosto comum, olhos redondos, boca carnuda, nariz pequeno, mas gordinho. O rosto como todos os outros que tem formato de coração quadrado. 

Ela estava morta, seus cabelos estavam jogados para o lado deixando as mechas rebeldes soltas, se ela estivesse ao ar livre ele podia sentir o vento batendo no rosto e levantando o cabelo dela para o céu. 

Suspirou. Estava velho, cansado. Era ele que devia estar ali deitado, não nu, porque não foi assim que seus falecidos país lhe ensinou. Ele era adeptos aos bons costumes. 

Uma mulher alta entrou no quarto. Franziu o cenho. O cheiro que estava lá era muito doce, a moça antes de morrer tomou um banho de perfume é assim, cheirando a flores que se vestiu para a morte. 

Ela chegou perto do homem e olhou a moça, achou os cabelos bonitos, diferente dos seus que eram lisos e ralos. Como ela era bonita, os lábios faziam um perfeito arco carnudo. Os olhos pequenos pareciam jabuticabas maduras. O nariz pequenino. O que havia de errado com essa moça? 

Estava escuro demais, ela foi até uma janela e deixou o vento entrar, o vento veio, saudou o cômodo, mas o perfume ficou. Ela olhou para o cômodo e vou apenas a moça nua. Chamou pelo rádio o seu parceiro. Um jovem com uma carreira promissora, diferente dela, já queria se aposentar. Apostava com qualquer um que já vira mais cadáver que coveiro. Essa vida era triste. Procurou pistas para saber como a moça havia morrido, mas ela estava sozinha no quarto sem mobílias, era apenas ela e o cheiro forte de flores. 

Seu parceiro chegou, olhou para a moça e ficou vermelho. Ela sorriu para ele, achou graça da timidez repentina. 

Pediu para a perícia fazer um teste toxicológico. Aparentemente ela não tinha marcas pelo corpo, nem feridas, apenas o cheiro de flores e sua beleza jovial. 

Se levantou e foi para fora, todo esse cheiro de flores e cadáver estava dando dor de cabeça. Fumou um cigarro. Suspirou. Melhor. 

O garoto não queria ficar sozinho no quarto, se sentiu estranho com uma moça nua na sua frente sem que ela tivesse tirado as roupas para ele ou pedido que ele o fizesse. E ela era tão jovem, uma garota com um futuro pela frente que agora iria ser comida pelos vermes e pela terra. 

A mulher gritou ele. Ele foi atrás dela e deixou o quarto assim como estava, assim como ele viu. Apenas um quarto e uma  moça. 

O homem velho, olhava para aquelas pessoas que entravam e saíam. Ninguém viu ele, não era para ser visto. Ali, claramente se viu que era um crime sobrenatural. O cheiro de flores, a garota sem marca. Sim, certamente daria muita papelada. Ele suspirou. Se levantou e foi embora. Estava cansado daquela vida, muito solitário, muito velho, muita morte e pouco resultado. Mais tarde voltaria, quando o corpo fosse levado e o espírito voltasse procurando o próprio corpo. Então ele descobriria o que aconteceu. Já era hora de se aposentar. Já era hora de tirar férias. Mas ainda faltava muitos anos pela frente, nesse ramo paranormal nem a morte tirava férias. Passou pela policial mulher e sentiu o mesmo cheiro de flores. Suspirou, seria um longo ano e muito papel. 

Faça alguma coisa ao invés de reclamar? 

Alguém precisa mudar o mundo. Alguém precisa mostrar as pessoas que não devemos exigir do outro aquilo que nós mesmos não praticamos.

Às vezes tenho vontade de subir no palanque e gritar para que todos escutem e se unam em prol da humanidade. 

Às vezes tenho vontade de ir á lua. 

Às vezes tenho vontade de falar outros idiomas e ir a outros lugares e descobrir outras coisas. 

Mas às vezes, às vezes quase sempre eu só fico na cama, viro para o lado e me sinto isso que sou. Nada. 

Como mudar o mundo se não consigo mudar nem o meu próprio eu? 

Conversei assim comigo pra pressão não ficar tão grande e me fazer explodir. Estou segurando minha outra mão pra tentar dormir. 

-Oi. 

– Oi??? Aconteceu alguma coisa? 

– Hum, nada.

– São, deixa eu ver… São 3:12 da manhã. 

– Desculpa, é que eu. Bem, eu estou aqui sentada na sala e está passando um filme ruim e bem.. 

– Você precisa de mim? 

– Preciso. 

– O que aconteceu? Alguém te chateou? 

– Não! Não é isso, eu… Eu tô sozinha, e aqui dentro está tão triste. Eu estou tão triste. 

– Você não está sozinha. Eu estou aqui. Sempre estou. 

– Não, você não entendeu. Eu estou tão sozinha, sempre tão sozinha, aqui dentro tá confuso, dói, é como se eu estivesse… Estivesse no espaço e olhasse tudo envolta e só eu estivesse ali, contemplando o nada. E esse nada faz uma pressão em mim tão grande. Tão grande que acho que vou explodir… 

– Ei, me escuta, eu vou pegar sua mão e vou apertar ela, está sentindo? 

– Não né.. 

– Você entendeu, eu estou aí dentro, aí no espaço, estou apertando sua mão. Mas você não está me vendo porque eu sou só uma presença. Ok? 

– Ok. 

– Dorme agora, eu vou ficar com o celular ligado até você dormir, não vou soltar sua mão. Ok? 

– Ok… N.. não solta..  

– Pode chorar querida, ou não. Tanto faz, desde que você se sinta bem. Eu estou aqui. 

– Ok… 

– Você vai ficar bem e mesmo se não ficar, eu estou aqui. Ok? 

-… 

– Bons sonhos querida, eu vou sempre estar aqui… 

O ascendente de agora. 

Eu ainda era criança, mas os meus olhos curiosos via o que não devia e ouvidos aguçados ouviam muita coisa que não era sensato a uma criança pequena ouvir. 

Minha vó naquela altura fazia tempos que não batia bem da cabeça. O rádio ligado vinte e quatro horas por dia era para que ela não escutasse as vozes que lhe falava. 

Às vezes, quando desligava ela quebrava a casa e ameaça de morte os outros e a si mesma. Então ficava, vinte quatro horas por dia a falar a falar e cantar. 

Eu já era criança e sabia que era igual a ela. Não sabia dizer se era desejo ou vocação. Eu era triste e isso bastava. Algumas pessoas são tristes e outras ficam triste. 

Hoje, já na idade adulta eu comecei a escutar as vozes. Mas elas ainda são um sussurro. Elas são sombras no escuro. Passos em cima da casa, barulhos vindo de fora, galhos quebrados e ventos na janela. Estão lá. Uma hora ou outra ou vou ligar o rádio ou vou partir para outra. Qual será? 

Minha vó já se foi há tempos, mas lembro que toda vez que eu ia tomar banho ela estava lá quando fechava os olhos. Sempre observando, aguardando. Eu vou ou eu fico? Eu sou ou não? Ainda está cedo, mas mesmo agora eu já tenho o futuro, porque eu sei, já começou. 

A morte veio por trás e me deixou um recado. 

Fechei os olhos por um momento e senti alguém me atacando. A faca entrou e rasgou todas as camadas da minha pele. A última camada a ser atingida foi a espuma do colchão. O meu coração batia descompassado. Minha respiração estava acelerada. Era isso? Fácil assim? Eu havia morrido? Estou morta? Morri sem saber quem me matou. Morri sem saber quem havia penetrado tão firmemente, tão corajosamente, tão impiedosamente a faca em minhas costas. Eu estava de olhos fechados. Via as costas do meu assassino, sentia teu rastro, mas teu rosto não tinha nome, teu rosto não tinha forma. Morri como uma indigente, mas o único desconhecido era meu assassino. 

Agora, de olhos ainda fechados, estou em outra porta. Escuro as vozes, os passos, sinto o cheiro, percebo o som, o lugar, as pessoas. Os olhos ainda nublados. Quem é o meu assassino? 

Virei para o lado respirando com dificuldade, o lugar escuro, a mente fechada. O coração acelerado. Vejo fumaças e sombras ao meu redor, o corpo de uma mulher, ela vira, seus olhos se fecham ao sorrir. Ela está nua, se sente bem consigo mesma. Ela sabe que é bela porque ela escolheu ser bela. Ela se vai assim como chegou, sombras e fumaça. Estou sozinha, o quarto escuro, a mente fechada, o coração descompassado. Abro os olhos, não há ninguém, se eu morri só eu senti. Agora de olhos abertos olhando para o lado eu vejo, o assassino me encarando de olhos abertos e arregalados. Consigo dormir. 

O sopro da luz finita. 

A luz que entrou pela janela tinha uma áurea mágica. 
De fora os pássaros cantam. 

De dentro eu choro. 

O dia que amanheceu, pra mim foi só mais um dia.

O que dói fica, o que alegra se vai. 

Já estou morta, mas ninguém viu. 

A luz que entra pela janela reflete os sonhos que perdi. 

Eu olho para o espelho e vejo só um corpo sem vida. 

Já não sinto o que sentia. 

Eu estou morta, mas ainda não sabem que morri. 

Hoje estou do lado de fora, a luz aqui é mais clara. 

Ilumina todo o espaço, mas não me faz sentir. 

As plantas que eu jogo água parecem todas mortas. 

Elas crescem e morrem. 

Eu ainda estou aqui. 

Não vai. 

Não vai. 

Eu gritei com meus olhos. 

Mas ninguém ficou, escutou. 

Estou velando meu próprio corpo enquanto ainda tenho vida. 

Depois serão só os vivos que já estarão mortos. 

A luz que entra pela janela ilumina o meu rosto. 

Já é noite e eu ainda estou aqui. 

Morta. 

Morta. 

Você vê? 

Sente o cheiro de frescor. 

O cheiro da morte que ainda resta vida. 

A luz que entra pela janela já se apagou.