Entre o bom e o sentido. 

Escutei de longe os gritos. Já não era a primeira vez que alguém gritava e eu continuava dormindo. Há sempre alguém para socorrer. Sempre. 

Fechei os olhos, dormir não é algo natural. O medo que se apresenta ao encarar a eterna escuridão assombra aos meus ossos e corrói meu estômago. O que verei dessa vez? Outro grito. Dessa vez ele entra em mim como mil pequenos cacos de vidros aos quais eu mesmo quebrei e deixei no chão para quem passar. Eu cai na minha própria armadilha. 

Os gritos que entram estão por todos os lados, eles são palpáveis e cortantes. Os olhos que encaram a escuridão são eternos e frágeis. 

Ontem, foi ontem que o grito lançado ao ar, ao espaço-tempo era meu. Ontem, quem fugia para outra galáxia era eu. 

Vivo nesse eterno entardecer que cheira podridão e o calor insuportável queima a pele e sorri para a alma. 

Ontem, o grito de quem estava pedindo socorro era meu. 

Hoje quem grita são outro, há cada minuto ou segundo quem grita são outros. 

Viro para o lado, dessa vez abro os olhos, mas volto a fechar. Quem se encontra do outro lado do espelho sorri para mim, e eu detesto esse sorriso. E eu detesto esse escuro, e eu detesto essea gritos. E eu detesto. 

Alguém bate na porta. Estou tão trancado dentro do meu próprio quarto e tão absorto em meus próprios anseios que minhas pernas são blocos de ferros aos quais eu não consigo me mover. 

Está quente. 

Está muito quente. 

Continuam batendo na porta. 

Você sabia que em um incêndio é mais fácil morrer sufocado pela fumaça do que queimado pelo fogo? 

Eu sei. 

Outro grito. Dessa vez, ele entra em minha pele e chega até meu apêndice. Inútil. 

O escuro me fita e eu olho para o canto da parede onde está o sensor de movimento. Qual utilidade disso? 

Há nesse meu mundo um lugar onde se vai para nadar num mar de mentiras, é como se fosse um enorme estádio de futebol só que cercado por águas, você entra numa cápsula dentro desse enorme bloco e fica sobre a prancha para aprender a nadar. Inútil. Eu e minha solidão prefere o som do mar, o som das profundezas escuras onde habitam os animais marinhos. Onde habita o mistério, o oculto, o outro lado. Ao som do fundo do mar eu morreria. 

Bateu outra vez. Outro grito, outro riso e ainda está escuro. Aqui onde vivo é o novo mundo, um século depois do seu e o mundo continua mundo. Os gritos nos cortam como se fossem flechas afiadas. 

Me levanto. 

A consciência me grita e eu a temo. 

Ando de olhos fechados até encontrar a vela, acendo. 

Qual é pior: viver no escuro sem ver as sombras ou ficar na luz e encarar os monstros? 

A resposta: os dois. 

– Por favor, me ajude. 

Sabe aquela expressão que diz “o inferno está lotado de gente boa”? 

Eu descobri há muito tempo que existe aquele que faz o mal é aquele que deixa de fazer o bem. Acho que esse é o pior, é por isso que o inferno está cheio de gente de boas intenções, porque deixa de fazer algo. 

– Por que eu deveria? 

– Por que eu vou morrer se não me ajudar. 

Eu penso em abrir a porta e ter o meu mundo violado por outra pessoa como já foi antes há muito tempo que já não me lembro mais. Naquele tempo alguém deveria ter aberto para mim. Os gritos aumentam e dessa vez ataca meu bom senso. Eu abro. 

– Obrigada! Obrigada! 

Aquele que me sorria do espelho sai, ele sorri para a pessoa que entrou e a escuridão nos preenche novamente. Desta vez eu já não me encontro aqui mais. 

Anúncios

Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s