Onde estão aqueles meninos que dão paz? 

O céu está escuro, apesar disso o calor é tão intenso que queimou as árvores por onde passo. A fuligem negra cobre meu cabelo que um dia foi angelical. 

Meus pés estão em brasas e os gritos sufocam minha mente. 

– Por favor, me ajude! – Outro grito e em seguida o cheiro de pele queimada. A lança quente que perfurou sua carne é apenas um lembrete dos pecados que cometeu. O próximo a ser queimado será a língua pelas intrigas que causou e fofocas que fez. 

Há tanto tempo que ando aqui que já não sei quanto tempo é. Não me lembro do meu nome, nem de quem sou. 

Se eu olhar para o norte agora eu verei mil homens em cima dos outros com os corpos em chamas e os olhos furados. 

Hoje é o dia de festa. Uma mulher dança, seu corpo esguio está nu, o que um dia foi uma pele hoje é apenas um couro duro e enrugado. Os olhos dela foram comidos há muito tempo. Os cabelos foram arrancados fio a fio há muito tempo. Os dentes foram extraídos e dado ao lago dos pecados, as unhas um dia longas e brilhantes já não estão lá. Ela dança. Ela dança e dança. As cobras sobem pelo seu corpo e lhe dão o veneno diretamente na boca. 

A fuligem aumentou. Deixo a moça dançando em meio as cobras e continuo andando. O caminho é cheio de pedras escuras e quentes, os pés de todos ficam na carne viva enquanto se anda por aqui. Os meus, apenas absorvem o calor nesse momento. Estou chegando perto. 

O céu é apenas uma referência, aqui não há céu. Apenas essa escuridão sem limites e esse calor insuportável. Quero chorar, mas não há lágrimas. Há algum lugar para as virgens aqui? Acho que não. Se há eu nunca descobri. 

Há um lugar para os bondosos aqui? Acho que não, aqui todos pagam com o próprio corpo os pecados que há muito fotam cometidos.

O que faço aqui? 

No céu que não é céu há um pássaro escuro. Ele voa tão alto quanto pode, mas às vezes, somente às vezes, ele desce. 

Hoje ele desceu. Um pássaro grande, tão grande quanto um são Bernardo, mas não tão amigável. Seu bico é cheio de dentes, seus olhos são um poço fundo, suas asas são chamas que nunca se apaga. O pássaro que solta fuligem. 

Hoje é um dia de sorte. O pássaro chega perto, tão perto que sinto queimar a pele. O pássaro fala comigo, mas não entendo. Não entendi nada do que ele diz. Então ele me morde, é tão suave, tão suave. 

A mulher grita, os homens gritam, os velhos gritam, as crianças gritam. 

É minha vez de gritar. Ele comeu minha pele, ele arrancou os meus olhos, ele tirou meu cabelo. 

Agora eu danço. Eu danço enquanto canto. O canto dos perdidos e dos mortos. 

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