Entre um braço, um muro e a morte. 

O sol estava forte, apesar disso o vento continuava batendo gelado e me fazendo arrepiar. Fiquei olhando para o céu por um tempo enquanto sentia o calor suave em meu rosto. 

– A aula vai começar. 

Suspirei, a aula começando ou não minha cabeça estava envolta numa massa negra que se espalhava em todo meu corpo. 

Entrei, sentei. Olhei para o quadro e escutei. 

– Fulana? – Sou eu, a Fulana que você sabe o nome. 

Levantei, assim como meu cérebro dizia não o meu corpo dizia sim e andava. 

Era minha mãe. 

As palavras que dizemos uma contra outra foram difíceis de recriar aqui. 

– Fulana! Você não pode dizer isso para ela, ela é sua mãe!! 

Eu já estava magoada o suficiente, eu já estava machucada o suficiente. A bola só aumenta. A bola negra só se alimenta. 

– Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Ela não é sua mãe, ela não destruiu sua vida! 

– Mesmo assim, ela é sua mãe! – Olhos olhos dela estavam vermelhos de chorar. 

– Cala a boca! Cala a boca! 

Minha mãe estava lá, calada olhando. Eu olhei os olhos da garota que me dizia como eu devia tratar ou não a mãe, os olhos vermelhos de tanto chorar. Depois olhei os olhos da minha mãe, olhei mas não vi. 

Eu olhei para baixo. 

Pessoas viam correndo para o meu lado. As pessoas rodavam. Eu estava com tanta dor. Tanta dor. Tanta dor. 

Pulei. O muro era pequeno. Pulei. 

Fui caindo e achei que fosse igual os filmes, lento e triste. Mas foi rápido e doloroso, meu corpo se tornou uma peça cruel. Eu morri. Mas morta, mesmo morta eu sofria. Eu sofria, doía. Eu estava condenada a essa dor que sinto a vida toda e a morte toda também. Eu estava morta e sofrendo, com a bola negra ao meu lado. 

Alguém me puxou. Alguém puxou minha saia rosa de bolinhas pretas. Alguém me puxou de lá de baixo e me trouxe aqui em cima. 

Era um homem alto e ele sorria. 

Ele me puxou e não me deixou morrer. 

Quem é esse homem? 

Eu estava morta. 

Não estou mais. 

Mas eu ainda sofro. Ainda dói. 

Ainda dói. 

Ainda dói. 

Ainda aqui. 

Gritei.

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Um pensamento sobre “Entre um braço, um muro e a morte. 

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