Carícias ao velho amor. 

As mãos que tocam tua pele estão morrendo. 

Cada dia que passa elas secam mais. 

O toque suave de pêssego fresco virou um toque de maracujá murcho. 

Os dias se passaram e o sorriso caiu. 

As mãos que tocam tua pele estão fracas. 

Agora elas apenas recebem o calor. 

As mãos que tocam sua pele estão mortas. 

Elas se foram. 

As mãos que tocam tua pele já não toca mais. 

Você não as segurou quando elas caíram. 

Viraram pó e do pó nasceu flor. 

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Entre o bom e o sentido. 

Escutei de longe os gritos. Já não era a primeira vez que alguém gritava e eu continuava dormindo. Há sempre alguém para socorrer. Sempre. 

Fechei os olhos, dormir não é algo natural. O medo que se apresenta ao encarar a eterna escuridão assombra aos meus ossos e corrói meu estômago. O que verei dessa vez? Outro grito. Dessa vez ele entra em mim como mil pequenos cacos de vidros aos quais eu mesmo quebrei e deixei no chão para quem passar. Eu cai na minha própria armadilha. 

Os gritos que entram estão por todos os lados, eles são palpáveis e cortantes. Os olhos que encaram a escuridão são eternos e frágeis. 

Ontem, foi ontem que o grito lançado ao ar, ao espaço-tempo era meu. Ontem, quem fugia para outra galáxia era eu. 

Vivo nesse eterno entardecer que cheira podridão e o calor insuportável queima a pele e sorri para a alma. 

Ontem, o grito de quem estava pedindo socorro era meu. 

Hoje quem grita são outro, há cada minuto ou segundo quem grita são outros. 

Viro para o lado, dessa vez abro os olhos, mas volto a fechar. Quem se encontra do outro lado do espelho sorri para mim, e eu detesto esse sorriso. E eu detesto esse escuro, e eu detesto essea gritos. E eu detesto. 

Alguém bate na porta. Estou tão trancado dentro do meu próprio quarto e tão absorto em meus próprios anseios que minhas pernas são blocos de ferros aos quais eu não consigo me mover. 

Está quente. 

Está muito quente. 

Continuam batendo na porta. 

Você sabia que em um incêndio é mais fácil morrer sufocado pela fumaça do que queimado pelo fogo? 

Eu sei. 

Outro grito. Dessa vez, ele entra em minha pele e chega até meu apêndice. Inútil. 

O escuro me fita e eu olho para o canto da parede onde está o sensor de movimento. Qual utilidade disso? 

Há nesse meu mundo um lugar onde se vai para nadar num mar de mentiras, é como se fosse um enorme estádio de futebol só que cercado por águas, você entra numa cápsula dentro desse enorme bloco e fica sobre a prancha para aprender a nadar. Inútil. Eu e minha solidão prefere o som do mar, o som das profundezas escuras onde habitam os animais marinhos. Onde habita o mistério, o oculto, o outro lado. Ao som do fundo do mar eu morreria. 

Bateu outra vez. Outro grito, outro riso e ainda está escuro. Aqui onde vivo é o novo mundo, um século depois do seu e o mundo continua mundo. Os gritos nos cortam como se fossem flechas afiadas. 

Me levanto. 

A consciência me grita e eu a temo. 

Ando de olhos fechados até encontrar a vela, acendo. 

Qual é pior: viver no escuro sem ver as sombras ou ficar na luz e encarar os monstros? 

A resposta: os dois. 

– Por favor, me ajude. 

Sabe aquela expressão que diz “o inferno está lotado de gente boa”? 

Eu descobri há muito tempo que existe aquele que faz o mal é aquele que deixa de fazer o bem. Acho que esse é o pior, é por isso que o inferno está cheio de gente de boas intenções, porque deixa de fazer algo. 

– Por que eu deveria? 

– Por que eu vou morrer se não me ajudar. 

Eu penso em abrir a porta e ter o meu mundo violado por outra pessoa como já foi antes há muito tempo que já não me lembro mais. Naquele tempo alguém deveria ter aberto para mim. Os gritos aumentam e dessa vez ataca meu bom senso. Eu abro. 

– Obrigada! Obrigada! 

Aquele que me sorria do espelho sai, ele sorri para a pessoa que entrou e a escuridão nos preenche novamente. Desta vez eu já não me encontro aqui mais. 

Onde estão aqueles meninos que dão paz? 

O céu está escuro, apesar disso o calor é tão intenso que queimou as árvores por onde passo. A fuligem negra cobre meu cabelo que um dia foi angelical. 

Meus pés estão em brasas e os gritos sufocam minha mente. 

– Por favor, me ajude! – Outro grito e em seguida o cheiro de pele queimada. A lança quente que perfurou sua carne é apenas um lembrete dos pecados que cometeu. O próximo a ser queimado será a língua pelas intrigas que causou e fofocas que fez. 

Há tanto tempo que ando aqui que já não sei quanto tempo é. Não me lembro do meu nome, nem de quem sou. 

Se eu olhar para o norte agora eu verei mil homens em cima dos outros com os corpos em chamas e os olhos furados. 

Hoje é o dia de festa. Uma mulher dança, seu corpo esguio está nu, o que um dia foi uma pele hoje é apenas um couro duro e enrugado. Os olhos dela foram comidos há muito tempo. Os cabelos foram arrancados fio a fio há muito tempo. Os dentes foram extraídos e dado ao lago dos pecados, as unhas um dia longas e brilhantes já não estão lá. Ela dança. Ela dança e dança. As cobras sobem pelo seu corpo e lhe dão o veneno diretamente na boca. 

A fuligem aumentou. Deixo a moça dançando em meio as cobras e continuo andando. O caminho é cheio de pedras escuras e quentes, os pés de todos ficam na carne viva enquanto se anda por aqui. Os meus, apenas absorvem o calor nesse momento. Estou chegando perto. 

O céu é apenas uma referência, aqui não há céu. Apenas essa escuridão sem limites e esse calor insuportável. Quero chorar, mas não há lágrimas. Há algum lugar para as virgens aqui? Acho que não. Se há eu nunca descobri. 

Há um lugar para os bondosos aqui? Acho que não, aqui todos pagam com o próprio corpo os pecados que há muito fotam cometidos.

O que faço aqui? 

No céu que não é céu há um pássaro escuro. Ele voa tão alto quanto pode, mas às vezes, somente às vezes, ele desce. 

Hoje ele desceu. Um pássaro grande, tão grande quanto um são Bernardo, mas não tão amigável. Seu bico é cheio de dentes, seus olhos são um poço fundo, suas asas são chamas que nunca se apaga. O pássaro que solta fuligem. 

Hoje é um dia de sorte. O pássaro chega perto, tão perto que sinto queimar a pele. O pássaro fala comigo, mas não entendo. Não entendi nada do que ele diz. Então ele me morde, é tão suave, tão suave. 

A mulher grita, os homens gritam, os velhos gritam, as crianças gritam. 

É minha vez de gritar. Ele comeu minha pele, ele arrancou os meus olhos, ele tirou meu cabelo. 

Agora eu danço. Eu danço enquanto canto. O canto dos perdidos e dos mortos. 

Ouvindo o som dos carros de olhos abertos o escuro. 

Se você saísse do seu corpo, você se reconhecer ia? 

Se você olhasse para suas mãos iria se lembrará das linhas que te marcam desde antes da luz? 

Se você gritasse socorro, seria sua voz? 

Andando no escuro, você sabe onde está a sua paz? 

Olhando no espelho, esse estranho é você? 

E o seu medo? Você o alimenta com suas próprias mãos. 

Se você se perguntasse o teu nome, ele seria mesmo teu? 

Quem é você camarada?

Quem é você que está aí se perguntando quem sou eu? 

O medo é maior que você porque ele veste tua roupa, anda no teu corpo, fala com tua boca e olha com teus olhos. Quando te chamam é ele que responde. 

O medo que te gera é gerado por você.

Se você mentisse pra si mesmo continuaria sendo uma mentira? 

Andando no escuro não encontra a voz, pediu socorro, gritou, gritou. 

Ainda grita, estranho. 

Sensação de peito parado batendo. 

Existe uma sensação que ninguém te conta. Aquela sensação que quando você dorme ela continua lá. 

Uma mão no teu peito segurando teu coração. A sensação que te persegue no primeiro momento ao abrir os olhos. 

Ela pendura no tempo. Te persegue nos dias. E mesmo quando você está sorrindo ela está lá. 

A sensação que te faz querer beber pra deixar ela sumir, vai por mim, ela só piora. 

A sensação que ninguém te conta é a que deixa teus olhos caídos. Teus pesadelos vívidos, teus sonhos perdidos. 

A sensação que ninguém te conta é a que ninguém quer descobri sozinho. A mão no peito, o peito de lado o coração quase parado. 

A cama é quente, o mundo é frio. O quarto é seguro, e o medo de sair é quase infinito. 

A sensação que ninguém te conta é tão difícil curar, mas tem cura. 

Te cura. 

Tem cura e eu procuro a minha. 

Orar. 

Faz tanto tempo que não oro que não sei como orar. 

Oro acho que é conversa, oro acho que é só falar. 

Minha oratória é péssima. 

Tenho medo dos olhos que me olham. 

Faz tanto tempo que não oro que não sei se quem está de lá vai me escutar. 

Orar é uma conversa íntima consigo mesmo. Será que Ele está lá? 

O nome que eu tenho devia ser outro. 

Achava Edgar um egoísta estúpido que bebia por diversão. Achava que ele queria atenção e era preguiçoso por ficar o dia todo no quarto dormindo. Achava que quando ele bebia até desmaiar era porque queria. Achava que… 

Que… 

Agora não acho nada. Porque eu me tornei pior que Edgar, eu acordo querendo dormir. Eu choro querendo esquecer essa dor que surgiu de não sei onde. Essa tristeza que me afoga de lugar algum. E quando eu estou tão triste, tão só eu só queria beber pra esquecer o que me atormenta eu me lembro da minha hipocrisia de achar que a dor do outro era mentira. 

Agora quem chora e quem sofre sou eu. 

Agora quem acorda querendo beber sou eu. 

E eu, que detesto tanto as festas. 

Eu que só quero dormir. 

Meu nome não é Edgar, mas poderia ser, porque nome é um rótulo e eu era Fulana e agora sou ele. 

O sono dos meus olhos não têm fim. 

Percebi que havia algo errado comigo pelos meus olhos. Estão sempre caídos, inchados e sonolentos. Por mais que eu durma eles estão sempre se fechando. Por mais que eu descanse eles estão sempre cansados. Por mais que eu sorria eles estão sempre opacos. Foi nesse momentos, que finalmente acreditei que eu realmente estou toda errada, por mais que eu tentava negar sempre eu percebi que já não havia saída. Estou assim e assim só piora. Até hoje mesmo, quando acordei os meus olhos não haviam despertado. E ainda agora enquanto escrevo quero dormir, mesmo que eu esteja numa festa, mesmo que eu esteja com meus amores. Eu ainda sim estou totalmente errada, com os olhos caídos numa mentira sonolenta.