Um homem, um bicho. 

Escrever sobre si é algo muito complexo, quando começa uma linha não se sabe onde você começa e onde você termina. Quem você quer enganar? O outro ou você mesmo? Tem um nome para isso, como tudo tem, não é mesmo? Só não me lembro agora. Em outros tempos eu fui camaleão, me transformei em grilo, metamorfei em cobra. Por quinze dias fui mosquito, no meu medo e anseio foi um tempo longo e sombrio. Mas o tempo mudou mesmo quando virei humano. Tantas emoções horríveis e maravilhosas, as​ maravilhosas tem uma tendência a serem curtas, talvez porque o tempo é relativo e nossa dor se aprofunda nos segundos por ser horrível. Há muito tempo atrás eu morei sozinho em um lugar remoto. Só eu e meus bichos, minha natureza, meu céu, meu sol, minha lua, minhas estrelas, meu ecossistema. 

– Olha só! Tem um homem nu morando aqui! – E foi a partir deste momento eu descobri que não era o único no mundo, por mais que eu não entendia as palavras daquele ser, por mais que ele me fosse estranho, andasse de outro jeito, estivesse coberto, usasse sapatos, para mim ele era um igual. Alguém a quem eu não conhecia, mas um ser como eu. 

Hoje, depois de séculos de distância eu sou um homem moderno, renascido entre outros. Vivido, experiente, aquela memória é distante, mas nem tão apagada. Ainda está aqui guardada dentro de mim com todas as outras que tenho. 

Hoje, sentado comendo esse hambúrguer eu sou um homem entre tantos, mas descobri que sou tão sozinho quanto era antes, naquela mata, naquele corpo de cobra, de grilo, mosquito, leão, árvore, minhoca, vento, átomo, urso, morsa, mulher, peixe, tigre, antílope, e mais e mais e mais. Eu falo, eu ando. Mas ainda assim eu sou eu no meio desses outros que são iguais a mim. Todos juntos e sozinhos. Desligados pelo poder da mente. Todos sombrios com seus próprios pensamentos. 

Eu, como os outros, sou só mais um homem. Mas nunca, em todo meu ciclo infinito de vida eu me senti tão sozinho. Porque agora, depois de tanto tempo, eu descobri o poder do sorriso, o calor do abraço, o aconchego do amor e isso é um vício. Nunca é o suficiente e quando falta me sinto vazio. Por mais que tenho no alcance de minhas mãos, meus braços um abraço. Nunca é o suficiente. Sempre sozinho, separados pela barreira da mente. 

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2 pensamentos sobre “Um homem, um bicho. 

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