Pequenos passos para sair de um idiota. (Correr também ajuda)

Alguém me perguntou: 

O que você faz para viver? 

Eu devia ter respondi que praticamente vivo em osmose. Claro que seria uma analogia, não posso viver em osmose. Não que eu saiba. Ou eu vivo? 

Bom, é uma pergunta muito complexa, por exemplo, eu me alimento para viver (bem mal, por sinal), respiro para viver, bebo água para viver (pinga também, mas isso não conta né? Ou conta?), defeco e urino para viver. Não nessa ordem. Ah, também durmo, não muito, mas tento. 

Essa mesma pessoa que me olhou espantada, com uma cara de espantalho, devo dizer, deu um sorriso amarelo nada bonito. 

Não perguntei sobre isso, mas sobre profissão… 

Claro, eu sabia que a pergunta era sobre profissão, mas não deixaria de passar em branco essa perguntinha idiota. Qual é das pessoas quererem saber os seus passos, seu salário, sua vida sexual, etcetera e etcetera? 

Eu sou… Odeio minha profissão, queria poder dizer que sou astronauta, ou mergulhador, ou cartomante, ou pintor de nu artístico, ou até mesmo dublê de filmes de ação. Maaaaaas (veja bem como prolonguei meu “a” (“a” seco) ) eu sou advogado. 

A pessoa sorriu, os olhos brilharam. Será que eu devia dizer que era um advogado falido? Melhor destruiu o sonho a violentas marteladas dizendo do saldo negativo em minha conta, do cartão de crédito estourado, dos cheques especiais e melhor ainda, agiotas! Tenho de rir, sou um cara masoquista. 

Bom – essa pessoa chegou mais perto – eu sempre tive uma certa admiração em advogados. É uma profissão linda, na qual você defende seus ideais, luta pela justiça e pelo bem. – Ela estava tão perto que eu sentia o perfume adocicado como se estivesse em frente a uma travessa de flores e frutas tropicais: Horrível. 

Defendo pessoas pobres, e o único bem que espero é o meu, os agiotas não querem nem saber de justiça. Nem os legalizados (desculpa aí banco). 

Verdade, infelizmente estou sem uma causa sequer. Ah, minto, tem aquela da tia Betânia, mas ela não me pagou. 

A pessoa se afastou. Será que pobreza é um repelente natural? Vou usar com frequência, já que estou pobrerrímo. 

Ah, mas você é um profissional liberal, autônomo, independente. 

Ela sabe o que é sinônimo? 

Verdade! Ih, olha só, meu agiota me ligando. Vou nessa, se ele souber onde estou manda os capangas virem aqui. E não querem nem saber com quem estou que já chegam metendo porrada. Ha-ha, sabe como é né? Mas enfim, me liga! 

Ela arregalou os olhos e saiu andando, digo, correndo. Aproveitei a deixa e atendi o telefone. Agiotas não gostam de serem ignorados. 

Oi mãe? Tudo bem? Calma mãezinha, eu disse que ia te pagar pô! Fez almoço? Tô numa fome, sabe que tô quebrado das duas pernas né? Não? Duvido… Estou chegando aí heim! Beijão, sabe que te amo né? Hahaha… 

Se ela fugiu só de escutar o nome da fera, imagina ver cara a cara. Tudo tem um lado bom, só tem que saber de qual lado olhar, prefiro o de fora. Melhor eu ir andando, a fera está me esperando. Ela disse que ia me alimentar com meu fígado, mas pra quem está molhado um pingo é letra… Espera aí, como é mesmo? Um pingo é letra pra quem está… Ah, deixa para lá.

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