Antes de entardecer ainda é dia. 

Ao olhar para o norte meus olhos explodiram em lágrimas quentes. 

O sol me absorvia e deixava dentro de mim um gosto de casa, de chuva, de terra, de risos, suspiros, amores, abraços, sonhos, esperança. 

Mas era o crespúsculo. 

Quase já não era dia. 

O vento marítimo levou tudo embora, nesse momento senti o sal nas lágrimas misturados com as águas do mar. 

O escuro do céu, o peso da chuva, o frio do ar. Meu coração era só rochas desgastadas pelas ondas do oceano que rugia contra meu rosto despedaçado. 

Levou o calor do sol.

Trouxe o frio do mar. 

Levou o laranja do céu. 

Trouxe a escuridão da noite. 

Me deixou inerte no barco sem ter pra onde remar. 

Dentro de mim o vento rugia, os trovões estrondosos tocavam em sintonia com as cordas da guitarra. 

Era eu e minha música sombria. 

Eu e minha escuridão. 

Era eu. 

E ainda é. 

Mas já não sei quem. 

Dentro de mim ficaram essas lembranças como o final do sabor depois de horas que se tenha tomado café. 

A bateria ruge em sintonia com os raios. 

Começo a remar, nesse momento vejo uma ilha. 

A ilha da queimada grande. 

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Um homem, um bicho. 

Escrever sobre si é algo muito complexo, quando começa uma linha não se sabe onde você começa e onde você termina. Quem você quer enganar? O outro ou você mesmo? Tem um nome para isso, como tudo tem, não é mesmo? Só não me lembro agora. Em outros tempos eu fui camaleão, me transformei em grilo, metamorfei em cobra. Por quinze dias fui mosquito, no meu medo e anseio foi um tempo longo e sombrio. Mas o tempo mudou mesmo quando virei humano. Tantas emoções horríveis e maravilhosas, as​ maravilhosas tem uma tendência a serem curtas, talvez porque o tempo é relativo e nossa dor se aprofunda nos segundos por ser horrível. Há muito tempo atrás eu morei sozinho em um lugar remoto. Só eu e meus bichos, minha natureza, meu céu, meu sol, minha lua, minhas estrelas, meu ecossistema. 

– Olha só! Tem um homem nu morando aqui! – E foi a partir deste momento eu descobri que não era o único no mundo, por mais que eu não entendia as palavras daquele ser, por mais que ele me fosse estranho, andasse de outro jeito, estivesse coberto, usasse sapatos, para mim ele era um igual. Alguém a quem eu não conhecia, mas um ser como eu. 

Hoje, depois de séculos de distância eu sou um homem moderno, renascido entre outros. Vivido, experiente, aquela memória é distante, mas nem tão apagada. Ainda está aqui guardada dentro de mim com todas as outras que tenho. 

Hoje, sentado comendo esse hambúrguer eu sou um homem entre tantos, mas descobri que sou tão sozinho quanto era antes, naquela mata, naquele corpo de cobra, de grilo, mosquito, leão, árvore, minhoca, vento, átomo, urso, morsa, mulher, peixe, tigre, antílope, e mais e mais e mais. Eu falo, eu ando. Mas ainda assim eu sou eu no meio desses outros que são iguais a mim. Todos juntos e sozinhos. Desligados pelo poder da mente. Todos sombrios com seus próprios pensamentos. 

Eu, como os outros, sou só mais um homem. Mas nunca, em todo meu ciclo infinito de vida eu me senti tão sozinho. Porque agora, depois de tanto tempo, eu descobri o poder do sorriso, o calor do abraço, o aconchego do amor e isso é um vício. Nunca é o suficiente e quando falta me sinto vazio. Por mais que tenho no alcance de minhas mãos, meus braços um abraço. Nunca é o suficiente. Sempre sozinho, separados pela barreira da mente. 

Prefiro não deitar no divã. 

Hoje me deu vontade de cortar os pulsos e deixar escorrer em uma poça de sangue vermelha e grossa. É óbvio, eu estaria nua, nada como uma morte limpa e dramática. Minha vida seria um pico de inspiração para escritores falidos, bêbados, e entupidos de nicotina. Qual seria o título? “A inocência se veste em sangue”. Um bom título? Talvez. Eu chorei por não saber o motivo de ter vindo a este mundo só para sofrer, nasci e cresci envolta de sofrimento. Devo acreditar que na minha vida passada ( sou crédula quanto a isso ) eu era um monstro que torturava as pessoas e as matava lentamente com seus problemas psicológicos, incluindo depressão, síndrome do pânico, ansiedase, tumores, vitiligo, dermatite atópica, psoríase e os futuros que ainda não descobri. Estão entendendo? Estou descrevendo meu histórico médico e problemas psicológicos. 

Ao invés disso eu estou procurando na internet um livro lixo de romance barato só pra me fazer esquecer essas drogas de loucuras que estão inseridas no meu sistema biológico.  Devo dizer que sou um tipo de pessoa que lê de tudo um pouco, e prefiro os cultos que torram meu cérebro e me fazem pensar que sou uma droga de pessoa louca, maníaca depressiva. 

Enquanto isso, bebo um vinho imaginário e choro em cima da tela do meu celular enquanto leio Sabrina.

Melhor que isso só Alprazolam. 

Pequenos passos para sair de um idiota. (Correr também ajuda)

Alguém me perguntou: 

O que você faz para viver? 

Eu devia ter respondi que praticamente vivo em osmose. Claro que seria uma analogia, não posso viver em osmose. Não que eu saiba. Ou eu vivo? 

Bom, é uma pergunta muito complexa, por exemplo, eu me alimento para viver (bem mal, por sinal), respiro para viver, bebo água para viver (pinga também, mas isso não conta né? Ou conta?), defeco e urino para viver. Não nessa ordem. Ah, também durmo, não muito, mas tento. 

Essa mesma pessoa que me olhou espantada, com uma cara de espantalho, devo dizer, deu um sorriso amarelo nada bonito. 

Não perguntei sobre isso, mas sobre profissão… 

Claro, eu sabia que a pergunta era sobre profissão, mas não deixaria de passar em branco essa perguntinha idiota. Qual é das pessoas quererem saber os seus passos, seu salário, sua vida sexual, etcetera e etcetera? 

Eu sou… Odeio minha profissão, queria poder dizer que sou astronauta, ou mergulhador, ou cartomante, ou pintor de nu artístico, ou até mesmo dublê de filmes de ação. Maaaaaas (veja bem como prolonguei meu “a” (“a” seco) ) eu sou advogado. 

A pessoa sorriu, os olhos brilharam. Será que eu devia dizer que era um advogado falido? Melhor destruiu o sonho a violentas marteladas dizendo do saldo negativo em minha conta, do cartão de crédito estourado, dos cheques especiais e melhor ainda, agiotas! Tenho de rir, sou um cara masoquista. 

Bom – essa pessoa chegou mais perto – eu sempre tive uma certa admiração em advogados. É uma profissão linda, na qual você defende seus ideais, luta pela justiça e pelo bem. – Ela estava tão perto que eu sentia o perfume adocicado como se estivesse em frente a uma travessa de flores e frutas tropicais: Horrível. 

Defendo pessoas pobres, e o único bem que espero é o meu, os agiotas não querem nem saber de justiça. Nem os legalizados (desculpa aí banco). 

Verdade, infelizmente estou sem uma causa sequer. Ah, minto, tem aquela da tia Betânia, mas ela não me pagou. 

A pessoa se afastou. Será que pobreza é um repelente natural? Vou usar com frequência, já que estou pobrerrímo. 

Ah, mas você é um profissional liberal, autônomo, independente. 

Ela sabe o que é sinônimo? 

Verdade! Ih, olha só, meu agiota me ligando. Vou nessa, se ele souber onde estou manda os capangas virem aqui. E não querem nem saber com quem estou que já chegam metendo porrada. Ha-ha, sabe como é né? Mas enfim, me liga! 

Ela arregalou os olhos e saiu andando, digo, correndo. Aproveitei a deixa e atendi o telefone. Agiotas não gostam de serem ignorados. 

Oi mãe? Tudo bem? Calma mãezinha, eu disse que ia te pagar pô! Fez almoço? Tô numa fome, sabe que tô quebrado das duas pernas né? Não? Duvido… Estou chegando aí heim! Beijão, sabe que te amo né? Hahaha… 

Se ela fugiu só de escutar o nome da fera, imagina ver cara a cara. Tudo tem um lado bom, só tem que saber de qual lado olhar, prefiro o de fora. Melhor eu ir andando, a fera está me esperando. Ela disse que ia me alimentar com meu fígado, mas pra quem está molhado um pingo é letra… Espera aí, como é mesmo? Um pingo é letra pra quem está… Ah, deixa para lá.

Cartas jogadas para fora de um barco para o mar lamber. 

Toda vez que me pego escrevendo estou no escuro, mas se for somar 1+1 eu estou sempre no escuro.

Desde o útero até minha velhice, até ontem estou e até onde vou. O escuro. 

Claro, devo dizer que desta vez não vim escrever para mim, se não para o meu eu que é você

No fim, somos os mesmo, corpos de um mesmo corpo celeste. Bocas de mesmas bocas cheias de germes. Bactérias de um mesmo corpo universal. 

Fechei os olhos, por um instante me dói dizer tudo isso o que eu digo. Por um instante o tempo não é uma linha ou até mesmo relativo. 

Minha vida tem esse ciclo finito que sempre esbarra na sua, aí do outro lado da tela onde teus olham essas letras que formam essas frases e se faz poesia. 

Nunca, ninguém me viu mais nu. Porque a alma é mais pulsante que o corpo, o que nela mostra há vergonha, felicidade ou até mesmo dor, e vou além, há o nada. O vazio que todos têm, alguma preenchem, alguns ficam, alguns vão. Já o corpo nu, a pele em pelo, o cheiro, o cabelo. Isso não é vergonha mostrar, barriga lisa ou caída, as estrias ou celulites. Já a alma, ela é má é boa, é pura e corrompida. 

Falei muito? Não. Ainda está escuro, ainda choro, ainda grito. Meu mundo está alicerçado em sepulturas não preenchidas. Minha e sua. Nossas mãos estão dadas nesse amor infinito. 

O que é amor? 

Para cada um, um suspiro. Ninguém sabe, alguns fingem. Outros tanto entende disso que se partem em várias partes e se vão. Vão. Vão. 

Ainda estou aqui, ainda está escuro. 

Ainda sou eu, e você é você. 

Minha mente é minha. A voz é sua, as palavras nossas e agora você viu tudo o que tinha de ver. 

O que vem depois da morte? 

Preciso ir a um psicólogo urgente. Mas tenho medo. Medo dele me falar que sou louca, hipocondríaca maluca, esquizofrênica, com um monte de síndromes loucas, que preciso tomar remédios de verdade (além do que já me foram receitados), que preciso ser internada num sanatório e ficar sobre vigília 24 horas por dia. 

Mas o pior, eu tenho medo de ser verdade minhas loucas e eu estar morrendo. Sinto até os ossos minha morte e todo momento que me toco​ é um cancer else diferente. 

Ou louca ou morta. 

Estou gerando meu assassino? 

Foi tudo durante um sonho, quando meu corpo se transformou só em corpo e minha alma voou. 

Eu fui em vários lugares, visitei estranhos, em outras épocas, vi as guerras, dos índios na floresta, me transformei em uma revolucionária e por isso fui queimada pelo fogo que lambeu a água, lambeu as árvores, lambeu o mato, a flora, a fauna. Lambeu minha pele, roeu meus ossos, levou meus gritos e foi embora. 

O meu corpo abriu os olhos, mas não se mexeu, eu estava presa, vendo outra coisa, em outro lugar, minha alma longe e meu corpo só, doeu. Eu tentava olhar em volta, tentava me mexer, levantar, gritar, nada. Sem minha alma, meu corpo está só. 

Foi há muito tempo atrás, quando um amigo meu me disse, que ia morrer. Na época eu não entendi, ainda hoje ainda não entendo. Mas antes de ir ele me disse que eu era um anjo, na última evolução aqui na terra, pronta pra ir. Não ia por causa do amor, amava tanto os humanos que ficava. Então, então é por isso que sofro, o amor é uma droga que me mata aos poucos. 

Dessa vez eu sonhei que estava no dentista, ao fazer um raio-x​ descobriu que eu tinha dois tumores, um atrás do nervo óptico, esse era mortal, maligno por natureza, impossível de tirar, só tratar. O cafajeste me disse isso sorrindo, como se estivesse me anunciando uma promoção e me disse ser a ganhadora. E o outro? A-h, o outro, estava perto dos dentes, super fácil de tirar, e por sorte era benigno. Que ótimo pra mim, yup! 

Eu morri naquele momento, ao anúncio de minha morte prematura, estava morrendo por dentro, todos os dias um pouco, todos os dias carregava meu assassino, o banhava, o alimentava, o divertia. 

Sofri, sofri. Até acordar. Meu corpo não se moveu, fiquei presa dentro da minha mente por quase uma hora, meu coração sambava, samba, corre, perde, ganha. E eu olhando a coberta, a janela, o guarda roupa e nada de mexer ao menos o pescoço. Estou ainda com essa sensação, acabei de acordar e quase que não me mexo. 

Percebi que era um sonho, mas acho que é um aviso, um aviso de que é real. Desde criança, antes dos 7 anos eu já sabia que morreria jovem, na época minha data de morte tinha data e era aos 13 anos. Hoje estou com 21, fico esperando ela vir me abraçar, depois desses sonhos, e de a certeza de ter outro nódulo no meu seio, onde já tirei um, só me faz crer mais. Estou morrendo. 

Veio outro sonho, nesse eu estava no dentista, por quê? Havia perdido 7 dentes da parte superior direita do meu rosto, ao acordar a mesma coisa, os peguei, tão brancos, tão frágeis, tão frios, tão leves. Na gengiva, os buracos, no sorriso, o vazio. A solução? Era os parafusar, com dor, sem antesia. Olhei tudo, olhei em volta, onde estou? Presa. Presa. Estou presta, morrendo. Morta, vivendo. 

Será que meu amigo estava certo e eu viajo para outras partes quando durmo? Será que eu apenas vi o anúncio de morte de outras pessoas? Ou será um presságio? Eu vejo o futuro? 

Estou morrendo um pouco, todos os dias, agora. Com medo de ir ao médico, com medo de por a mão no meu seio e sentir o enorme caroço, rindo de mim, sendo gerado por mim e no final eu não pegarei nada nos bracos e direi que o amo. Só a morte, morte. Não amo tanto assim os humanos, são tão maus, tão cruéis, tão cheio de ódios… Foi por isso, por essa falta de amor que eu recebi minha sentença de morte. 

Morte. 

Mor

Te

T

Es

T

e

R

Mor

Ta. 

Se você for o Bartô, não leve o celular para o banheiro. 

11:56 / 25-05

– Bartô? Você sabe que eu DE-TES-TO deixar mensagem na caixa de mensagens, acho isso ridículo e caro. Estou te ligando HÁ DIAS! Olha só, esse negócio de relacionamento não dá pra mim, mas… Já deu! Ai que ódio Titoooooooooo sai daí de cima da mesa! Olha só, o Tito está literalmente des-tru-in-do a casa! Tchau, me liga!! Titoooooooooo

3:42 / 08-06

– Lúcia? Sou eu, o Bartô. 

– Bartô? Puta que pariu, eu estava exatamente sonhando com você! QUE EU TE PICAVA!!! 

– Eu não posso falar por muito tempo, estou sendo perseguido… 

– Bartô, nem sua MÃE te persegue, querido! Onde você está? Que barulheira é essa? 

– Abre a porta, agora!!! 

– Porta? Você está na porta da minha porta? 

– Vou ter que desligar, abre a porta rápido! 

– Bartô, meu Deus cara, você está todo suado. Que roupas são essas? 

– Tranca a porta, eu estou sendo vigiado! Desliga teu celular e fecha às janelas! 

– Bartô, você some por mais de dois meses, aparece na minha casa no meio da madrugada, fedido, suado e PARANÓICO? 

– Lúcia, eu juro que estou sendo vigiado! Vou te provar, liga sua televisão. 

– Paranóico, mas ok!

– … O paralelo entre a literatura e arte cinematográfica. Boa noite Bartô, espero que esteja apreciando o programa feito essssssspecialmente paaaaara voooocê! 

PUTAQUEPARIU! 

-Desliga isso. 

– Com todo prazer. 

– Acredita em mim? 

– Eu não acredito mais em mim mesma! 

– Isso aconteceu há três meses atrás. 

– Tito, não sobe ai! 

– Ele anda meio rebelde né. 

– É, foi só perder os dentes de leite e começar a crescer mais. Eu não sabia que ele ia ficar tão grande. 

– Ele era bonitinho quando filhote. 

– Muito. 

– Tô ferrado. 

– Tá mesmo. 

– O que faço? 

– Procura a NASA! 

– Vão me dissecar. 

– Você pode ir morar na floresta. 

– Olha bem pra mim Lúcia, qual a probabilidade de eu sobreviver na floresta? Eu sou Analista, trabalho com números e computadores. O máximo que posso fazer é uma fogueira e talvez uma garrafa cheia com LÁGRIMAS! 

– Você nunca foi bom dramático. 

– Estou desesperado. 

– Toma um banho, dorme aqui é amanhã nós vamos para a roça do meu avô e tentamos descobrir de qual planeta você veio pra te mandar de volta. 

– É por isso eu namoro você, me anima e levanta minha moral! 

– Epa, eu terminei com você por aquela mensagem de caixa postal… 

– Lúcia, eu estou sendo perseguido por sei lá o que e que tipo de loucura paralela eu esteja sofrendo e você termina comigo? 

– Sou sensível! 

– Vou embora! 

– É brincadeira Bartolomeu! Que estresse! 

– Cara, eu estou sendo PERSEGUIDO! 

– Já entendi, mas acho que você não gritou o suficiente para o resto do prédio de um raio de 10 quilômetros! 

– Desculpe. 

14:26 / 08-06

– Bom dia. 

– Boa tarde querido. 

– Nossa tive um sonho horrível no qual eu estava sendo perseguido e vigiado… 

– Querido, não foi um sonho.

-… 

O passado é uma estória contada aos que sobreviveram sobre si.

Manhã.

-Desde quando, Aurora, tu danças enquanto eu toco?
– Desde ontem, há dez anos atrás quando eu ainda era menina e escutava escondida atrás da porta.
– Você me escutava tocar?
– Sempre tive inveja de como tu acariciavas as teclas brancas e negras com tanta delicadeza.
– Nunca fui delicado.
– Sempre fostes, apenas não é galante.
– Ainda dança?
– Todos os dias.

Tarde.

-Aurora?
-Sim?
– Ainda dorme?
– Não mais.
– Sentes falta de tua infância?
– Às vezes.
– Hoje?
– Hoje não.

Noite
-Aurora?
– Estou ouvindo.
-Queres escutar uma música?
-Teus dedos não doem?
-Não para uma última música.
-Então quero.
-Vou te dedicar, ao meu final de vários anos, uma música que toca minha alma quando toco os teclados do piano.
-Qual?
– Você vai saber.
-Estou tão longe, já não consigo levantar de meu leito.
– Não precisas querida, a valsa dançará diante de ti.

-Aurora? Meus dedos doem, mas meu coração se alegra.
-…
-Aurora? Tu já partiste.

No embalo dessa triste canção. 

Um rio de lava passa dentro de mim, enquanto meu corpo nu recebe o vento do ventilador. No fundo a voz que nunca foi minha entoa em notas suaves uma música que não quero entender. 

Devo deixar meus olhos abertos? Está escuro. Fechados? Está escuro. 

A lava se transforma​ em cobra e passa por meu corpo gelado e quente. Estou quebrada, aos poucos respiro pelas frestas que sobrou de meu pulmão. 

Alguém me remixou e me deixou louca, louça. Minhas drogas estão me deixando viajar num mar de ansiedade irregular. 

Me viro, com os olhos fechados, porque escuridão é escuridão. E com os olhos fechados e deitada de lado o meu corpo se sente melhor. 

Numa caixa, quem se sente melhor? 

No escuro, quem se sente melhor? 

Sozinha, quem se sente melhor? 

A cobra se foi é só ficou eu e minha pura emoção danificada, agora não tenho a quem culpar se não eu. 

No escuro, deitada, sozinha, eu me sinto melhor, no meu pior.