Nem de cordas vão os perdidos. 

-Eu vim trazer sua passagem!
– Passagem pra onde? Não pedi e nem comprei passagem.
– Para o inferno! – E foi assim que a menina atirou no homem suado e gordo. Ela se lembrava daqueles olhos miúdos, vermelhos e sujos toda vez que fechava os olhos ou abria as pernas. O seu ódio não foi junto com ele, mas ficou ali a consumindo e a sugando todos os momentos em que o ar entrava e saia de seu pulmão.
Ela guardou a arma na bolsa de urso, soltou os cabelos e saiu deixando o corpo morto e fedido para trás.
Estava numa estação de trem e olhava ao redor, os olhos voltados para o trem, a alma voltada para outro lado.
– Você está perdida menina? –  A velha veio até ela e só então viu que ela não era mais menina, era uma mulher sem características próprias, um ser negado pela natureza de beleza exótica.
– Estou.
– Venha, eu te mostro um mapa!
A velha a pegou pelas pequenas mãos e ela sentiu o frio dos ossos, a linha das veias, o sopro da morte. O ódio a enchia agora de dor, ele se foi e deixou um vazio escuro dentro de si.
– Menina? Sabe pra onde vai?
– Não.
– Você precisa de uma passagem?
– Para o inferno?
– Por Deus criança, não, não! – A velha sorriu e entendeu.
– Olha, vamos fazer o seguinte? Você tem dinheiro?
– Não, eu preciso?
– Sim, precisa. Venha, vamos para minha casa, eu te ajudo.
– Não! Você veio me buscar né, você é a Morte?
– Não, claro que não, eu estou velha, mas ainda não me vejo assim. Venha, vamos, eu te levo.
Ela consentiu, não havia mais nada a se fazer.
– Há muito tempo atrás eu estive onde você está, perdida.
– Se achou?
– Nunca! – A velha riu, mas não foi gostoso.
– Acha que eu posso me achar?
– Só quando se livrar desse cargo que você carrega.
– Você se livrou do seu?
– Não, a vida o levou, mas ainda sinto seu peso.
Haviam chegado, era um apartamento pequeno, cheirava cigarros e cravos.
– Eu vou te livrar do seu cargo e depois me livrar do meu. – A menina matou a velha, após isso se matou, e ainda há gente que diga que ela nunca se livrou daquilo que a atormentava e alguns iam além, diziam que a via rondando os trens procurando sua passagem.

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2 pensamentos sobre “Nem de cordas vão os perdidos. 

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