A espada de Arthur cravejada no meu peito. 

Sentia em teus braços o calor do corpo pequeno corpo que quando dormia deixava os pequenos lábios fechados, ora abria e chorava, ora ressonava. O perfume subia em suas narinas como uma doce nuvem quente com cheiro de lavanda e camomila. O peito, tão grande o peito que doía. Estava cheio e transbordava em amargor, um veneno represado que passado o tempo ficou coalho. 

– Você está bem Kátia? – Olhou atordoada para todos os lados, tão ligada às memórias que se esqueceu onde estava. Uma mão áspera veio até seu rosto e limpou , lágrimas. 

– Estou. 

– Você chora. 

– Não percebi, um bocejo e já logo lacrimejo. – Mas os olhos que não sabiam mentir logo mais vazaram toda aquela extensão de dor. 

– Venha, sente-se. – E tudo o que ela via enquanto sentava eram os pequenos olhos negros. 

– Estou bem, foi só o tempo. – E a culpa recaiu toda no tempo, que apesar de passado não levou consigo a dor, deixou pra trás um peso no coração em forma de lembranças e dor. 

– E dizem que o tempo nos tira tudo né? – O homem riu. 

– Quem nos tira tudo são os próprios homens. 

Kátia agora não chorava, mas sentia o cheiro no ar, nesse momento ela queria subir junto com o cheiro, subir como uma fumaça quente e dissipar na atmosfera. O corpo era carne e a carne era pesada, nem a água nem o fogo, só o tempo. 

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Abelardo voltou. 

Se essa não é minha história eu não me chamo Maria.

Não me chamo Maria.

 

Fiquei parada olhando aquilo que os meus olhos fitavam.
Desde quando fiquei presa nessa imersão distópica entre minha vida e a sua?
Regi meus lábios num balançar de vai e vem, dizendo palavras que fincavam dentro de mim e saiam.
Ou você, ou eu.

Alguém me disse, certa vez que a vida é um karma, ou é a regra dos três, tudo o que vai volta, tudo o que você faz para o outro volta pra você três vezes.

Corre, corre entre o sopro da minha morte, desde o momento que você me prendeu até o suposto momento que me soltou, mas por quê ainda estou aqui?
Alguém mentiu, e não fui eu.

Não vou te machucar, disse certa vez suas palavras vazias.
Entre eu e você estamos igualmente corrompidos.

Teu beijo chora, teu fantasma me implora.
Mas já foi, tudo o que somos se foi.

VENHA!

VENHA!

VENHA SEU MALDITO FILHO DA PUTA.

E tudo o que eu digo é:

Implora. 

Tua tirania me prendeu nesses braços com cheiro de amor falsificado, eu devia saber, no momento que fiquei, já não é noite, é dia e eu encontrei.

Corre, e tudo o que eu fiz foi ficar.

Do outro lado do espelho. 

Os meus olhos fitaram aquelas águas azuis e transparentes e me senti fixada no embalar do vento carregando meu suspiro e meu cansaço. “Você não devia estar aqui”. Não me assustei, essa voz me persegue onde quer que eu vá, uma voz tão cansada que quando fala suspira entre os respiros e inspiros. Eu não disse nada, minha voz eram cordas mal tocadas e um guinchado que seja eu teria que me afastar. 

Aqui, você pode ver, os meus pés tocam as pedras grossas, sente o frio da água e o contraste do sol na pele. Em algum lugar no céu, quando olhei para as nuvens pesadas eu vi alguém tocando  echoes e senti meu coração apertar. “Estou morrendo, morrendo nesse lugar que não me pertence”. A água se tornou gelos e cortaram os meus pés, o sol se tornou sombrio e me deixou com frio, o vento já não me acariciava e quando passou por mim cortou minha pele, ora, nem minhas lágrimas ousavam sair. 

Eu abri os olhos, tudo escuro onde eu estava, meu corpo doía de ambos os lados, meu cabelo era um ninho de ratos. O cheiro acre do quarto me acusava de várias coisas e tudo o que eu sentia era um vazio imenso, um nada me esperando do outro lado. “Está na hora de seu remédio”. Agora sim, estou no lugar certo. Um emaranhado de mentiras e medos. 

Entre um sexo ou outro nós somos o mesmo. 

Eu disse para ele, que com tanto fulgor insistia:
– Não precisamos ter um filho para ser uma família, eu e você, nós dois juntos já somos!
Mas ele, apesar dos meus beijos, dos meus cheiros, dos meus aconchegos… Não se via completo pelos meus braços e ansiava por mais uns pequeninos par de braços, eu não os tinha.
Alguma vez ele pensou se eu queria ter filhos? Não, acho que essa ideia é tão absurda e horrorosa em tantos graus altos que ele nem chegou a cogitar. E meu amor, que grita e se espatifa tanto por ele iria se despedaçar, porque, ao saber da minha falta de vontade em ter um filho nos braços, iria com muito ódio parar de me amar.
– Vamos conseguir! – Mas eu torcia, dentro de mim eu torcia, e Deus, me perdoe, mas eu não queria ter essa criança.
– Criança nunca me pareceu uma palavra tão grande, e agora que eu a escrevo me parece tão pequena… – O terror, mas ele entendeu de outra forma.
– É a ansiedade, faz isso com as pessoas. – Não, era o medo. Nós dois andando nas ruas, mãos dadas e sorrisos nos rostos, as pessoas nos olhando e pensando o quanto somos anormais, eu sem criança, ele sem criança, apenas duas pessoas estranhas, mas juntas tal como o destino se juntou. Eu ainda não o conheço bem, mas ele nem faz ideia de quem sou, ao me ver negar o que ele tanto quer eu me transformo em um monstro.
– Não precisamos de uma criança para sermos uma família, saiba disso! – Os seus olhos por um momento se nublaram a me olhar, eu juro que a qualquer instante ele gritaria e choraria, mas não, apenas sorriu.
– Não se preocupe carinho, nós vamos conseguir.
Será que por quanto tempo eu serei esse monstro adormecido. É errado não querer ter uma criança? Já existem tantas no mundo, o que me faz ser um ser incompleto? O que me faz ser assim?
– Sim meu bem, nós vamos. – Um ser egoísta que só quer amor.

Nem de cordas vão os perdidos. 

-Eu vim trazer sua passagem!
– Passagem pra onde? Não pedi e nem comprei passagem.
– Para o inferno! – E foi assim que a menina atirou no homem suado e gordo. Ela se lembrava daqueles olhos miúdos, vermelhos e sujos toda vez que fechava os olhos ou abria as pernas. O seu ódio não foi junto com ele, mas ficou ali a consumindo e a sugando todos os momentos em que o ar entrava e saia de seu pulmão.
Ela guardou a arma na bolsa de urso, soltou os cabelos e saiu deixando o corpo morto e fedido para trás.
Estava numa estação de trem e olhava ao redor, os olhos voltados para o trem, a alma voltada para outro lado.
– Você está perdida menina? –  A velha veio até ela e só então viu que ela não era mais menina, era uma mulher sem características próprias, um ser negado pela natureza de beleza exótica.
– Estou.
– Venha, eu te mostro um mapa!
A velha a pegou pelas pequenas mãos e ela sentiu o frio dos ossos, a linha das veias, o sopro da morte. O ódio a enchia agora de dor, ele se foi e deixou um vazio escuro dentro de si.
– Menina? Sabe pra onde vai?
– Não.
– Você precisa de uma passagem?
– Para o inferno?
– Por Deus criança, não, não! – A velha sorriu e entendeu.
– Olha, vamos fazer o seguinte? Você tem dinheiro?
– Não, eu preciso?
– Sim, precisa. Venha, vamos para minha casa, eu te ajudo.
– Não! Você veio me buscar né, você é a Morte?
– Não, claro que não, eu estou velha, mas ainda não me vejo assim. Venha, vamos, eu te levo.
Ela consentiu, não havia mais nada a se fazer.
– Há muito tempo atrás eu estive onde você está, perdida.
– Se achou?
– Nunca! – A velha riu, mas não foi gostoso.
– Acha que eu posso me achar?
– Só quando se livrar desse cargo que você carrega.
– Você se livrou do seu?
– Não, a vida o levou, mas ainda sinto seu peso.
Haviam chegado, era um apartamento pequeno, cheirava cigarros e cravos.
– Eu vou te livrar do seu cargo e depois me livrar do meu. – A menina matou a velha, após isso se matou, e ainda há gente que diga que ela nunca se livrou daquilo que a atormentava e alguns iam além, diziam que a via rondando os trens procurando sua passagem.