Um óculos para meu cadáver. 

– Contei uma estória a ele querida, mas ele não me ouviu. 

– Está tão frio Marta, tão frio. 

– Respire fundo querida, ele já vem. Eu te disse, contei uma história… 

– Marta, olha como meu corpo está frio, mas por que minhas lágrimas teimam em sair quentes? 

– Oh querida, por favor, fique em silêncio. Ele já vem, não gaste suas energias. 

– Estou morrendo Marta, do que me adianta economizar agora? 

– Não chore. Olha, lá vem ele. 

– Sinto muito senhorita Marta, o médico não pôde vir. 

– Mas ela está morrendo! 

– Não senhorita, ela já está morta. 

Quando não se quer acreditar se inventa. 

– A dor era tanta que meu corpo foi perdendo a cor. 

– Como assim querida? 

– Olha só todas essas manchas. 

– Mas você vê? Não é cega? 

– Não, olha só, olha mais perto. Você quem não encherga. 

As manchas brancas envolta de meus olhos. 

Passei esse batom na esperança de disfarçar esse vermelho em meu rosto. 

Os meus olhos inchados me contam a história de uma louca. As palavras que saem já são outra estória. 

Pintei de vermelho, combinando com meu coração, totalmente destroçado, sangue para todos os lados. 

Feche os olhos, não conte mais mentiras. Mas você está longe e não escuta. Não escuta o meu som. 

Chega, chorar não adianta

Por um momento distinto eu escutei o seu som. Veneno que embriagou minha dor. 

Escutei as mentiras que você me contou. Acreditei. Acredite, acreditei porque sabia que eram falácias. 

E agora? Meu pilar rachou, estou desmoronando em cima de mim. Ontem mesmo cai dá cama. 

E agora? E agora essa falta de ar? Esse peito que chia, essa vastidão sem fim? 

Do seus lábios sorrindo eu vi os meus copiando, um espelho que pulsa, uma alma que chora. 

Tomei meus remédios, mentiras. 

Estou tão fraca, parece que fumei todos os teus cigarros. Mas juro, nunca peguei nenhum. 

Minha pele se foi. 

Meu corpo já não suporta, todos os dias me manda recados, cada um deles assinados: várias pelotas. 

E.T. ou E.S. ? 

Dizem que a depressão é a doença deste século, mas desde o século passado eu estou com ela.

 Nasci de uma célula depressiva, meu primeiro sopro dá vida foi um suspiro.

E eu, tão boba, que quando criança achava que era um E.T. 

Mais boba ainda eu sou, até hoje espero que eles me busquem. 

Se você está acostumado com o ardor não use shampoo anti coceira. Não é ele que vai te fazer chorar. 

Meu coração está acelerado. 

Demorei um minuto para assimilar. 

Faz tempo que não me esforço tanto, tem coisas que estou tentando parar. 

Corte. Corte. Corte. 

Meu coração agora parou, tem horas que acho que já fui.

Mas olhando no espelho do meu quarto, eu me lembro que ainda estou. 

Aqui – Aqui – Aqui. 

Neste mundo. 

Vem. Busca. Resgata. 

Agora, com todo esse ardor eu aprendi. 

Existem muitos tipos de lágrimas. 

Aqui, nesta cama, jaz uma alma. 

– Onde estou? – O céu estava azul, o sol era quente e suave. Na água do mar histórias iam e vinham em formas de ondas ora suaves, ora selvagens. O dia começou independente dos problemas existentes e assim acabará. 

– Por favor, alguém me diga, onde estou? Ao redor daquela alma que andava sem rumo e sem saber ao menos o nome as pessoas continuavam andando. Os sentimentos presos naquele corpo imaterial se prendiam de tal forma como uma âncora fica presa no fundo do mar. Mas e se o fundo for muito longe? Quanto tempo demora a puxar? 

Voltou a mergulhar nas profundezas escuras em meio aos corais, aos tubarão, as vidas invisíveis, visíveis, pequenas, grandes. Voltou a entrar no navio comido pelo tempo, antes navegava e agora era navegado. 

– Onde estou? – As profundezas se emaranhavam em volta do corpo imaterial e puxavam de volta ao seu lugar. Um esqueleto se desintegrando, um anel de joias eterno, um coração que há muito tempo fora comido pelos bichos. Agora? Agora só resta a alma. Que belo lugar para se morrer. 

E eu? Ficarei presa há todo tempo eterno na cama? 

Relatos de uma noite in-sono. 

Eu tive um sonho, disse ela. Nesse sonho eu estava deitada e uma mulher gorda veio até mim, sorriu e me rasgou. Doía, como doía. Ela sugava minhas virtudes, minha essência e me dilacerava por fora é por dentro. Aquele doce líquido que saía de mim se transformava em um líquido podre e fedorento. Os vermes bebia de seus lábios e ela ria para mim. Todos viam, todos viam e não faziam nada, falavam comigo e eu ria. Ria e chorava por dentro de dor e desespero. Essa mulher se foi, não a vi mais, mas ela ainda estava presente em mim, como se houvesse me corrompido e colocado seu dedo podre em minha alma e a envenenado. Depois disso veio um homem e um rapaz. Ele gritava e o rapaz ria. O que havia em mim que estava inteiro foi rasgado, novamente sugaram minha essência, partiram minha alma e bebiam do meu ânimo. Riam entre si, gritavam como selvagens. Como eu ria. Deus, como eu queria chorar e não conseguia. Tudo o que restou de mim foi um pedaço de alma, um pequeno pedaço podre de alma. Acordei. Sozinha e rasgada, dilacerada. Ri. Cadê minhas lagrimas? Eles beberam. 

Não se engane pelo meu sorriso estampado. 

Às vezes, sou modelo de mim mesma. 

Me pego sorrindo para a câmera. 

Pintando meus lábios. 

Arrumando meus cachos. 

Às vezes, por um curto momento, me sinto bela. 

Mas passa tão rápido que só permanece na tela. 

Esses dias mesmo eu tirei uma foto, sorrindo igual boba, sem deixar vazar minhas dores. 

Hoje, hoje olhei essa moça, tão diferente de mim, tão longe de mim. 

Eu vejo o quanto ela é falsa. 

Não sou eu, não é ela. 

O sorriso dela foi forjado. 

Vermelho como o tempo.

Se ontem você me dissesse adeus
não me preocuparia em fugir,
Mas foi hoje que você me pediu em segredo,
Lamento não conseguir resistir
Meus lábios vermelhos te afeta?
Nada mais justo que o sangramento em m’alma
Devo ter pagado penitencia
Por ter matado amado
Se hoje você voltasse
Eu não teria mais 60 anos,
E juntos, talvez, dançássemos
Até o outro ano.

Espero que meus lábios vermelhos lhe afete,
Assim como teu chapeu despendido pro lado me prende
Sou solitária seu teu sorriso delicado,
Me faça sua cama,
Deite-se comigo,
Me ama?
Ele se foi, há 60 anos que espero.