Quando o telefone toca de madrugada é melhor atender. 

Tirou os óculos, passou a mão pela ponte do nariz onde estava marcado, colocou as chaves dentro do pote de vidro ao lado da porta e tirou os sapatos. Andou até a cozinha, abriu a geladeira, tomou água. Deixou cair um garfo. O barulho ressoou até o outro lado do apartamento, passou pelas paredes finas e atingiu o outro mundo. Longe dela. Ela abaixou e pegou o garfo. Estava tão cansada que se sentou no chão com a garrafa de água e lá ficou. Eram 22:47 quando dormiu sentada, acordou e já haviam se passado duas horas. O telefone tocou em algum lugar. Seria na sua cabeça? Não, na bolsa. Onde estava? Que horas eram? Se lembrou, estava em casa. 

“- Alô?” – Um chiado fino foi a única coisa que ela ouviu. Não reconheceu o número, já ia desligar quando se escutou. 

“- Preciso de ajuda” – De quem era aquela voz? – “Estou morrendo eu acho. Preciso confessar meus pecados.”

Só podia tá de brincadeira aquele homem do outro lado. Como se ela já não tivesse os próprios pecados. Benedito já não ligava há onze meses, apesar de todas as mensagens que ela havia deixado. Não conversava com sua mãe já há quanto tempo? Três anos. Não comia bem há semanas, tomava banho há cada dois dias, morgava no emprego. Odiava o chefe. Odiava os colegas de trabalho. Não ia a igreja. Não ajudava os necessitados. Se esses pecados não eram o suficiente imagina os que eu não disse. 

“- Tenho meus próprios pecados.” – Já ia desligar, mas se lembrou de algo. “- Você sabe quem sou? Por que me ligou?”

“- Não sei quem você é” – uma respiração profunda seguida de tosse rouca. – “Disquei seu número aleatoriamente porque sei que a Morte está chegando. Ela enviou uma carta.” – Dessa vez ele riu como uma gralha. 

“- Não sabia que a Morte agora tratava seus mortos com tanta formalidade.” -Estava claro pra ela que o cara era doido. E estava mais claro ainda que estava com fome. Ele respirou e disse qualquer coisa indecifrável. Ela tirou a calça e voltou pra cozinha. O que comeria? Iria cozinhar qualquer coisa. Amanhã trabalhava, ou melhor, hoje. 

– “Bom, quando se peca no submundo eles costumam ser formais. Mas não quero falar sobre isso, eu nunca pensei que morreria. Meus anos de vida foram longos e imprudentes. Me ocupava com diversão e tormentos.” 

– “Você matou alguém?” 

– ” Dá pior forma. Matei lentamente no decorrer dos anos, como um câncer silencioso que vai sugando sua vida sem você saber. Deixando você viver cada dia como se fosse o último, cada momento de diversão com uma dose extra de dor. Causei dores na alma, suguei energias através desse sofrimento. Nadei num mar de sangue cheio de almas atormentadas e depois disso tudo eu ria com o desprezo que sentia por elas. Pisei em seus filhos, em suas mulheres e em seus pais. Comi suas felicidades como se come um bife suculento quando se está com fome e desejo.” 

– “Quem é você? Algum agiota?” – Ela estava comendo um macarrão e já era 02:38. Sentou no sofá com as pernas cruzadas e conectou o carregador ao celular. 

– “Sério? Sabe o que é mais engraçado? Eu conheço a Morte e ao contrário do que todos pensam ela é uma mulher bonita, ou um homem bonito, dependendo de quem você seja e como o quer a ver. E ela transborda bondade. Busca todos seus filhos com muito zelo. Até mesmo os ruins. Porque ela é apenas uma ponte, depois que você a atravessar já não é mais com ela. Você vai para seu devido lugar, mas não é ela que te leva. Você vai sozinho, de encontro ao seu destino final. O medo não é dá Morte, mas para onde você vai depois. E sabe? Não vou para um bom lugar.”

– “Você está com medo.”

– “Eu pequei muito, qualquer um meu lugar estaria com medo.”

– “Você vai para o inferno?” – A risada de gralha voltou em meio as tosses. 

– “O inferno é algo que se inventa para pessoas como você, do seu mundo. No meu mundo é diferente.” 

-” Estou com sono, tenho que trabalhar daqui a pouco. Você está realmente morrendo? Me passa seu endereço, vou ligar pra uma ambulância.” 

– “Onde estou não tem acesso a ambulância. Talvez ao perdão. Mas só se perdoa aos arrependidos. Até na minha própria morte eu sou podre, um verme que não consegue arrepender. Eu escutei quando você deixou o garfo cair. Acho que talvez porque você foi um suspiro de clemência no meu fim da vida. Às vezes o Alto tem misericórdia até dos vermes.” – Ela deixaria o prato cair se ainda estivesse comendo. Olhou para os lados pra ver se havia alguém a vigiando. Fechou as janelas, trancou a porta. Foi até o quarto para ver se tudo estava como deixou. Na sala, onde ela estava, havia uma janela grande que mostrava os outros prédios. Ela olhou por eles, mas quase todas as janelas estavam apagadas e com suas luzes desligadas. 

– “Não se assuste. Não posso te fazer mal nenhum. Apenas fui deixado neste quarto e com esse telefone. Sou chamado de O devorador. Talvez porque eu devore as energias. Não sei. Diabos, não sei de mais nada.” – Tossiu outra vez. 

– “Como você sabe do garfo? Você está de sacanagem comigo né! Vou ligar pra polícia.”

– “Eu apenas escutei. Apenas isso. Foi sei grito para mim. Seu chamado. Sua substância me chamou e eu respondi. Estou confessando meus pecados, mas esse celular aparentemente não acompanha carregador e a bateria está acabando. Quando eu morrer você vai saber. Talvez vai ser a única pessoa no mundo a saber. Talvez não. Talvez o rio de almas em que eu nadava irá saber é vão comemorar e me arranjar, me morder, me chutar, socar e amaldiçoar quando eu passar por ele.” 

-“Então quando eu morrer não terei perdão. Sou pecadora como você. Não nado em um rio de sangue coberto por almas, mas eu faço quase o mesmo ao ser quem sou.” 

– “Você já está no seu próprio inferno. Só tem que passar por ele. Ou talvez não e nos encontraremos no futuro quando a Morte também te fazer passar pela ponte.” 

-” Onde você está?” – Ela colocou a calça de volta e já ia pegando as chaves. 

– ” No apartamento em frente ao seu.” – As tossidas ficaram forte. Ela correu pra janela e olhou para frente. Havia um homem em pé no parapeito dá outra janela com um telefone na mão. Ele sorriu pra ela e apontou o dedo para baixo. Pulou. Atrás dele estava uma mulher alta, bonita e silenciosa. Quando ele caiu ela foi até ele e puxou de dentro daquele corpo podre alguma coisa. Ela foi embora de mãos dadas para o nada, mas antes se virou para trás e sussuros ao meio de um sorriso que não acompanhava os olhos “- Eu te vi.”. A mulher gritou silenciosamente, correu escada abaixo, foi até o corpo, mas não havia um corpo. Apenas um celular com uma chamada ainda em andamento. O seu número. Ela respirou fundo. Não conseguia entender nada do que havia se passado. Do lado do celular havia um garfo. O seu garfo. Ela tentou correr até onde a mulher havia ido, mas não havia nada. Apenas o sol nascendo e dentro dela um turbilhão de pensamentos. Hoje não iria trabalhar, tinha que se encontrar com sua mãe, mas primeiro excluiu o número de Benedito e finalmente foi pra casa. Tentaria dormir apesar dá impossibilidade disso acontecer. 

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Me empresta uma xícara de açúcar? 

Ao som dá torneira pingando eu botei uma música e dancei. Nada tão sério ou agradável. Um balançar de corpo no tempo e espaço e talvez um cabelo que sacode sem vento. De tantos tormentos dentro de mim ao menos um deles devia sair. Não saiu. Fez morada em meu corpo e me transformou num doido que dizia ouvir vozes. Na verdade eram tiques e cada um deles tinha dono, um era do relógio, outro era dá torneira, outro era no galho que batia na minha janela e outro era dela. A louca que mora em frente meu apartamento. 

– Você tem um ovo? – E era assim que todo dia eu lhe dava alimento e ela continuava pedindo. Certo dia a encontrei no corredor, ela bem louquinha me perguntou onde ia. 

– Onde vai? 

– No supermercado comprar ovos pra vo.. pra mim! É pra mim que adoro ovos e vivo comprando sabe? Eu amo ovo em tudo e olha só a hora tenho que ir! – Idiota como sou quase falo que estava comprando ovos pra ela e falei de horas e nem relógio tinha. 

Acho que ela não percebeu, continuou balançando a cabeça e sorrindo. Fui embora antes que confessasse todos meus outros crimes. Depois de um tempo ela começou a pedir arroz, depois feijão, passou pra açúcar, frutas, carne, maionese, batata. Um dia estava tomando banho na minha casa dizendo que haviam cortado sua água. 

– Em que você trabalha? 

– Bom, eu na verdade sou um desenvolvidor de games. Faço os gráficos. Sabe aquele jogo… 

– Legal! – Acho que ela só tá comigo pra me usar. Até hoje vive aqui. Já tem seis anos que estamos juntos e ainda não sei quando ela vai embora. Mas isso está bom. Muito bom. 

Quando o ódio diz “te amo” você corre pelo vento.

– Disse que ia parar de pintar. – Um quarto claro, mas com telas tão escuras que parecia noite.

– Disse. – Cada pincelada uma assinatura. 

– Mas está pintando. – Calças jeans cheias de manchas, sem blusa. Ela usando um vestido verde, fora de moda.

– Estou. – Um silencioso pesado cheio de sons.

– Pare de falar nesse tom. Odeio! – Uma voz amargurada saindo de lábios vermelhos mal feitos. 

– Odeia muitas coisas. Cuidado que morre jovem. – Um sorriso implícito numa boca torta. De fora o vento. 

– Não antes que você. – A janela agora aberta trás a brisa fresca e leva o cheiro de tinta, mas deixa cair o pincel. 

– Essa doeu… – Abaixou pra pegar, sujou a barriga e o braço de azul.

– O que está pintando? – Falava sem olhar pra ele, de costas pra porta e olhando a janela. 

– O dia de ontem. – Olhou pra ela, ela o olhou e desviou.

– Mas tudo tão escuro? Sombrio… – A voz quase um sussurro. Pegou um cigarro, se atrapalhou com o isqueiro e quando tragou soltou mais que fumaça, um suspiro de alívio. 

– Não disse que foi um dia bonito. Hummm, fumando… – limpou as mãos num pano velho e tomou um copo de água. Agora o sol estava forte, pronto pra ir embora. Olhando pela janela viu uma árvore grande. Será que sabia pintar ou apenas sombras e riscos? 

– Nunca parei. – Também olhava pra fora, pra longe da árvore, longe do quarto, longe dali. 

– Só mentia. Sabe, antes que me olhe com essa cara feia já vou dizendo, você mentir para os outros até funciona, mas nunca para si mesma. É uma droga. – Olhou outra vez pra ela e imaginou a pintado. Apenas uma pintura sem vida, sem carga, sem nada.

– … Por que me ligou? … Tenho uns compromissos, você sabe. – Coçou a nuca, mordeu o lábio. 

– Calma Dani. Aqui ninguém mais morde. Perdi meus dentes há muitos anos. – Sorriu de lado mostrando os dentes brancos e colocou uma blusa. Amarela. Cheia de manchas. 

– Não é o que parece. – Desviou o olhar envergonhada. 

– Nada é como parece. Você me mostrou isso há muito tempo. – A voz tinha gosto de café puro, sem açúcar. 

– Me chamou pra falar isso outra vez? – Suspirou outra vez, sem fumaça. 

– Não, chamei pra te dar um presente. Espere aqui. – Olhou pra ela por um tempo, saiu pela porta.

– Uma tela em branco? – Uma grande tela ele carregava, deixou do lado.

– Não, pintada com o que você fez comigo todos esses anos, contigo e sem você. Todos esses dias. Todos esses momentos… – Os olhos carregados de ódio e algo mais. Na mão uma arma. 

– Que isso Mateus, não tô entendendo… Não! Não brinca com isso. Solta a merda dessa arma. – Ela já não fumava, as mãos no ar. 

– Você fez isso, você fe…- Ele gritou, apontou a armar atirou. 

– NÃO – A tela ficou pintada em sangue, ele caiu pro lado de olhos abertos, olhando a pela pintada de vermelho, única cor viva em meio há tantos tons escuros sombrios. Ela caiu com ele, mas não morta. Totalmente atordoada. A mão a puxar o gatilho não foi a dela. A razão? A razão sim. O vento soprou trazendo o cheiro da primavera. O sol se foi. 

Um suspiro da minha depressão. 

Existem duas pessoas dentro de mim, a Morta e a Viva. Hoje sou a morte desde que acordei. Fiquei deitada na cama com uma faca atravessada no meu corpo que ia de encontro a minha alma e não conseguia me mexer ou até mesmo abrir os olhos. Tudo dentro de mim se mexia, como vermes me comendo aos poucos, mas tive que levantar contra minha vontade, e eu a Morta andei até o banheiro e vi a viva. Olhei a Viva e não a reconheci, eu a Morta completa estranha pra ela como ela é para mim. Andei com o corpo dela, comi com o corpo dela. Chorei com o corpo dela e todas as coisas que tenho feito viva é sendo morta e isso continuou me matando. Essa casa onde estou ficando é cheia de espelhos e toda vez que passo por um ela me olha, completa estranha. O seu corpo me é estranho. Seu rosto e cabelo me é estranho. Fomos até a outra casa que a Viva fica de vez enquando. Abri o guarda roupa pra pegar apenas roupas, mas a Viva viu suas coisas que gosta, sua maquiagem, seus esmaltes. Eu odiei, mortos não gostam disso. Eu odeio isso. Fomos embora. Eu Morta, ela Viva. Até quando somos Morta-Viva? Hoje sou a Morta. Mas será que morreremos? 

Um suspiro pra outra vida.

Tem vezes que penso que estou morta. 

E pra nada ligo. Se estou gorda, se respiro.

Tudo tão paralelo que parece que ando morta entre os vivos

Vai que falo alto – Todos vivos e eu morta! 

Já vão eles gritando – A louca! Internam ela! 

Morta de ânimo. Morta de vida. 

As paredes estão cheias de rachaduras profundas. 

A mulher sentada ereta olhando para frente onde as crianças gritavam. 

Os olhos tão distantes, pareciam fora de órbita. 

O que era por fora calada, por dentro fervilhava. 

Tão parada, respirando suavemente. Tão quieta, inanimada. 

Mas por dentro, por dentro era trevas. Fogo por toda parte. 

Se eu pudesse falar, diria pro homem ao seu lado. 

“Corre, corre porque tua morte tem hora marcada.”

Eu coço pra não gritar. 

Na minha perna esquerda mora uma ferida. 

Dentro quem habita vive querendo sair. 

Coça, coça, coça. 

A ferida cresce e os habitantes gritam. 

Mais” 

E na carne minhas unhas fincam. 

Mas saibam, queridos moradores, que essa ferida é de dentro. 
E de tão grande transborda pra fora. 

Meu corpo já é um país inteiro. 

Tantas são as feridas abertas. 

Alprazolam na minha vida. Diazepam no meu glúteo. 

Estou tão ferida. 

Tudo dói. 

Lateja. 

Corrói. 

Meu corpo cheio de feridas. 

Por dentro um buraco vazio. 

Meu choro cheio de desvios. 

Não cai, entra. 

Tudo dói. 

Das pernas ao peito. 

Tudo lateja. 

A face – a alma. 

Tenho cura? 

O remédio é caixa preta.