No fundo de casa uma menininha corre livremente. 

-Corre filha, corre! – Já era tarde demais, o meu mar de lágrimas já havia a levado.
– Acorda Jen, foi só um sonho. – meu marido me olhava sonolento, pois já havia decorado o script, toda noite o mesmo pesadelo.
– Não foi um sonho Marcos, foi real. Foi um pesadelo real. – E chorar já não bastava, porque meu choro havia secado, assim como meu seio sem ter a quem amamentar. Sem ter a quem embalar. – Ela se foi Marcos. Se foi pra sempre.
Dizer eu sei não adiantava, nada adiantava. Nem os cigarros há muito tempo apagados, nem as bebidas há muito tempo bebidas. Dessa vez ninguém me salvava, eu mesma já havia me perdido e partido tantas vezes que já não me lembrava mais.
– Vou fazer café. – Sai dali porque aquele lugar quente estava me sufocando. Ver as meias de Marcos jogada, ver meus livros empilhados num canto qualquer, ver o retrato de Elena cheio de poeiras pelo tempo já passado.
O café ficou ralo e sem doce. Aguei minhas plantas, troquei minha roupa e me fui pra longe. Qualquer lugar é melhor que meu lar.
Ruas, pessoas, buzinas, trânsito, cigarro, fumaça, papéis, propagandas, vendedores, feirantes, “procura-se emprego”, comida, frituras, cachorros, gatos, construção e eu.
– Olá Jena, tudo bem?
– Não.
– Me conte o que houve. – Sentada, prancheta na mão, olhar delicado, postura correta, perna balançando. Não queria estar ali? Eu não.
– Sonhei com Elena.
– Querida, já passamos por isso antes. Achei que não sonhasse com ela mais.
– Mas hoje sonhei e dessa vez ela corria no fundo de nossa casa sorrindo com os cabelinhos pretos voando, ela caiu. Ela caiu e… Ela caiu e tudo ficou escuro – Eu choro. – Eu gritei, mas ela não me ouvia, ela olhava para todos os lados e não enxergava. Ele chegou, o monstro encapuzado de preto chegou e levou ela.
– O que você sentiu? – O que eu sinto?
– Eu não sei dizer.
– Você sabe querida. – Ela me olhava com os olhos profundos de gata.
– Tudo dói, mas é como se eu não sentisse essa dor. É como se eu estivesse aqui e lá. É como se eu estivesse seca e ao mesmo tempo tão vazia. TÃO VAZIA. – TÃO VAZIA.
– Querida, respire fundo igual te ensinei. Um dois um dois um dois.
– UM DOIS UM DOIS um dois um dois.
– Agora sente, isso, deite-se. Muito bem. Continue falando. – Ela se levantou e foi em algum lugar atrás de mim.
– Meu sonho mudou e eu tocava meu violão celo quando ainda estava grávida e ela se mexia, as perninhas me chutando forte.
– Que lindo sonho. Beba tudo querida, a água está fresca e vai te acalmar.
-Não, o sonho é horrível! Então eu estava deitada na maca e ela saiu. E ele entrou e ela estava no fundo de casa outra vez. E ele chegou perto dela e a tocou. Corre filha, corre! Mas ela não escutou e ele a levou de mim e eu estava na maca sangrando e ninguém me olhava, ninguém tinha rosto. Ninguém tinha rosto. Estou sozinha.
– Não está querida, estamos aqui. Todos aqui. – Fechei os olhos por um momento e sentia as cordas passando pelo meu corpo, o som suave, e o corpinho dela dentro de mim. Se mexendo, cheio de amor. Adormeci com os olhinhos me olhando.

-Olá Marcos, tudo bem? O que houve com ela?
– Não sei doutora, ela acordou gritando à noite, se sentou na varanda e ficou olhando pras plantas mortas. Dei café pra ela e quando fui pegar uma roupa pra ela se trocar ela já havia saído só com a camisola. Ainda bem que você me ligou. Estava desesperado.
-Você entrou em contato com sua filha?
-Sim, mas ela não pode vir pra cá esse final de semana, como a gravidez está muito avançada o médico não permitiu.
– Entendo. Se ela não melhorar terá de ser internada. O senhor entende?
– Me dói saber disso, mas sim, entendo.
-Eu sei, mas vai ser o melhor pra ela. Bom, tenho que ir, eu estou com um paciente em crise e só poderei vê-la mais tarde. Mas ela ficará aos cuidados do Dr. Osvaldo.
– Obrigado. Doutora?
-Hum?
-Porque ela continua achando que nossa filha Bianca foi sequestrada? E sempre sonha com esse homem encapuzado?
-Não sei bem ainda Marcos, mas estamos trabalhando nisso. E como ela não aceita ser chamada pelo nome de batismo Elena e sim Jena, eu tenho minhas teorias e não são nada boas.
-É ela não é?
– Sim, é ela. Não chore, isso foi há muito tempo. O senhor não tem culpa.
– Eu sei, eu sei, mas é tão triste saber que alguém fez isso a uma garotinha. É tão triste. Tão doloroso.
– Infelizmente, e ainda continua acontecendo.
– E saber que não podemos salvar todos. Obrigado doutora, obrigado por cuidar de nós.
– Sempre. Tenho que ir. Qualquer coisa nos ligue.
– Obrigado mais uma vez.
Ela dormia envolta do seu próprio calor e nos seu sono sem sonhos ela sabia quem era ela, mas nunca ninguém lhe confirmou.

Anúncios

Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s