Ólafur Arnalds – Doria – YouTube

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No fundo de casa uma menininha corre livremente. 

-Corre filha, corre! – Já era tarde demais, o meu mar de lágrimas já havia a levado.
– Acorda Jen, foi só um sonho. – meu marido me olhava sonolento, pois já havia decorado o script, toda noite o mesmo pesadelo.
– Não foi um sonho Marcos, foi real. Foi um pesadelo real. – E chorar já não bastava, porque meu choro havia secado, assim como meu seio sem ter a quem amamentar. Sem ter a quem embalar. – Ela se foi Marcos. Se foi pra sempre.
Dizer eu sei não adiantava, nada adiantava. Nem os cigarros há muito tempo apagados, nem as bebidas há muito tempo bebidas. Dessa vez ninguém me salvava, eu mesma já havia me perdido e partido tantas vezes que já não me lembrava mais.
– Vou fazer café. – Sai dali porque aquele lugar quente estava me sufocando. Ver as meias de Marcos jogada, ver meus livros empilhados num canto qualquer, ver o retrato de Elena cheio de poeiras pelo tempo já passado.
O café ficou ralo e sem doce. Aguei minhas plantas, troquei minha roupa e me fui pra longe. Qualquer lugar é melhor que meu lar.
Ruas, pessoas, buzinas, trânsito, cigarro, fumaça, papéis, propagandas, vendedores, feirantes, “procura-se emprego”, comida, frituras, cachorros, gatos, construção e eu.
– Olá Jena, tudo bem?
– Não.
– Me conte o que houve. – Sentada, prancheta na mão, olhar delicado, postura correta, perna balançando. Não queria estar ali? Eu não.
– Sonhei com Elena.
– Querida, já passamos por isso antes. Achei que não sonhasse com ela mais.
– Mas hoje sonhei e dessa vez ela corria no fundo de nossa casa sorrindo com os cabelinhos pretos voando, ela caiu. Ela caiu e… Ela caiu e tudo ficou escuro – Eu choro. – Eu gritei, mas ela não me ouvia, ela olhava para todos os lados e não enxergava. Ele chegou, o monstro encapuzado de preto chegou e levou ela.
– O que você sentiu? – O que eu sinto?
– Eu não sei dizer.
– Você sabe querida. – Ela me olhava com os olhos profundos de gata.
– Tudo dói, mas é como se eu não sentisse essa dor. É como se eu estivesse aqui e lá. É como se eu estivesse seca e ao mesmo tempo tão vazia. TÃO VAZIA. – TÃO VAZIA.
– Querida, respire fundo igual te ensinei. Um dois um dois um dois.
– UM DOIS UM DOIS um dois um dois.
– Agora sente, isso, deite-se. Muito bem. Continue falando. – Ela se levantou e foi em algum lugar atrás de mim.
– Meu sonho mudou e eu tocava meu violão celo quando ainda estava grávida e ela se mexia, as perninhas me chutando forte.
– Que lindo sonho. Beba tudo querida, a água está fresca e vai te acalmar.
-Não, o sonho é horrível! Então eu estava deitada na maca e ela saiu. E ele entrou e ela estava no fundo de casa outra vez. E ele chegou perto dela e a tocou. Corre filha, corre! Mas ela não escutou e ele a levou de mim e eu estava na maca sangrando e ninguém me olhava, ninguém tinha rosto. Ninguém tinha rosto. Estou sozinha.
– Não está querida, estamos aqui. Todos aqui. – Fechei os olhos por um momento e sentia as cordas passando pelo meu corpo, o som suave, e o corpinho dela dentro de mim. Se mexendo, cheio de amor. Adormeci com os olhinhos me olhando.

-Olá Marcos, tudo bem? O que houve com ela?
– Não sei doutora, ela acordou gritando à noite, se sentou na varanda e ficou olhando pras plantas mortas. Dei café pra ela e quando fui pegar uma roupa pra ela se trocar ela já havia saído só com a camisola. Ainda bem que você me ligou. Estava desesperado.
-Você entrou em contato com sua filha?
-Sim, mas ela não pode vir pra cá esse final de semana, como a gravidez está muito avançada o médico não permitiu.
– Entendo. Se ela não melhorar terá de ser internada. O senhor entende?
– Me dói saber disso, mas sim, entendo.
-Eu sei, mas vai ser o melhor pra ela. Bom, tenho que ir, eu estou com um paciente em crise e só poderei vê-la mais tarde. Mas ela ficará aos cuidados do Dr. Osvaldo.
– Obrigado. Doutora?
-Hum?
-Porque ela continua achando que nossa filha Bianca foi sequestrada? E sempre sonha com esse homem encapuzado?
-Não sei bem ainda Marcos, mas estamos trabalhando nisso. E como ela não aceita ser chamada pelo nome de batismo Elena e sim Jena, eu tenho minhas teorias e não são nada boas.
-É ela não é?
– Sim, é ela. Não chore, isso foi há muito tempo. O senhor não tem culpa.
– Eu sei, eu sei, mas é tão triste saber que alguém fez isso a uma garotinha. É tão triste. Tão doloroso.
– Infelizmente, e ainda continua acontecendo.
– E saber que não podemos salvar todos. Obrigado doutora, obrigado por cuidar de nós.
– Sempre. Tenho que ir. Qualquer coisa nos ligue.
– Obrigado mais uma vez.
Ela dormia envolta do seu próprio calor e nos seu sono sem sonhos ela sabia quem era ela, mas nunca ninguém lhe confirmou.

O filho sai da mãe, mas a mãe não sai do filho. 

Com os pés para cima, o gato deitado na minha barriga e o cachorro mastigando qualquer coisa que eu estou muito cansado pra descobrir o que é eu olho o relógio e ele está marcando o mesmo horário que estava quando olhei agora a pouco. Devo trocar as pilhas? Meu estômago ronca e o gato se mexe me olhando de cara feia. “Não tenho culpa se estou com fome.” Ele se mexe e lambe a pata, me ignorando completamente. Não sei há quanto tempo estou deitado aqui, mas sinto que faz muito tempo dada minha fome e meu cheiro. Pois é, não me julgue. “Au, au!” Roberto late e abana o rabo, não me julgue novamente, o nome é legal e já que eu não tenho um filho… E acho que nunca vou ter, quem me quer. O gato me olhou e juro que riu. ” Roberto? Nossa que cheiro horrível” A porta se abre e meu cachorro abana o rabo. “Oi, mãe?” O que foi? Gosto do meu nome. O furacão Marta chegou, salve-se quem puder! “Que bagunça é essa meu filho? Meu Deus! Que nojo. Olha só esse cachorro comendo o sapato novinho que te dei mês passado.” Ainda bem que era o sapato, horrível ele. Olho meu cachorro e faço cara de bravo. Não que eu esteja, repito, sapato horrível. Falo pra ele levar, enquanto me lambe e balança o rabo. “Nossa Roberto, o sapato que mamãe me deu? Não acredito!” Será que ela acreditou? Acho que não. “Hum… Ó me desculpe Olívia, entre!” Minha mãe me olhou com o modo casamenteiro no olhar e o modo vingança no sorriso. Ela deve ter feito um pacto com o gato, só pode. “Mãe a casa tá uma bagunça, quem é Olívia? ” Uma moça alta e desajeitada entrou derrubando minha coleção de revistas científicas, mentira, é de carros mesmo. “Nossa, derrubei, me desculpe… Eu…” Ela murmurou algo que não entendi nada e foi pegando as revistas. Dona Marta já grita de qualquer lugar que ela esteja”Espero que não seja pornô.” Com certeza minha mãe fez pacto com o cape… Com o gato. “Mãe! Tudo bem moça, deixa aí, eu te ajudo. Sou Roberto, filho da Marta, você deve ter visto né.” Ela olhou pra mim e balançou a cabeça como se estivesse concordando com o pacto dá minha mãe, não que eu tenha contado… Achei que o cérebro dela fosse sair do ouvido. “Mãe o que você veio fazer aqui?” Ela já tinha entrado no modo furacão e começou a arrumar minha casa. “Vai tomar banho, vou te levar pra almoçar com nós. Aliás, conheci a Olívia no clube do livro. Você lembra? Aquele que eu participo com a Doralice, mulher do Arnaldo o que ajudou seu pai a arrumar o encanamento lá em casa aquela vez que você estourou tudo quando estava… Enfim. Ela é nova na cidade e resolvi fazer dela minha amiga! E claro, sua também!”  Olívia ficou vermelha e juro que vi ela tentando enfiar a cabeça num buraco, caso minhas paredes tivessem um. O gato pulou no colo dela e o cachorro começou a lamber a perna dela. Quase a pedi em casamento naquele momento pra minha mãe parar de passar vergonha em nós. “Vou tomar banho. Bom, fiquem à vontade! Mãe, coloque ração pros meus bichos, por favor!” Ela continuou limpando a cozinha e fingiu não ouvir, a moça Olívia deu um sorriso sem graça e se levantou “Eu coloco” Agradeci “Está aí ao lado dessa caixa branca, isso, nessa vasilha vermelha. Achou? OK!” Juro que ela olhou pra mim e disse “sim” ao meu pedido de casamento telepático, todos querem fugir da dona Marta, mas a amamos, que fique claro. Sorri sem saber o que fazer, ah sim, o banho! Que mulher! Meu Deus, que mulheres! Ouvi as duas conversando dá cozinha e torci para não ser um plano contra mim. Ao menos eu ia ser alimentado antes de ter que ir pra batalha. Ou eu já estava nela? “Não demora Roberto! Depois você resolve suas “necessidades!”” O cachorro latiu, será que eu devia mudar o nome dele? E que necessidades são essas que ela está falando? Espero que não seja bater… Haha, não, não é. Olívia riu sem graça. Meu Deus. É sim. A batalha começou. Boa sorte soldado! Vou precisar… 

Sistema virtual.

Você já se lembra?” Estou cego. “Não” a cabeça lateja, os sons são intensos. “Sinto muito, o senhor deve ficar aqui. É um perigo para si e para a sociedade” Perigo? Eu não sei nem onde estão meus sapatos. “Por favor, me ajude! Eu não enxergo, não sei onde estou e nem quem sou!” Tento levantar, mas não sinto meu corpo. “Onde está meu corpo? ONDE ESTOU?” Sinto uma fobia que suga todo o meu ar e me me deixa com cólica intestinal. O homem falou outra vez nessa voz fria e impessoal. Cospindo em em mim como se fosse lixo, é o que sinto. “Fique calmo senhor, pra sua própria segurança o retiramos de seu corpo e o colocamos dentro de uma cela virtual. O senhor deverá ficar aqui até que se lembre dos últimos acontecimentos ou até que o protocolo tenha se encerrado. Creio que não se lembre de nada. Até o momento, um bom dia!” Ele se foi do nada como chegou. 

Uma voz feminina apareceu de algum lugar. “O programa foi encerrado. Aguarde as instruções. Ligando inteligência virtual. Aguarde um momento. Inteligência virtual ligada.” Meu coração doí, mas eu não tenho coração. Onde estou? Meu nome? “Alguém me ajuda! Me ajuda, me sequestraram!” Um. Dois. Três. Sigo as instruções que meu comandante sempre nos dava. Respiração rítmica. “Me lembrei de algo! Me tira daqui.” Se eu tivesse meu corpo estaria chutando algo, e esse algo seria a voz dessa robô mulher. A voz feminina se reiniciou dando um pequeno estalo. “Por favor senhor, diga com detalhes as suas lembranças” Soldado? Tenente? Exército? “Eu… Eu sou do exército! Tinha uma missão… Capitão R. … ? Aaaaah, minha cabeça dói. Dói.” Um barulho agudo começou a entrar na minha cabeça. Meu corpo todo tremia, caso eu tivesse um corpo. Eu sei quem sou. Eu sei. Não posso ficar aq… 

Reiniciado o programa. Programa desativado.” “Senhorita 01?” As luzes estão acessas, mas não há ninguém. “Sim, senhor?” “Acordar cobaia 244 e reiniciar a pesquisa” “Programa reiniciando. Cobaia 224 ligada.” As luzes estão ligadas e me lembro de tudo. “Eu sei as respostas, por favor, me deixe viver!” A voz soou o alarme. “Falha no programa, cobaia deve ser eliminada.” E desde o início era pra eu morrer. 

Vento de verão. 

Eu sei o que você está sentindo. Com os olhos fechados escutando o ar. O som do sol batendo em teus lábios secos. Bela sinfonia essa feita pelo som do vento batendo nos galhos das árvores e sacudindo gentilmente as folhas. 

Eu sei o que você está sentindo, olhando para o nada e vendo tudo. O jeito que teu corpo se enrola na cama e seus pés se encontram em um toque íntimo. O som do travesseiro embaixo do teu rosto mexendo em teu cabelo. 

Sentiu tudo isso mesmo tendo ido. 

Ilíada querida, já chego. 

A granja das mães parideiras. 

Minha barriga grande se mexe quando passo as mãos. Escute bebê, digo ao falar com ela, a barriga e não a criança quase pronta pra sair. Está ouvindo essa música? Os violinos, as cordas do piano… Rio alto ao me lembrar que quando criança e descobrira que piano era de cordas eu não acreditei, onde diabos havia cordas ali? Dentro, sempre dentro. Escuta as batidas da bateria? O suave som do sino? Escuta essa melodia? O mundo parece mais justo, mais límpido, suave. Reconfortante. Como dói ter que ser consolação quando se quer ser consolada. Como dói ficar entre esse quarto abafado quando se queria estar lá fora, no meio do ar puro. Ao som dessa música você nasceu. Seria tudo o que eu gostaria de dizer, mas a música está em minha cabeça, está dentro de mim, como você. Somos uma, você e eu. Um dia você sai, e dentro de mim eu sei que você é ela. Eu sei que é ela. Não a barriga, a criança. Falo com ela, apenas ela. 
– 
Está na hora.
– Não, mas são apenas 8 meses. Não está não! – Fuja! Fuja! Mas pra onde fugir se você sou eu e eu sou você?
– Sinto muito. Sinto muito mesmo. – 
Entram dois homens vestindo roupas brancas, eles eram enfermeiros. O outro, o homem de olhar doce, vestindo seu blazer caro e óculos importados era o cruel. Era o que me tirou de você e tirou você de mim. Me abriu antes da hora e cortou nosso laço.
Me deixou anestesiada numa cama qualquer, me deixou sozinha olhando pra outras iguais a mim. Todas sozinhas, todas abertas, todas vazia. Somos suas porcas parideiras, somos suas mães, somos suas amantes, somos suas filhas. Somos todas sozinhas com nada além do tempo, com nada além do resguardo sem seus filhos.MULHERES
Sinto muito são palavras vazias pra quem apenas coloca tudo de bom e depois tira.
Agora sou só eu e esse quarto vazio, e como você já foi com outras, depois de você outras viram. Dentro de mim, pra depois sair.

Chove lá fora e aqui dentro é só silêncio e vazio. A música foi embora com você.