Sobre os olhos da senhora. 

Ouvi os passos me chamando e quase me esqueci que já havia dado a hora de ir embora. Casa. Olhei pela janela e vi a escuridão que me envolvia. Janelas d’alma. ” Senhora, já está na hora. Vamos? ” Olhei para o rosto do homem que estava na minha frente, eu gostaria de guardar aqueles traços na minha memória, saber quem o esperava em casa. Alguém o ama? ” Alguém te ama?” Seu rosto ruborizou. “Desculpe senhora, esse é um assunto particular” Claro. ” Entendo, por favor, guarde esse espelho, já me olhei o suficiente. “Como queira” Fútil, Fútil, Fútil. Dentro de mim queima e eu não tenho a quem gritar, eu tento chorar e minhas lágrimas não saem. “Quantos anos eu tenho?” O corredor era longo e minhas perguntas tantas. Tornar-se solitário é um dom dado a muitos, mas nascer solitário é uma maldição dada a poucos. ” Sou amaldiçoada” ele continua andando “Perdão, não entendi. ” Quantos anos tenho, mas não sei a resposta. Ficamos andando em silêncio, ele se sentia bem e eu morta. Ignorando a louca que conhece a própria loucura. Quero morrer, grita minha mente, mas meu corpo não aguenta cinco segundos com o travesseiro em meu rosto tentando me sufocar. Covarde ou corajoso? ” Chegamos.” “Pra onde vou? ” Ele me olhou complacente, olha a boba, a dona de todos sem ninguém. “Para onde você quiser senhora” pra morte, pra onde não há ninguém, mas será mesmo? Gritou meu corpo. “Onde estou?” “Na sua casa” Não conheço esse lugar. “Irá conhecer. Entre.” Ele fechou a porta e eu sozinha novamente, esqueci do espelho e abri a porta para gritá-lo, mas ele já havia ido, correu como um rato. Ah, meu amor, se é que tenho. Como pode existir alma tão liberta num corpo tão restrito? De tudo o que quero fazer eu só consigo dormir. Só, a maldição de ser só é querer com desejo não o ser, mas não consegue se libertar. Novamente olhando para essa janela e tudo que vejo é o escuro, onde estou. Ando escutando meus passos fazendo eco pela casa. “Alguém?” “Só você”  continuei andando e minha voz me acompanha, eu sozinha como louca, eu sozinha como presa. Eu sozinha seca, pronta pra deitar. “Dormiu?” A vida toda. 

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