Por onde anda meu amor.

Eu estava presa dentro de uma festa e jogava meu corpo de um lado pra outro como se fosse possível sair dele. Dançava de acordo com a voz da cantora. As luzes piscavam e me queimavam sem deixar fumaça. Joguei meu corpo pra um lado e braços me envolveram. Ela me olhou e sorriu com os olhos. Em meus anos de vida eu descobri que poucas pessoas o fazem. Ela chegou perto da minha orelha e cochichou bem alto “Sabe, um homem me disse uma vez que se você sacudir muito o corpo perde a alma” eu continuei dançando em seus braços e cheguei perto do ouvido dela, como ela fez comigo ” Esse homem era louco” como eu gostaria que fosse verdade. Existem ferimentos dentro de nós que nos provoca o autoflagelo e nos faz dilacerar a ferida com as mãos. ” Não era, ele voou pra longe do corpo” eu sorri “Dizem que lobotomia faz o mesmo.” Ela riu sacudindo nossos corpos. Eu não consegui sair daqueles braços magros, preferiam que fossem gordos, igual os meus. A música parou, mas todos continuaram, inclusive nós. “Dançar no silêncio é assustador!” Ela gritou ” É porque você não está acostumada com ele, presta atenção e vai ver que não existe silêncio. Até seu coração faz barulho” parei, tirei os sapatos e comecei a fumar. ” Quem é você?” Ela pegou o cigarro e fumou “Uma amiga” eu ri, não existem amigos. No meu caso nem pai e mãe “Eu existo” olha, ela também ouve pensamentos “Vamos embora?” Disse e  pegou nas minhas mãos, fomos parar no meu apartamento “Você o matou e depois saiu pra dançar, não tem medo?” Eu olhei o corpo no chão cheio de sangue, não havia nenhum remorso dentro de mim, só o vazio que ele deixou quando arrancou de mim o que havia de melhor. “De que? Pra onde ele foi eu também provavelmente vou” Ela sentou em cima do cadáver e beijou os lábios mortos ” Vamos comigo” me olhando “Pra onde?” Andou pelo apartamento “Pra onde eu for” gritou do quarto. Ela veio de lá com uma fumaça viscosa e preta, de dentro dela tirou algo brilhante, colocou na boca e me beijou. Eu engoli e o que me faltava foi completado, o vazio preenchido, os sons mais altos, as cores mais vivas. “Pra onde eu for” repetiu.  Ela abriu no vácuo uma porta e entrou, eu olhei minhas coisas, passei pela porta, peguei sua mão e fui “Eu vou!”. Tudo ficou pra trás quando a porta se fechou.

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Eu desejo, eu desejo, de todo coração… 

Os saltos ricoteavam pelas paredes, um lugar todo branco, cheio de luz. Mas fedia. Fedia a fumaça de cigarro, cerveja velha jogada nos cantos, alma podre. Claro, não sei que cheiro tem alma podre, mas posso imaginar. – Você não vem? – Olhei pra mulher que estava em minha frente me guiando, eu devia ter-lhe dito que eu não queria ir há muito tempo, mas do que adiantaria? Talvez um sorriso debochado, um olhar de piedade e umas condolência como se minha mãe estivesse morta. Não, prefiro não. Continuamos andando, de fora o lugar era lindo, cheio de árvores, cheio de pássaros, e de longe se podia ver o mar. Ó bela Escócia, de dentro de mim não sais. – Seu quarto é esse, mas caso prefira nós podemos trocar. – Eu não vi necessidade, qual fundamento em trocar um quarto branco por outro branco, além do mais a paisagem era magnífica. – Estou bem aqui. – Ela concordou, me deu umas instruções qualquer e se retirou. Fechei a porta e a traquei.                                  Sempre que eu fecho meus olhos e vejo meu sangue escorrendo pelos meus braços, meu pescoço. É assim que imagino minha morte, cheia de sangue. Estou tão cansado que quando abro a boca pra falar sai apenas um suspiro. Queria morrer. 

Abro a porta da varanda e ando pelo jardim, quando será que irei? Odeio não ter mais nada pra pensar. – Você deveria manter sua mente desligada. – Havia uma sombra no chão, mas apenas isso, mais nada. – Quem é você? – Uma risada fraca dançou ao meu lado, ela e a sombra. – Me chama tanto e não sabe quem sou? – Resolvi sentar na grama e deixar o sol bater em mim. Minha profunda tristeza me carregou para outro lugar dentro de mim. Pra loucura. – Você não deveria duvidar tanto de si, principalmente do universo que nos cerca. Você deveria abrir os olhos. – Meus olhos abertos ou fechados continuavam a mesma coisa. Eu olhei para a sombra, um corpo belo. Cheio de curvas. – Tudo bem Sombra, me leve contigo. Me faça confiar. Me faça vivo. – Novamente a risada, dessa vez mais alta. – Te mato. – A sombra, finalmente, deu lugar a um corpo sólido, uma bela mulher. Ela veio em minha direção nua e com um belo sorriso, me abraçou e o calor tomou meu corpo, não o calor da paixão, mas outro calor. Fechei meus olhos e me fundi a ela. Ela me beijou e cantou uma canção pra mim. Esqueci tudo, de onde eu era, pra onde eu ia. Finalmente sumi. 

– Foi uma morte limpa. Incrível o mundo. O pobre homem veio fugir da depressão e do suicídio, mas quando estava aqui morreu, e o mais incrivel, morte natural! – O policial olhou a mulher e balançou a cabeça. – O mundo, senhora, é realmente um mistério. Olha bem a cara do morto, morreu sorrindo. 

Sobre os olhos da senhora. 

Ouvi os passos me chamando e quase me esqueci que já havia dado a hora de ir embora. Casa. Olhei pela janela e vi a escuridão que me envolvia. Janelas d’alma. ” Senhora, já está na hora. Vamos? ” Olhei para o rosto do homem que estava na minha frente, eu gostaria de guardar aqueles traços na minha memória, saber quem o esperava em casa. Alguém o ama? ” Alguém te ama?” Seu rosto ruborizou. “Desculpe senhora, esse é um assunto particular” Claro. ” Entendo, por favor, guarde esse espelho, já me olhei o suficiente. “Como queira” Fútil, Fútil, Fútil. Dentro de mim queima e eu não tenho a quem gritar, eu tento chorar e minhas lágrimas não saem. “Quantos anos eu tenho?” O corredor era longo e minhas perguntas tantas. Tornar-se solitário é um dom dado a muitos, mas nascer solitário é uma maldição dada a poucos. ” Sou amaldiçoada” ele continua andando “Perdão, não entendi. ” Quantos anos tenho, mas não sei a resposta. Ficamos andando em silêncio, ele se sentia bem e eu morta. Ignorando a louca que conhece a própria loucura. Quero morrer, grita minha mente, mas meu corpo não aguenta cinco segundos com o travesseiro em meu rosto tentando me sufocar. Covarde ou corajoso? ” Chegamos.” “Pra onde vou? ” Ele me olhou complacente, olha a boba, a dona de todos sem ninguém. “Para onde você quiser senhora” pra morte, pra onde não há ninguém, mas será mesmo? Gritou meu corpo. “Onde estou?” “Na sua casa” Não conheço esse lugar. “Irá conhecer. Entre.” Ele fechou a porta e eu sozinha novamente, esqueci do espelho e abri a porta para gritá-lo, mas ele já havia ido, correu como um rato. Ah, meu amor, se é que tenho. Como pode existir alma tão liberta num corpo tão restrito? De tudo o que quero fazer eu só consigo dormir. Só, a maldição de ser só é querer com desejo não o ser, mas não consegue se libertar. Novamente olhando para essa janela e tudo que vejo é o escuro, onde estou. Ando escutando meus passos fazendo eco pela casa. “Alguém?” “Só você”  continuei andando e minha voz me acompanha, eu sozinha como louca, eu sozinha como presa. Eu sozinha seca, pronta pra deitar. “Dormiu?” A vida toda.