Os seus olhos mortos já não brilham mais.

Hoje você me entregou o troco do pão, o cabelo atrás da orelha, os olhos olhando através de mim.
– Você voltou? – já não era mais você.
– Desculpe senhor?
– Nada, boa tarde.
Eu fui embora, mas quando sai você estava novamente no caixa me olhando, o mesmo olhar vago, o mesmo sorriso morto.
Eu não devia ter te matado tão cedo, mas o fiz.
O  seu cabelo sempre foi curto? Eu devia ter perguntado. Os seus sonhos sempre foram tão pequenos? Seus olhos? Seus olhos sempre tão triste?
– Só com você – Você está olhando outra vez, de dentro do carro parado no semáforo.
– O sinal abriu idiota. – alguém gritou e businou. – Sim, só comigo.
Quanto tempo faz? Quanto?
– Meu bem? Você não me respondeu, frango ou bife para o jantar?
– Frango – É essa que eu escolhi ou ela me escolheu?
– Vou fazer o bife, já tinha descongelado!
Ela me escolheu.
Outro dia, outra hora. Hoje você estava na fila da lotérica com outro cara, me entregou o recibo do cartão, perguntou a data do meu nascimento pra preencher o formulário, deu bom dia a minha família e agradeceu à doação. Me entregou meu filho na escola. Ou seu? Meu, mulheres mortas não engravidam.
– Roberto? – Você diz meu nome normalmente, mas não respondo, saio andando. Já basta ser taxado de louco.
– Roberto! Roberto, sou eu, a Magali.
Me virei pra você, mas assim como um fantasma foi como te vi. Fugi, foi assim que me matei, antes que você me matasse.

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