Devemos aprender a elogiar. 

Olho para as pessoas, mas nunca sei se estou olhando o humano ou o monstro. 

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Casco

O ser humano é algo vívido. Cheio de emoções que afloram mesmo contra sua vontade. Mas já parou para pensar o que aconteceria caso o ser humano perdesse isso? Caso essa vivacidade simplesmente fosse se esvaindo aos poucos? O que a seria essa pessoa agora? Deixaria de ser um humano por perder algo tão precioso assim? Continuaria sendo algo ‘vivo’?

 

Eu Teorizo que caso o ser humano perca sua característica mais importante e destoante, ele seria um casco. Apenas um casco vazia que caso continue vivo, seria apenas levado pelo vento para onde quer que fosse. Um casco ‘vivo’, mas morto.

 

Mas continuaria sendo um humano? Isso eu não sei responder pois, há algum tempo, a vivacidade não se encontra mais em meu casco. O que se encontra em meu casco? Eu diria que nada. Sou apenas um grão sendo levado pelo vento até que um dia pare de ventar.

Os seus olhos mortos já não brilham mais.

Hoje você me entregou o troco do pão, o cabelo atrás da orelha, os olhos olhando através de mim.
– Você voltou? – já não era mais você.
– Desculpe senhor?
– Nada, boa tarde.
Eu fui embora, mas quando sai você estava novamente no caixa me olhando, o mesmo olhar vago, o mesmo sorriso morto.
Eu não devia ter te matado tão cedo, mas o fiz.
O  seu cabelo sempre foi curto? Eu devia ter perguntado. Os seus sonhos sempre foram tão pequenos? Seus olhos? Seus olhos sempre tão triste?
– Só com você – Você está olhando outra vez, de dentro do carro parado no semáforo.
– O sinal abriu idiota. – alguém gritou e businou. – Sim, só comigo.
Quanto tempo faz? Quanto?
– Meu bem? Você não me respondeu, frango ou bife para o jantar?
– Frango – É essa que eu escolhi ou ela me escolheu?
– Vou fazer o bife, já tinha descongelado!
Ela me escolheu.
Outro dia, outra hora. Hoje você estava na fila da lotérica com outro cara, me entregou o recibo do cartão, perguntou a data do meu nascimento pra preencher o formulário, deu bom dia a minha família e agradeceu à doação. Me entregou meu filho na escola. Ou seu? Meu, mulheres mortas não engravidam.
– Roberto? – Você diz meu nome normalmente, mas não respondo, saio andando. Já basta ser taxado de louco.
– Roberto! Roberto, sou eu, a Magali.
Me virei pra você, mas assim como um fantasma foi como te vi. Fugi, foi assim que me matei, antes que você me matasse.

Sussurros da memória, Alzheimer é um cara nada simpático.

O doutor disse que tenho uma doença rara. Nem sabe se já existe nome pra ela, e eu de tanto pesquisar descobri que sou a única no mundo.
Apesar dos remédios que ele me passou eu não melhorei, sempre volto e volto e volto. Nunca tem fim.
Estou com cinqüenta quilos e nada me faz engordar, nem as drogas me incham, nem os doces que roubo.
Minha altura? Nunca foi boa! Tão alta que sou nos meus 1,60 que já cheguei no passado, dei a volta pelo presente e estou presa nessa ilha sem vida.
Agora, estou aqui no meio desse tiroteio e tudo que vejo são os olhos de Anelise cheios de lágrimas procurando o marido entre os mortos. Estou no meio de uma guerra que não sei o nome e nem o motivo, e é só fechar os olhos pra eu voltar pro nada, que tipo de vida!
– Anelise!
– Você me conhece? Me ajude a achar o Romeu, me ajude! – ela chorava, a roupa cheia de sangue, lama, sujeira sem fim. Talvez em outra hora seja bonita, ou talvez só seja feia mesmo.
– Romeu não existe, está com Julieta morta há tanto tempo!
Ela chorou e tudo o que eu fiz foi a abraçar, como a sofredora que era, como a que sou.
A sujeira dela se misturou com a minha e agora ninguém sabe o quão suja eu sou.
– Volta Anelise, volta pro futuro que ele já começou!
Acordei nesse momento, mas ainda sentia o gosto de sangue na boca, nesse momento me mataram, nesse momento eu acordei.
– Anelise?
– Sim?
– Está de volta?
– Não sei, não sei nem onde estou ou quem eu sou. – Eu morava com o Doutor, ele cuidava de mim e nas horas vagas eu cuidava dele, mas ele não sabia que era doente tanto quanto ele.
– Tudo bem Anelise, tudo bem.
– Romeu?
– Hum?
– Trás café.
– Tudo bem!
Fechei os olhos, dessa vez não dormi só o observei. Não sabia onde estava, não sabia se era noite ou dia, mas ao menos tinha café e naquele momento era tudo o que eu queria.