Conveniência.

Suspirei outra vez. Jorge estava novamente alterado, sentia o cheiro forte de cigarro em sua roupa, as olhadas pelos lados, o fungar, a inquietação.
Meu coração se apertou, eu como eu não posso fazer nada, só o vômito me vem pela boca.
– Dormiu bem, espero.
– Hum. Ah, sim. – Não usou nem da boa educação, não me perguntou se dormi bem. Fui educada de forma respeitosa, estou atenta aos bons costumes. O cheiro forte me dá outra onda de ânsia.
– Está fedendo!
– Me desculpe Sônia, vou tomar banho. – Ele se levanta, com aqueles olhos vermelhos,al tocou no pão, o café nem cheirou.
Fiquei sentada o olhando ir pela porta, mais um banho? Água na limpa a podridão que vai ao corpo. Quantos coquetéis cura esse amor maligno?
– Dormiu em casa? – Pra quem pergunto? Para as paredes, claro. Mas as minhas, ao invés de ouvidos elas são surdas e mudas.
O chuveiro ligou.
Ah Jorge, você pecou.

Ester Sousa.

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A morte do que era pra começar na segunda.

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E agora? Não funcionou.
Meu estresse apitou e enlouqueci.
Assassinei.
Matei a sangue frio.
Acabou.
Destruí a minha vontade.
Minha dieta?
Findou!

Ester Sousa.

Vida que dança.

Ela dançou, dançou até a morte chegar. Quando chegou ela parou.
Convidou para um baile e voltou a dançar.
Riu na cara do público.
Não aceitou críticas nem dos participantes.
Dançou, dançou e quando parou foi porque o tempo chegou.

Ester Sousa.

Moça bem comportada não beija estranhos.

Despiu-me com aqueles olhos longínquos enquanto me sorria torto.
– Veja bem, hoje vai chover – Disse tais palavras casuais como se me dissesse na verdade “Eu vi o que você fez, eu vi que você roubou.” Mas roubei apenas um beijo em meus sonhos, como poderia o senhor saber? Disse em voz alta.
– Como poderia o senhor saber? – Meu rosto ficou rouge, como se eu tivesse passado a maquiagem antiga de minha mãe.
– Ora, é só olhar o céu é ver essas nuvens escuras. Certa vez li algo sobre nuvens, sabia que se tem todo um estudo por trás dela?
Como fui eu me apegar por um homem assim? Um estudioso! E eu, moça que quero aventuras, me esgueirar por entre matos, correr atrás de bandidos, subir em árvores altas, beijar loucamente. Ah, como fui me apegar a um chato?
– … Dizem que dependendo do lado em que se vê a nuvem ela pode te indicar até o futuro próximo, se vai ter boa colheita ou não. Isso me lembra de uma anotação que vi, um gênio. Antigo professor… – Ah, se ele não tivesse esses olhos tão bonitos e essa boca tão convidativa. Eu moça boba, por que me fui apegar a um erudito? Não agentei, beijei-o.
Entre beijos, lábios com lábios, salivas trocadas, línguas enroladas ele sorriu.
Parou. Sorriu outra vez, voltou a beijar. Parou.
– Agora casaremos! – Ora bolas! Eu só queria um beijo!
– Eu sabia que pra uma moça avoada como você era só falar que você não aguentaria. Adoro-te sua bobinha. – Ao menos ele gosta de mim, por me ter chamado de avoada terá que me idolatrar! Olhou-me e voltou a beijar. Até que os eruditos, chatos, faladores de coisas bobas, estudiosos, calados quando quer, sabem beijar bem. Ao menos foi o que esse meu segundo beijo me disse, o primeiro foi em sonhos. Bobo ou não, beija bem.

Ester Sousa.

Mulheres do século de agora.

Sorri ao te ver mexer no cabelo, tao curto e liso que você passa os dedos e eles fogem de você.
– O que está rindo?
– Nada.
– Não diga nada, sei que está rindo de mim. – Ela agora colocava o pequeno brinco de brilhantes em suas delicadas orelhas, mordiscar… Hum…
– Vai trabalhar hoje? – Mudo de assunto.
– Vou, claro. Devo trabalhar todos os dias. Por que? – Ela já havia pego a bolsa e passou um perfume suave.
– Fica aqui.
– Vai pagar minha diária?
– Gosto da ideia de usar o seu corpo o dia todo.
Ela revirou os olhos e passou o batom. O que eu faria quando ficasse só? Não sei.
Ela me mandou um beijo de longe e sorriu. Fechou a porta e se foi.
– Não queria um beijo mesmo! – Mas estou só, só como antes, só como sempre estive. Mais só ainda nesse século, onde as mulheres são de quem elas querem. Nós homens?  Viramos miche!

Ester Sousa.

Eu sou seu namorado gay.

Nós brigamos na última vez, foi antes de você ir. Lembra? A sua última frase ficou martelando na minha cabeca, e foi uma coisa tão desconexa com o que dizíamos.
– Está com fome? – Essa é a ultima frase que eu escuto tão bem. Sua voz me soa alta e clara.
– Está com fome? – Claro, você me disse coisas antes de ir, mas não tão nítido assim, tão sincero assim. Ainda me lembro nitidamente do seu rosto quando dizia isso, olhos opacos, olhando pra mim sem me ver. Eu pensei naquele momento, como seu cabelo podia ser tão loiro, se eu fosse mulher sentiria inveja dessas suas mexas brancas naturais. Claro que eu não disse, você iria me chamar de imaturo e dizer que estava desviando do assunto, apesar de que não falávamos nada de importante. Toda vez que eu te olhava sentia em você seu perfume, almíscar. Suave? Claro que não estou te dizendo isso por dizer ou por lembrar da sua voz e do seu perfume ou até mesmo do seu cabelo louro natural. Estou dizendo isso porque ainda me sinto traído, ainda me sinto vazio. Engraçado né queridinha? Você riria de mim. Mas eu nunca ri de você, essa foi nossa grande diferença, percebe? Eu e você somos muito diferentes. Eu não traío confianças. Eu não traío. Eu simplesmente amo. Você? Não, você se ama. Mas seus olhos sempre me pareceram opacos.

Ester Sousa.

História para dois, whisky para um um.

– Vejo que veio me visitar outra vez.
– Eu sempre disse que viria.
– Sempre me esqueço de esperar você. Talvez numa próxima vez em que vier eu já não esteja aqui.
– Hum, como se tivesse muitos lugares pra ir.
– Ora, sou velha, mas ainda me lembro muito bem como dirigir!
– E pretende roubar um carro? Que velha malandra!
– E você um garoto impertinente. O que veio fazer aqui dessa vez?
– Você me adora aqui sua velha malandra! Não aguenta ficar sem ver meus sorrisos.
– Ora, faça-me um favor seu garoto insolente!
– Não ria de mim sua malandrinha!  Sempre diz que está com sono na melhor parte da sua história.
– Lembrar dela me dá sono. Trouxe o que eu te pedi?
– Ainda serei acusado de te matar!
– A única coisa que whisky mata em nós são nossas amarguras. Já viu russo morrer de tanto beber? Nenhum! Meu pai bebia igual louco e nunca sofreu nenhum dano.
– Lembro que você me disse que ele morreu congelado em um rio.
– Sim, mas nunca de beber. Talvez estivesse bêbado, mas o que o matou foi o frio.
– Você é uma velha engraçada. Vai continuar a história.
– Vou. Sempre continuo.

Ester Sousa.

Acredita ou não?

– Diga-me meu rapaz, o que o trás a mim?
– Eu.. Eu estou enlouquecendo doutor!
– Certo, por que diz isso?
– Eu escuto vocês e elas gritam e me xingam. Eu não aguento mais, elas estão gritando e gritando e gritando..
– O que elas dizem?
– Cético! Cético tem que morrer. Coisas ruins.
– Me diz sobre seu trabalho, relaxe. Você me disse que trabalhava em um hospital não é?
– Eu trabalho, mas não quero, não quero, não quero!
– Por que meu rapaz?
– As vozes me perseguem.
– Cético! Cético! Cético!
– Me ajuda doutor, me ajuda
– Cético, cético!
– Ajudar? Elas dizem a verdade, cético!
– Não, eu não sou, eu acredito, eu juro!
– Em que?
– Em mim, eu acredito em mim.
– Cético, Cético. O cético tem que morrer.
– Resposta errada meu filho.
– O cético deve morrer!

Ester Sousa.

Defeitos gritantes.

– O ser humano é muito egoísta. Você gosta da pessoa mesmo conhecendo os defeitos dela. Será pela beleza?
– Quando você diz a “pessoa” você quer dizer “Bia”?
– Também… É mais profundo que isso, eu gosto dela e confesso que estou mal. Mas ela tirando essas fotos, se mostrando dessa forma.. Eu queria ao menos namorar ela. Somos muito egoístas, queremos a pessoa. Queremos tanto que dói.
– Volta pra ela, pede, diz que a ama.
– É essa a questão! Não quero voltar pra ela, os defeitos dela, a forma como ela é emocionalmente instável e carente m sufoca. Ela fica triste nos três primeiros minutos e depois já arruma outra pessoa. Diz que ama e jura por Marte, mas é muito vadia, ela já está com outras. É muita sacanagem.
– Talvez isso seja uma defesa dela, sei lá cara.
– Não, não é defesa, ela é assim mesmo. Toda ” eu-te-amo-mas-esqueci-de-você” .Bom, não quero falar dela ou até mesmo ver ela. Ela já me irritou muito, se nós ainda estivéssemos juntos eu já teria enlouquecido, não suporto os defeitos que ela tem. A carência, o ciúmes, a infantilidade…
– Bom, ainda bem que você esqueceu dela, porque ela acabou de postar uma foto e se você ainda se lembrasse dela não iria gostar..
– Ok, deixa eu ver!

Ester Sousa.