Senhor psicólogo, quanto você me paga pra te escutar?

– Por que está aqui hoje?
– Confesso que não sei, ou sei e me nego. Na verdade foi uma amiga que insistiu.
– Qual o motivo da sua amiga ter insistido?
– Desculpe o ataque de gargalhadas, mas é que você fazendo todas essas perguntas é muito engraçado. Me sinto no CSI, muito legal. Desculpa!
– Você tem que se sentir confortável. Estou tentando te ajudar com as perguntas, mas se você quer ajuda mesmo precisa me dizer. Me dizer tudo o que pensa, o que sente, o que houve. Sou sua consciência agora. Você fala e eu escuto.
– Desculpe novamente, é que… Bom! Sabe quando você é criança e quer muito ir ao circo? E quando vai você fica maravilhado com tudo aquilo? Com todo o espetáculo. Não quer ir mais embora, se pudesse ir com o circo você iria… Bom, é isso, acho que foi assim.
Mas o circo foi embora e eu fiquei e pra piorar com vício em cigarro!
– quer falar sobre o “circo”?
– O “circo” era sensacional. Fazia umas tiradas legais, ria na maior altura. Vegetariana, final se semana gostava de sair pra dançar. Parecia uma atriz de filme antigo, toda vez que ia ler um livro bebia uma taça de vinho. Apaixonei, loucamente. Nunca antes havia me sentido assim. Nunca antes fiquei parado olhando uma mulher dançar toda alegre e sorridente e me senti completo. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca! Eu amava ver o espetáculo. Mas um dia o circo se foi. Quando entramos num circo nós sabemos que ele vai. Eu sabia. Todos sabiam. Mas eu não queria saber, nem ver. A voz dela, o sotaque. O sorriso. Cara, nem tortura chinesa é pior que coração partido! Isso mata a nossa alma. Ao menos perdi sete quilos. Sério! Não faz essa cara!
– Quanto tempo ela se foi?
– Dois anos. Dois terríveis anos. Eu morri por dentro. Tô morto, não sinto nada. Empatia, compaixão, solidariedade, felicidades, alegria. Nada. Morto.
– Tem saído?
– Ou saio de casa ou fico o dia todo escutando música ruim e bebendo cerveja com cigarro. Até meu cachorro foi com ela. Sabe o que é isso? Não sabe. Você não sabe. Ninguém sabe. Ninguém via as cores ao redor dela. O jeito que o cabelo dela curto balançava. O jeito que quando ela sorria aparecia uma covinha. O jeito que ela dormia a noite toda sem se mexer. Ninguém sabe. Ninguém sente.
– Você vai ver que melhora.
– Não melhora.
– Melhora. Sabe por que? Ela está viva! Ela não morreu. Você sabe que ela ainda pode sorrir, dançar. Você sabe que ela está bem, só não te quer.
– Cara, você vai me ajudar ou não?
– Você sabe que quando ela acordar ela vai esta onde ela quer. Te garanto, é melhor sofrer com ela viva do que não puder fazer nada com ela morta.
– Desculpa, acho que estou me sentido péssimo. Mais do que eu já estava. Mas já que você vai desabafar eu vou ter que cobrar a hora! Tô brincando.
– Vai melhorar. Tudo melhora. Me conta como se conheceram!
-…  Ela estava dançando num piquenique público que teve em junho há dois anos atrás e eu estava com meu amigo e cachorro, foi quando a vi e meu cachorro também. Ele correu até ela, lembro até da roupa que ela estava usando…. 

(…)  Tudo passa… 

Ester Sousa.

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